31.3.07

AS BARRIGUDINHAS

Desde que eu descobri, com a Dani, a Therezópolis Gold, disparado a melhor cerveja que bebi nos últimos muitos anos, e desde que a indiquei ao meu irmão Luiz Antonio Simas (leiam aqui verídico relato do Simas sobre as conseqüências...), que tê-las em casa, as barrigudinhas descansando na geladeira (quase que toda para elas...), passou a ser uma obsessão.

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Deixou de ser uma obsessão para ser uma realidade.

Baixaram aqui em casa, ontem à tardinha, 36 barrigudinhas.

24 são minhas e 12 do Simas.

Na segunda-feira, meus poucos mas fiéis leitores, lhes conto como fui pago pelo bom Simas.

Até.

INVESTIMENTO DE QUANTO?

Antes mesmo de começar a escrever sobre a barbaridade que foi a matéria de capa da revista RioShow, encartada n´O GLOBO de ontem, uma observação: desde o dia 25 de janeiro de 2007 que o jota não escreve uma mísera linha sobre qualquer desses bares que ele fomentou durante meses (só aqui no BUTECO eu fui capaz de registrar trinta e três atentados, vejam no menu à direita). O jota anda, agora, voltado para o mercado da moda. E tem, evidentemente, seus preferidos. A bola da vez, por exemplo, é um sujeito cujo nome não me lembro, mas cujo sobrenome lembra o som da tosse.

Mas isso não significa, é claro, que os bares de merda que mantêm atuantes assessorias de imprensa tenham ficado sem espaço. Apenas mudaram, digamos, o foco dos seus investimentos na mídia impressa.

E quem os bajula dessa vez?

O coleguinha do jota, o jota éle, apontado como autor de apenas - até o presente instante - dois atentados, esse aqui e esse outro aqui.

O terceiro atentado, porém, é de grandes proporções.

Trata-se de matéria de capa.

revista RioShow de 30 de março de 2007

Eis o título:

"BARES LADO B - As redes Belmonte, Conversa Fiada, Informal e Manoel & Juaquim abrem botequins com nomes diferentes para evitar o desgaste de suas marcas"

É ou não é um nojo?

Conseguiu, o aprendiz do jota, citar quatro bares na capa da revista.

Quatro, não. Cinco.

A foto que ilustra a primeira página mostra, acintosamente, a placa do Antônio´s Bar e Botequim, e tem pequeno texto no rodapé:

"O Antônio´s, na Lapa, é a mais nova cria de Antônio Rodrigues, dono do Belmonte"

São, portanto, cinco os bares-de-merda citados na capa (onde o espaço deve ser mais caro).

Na matéria, de quatro páginas, o jota éle cita outros bares e explica, aos leitores, como funciona a máquina. Vamos lá, transcrevendo alguns trechos:

"Seguinte: como qualquer bar, as redes de botecos limpinhos e arrumadinhos começaram com um modesto endereço único. Depois, cresceram, apareceram e se tornaram redes. Agora proliferam bares que pertencem a essa galera mas trazem um outro nome na fachada. Assim, Antônio Rodrigues, dono do Belmonte, está à frente do Antônio´s e do Codajás. Abílio Fernandes, criador do Manoel & Juaquim, é hoje o feliz proprietário do Armazém Carioca. Parte da turma do Informal também responde pelo Jiló. E por aí vai."

Por aí vai, mas eu não interrompi a conta. Somam-se aos cinco já citados na capa, o Codajás, o Armazém Carioca e o Jiló. Já são oito. Vamos em frente.

Trancrevendo:

"Negócios também foram a motivação de Daniel Guerbatin, que pretende se desligar da rede Conversa Fiada num futuro próximo. Há um ano, ele juntou-se a sete investidores e imaugurou o Gente Fina, no Leblon. Mais elegante que as casas da rede, o bar vive lotado até altas horas.

- O Gente Fina foi pensado como um investimento, de olho na rentabilidade - conta. - Mas não acredito em desgaste de marca. O segundo bar é uma tendência, uma forma de oferecer uma outra opção ao público."


Não perdendo a conta, com o Gente Fina, são nove os citados até aqui.

A matéria - que é propaganda pura - traz, ainda, o depoimento de "José Octavio Sebadelhe, da equipe que escreve o guia Rio Botequim.":

"Boteco é boteco. Esses bares-franquia, queiramos ou não, têm uma onda meio fake. Repara só como muitos desses estabelecimentos adotaram a alcunha de botequim ou boteco. Isso é uma coisa relativamente nova. Quando fizemos o primeiro Rio Botequim, os donos de pés-sujos reclamavam, gritavam que não eram donos de botequins. Hoje a palavra é como um título de nobreza, todo mundo quer ser boteco. O tal do segundo bar não passa de mais uma jogada de marketing. Dono de boteco de verdade não quer crescer porque sabe que vai se perder no caminho."

Um troço, convenhamos, muito próximo do que digo aqui, no balcão imaginário do BUTECO, há anos.

Mas como essa turma investe pesado, pesadíssimo, e como o jota éle de bobo não tem nada, ele arrumou espaço para dois tijolinhos dentro da matéria. No primeiro ele cita o Espelunca Chic e o Esculaxo, este último ainda por inaugurar.

São, até agora, onze os citados.

O segundo tijolinho é dedicado, inteiramente, ao Devassa.

Doze bares citados.

Quanto - essa a pergunta - investiram os mega-investidores nessa matéria?

E só mais uma, pra encerrar por hoje: será que os clientes, os incautos que freqüentam esses lixos, lendo uma matéria dessas, lendo os depoimentos dos mega-investidores, não se sentem uns idiotas fazendo fila nas portas das filiais espalhadas pela cidade e pagando fortunas pelo que bebem e comem, enchendo os bolsos desses caras?

Até.

28.3.07

SIMAS E SEU PESADELO DA HORA

ESTE TEXTO AGORA PODE SER LIDO AQUI.

27.3.07

OUTRO IRRETRIBUÍVEL, PRA DANI

Cá estou eu, de novo, nesse exercício gratificante que é expor, no outdoor imaginário, minha gratidão.

Em fevereiro, quando ganhei da Sônia, a querida Manguassônia, um presente daqueles irretribuíveis, fiz questão de subir as imaginárias escadas em direção à armação de madeira do outdoor igualmente imaginário e expor a belezura de mimo feito por suas mãos mágicas - vejam aqui.

Ganhei, naquela oportunidade, - espero que vocês tenham visto - "um buteco, um mini-buteco, um lindo e comovente buteco, um nicho desses de pendurar na parede, (...). (...) Tem piso e paredes de azulejo, quadros do Rio antigo, um escudo do Flamengo, uma imagem de Nossa Senhora Aparecida, uma imagem de São Jorge, engradados de cerveja, queijos, cerveja na mesa...".

