6.11.06

MIGUEL FOLHA SECA

Quando o Simas, durante uma apresentação do Pratinha, gemeu entre lágrimas "O Brasil tá salvo!" - leiam aqui - quis, com isso, dizer muita coisa, não sei se vocês perceberam, mas quero explicar.

O Simas, que é dos meus, via (e vê) naqueles meninos, tocando samba e choro da melhor qualidade, uma geração não conspurcada pela música-lixo que aliena e capaz de manter acesa e viva a chama de nomes como Bide e Marçal, por exemplo.

Pausa mínima: uma geração incapaz de babaquices olímpicas como a exaltada, hoje, só podia ser, pelo Jota (sem o negrito que ele não merece). Notem a manchete da coluneta: "Bonequinho agora é coisa de homem - É a nova mania entre os moderninhos da cidade. Mas entre eles, o nome bacana da coisa é ´art toys´".

Vou prosseguir valendo-me do gancho.

O Simas via (e vê) naqueles meninos a antítese dos "moderninhos", dos stylist, nova praga que o homúnculo vem exaltando diariamente.

Mas notem bem uma coisa... O Pratinha está com 19 anos. Não se pode dizer mais que seja exatamente um menino, mesmo se tomarmos nossa idade como parâmetro. Mas é de um menino, de seis anos de idade (eu disse 6!!!!!), que quero falar hoje.

O Rodrigo Folha Seca, que é também, de batismo, Rodrigo Ferrari, sobrenome que diz muito sobre sua personalidade (o homem é uma máquina!), tem um filho chamado Miguel. Miguel Folha Seca, para todos os efeitos. E vejam, meus poucos mas fiéis leitores, que banho de carioquice dá esse menino nessas pseudo-personalidades que vão e vêm sem deixar uma mísera marca que seja na história da cidade.

O Rodrigo é um pai zeloso. E tem tios igualmente zelosos, daqueles que não medem esforços para agradar as crianças da família. Pois bem.

E foi justo um tio que, há muitos meses, comprou dois ingressos para uma das apresentações do Cirque du Soleil no Rio de Janeiro. Na Barra da Tijuca (onde mais?). Um para o sobrinho - o Rodrigo - e outro para o sobrinho-neto - o Miguel.

E lá se foram, pai e filho, na sexta-feira passada, de van, para o pranteado circo. Ingressos no valor de duzentos, trezentos, até setecentos reais. Sacos de pipoca a doze reais, valor suficiente para comprar um milharal no Paraná. Um refrigerante a lunáticos cinco reais. Um espetáculo de som, luzes, coreografias milaborantes, malabarismos que desafiam as leis da física, e chega ao fim, repeitável público, o espetáculo.

Rodrigo, notando a mudez do menino, espana o cabelo no alto da cabeça do Miguel e forja uma empolgação:

- E aí, filhão? Gostou?

Constrangido, num sem-pulo, Miguel responde:

- Não. Prefiro o circo de Pirenópolis.

Pirenópolis, cidade histórica fundada pelos bandeirantes, e que fica entre Goiânia e Brasília, é onde mora o avô do Miguel.

O pai, atônito:

- Mas, filhão... Você não gostou de nada?

- Gostei, pai.

E o Rodrigo eufórico:

- De quê? De quê?

Eis a resposta do craque:

- Do intervalo.

Como diz o Simas, soldado na linha de frente do meu exército pessoal, o Brasil, nas mãos pequeninas do Miguel, está salvo.

Não passarão!

Até.

5 comentários:

Caio Vinícius disse...

Moleque esperto!!
Circo é pro povo, "Espetáculo" com roteiro e o escambau é pra galera que come mortadela e arrota peru da barra.

Caio

Claudio Ifasinmi Falcão disse...

Miguel grande cabeça e grande desenhista, aos 6 anos. ( observem sempre desenhando formas femininas - grande garoto)

Roberto Romualdo disse...

Edu eu já achava o Rodrigo um belo personagem seu. Com um filho como o Miguel eu passei a ser ainda mais fã do cara, que eu não conheci quando fui na livraria dele seguindo sua dica pra comprar dois presentes pra umas amigas que fizeram niver nesse final de semana. Vida longa ao Miguel. Abraço.

Cesar Nascimento disse...

Pra cada Jota que aparece é um Miguel que cresce! Abraços.

Luiz Antonio Simas disse...

Edu, não passarão mesmo! Beijo