Mas vai daí que a Sônia não cabe em si de tanto carinho e generosidade, o que explica, e muito, Manguaça e Manguaço, duas pessoas que têm, nos olhos e nos gestos, a marca da doçura da mãe.

Bateu-me o telefone na semana passada e convocou-nos, a mim e à Sorriso Maracanã, é evidente, pra um almoço no domingo.

Pausa para carregar as bocas alheias d´água.

Lula à vinagrete, salaminho, queijinhos, pães, cerveja, caipirinha, aquela cozinha que mais parece um cenário, mais parece o céu no chão. E no almoço, arroz selvagem, uns filés indizíveis, batata ao forno, e a tarde foi, sem o exagero que - dizem - me caracteriza, perfeita.

Mas havia uma razão para o convite.

A Sônia preparara, pra Dani, a mulher que me ensinou a sorrir, um presente do mesmo gênero, com a mesma doçura, mas com a marca do ineditismo, e explico.

Eu já havia visto butecos como o que ganhei (não tão lindos, é verdade). Já vi imagens de santos, imagens de santas, flores, fotografias.

Nunca, uma praia.

praia feita artesanalmente pela Sônia, pra Dani

Atentem para os detalhes e para o carinho que, como maré cheia, invadiu o coração da minha garota (e o meu) no instante em que ganhou o mimo: tem areia de verdade, cadeira e barraca de praia, um livro, um par de chinelos, bolsa com protetor solar e um pente, canga, boné, óculos escuros, os cigarros de palha que minha menina fuma (!!!!!), um isopor com gelo e côco, conchas, uma latinha de cerveja e o marzão e o céu azuis tão presentes na vida da minha Dani...

Não é pra qualquer um, não.

Dão uma intensa alegria, esses gestos.

Ainda mais sabendo que não pedimos nada, não encomendamos nada.

Tudo obra e graça de uma relação calcada no amor.

Pura e simplesmente no amor.

Até.

A VAIDADE DOURADA DO MENINO PRATA

Ontem, aqui, lhes contei sobre o acesso de ciúmes do Prata e disponibilizei o making off da entrevista do guri para a TV Bandeirantes.

E hoje quero mostrar, e provar por "A" mais "B", que o menino anda impossível no que diz respeito a polir, com a flanela imaginária e valendo-se de movimentos circulares intensos, a própria imagem, a própria vaidade.

Cochichou-me outro dia, o Simas, na Folha Seca:

- Você anda adulando demais o Prata. Ele anda impossível. E a tendência é piorar!

O Rodrigo, de dentro do balcão, com aquela rouquidão de fazer a Elza Soares parecer a Piaf:

- Piorar? Mais? O Edu já estragou o Pratinha...

Não concordo com nenhum dos dois. Acho que eles exageram.

Mas há, confesso, um fundo de verdade no troço.

Depois de dar seu depoimento - o que mostrei ontem! - o menino levantou-se furioso do banco e disse:

- Ficou horrível, horrível! Vamos repetir essa merda!

A equipe da TV, devo dizer, entreolhou-se. Eu intervi antes que o bolo desandasse:

- Gente, deixa o menino... Não custa fazer mais uma vez...

E ele dando um tapa no meu ombro:

- Valeu, Edu!

Disse a repórter:

- Então vamos lá... Sente-se e vamos gravar de novo...

- Sente-se? Antes quero uma cerveja!

E saiu, acintosamente, em direção ao bar mais próximo.

Ficaram todos aguardando, até que volta o garoto com a latinha na mão. Bebe devagar. Termina. Arrota. Joga a lata no lixo. E diz:

- Podemos?

- Podemos! - forjando animação, a repórter.

E deu-se a segunda entrevista.

Vocês verão, abaixo.

Eu cortei minha gravação quando antevi a agressão.

A repórter - toda simpática, vocês verão... - disse, logo depois da fala do Prata:

- Eu gostei mais do primeiro...

Ele, num só golpe, levantou-se e partiu, como um huno, em direção à coitada.

Nem o câmera e nem o operador de som deram jeito no garoto, que é raquítico mas manipulava o violão como quem manipula uma borduna, uma clava forte.

Eu o contive.

- Pô, pai, tu é foda... - foi o que disse o garoto.

Que anda mesmo impossível...


Até.

26.3.07

TIAGO PRATA, UM CIUMENTO

Eis aí uma verdade evidente. Evidentíssima, eu diria. Mas que sempre nos surpreende. A vida - já dizia o filófoso Roberto Rivelino (fio-me na informação que me foi dada pelo Simas) - é uma caixinha de surpresas.

Feito o intróito - pífio, reconheço -, vamos à surpresa. Ou às surpresas, sendo mais preciso.

Foi uma surpresa, pra mim, receber o recado que recebi, no começo do ano, do Tiago Prata, o Pratinha - e vocês podem ouvir o recado aqui.

Disse-me ele, na íntegra:

"Eduardo Goldenberg, aqui é seu filho mais novo, Tiago Prata. É, quando puder me dá uma ligadinha. Estou indo em breve para o escritório, tomar uma cerveja, e depois eu queria falar contigo também, uma outra coisa, falou? Um abraço, tchau!"

Vejam bem uma coisa. Disse eu, quando lhes relatei sobre o recado, que foi uma surpresa recebê-lo; um prazer ganhar um filho pronto; e, ainda, gratificante sabê-lo "talentoso, dono de um gosto musical afinadíssimo com o meu, e, o que é mais bonito, mais velho, mais antigo, mais sábio do que eu.".

Feito o intróito e refrescada a memória, vamos ao que quero lhes contar hoje.

Na sexta-feira passada fui assistir ao show da Beth Carvalho. Eu havia sido convidado; eu e Dani Sorriso Maracanã, evidentemente. E o Prata também. Como minha garota não poderia ir, bateu-me o telefone o meu garoto:

- Pai... a Dani não vai poder ir, né? Posso levar a Luísa então?

Seria um prazer - pensei na hora - estar na companhia do moleque e de minha nora.

Eis que chegou a sexta-feira e encontramo-nos na entrada do guichê. Fomos à mesa dos convidados.

Retirei meus dois convites: SETOR VIP / MESA 109

O Prata retirou o dele: PLATÉIA B / MESA 1.468

Deu-se o abuso:

- Pô, Edu... Tu fica lá em cima... Vou ficar com a Luí...

Eu ri de fazer tremer o menino.

Disse a ele:

- Dê seu jeito. Fale com alguém da produção. Se vira!

Fui ao bar enquanto o novel casal dirigia-se a uma mocinha com uma camisa onde se lia "PRODUÇÃO". Voltaram os dois com sorrisos francos:

- Consegui! Vou ficar com vocês!

- Muito bem... - eu disse, orgulhoso do garoto.

- Disse que não poderia deixar meu pai sozinho...

Ri. E o Prata disse, fino, à Luísa:

- , vou mijar. Güentaí.

Foi ele dobrar o biombo e ela cravou os olhos, lindos (meu garoto tem bom gosto), nos meus, horríveis. E disse:

- O Tiago está arrasado...

E eu, interrompendo o gole:

- Com o quê?

Ela deu uma olhada em volta:

- Ciúmes...

- Desembucha...

- ... do tal do Borgonovi.

- Hein?!

- É... ele disse que você não fala mais dele no BUTECO, só nesse Borgonovi...

Vejam isso.

Acompanhem comigo e notem bem do que é capaz a vaidade humana.

O Prata, a quem já dediquei dezenas de textos, confessou-se possuído pelo ciúme. Vamos à definição do Houaiss:

"1 estado emocional complexo que envolve um sentimento penoso provocado em relação a uma pessoa de que se pretende o amor exclusivo; receio de que o ente amado dedique seu afeto a outrem; zelo (mais us. no pl.)

2 medo de perder alguma coisa"


A fim de não deixar ainda mais complexado o menino - ainda em fase de desenvolvimento - abro a semana, então, com um momento exclusivo - ninguém mais tem isso!!!!! - do Prata.

Trata-se do making off da reportagem feita pela TV Bandeirantes.

Amanhã é terça-feira. Depois temos a quarta, a quinta e a sexta-feira.

Digo essa obviedade apenas para arrematar com a promessa: a semana inteira será dedicada a ele.

Eu mimo mesmo, pô!


Até.

25.3.07

MARCÃO: UMA ESCOLA

O Marcão, que se diz o prógono do movimento que leva homens como, por exemplo, o Borgonovi, a dormir sem vergonha alguma em público (de prefefência em bares), realmente faz escola.

Mostrei-lhes o Borgô dormindo acintosamente em Niterói, dentro de um bar, durante uma roda de samba - aqui.

Implacável, no mesmo dia mostrei-lhes o Marcão dormindo muito mais à vontade, durante uma festa com centenas de pessoas, e o samba comendo solto também - aqui.

Ontem, como lhes contei, fui ao Rio-Brasília. Lá encontrei o Simas e tive a chance de conhecer o Eduardo Rodrigues e o Stocker.

Este último não fez por menos: antes de dormir - vejam as fotos abaixo - gritou:

- Vou dormir à la Marcão, pô! Dá licença!

Faz escola, realmente, o Marcão.

Stocker no Rio-Brasília, 24 de março de 2007
Stocker no Rio-Brasília, 24 de março de 2007

Até.

24.3.07

24 DE MARÇO: 3 ANOS DE VIDA!!!!!

Há exatos três anos - eu e a precisão - era inaugurado o BUTECO DO EDU.

Eis aí uma data em que eu, e apenas eu (e isso basta!), festejo olimpicamente.

Não quero, aqui, ser maçante, como diria minha bisavó. Mas tem uns troços que eu não posso deixar de dizer - numa espécie de discurso modorrento, como na entrega do Oscar - sob pena de não exercer a gratidão, coisa que eu faço diuturnamente.

Em primeiro lugar: é do mais absoluto cacete perceber que - nem vou tão longe... - em março de 2006 o BUTECO teve um pouco menos de 2.000 visitas. E que agora, neste março de 2007, ainda em curso, já estamos próximos das 5.000 visitas. Isso significa que, ainda que trilhando o caminho do discurso firme, da postura radical (na visão de uns), da postura coerente (na minha visão), sigo pelo caminho certo.

É fato que muita coisa contribui para que as visitas cresçam: o ORKUT, que dá intensa visibilidade ao BUTECO; as malas diretas de alguns amigos que, empolgados com um texto ou outro, uma entrevista ou outra, espalham nosso endereço por aí; os emails que eu mesmo mando quando tenho aguda vontade de apontar algo específico para alguns amigos; mas quero daqui, de pé, no banquinho imaginário, diante do imaginário balcão, render homenagens a cinco - vamos dizer assim... - colegas blogueiros, os cinco primeiros na lista elaborada pelos contadores que controlam o tráfego de visitantes do BUTECO como os que mais gente carreiam pras bandas de cá!

Em primeiro lugar, com 3,76%, o Só Dói Quando Eu Rio, do meu irmão siamês, Fernando Szegeri, autêntica cidadela que brota do coração carioca do cara. Assino, às cegas, tudo o que o cara escreve.

Em segundo lugar, com 3,16%, o Pentimento, do Marcelo Moutinho; eu seria capaz de dizer, com chance mínima de errar, que isso deve-se basicamente à intensa propaganda que ele faz das entrevistas que fazemos aqui no BUTECO. Ele é, de fato, entustiasta de primeira hora desses longos bate-papos que hoje - sem modéstia - não se publicam mais.

Em terceiro, com 2,94%, de Campinas, o Pátria Futebol Clube, do Bruno Ribeiro, amigo novo, parceiro novo, fruto direto da blogosfera. Estivemos juntos, pessoalmente, em apenas duas oportunidades: uma aqui no Rio - no Rio-Brasília - e outra em São Paulo - no Ó do Borogodó. Bastou pra saber que o cara é dos meus.

Em quarto, com 2,82%, blog desse monstro de quem tenho um medo agudíssimo, o Histórias do Brasil, do Simas. Eis aí, meus poucos mas fiéis leitores, outro lance de sorte. Por vias que passam pelo BUTECO gerando afinidades intensíssimas, cheguei a esse malandro, que é, hoje, e sinto que pra sempre, rigorosamente imprescindível.

E em quinto, com 1,69%, Vanor, blog de Vanessa Ornella, ex-colega de trabalho da Sorriso Maracanã, um blog visitadíssimo desde que foi catapultado à condição de nacionalmente conhecido depois de mencionado nas páginas de O GLOBO.

Não posso, também - eu avisei que o discurso seria modorrento -, deixar de agradecer a todos aqueles que freqüentemente estão com os cotovelos apoiados no balcão do BUTECO dando seus palpites, seus pitacos, baixando o sarrafo ou não, dando ainda mais graça a esse canto. Muito por causa de todos - embora eu escreva, diariamente, pensando apenas no Szegeri (que nem sempre me lê, num exercício de humilhação que o satisfaz) - eu faço questão de arrumar uma brecha, sempre, durante minhas manhãs, para fazer disso aqui um blog atualizado diariamente. Não vou citar nomes, pô!, que seria um exercício perigoso, cansativo para um sábado de sol, e tornaria tudo ainda mais modorrento.

Como eu não sou de ferro, estou, nesse momento, onze da manhã de sábado, indo ao Rio-Brasília encontrar um irmão, o Simas. Lá, também, vou encontrar dois paulistas sedentos de Rio de Janeiro que - graças ao BUTECO - chegaram até mim, e com quem troco emails há algumas muitas semanas. Eles têm, hoje, um objetivo definido: conhecer o Rio-Brasília.

São eles, Eduardo Rodrigues e Stocker, dois malucos que vieram ao Rio com o Tulípio. Vocês podem conhecer os três aqui.

Eu já os conheci ontem, na rua do Ouvidor, na livraria do meu coração, que conquistou o coração dos três.

Eu espero ter novidades pra contar em breve.

Torçam. E aguardem.

Até. E obrigado por tudo!

23.3.07

"AMORES EXPRESSOS": NOJO ANUNCIADO

Vocês hão de me permitir fugir, muito, dos temas afeitos a este balcão. Até mesmo porque em buteco - os verdadeiros, não as mentiras que tentam nos impor - não se acende vela pra pouco defunto. Em buteco se discute a vida real, o jogo da véspera, a decisão do final de semana, a bunda mais tesuda do covil, esses troços fundamentais que fazem a vida valer a pena. Mas como estamos diante de um fato que envolve dinheiro público, fiquei a fim de fazer a cuíca roncar por essas bandas. Não sei se estamos exatamente diante de um fato - vocês farão seus julgamentos -, ou de um projeto (e desde que o Brasil passou a ser invadido por projetos, formatadores de projeto, coordenadores de projeto, a coisa desandou de vez...), mas é fato que estamos diante de um escândalo. E como escândalo dá pano pra manga, vou dividir com vocês muito mais que minha indignação: minha repulsa, meu nojo, meu ódio e minha golfada olímpica pra cima da coisa. Explico.

Tomei ciência do escândalo lendo o "no mínimo" - leiam aqui. E fiquei sabendo - transcrevendo os trechos mais elucidativos - que:

"O projeto “Amores expressos” vai mandar 16 escritores brasileiros (...) passarem um mês com tudo pago em alguma cidade do mundo, de onde eles se comprometem a voltar com um romance de amor para ser publicado pela Companhia das Letras (embora a editora se reserve o direito de só aproveitar parte do material) (...).

A notícia do projeto, idealizado pelo produtor cultural Rodrigo Teixeira, (...).

Parte do burburinho se explica pelo custo total do projeto: R$ 1,2 milhão, grana vistosíssima num mercado franciscano. O fato de “pouco menos de metade” desse valor, segundo Teixeira, ser dinheiro de renúncia fiscal, captado ou ainda em fase de captação pela Lei Rouanet, contribui para a polêmica – uma polêmica que, justiça seja feita, deveria ir muito além desse caso e envolver um debate sério sobre o próprio mecanismo de financiamento de produtos culturais pelo contribuinte. Não menos ruidosas são as críticas provavelmente inevitáveis à lista de eleitos, elaborada por Teixeira e pelo jovem escritor carioca João Paulo Cuenca, contratado como “coordenador editorial”.

Será que se trata, afinal, de uma jogada de marketing brilhante pela capacidade de “esquentar” uma atividade – a ficção made in Brasil – sabidamente pouco atraente para investidores? Ou de um chamativo bolo midiático em que a ficção entra no papel de cereja? Ou ainda, como escreveu com rapidez no gatilho o escritor Marcelo Mirisola (uma das incontáveis ausências na lista dos 16) em carta publicada na “Folha” de domingo, de uma ação entre “amigos de farra”, com “um ou dois figurões acima de qualquer suspeita” para disfarçar?

“Os critérios de seleção foram de afinidade literária, interesse editorial e química com as cidades de destino”, diz Cuenca, acrescentando que Mirisola “não merece resposta”. Teixeira inclui a palavra “gosto” entre os critérios de seleção, mas isso talvez seja um sinônimo de “afinidade”. “A gente pensou em muitos outros nomes, e pode ser que um ou outro tenha ficado chateado, mas um projeto com 35 seria inviável”, afirma. A decisão de incluir autores que nunca publicaram um livro próprio explica a presença na lista de nomes verdes como Antonia Pellegrino, Cecília Giannetti e Chico Mattoso, enquanto o time dos consagrados é defendido por Sérgio Sant’Anna, Bernardo Carvalho e Marçal Aquino.

Segundo a diretora editorial Maria Emilia Bender, a Companhia das Letras se associou ao projeto porque seis dos selecionados são autores da casa e porque ele dá à editora a oportunidade de “eventualmente abrir seu leque para um autor brasileiro novo, coisa que a gente está sempre buscando”. No entanto, manifestações de insatisfação entre outros escritores da Companhia levam Maria Emilia a frisar que o projeto não é da editora, mas de Rodrigo Teixeira. “A plêiade, digamos, não foi eleita por nós”, diz. Acrescenta que todos os autores, mesmo os que têm vínculo com a casa, toparam correr o risco de ter o livro rejeitado. “Isso nós deixamos bem claro aos organizadores, mesmo porque a lista é bem heterogênea no que diz respeito à experiência”, afirma.

Quem for de fato publicado ganhará da Companhia adiantamentos de praxe no mercado, calculados com base numa tiragem de 3 mil exemplares. Publicado ou não, porém, cada autor embolsará da empresa de Rodrigo Teixeira, limpos, R$ 10 mil a título de cessão de direitos (...). As despesas de viagem não estão incluídas nesse valor.

Sobre a pauta, vagamente reminiscente de primeiro capítulo de novela das oito da Globo – a busca de uma história de amor em alguma cidade estrangeira –, Maria Emilia é cautelosa: “Dependendo do autor, qualquer pauta vale. Ou não”. Rodrigo Teixeira aposta na viagem como “uma forma de abrir mais a cabeça dos autores, independente da qualidade do material que vai sair”.

Em abril, embarca a primeira leva: Antônio Prata (Xangai), Cecília Giannetti (Berlim), Daniel Galera (Buenos Aires), João Paulo Cuenca (Tóquio) e, no único destino doméstico, o jovem goiano André de Leones (São Paulo!). Em maio, Amilcar Bettega (Istambul) e Joca Reiners Terron (Cairo). Em junho, Adriana Lisboa (Paris), Chico Mattoso (Havana), Lourenço Mutarelli (Nova York) e Reinaldo Moraes (Cidade do México). E em setembro, fechando a temporada, Antonia Pellegrino (Bombaim), Bernardo Carvalho (São Petersburgo), Luiz Ruffato (Lisboa), Marçal Aquino (Roma) e Sérgio Sant’Anna (Praga)."


Eu não vou ficar aqui, francamente - como diria meu eterno e saudoso Governador Leonel de Moura Brizola - discutindo o óbvio. O óbvio - e é justamente o óbvio que dá nojo, que provoca engulhos - salta aos olhos de quem toma ciência do (pausa para vomitar) projeto. Mas quero falar sobre outra coisa. Acompanhem.

O "coordenador editorial" do projeto (as aspas não são minhas) é um escritor, a meu ver, que não tem nada - nada, em negrito - a dizer. E jornalista (quer dizer... não é beeeeem jornalista, embora escreva para um jornal; é economista - o que talvez explique tudo). Daí lembro-me da frase que ouvi, dia desses, no Rio-Brasília, de um sujeito a quem respeito, dando sua opinião em voz alta:

- O problema da literatura brasileira contemporânea está no fato de que tem muito jornalista que escreve mal pra caralho querendo fazer literatura...

Deu um gole no maracujá e arrematou:

- ... daí só sai merda!

Mas voltemos ao projeto.

O "coordenador editorial" escreve para o jornal O GLOBO. É colega, portanto, da plagiadora (leiam aqui). Colega do jota, o responsável pelos 33 atentados que denunciamos, até o momento. E é sobre as merdas que ele disse que quero me debruçar. Tomem nota da frase escrota de autoria do tal "coordenador editorial":

“Os critérios de seleção foram de afinidade literária, interesse editorial e química com as cidades de destino.”

Pausa para o vômito.

Antes, porém, um pedido, um desejo: se esses dezesseis agraciados com dinheiro público têm "química com as cidades de destino", por que não ficam por lá pra sempre? Morrem lá sem nunca mais pisarem aqui? Por que? Vamos voltar.

Escândalo dos escândalos? O "coordenador editorial" não vai apenas coordenar a mamata coletiva. Não! Não! Ele também vai viajar, porra! É, ele, um dentre os dezesseis premiados com uma viagem de trinta dias com tudo pago pelo erário. Como estamos falando de R$1.200.000,00, e como são dezesseis os escolhidos, e como cada um vai passar trinta dias viajando, estamos falando de R$2.500,00 POR DIA para cada um.

Entre esses dezessseis estão, é claro, amigos do "coordenador editorial" e do "produtor cultural".

Querem vomitar mais? Atenção para o que disse o "produtor cultural"... O "produtor cultural" aposta na viagem como “uma forma de abrir mais a cabeça dos autores, independente da qualidade do material que vai sair”. Maravilha, não? Eu pago, você paga, todos nós pagamos - e caro - para a patota sair voando pelo mundo para abrir a cabeça.

Eu imagino o diálogo no saguão do aeroporto. Diz o "coordenador editorial", recém-chegado de Tóquio, para a amiguinha embarcando pra Bombaim:

- Vai lá, Totô, vai! Viaja, curta m-u-i-t-o, gasta t-u-d-o, seja p-o-d-e-r-o-s-a e abra essa sua cabecinha. E não se preocupe com a qualidade do material que você tem que escrever, tá?

E ela, dando pulinhos de alegria, rodando a Louis Vuitton:

- Você é tudibom!!!!! Dá beijo aqui, dá...

É de fuder. Com "u", antes que um babaca queira me corrigir.

É nojento isso tudo. Dezesseis pessoas e uma editora - que já tem seis dos dezesseis como "autores das casa" - agraciadas com um milhão e duzentos mil reais para um passeio 0800, como se diz em balcão de buteco.

Por que um filhodaputa qualquer não pensa num projeto desses ambientado no Rio de Janeiro? Por que não mandar Antonia Pellegrino (sem o negrito) para escrever uma história de amor no Irajá, hospedada trinta dias por lá? Ou não é possível uma história de amor no Irajá? Por que não mandar o "coordenador editorial" - que nunca deve ter atravessado a fronteira que o separa da zona norte - para uma experiência química em Nilópolis, Nova Iguaçu, em Marechal Hermes?

Porque são todos uns merdas. E eu digo todos sem apontar o indicador no focinho de alguém. Todos os que chamo de merdas são todos os babacas que vivem à margem da realidade - por isso não são assunto, nunca, dentro de um buteco -, são todos os que se acham capazes de escrever uma história de amor em terras distantes sem a capacidade, básica, de viver uma história de amor com sua gente, porque são mentirosos, porque são uma invenção da mídia de merda que atropela a moçada que está aí, começando a viver a vida.

A escumalha e a canalha que estende faixinha na janela escrito "BASTA" - contra a violência, latem - acha lindo ver seus filhotes e seus vizinhos mamando nas tetas do erário.

Com licença, meus poucos mas fiéis leitores: vão todos vocês - em quem entrar a carapuça, muito bem! - tomar no cu.

Até.

22.3.07

MARCÃO, O PRECURSOR

Vejam bem... Eu sei que eu sou implacável. Implacável e preciso. E reconheço, como agora, que essa minha implacabilidade beira, quase que sempre, a perfeição. E reconheço, mais, que tudo isso deve-se ao convívio com Dona Obsessão, essa moça que não larga do meu pé.

O Marcão, glorioso Marcão, escreveu, há pouco, comentando o texto "AINDA O BORGONOVI" - leia aqui - cheio de um estranhíssimo orgulho, a seguinte pérola:

"Opa!!

Sou precursor desse número. Já dormi em mais de trinta botecos diferentes e em TODAS as festas da agenda do samba e choro. Vejo que o Borgonovi vai pelo mesmo caminho.

Sabe tudo esse garoto!!!"


E eu, como sou preciso do início ao fim, e como nada escapa às lentes de minhas câmeras - digitais ou não - faço questão de dizer que eu vi, eu vi e é verdade.

Fiquem com essa imagem do Marcão.

É de 2000, durante a festa do V aniversário da "Agenda do Samba & Choro".

E notem como o nosso Marcão dorme muito, mas muito, muito mais à vontade que o Borgonovi. O Borgonovi - que "sabe tudo", quem diz é o Marcão - ainda tem muito o que aprender sobre a matéria.

Marcão, em 2000, no V aniversário da Agenda do Samba e Choro

Até.

AINDA O BORGONOVI

Foi o próprio Borgonovi quem revolveu minha memória quando escreveu ontem, nos comentários ao texto do dia:

"Quando conheci o Edu - antes de conhecer, porque não esperei me apresentarem -, dirigi-me com a seguinte assertiva: "Copias descaradamente o Nélson Rodrigues, não?". E conclui: "Pois é isso que me fez te achar um boa praça sem te conhecer". Terminei suplicando de maneira abjeta para que o malandro fosse meu amigo - mas tudo por admiração ao Nélson, fique claro."

Estamos, então, em 26 de dezembro de 2005.

Foi esse, precisamente esse, o dia em que eu conheci Fernando Borgonovi, o Borgô. Não no Rio. Não em São Paulo. Mas em Niterói. Vou explicar.

Havia, naquele dia, naquele 26 de dezembro, uma roda de samba em Niterói, organizada por dois grandes praças, o Zé Sergio e o Augusto, para comemorar o final do ano.

Fui com a minha Sorriso Maracanã.

E lá chegando - lembro-me bem, e me ajudam as fotografias - dei de cara com o Augusto. E dar de cara com o Augusto, desde um vergonhoso episódio que vivi no Trapiche Gamboa, leiam aqui, é sempre uma festa. É sempre uma festa e é sempre uma oportunidade, justamente, para reparar aquele vergonhoso equívoco que me rendeu um pito olímpico dado pelo Szegeri. Dei de cara com o Augusto e o Augusto estava, justamente, abraçado a um camarada que algemou-me imaginariamente assim que me viu ao alcance de suas mãos. Com as mãos cravadas nos meus pulsos, bafejou:

- Você é o Eduardo Goldenberg? - tinha um bafo horrendo, lembro-me pefeitamente, e sua voz soava emocionada.

Borgonovi e Augusto, 26 de dezembro de 2005

O Augusto interveio, já bêbado:

- Chuapresentáocês... Eduvorgonovi, Vorgonoviedu...

O tampinha ajoelhou-se diante de mim.

Pausa para curtíssima digressão.

Nunca, ninguém, ajoelhou-se diante de mim com tamanha devoção. Os olhos do sujeito brilhavam, e ele - como o menino diante do Zico - ficava repetindo para um atônito Augusto:

- Eu vi o Edu! Eu vi o Edu!

Voltemos ao enredo.

Eu disse algo como "deixa disso" e ele, num salto, ergueu-se diante de mim:

- Posso pedir-te um troço?

Olhei pro Augusto, que fez que não com a cabeça.

- Fala.

E ele, aos gritos:

- Seja meu amigo, porra! Pelo amor de Deus! Seja amigo meu!

O Augusto, cochichando ao pé do meu ouvido:

- Eu avisei.

Em segundos o Borgonovi sacou da mochila um exemplar de meu livro, "Meu Lar é o Botequim", que eu lançara havia duas semanas, em 12 de dezembro (sobre o lançamento do livro no RJ, leia aqui). Estendeu o livro pra mim e disse:

- Dedicatória! Dedicatória!

Eu, solícito, puxei a caneta do bolso da calça e abri o livro sobre a mesa. Ele falando baixinho:

- Minta, minta, minta! Mas escreva aí... "Ao meu amigo Borgonovi..."!

Tasquei lá.

Afinal - pensei - o livro é de ficção, e a dedicatória que seja também!

Quando devolvi o livro ao Borgonovi ele tornou a se ajoelhar diante de mim. E gritava, como um possuído:

- Eu vi o Edu! Eu vi o Edu!

Bebeu muito, naquela tarde, o Borgonovi. A cada garrafa derrubada, ele dizia:

- À nossa amizade!

Até que caiu.

E dormiu à mesa.

Fernando Borgonovi, 26 de dezembro de 2005

Foi a primeira vez que vi a cena: o samba comendo solto, a cuíca roncando, e o Borgô roncando (imitando a cuíca), despudoradamente, bêbado, borracho, sentado à mesa.

A última vez que vi a cena?

Semana passada.

Trata-se de um número clássico borgonoviniano.

Até.

21.3.07

BORGONOVI, O BORGÔ

Eu sou um sujeito íntegro. Acho que herdei minha integridade, minha condição de incorruptível, de meu bisavô, a quem não conheci, o Dr. Monteiro de Barros, de quem eu ouvia falar entre o abanar dos leques das mulheres da família:

- Presidiu a Costeira e não aceitou um tostão em troca de falcatruas!

- Um santo homem!

- Morreu pobre!

Esses troços.

Fiz este intróito para lhes dizer que se ontem eu disse que tornaria pública a história de um amigo mas preservaria seu nome - leiam aqui - e que se hoje eu vou não apenas dar seu nome como ainda disponibilizar para vocês duas fotografias bastante elucidativas da figura em foco, isso não significa, em absoluto, desvio de caráter, quebra da palavra empenhada, nada disso, nada que envergonharia meu bisavô, se vivo fosse. Ao contrário. Muito ao contrário! Pretendo, apenas, com a explícita revelação da identidade do protagonista da história de ontem, lustrar e polir a vaidade do próprio. Explico.

Eu não citei, quando lhes contei a história do dia de ontem, o nome do cidadão. Um amigo do sujeito escreveu lá um comentário e, como eu, manteve o anonimato do cara. Veio em seguida outro amigo e tascou mais um comentário. E nada de dar nome ao boi.

Ocorre que - notem do que é capaz a vaidade humana! - o próprio protagonista pôs o rosto e suas acnes na janela. Eis o que escreveu, nos comentários ao citado texto, o Borgonovi, mais conhecido, aqui no Rio, como Borgô:

"Vou me deter a outra parte do texto, por motivos ululantemente óbvios.

Quando conheci o Edu - antes de conhecer, porque não esperei me apresentarem -, dirigi-me com a seguinte assertiva: "Copias descaradamente o Nélson Rodrigues, não?". E conclui: "Pois é isso que me fez te achar um boa praça sem te conhecer". Terminei suplicando de maneira abjeta para que o malandro fosse meu amigo - mas tudo por admiração ao Nélson, fique claro.

Quero dizer a quem interessar possa: em minha humilde opinião, quem não gosta (e talvez quem não copie) do Nélson Rodrigues não vale um vintém de mel coado. Só os lorpas e os pascácios (como diria o próprio) não são convictos rodrigueanos.

Portanto, Edu, se te acusam, te acusam de ser inteligente.

Quanto à anã que não é anã, certamente é a mulher mais linda e mais fantástica da Tijuca, Estácio, Aldeia Campista, Vila Isabel e adjascências. Quiçá do Rio e quiçá do Brasil. Outros lugares do mundo eu não conheço, porque só acredito na felicidade em português. E português daqui.

Enfim, o sujeito em questão, é um cara de muita sorte.

Abraço,

Borgonovi"


Eis aí a bandeira desfraldada.

Feitas as considerações que me eximem de qualquer responsabilidade, vamos à mais uma história envolvendo essa grande figura, minúscula entretanto, se é que me entendem.

O Borgonovi esteve no Rio, no ano passado, nos dias 26 e 27 de julho. E quando ele vem ao Rio - os amigos de São Paulo devem poder atestar - ele começa a me ligar desde a rodoviária com frases borgonovinianas. E a primeira frase é sempre a mesma:

- Estou saindo da cidade esquecida por Deus e partindo em direção ao doutor Rio de Janeiro.

Veio ao Rio, o palmeirense Borgonovi, para assistir à final da Copa do Brasil entre Flamengo e Vasco. Digo isso e faço minha intervenção: eu não atravesso sequer a Ponte Rio-Niterói para ver um jogo do Palmeiras. Entretanto, demonstrando a força da nação rubro-negra, o bom Borgonovi toma um ônibus e viaja por seis horas em busca do Flamengo.

Viaja por seis horas em busca do Flamengo e traz, na mala, planos ardilosos contra o patrão da hora. Explico.

Ao menos foi assim naquele já distante julho de 2006. Chegou, o Borgonovi, e fazia um sol de rachar. Fez um sol de rachar no dia 26 e fez um sol de rachar no dia 27. E foi na manhã do dia 27, que ele me disse, assim que me viu, no Rio-Brasília, para onde fui convocado, como de costume:

- Preciso acordar cedíssimo amanhã... - riu altíssimo.

- Por que?

- Fui convocado pelo Julio para um trabalho amanhã às dez, em São Paulo. Tenho passagem para às sete e meia. Você acha que eu vou? - e, como dizem os paulistas, rachou o bico de tanto que ria, abanando-se com a passagem aérea.

Eu propus:

- Vamos à praia?

E ele, já de pé, e já arriando a bermuda, ficando apenas de sunga em plena Almirante Gavião, para horror das senhoras no salão de beleza ao lado do Rio-Brasília:

- Já tô na praia!

Nas areias de Ipanema, um espetáculo dantesco. Passava uma menina, 12, 13 anos, e ele relinchava na cadeira:

- Minha Nossa Senhora! Meu sonho é casar com essa moça, trabalhar como um mouro e todo dia cinco, ó, plim!, jogar todo meu salário na sua conta... Sabe pra quê?

- Não.

- Pra passar o resto do mês pedindo cinco, dez, quinze reais a ela, pro cigarro, pra cachaça, pra cerveja...

Só falando merda.

Até que, já semi-bêbado, começa a discursar contra o Julio, o patrão da hora.

Na foto abaixo - notem o biquinho do Borgô (mais Borgô que nunca graças ao biquinho) fazendo o "jota" de Julio - ele dizia textualmente:

- Julio, meu filho, você acha realmente que eu vou sair do doutor Rio de Janeiro amanhã às sete e meia da manhã? Ô, lôco!

Fernando Borgonovi em Ipanema, 27 de julho de 2006

E foi ao mar.

Antes de chegar no mar propriamente dito, arremessou uma bolinha de papel em direção às ondas. O repreendi na volta:

- Lixo no mar?

- Nada! Oferenda pra Iemanjá. Uma passagem Rio-São Paulo, amanhã, sete e meia da manhã! - e deu de rir feito Exu-Caveira.

E eis que transcorreu o dia.

Nosso herói foi ao Maracanã.

Assistiu à vitória do Flamengo.

E chegou em casa, meus poucos mas fiéis leitores - ficou hospedado em nossa casa na noite do dia 27 - sem o celular (roubado), sem a carteira (roubada), sem a chave que emprestei a ele (perdida) e sem conseguir ficar em pé.

Dani, tadinha, sempre atenciosa e carinhosa com os meus - que passam a ser dela também - fez uma cama cheirosa para um indigno Borgonovi.

Fernando Borgonovi, 27 de julho de 2006

Como um traste, como um resquício de ser humano, fedendo como nem sei lhes dizer o quê, um rato morto, provavelmente, dormiu jogado num dos puffs da sala, não sem antes beber uma cachaça, no gargalo:

- Vai beber mais, Fernando? - perguntou preocupada minha Sorriso Maracanã.

- Ao Julio, porra! Ao Julio!

Não trabalham mais juntos, não preciso lhes dizer.

Até.

20.3.07

NELSON RODRIGUES, A INEVITÁVEL INFLUÊNCIA

Não foi uma, não foram duas, não foram três pessoas que já me apertaram o nariz com o indicador acusador, no meio da rua, aos berros:

- Chega de imitar o Nelson Rodrigues, chega!

Eu, que sou, antes de tudo, um tímido, costumo responder olhando pros meus próprios pés:

- Tá bom. Desculpa?

Nunca ninguém me respondeu.

O fato é que não há - é incontestável - como fugir da influência rodrigueana. Li, reli, comi, mastiguei, digeri, li de novo, todos os livros do Nelson. Todos, eu disse. Toda sua obra no teatro. Toda. E sou, na matéria, um obsessivo nato. Já perdi a conta de quantas vezes ouvi a Dani dizer, desoladíssima:

- Mas outra edição de "Asfalto Selvagem"?

- Edu, meu amor... "A Vida Como Ela É"????? Já não bastam as edições que temos?

Por aí.

Mas contei-lhes isso apenas para fazer o intróito da verdadeira história que torno pública sem piedade. Porque a história, meus poucos mas fiéis leitores, parece ter saltado da jurrásica máquina de escrever do anjo pornográfico. A história, o homem, a mulher amada, o defeitinho de nascença, a rua óbvia, o único bairro possível. E eis aí o que eu gostaria de lhes provar, sem com isso querer me defender da acusação sórdida que me fazem os indicadores pressionando meu nariz: as histórias que soam como rodrigueanas aos ouvidos ou aos olhos de alguns - há, eu sei, leitores que lêem o BUTECO em voz alta -, pululam, se multiplicam, dão brotos e dão frutos em cada esquina da zona da cidade que freqüento, a norte, evidentemente.

Há um amigo meu - e se torno pública sua história não tornarei público seu nome - que bateu-me o telefone há uns meses. Foi grave:

- Edu?

- Arrã.

- Estou apaixonado por uma carioca.

- Mas que tragédia. Quem é? Eu conheço?

Pausa.

Eu disse "mas que tragédia" porque meu bom amigo mora no Jaçanã. E morar no Jaçanã, que fica em São Paulo, já faz dele um ser humano, no mínimo, digno de atenção. Eu, por exemplo, quero fazer a confissão pública, à beira dos meus trinta e oito anos, pensava que o Jaçanã fosse uma invenção do Adoniran Barbosa criada apenas para rimar com "só amanhã de manhã".

E ele:

- Não.

Seguiu-se um silêncio maçante. Afinal, o que poderia eu dizer depois do "não" do cara? Ele mesmo continuou depois de tossir:

- Ela é anã.

Notem bem uma coisa. Eu não tenho nenhuma tendência ao deboche ou à pilhéria. Mas conhecer um cidadão - e mais do que conhecer, conversar com um cidadão, ao vivo, pelo telefone! - que namora uma anã é, como diz a piada, o equivalente a conhecer alguém que já foi ao enterro de algum anão.

Eu urrei:

- Anã?!

- Anã.

Minha sorte foi estar usando o telefone sem fio. Eu rolei corredor afora, do banheiro à cozinha, da cozinha ao banheiro. E ria. E ele:

- Tá rindo de quê?

Não consegui responder. E ele:

- Há outro detalhe...

Imaginei horrores que nem vou reproduzir:

- Desembucha!

- Ela mora na rua do Matoso, Edu! Eu estou apaixonado por uma anã que mora na rua do Matoso! A Anã da Matoso! A Anã da Matoso!

E ficou gritando o nome da personagem que ele mesmo criou - a Anã da Matoso - que lhe tirava o sossego.

Vou fechar a história de hoje, agora.

E vocês perceberão como são as coisas. E tirarão, cada um a seu modo, suas próprias conclusões sobre o que encerra o episódio.

Passaram-se semanas e ele veio ao Rio. Como sempre faz quando vem, bateu-me o telefone cedíssimo, num sábado:

- Desça! Estou no Rio-Brasília!

Lá fui eu.

Daí tem toda aquela papagaiada, abraço pra cá, tapinha nas costas pra lá, pedimos cerveja, pastéis, maracujá, e ele apoiou os dois cotovelos na mesa forrada com plástico verde. Disse-me, seriíssimo:

- Ela está vindo pra cá encontrar-se conosco...

Eu, dando uma bicadinha no maracujá, distraído, disse:

- Ela, quem?

- A minha anã.

Infelizmente é necessário lhes contar essa passagem nojenta para que eu seja preciso, como de costume. Eu lancei, no susto, um jato de maracujá na camisa do Palmeiras que meu amigo vestia.

Joaquim, sempre solícito, veio com o paninho de prato.

E meu amigo, pacientemente enxugando a camisa:

- Mas antes preciso te contar uma coisa...

- Desembucha!

- Ela não é anã. Era brincadeira minha...

Empalideci.

- E tem mais...

- Desembucha...

- Mora na Barão de Ubá. Não na Matoso.

Eu assumo: eu parecia um possesso.

Eu parecia um possesso e o Joaquim, de dentro do balcão, olhava-me assustadíssimo enquanto eu suspendia meu amigo do chão, pela gola da camisa verde e branca, gritando furioso:

- Não quero conhecê-la, canalha! Nunca! Nunca! Mentiroso! Traidor! Sua besta! Para mim, animal, você é apaixonado, namora, vai casar e ter filhos com a Anã da Matoso! Filhodaputa! Calhorda!

Fui contido por Deus, garçom prata-da-casa.

Até hoje - creiam em mim! - não conheço a namorada desse amigo. Em mim e para mim ela é, e será sempre, anã, gorducha, bochechuda, morando num simpático três andares na rua do Matoso, perto do Mundial.

Até.

19.3.07

JANIR SENTA O CACETE NO BOTEQUIM INFORMAL

E o Janir, corajosíssimo jornalista de O DIA, prossegue em sua missão hercúlea de denunciar os bares-mentira, os bares de merda, os bares-franquia que, como uma metástase, asfixiam a cidade, os modos cariocas e nosso maior patrimônio: o buteco de verdade.

Eu espanco esse lixo que atende pelo nome de Botequim Informal (sem o negrito, imerecido) há muito tempo, e vocês podem ler, aqui, o quanto é verdade que minha perseguição é implacável e coerente, já que são, até o momento, dezenas de textos sentando a borduna imaginária pra cima dessa merda, todos eles publicados aqui no BUTECO.

No dia 10 de março, o Janir, em seu blog RIO DE BOTEQUINS, já havia espancado o Conversa Fiada (sem o negrito, imerecido), um fiasco que tenta passar por buteco, leiam aqui.

Eu, inclusive, pensando dia desses sobre o papel que o Janir vem desempenhando na imprensa - nunca, até hoje, ninguém bateu com tamanha força nesses bares de merda que gastam fortunas com assessorias de imprensa que saem por aí cooptando todo mundo -, pensei alto:

- O nome dele começa com jota!!!!!

Eis, então, a disparidade aguda que diferencia um jornalista preocupado em informar sem medo de dizer a verdade - o Janir Junior - e outro que, como os trinta e três atentados apontados nos links aí ao lado demonstram, não entende rigorosamente nada do riscado, mas não deixa, sabe-se lá a troco de quê, de mencionar, um a um, com impressionante regularidade, esses lixos que empesteiam a cidade - o jota.

Breve pausa para digressão e um delírio: desde janeiro que o jota não adula um lixo desses. O que será que aconteceu? Cessaram as injunções das assessorias de imprensa? Fizeram efeito os emails que - eu sei - bombardeavam o jota e sua equipe? Será que o bordão "não passarão!", bradado constantemente pelo Simas - não por acaso irmão do Janir - está, de fato, se concretizando com relação ao homúnuculo?

De volta.

Hoje, em seu blog, que vem se destacando justamente pelo serviço de utilidade pública consubstanciado no ato de denunciar essas mentiras sórdidas, o Janir espanca, sem dó nem piedade, o Botequim Informal, leiam aqui.

Eis a íntegra do texto cujo título é "Botequim Informal, não. Restaurante Formal, fake e clean, sim":

"A rima é pobre, não me levem a mal. Mas chamar de botequim o Informal é equívoco nominal ou algo de imoral. Caso fosse restaurante, a casa modernosa nem mereceria o post. Afinal, com pratos requintados, preço bem alto e estilo fake/clean, o lugar bem poderia estar no roteiro da high society carioca. Mas, por favor, assim como ninguém deve usar o nome de Deus em vão, também não façam o mesmo com botequim, um termo sagrado.

As paredes são de tijolinhos, os acepipes não devem ser tocados por questão de higiene e o clima lembra São Paulo (vamos parar aqui?!). A terra que é da garoa é também a terra que tenta copiar os botequins cariocas, sem sucesso, mas com exceções. Cometi uma heresia e passei no Informal para beber um chope, somente assim teria o direito de comentar aqui. Quem freqüenta defende aquele copão com espuma cremosa. Nem de longe lembra a Brahma gelada de casco escuro. O preço não vale, muito menos o ambiente. Gatinhas da moda, garotos bombados e o pessoal requintado se espalham pelas mesas do Informal, que poderia mudar de nome: Restaurante Formal seria bem mais adequado. Tem costelinha com aipim frito e jiló à milanesa, pratos com cara do caríssimo restaurante Alho e Óleo, no Flamengo.

O caldinho de feijão vem com tira de cenoura, isso mesmo. O arroz vem em forma de torres...quanta formalidade. Bem que eles tentaram ser botequim com porção de jiló, mas não conseguiram. A crítica aqui não é sobre a qualidade ou higiene (o lugar é extremamente limpo) do Informal. Mas não usem o santo nome do botequim em vão."


Até.

16.3.07

ENTREVISTA - JOÃO BOSCO

Foi numa quarta-feira, 17 de janeiro, por volta das quatro da tarde. Chegamos ao Bar do Pires, na Marquês de São Vicente, na Gávea, eu, Simas, Rodrigo Ferrari (o Folha Seca) e Leo Boechat. Época de férias, e o bar, que fica bem em frente ao portão da PUC, estava quase que reservado só pra nós. O objetivo?

Entrevistar João Bosco, que mora ali pertinho.

O João chegou minutos depois, conforme o combinado, e com o violão em punho. Prenúncio de uma grande tarde.

Sentou-se, o João, pediu uma água, e o Rodrigo Folha Seca tirou da mochila uma garrafa de Red Label fechada. Abriu a garrafa e disse ao João:

- Posso jogar a tampa fora?

O João riu.

Riu e disse que não.

Só que depois de horas contando histórias surpreendentes, algumas muitas delas contadas pela primeira vez, histórias de sua infância em Ponte Nova, de sua adolescência em Ouro Preto, histórias sobre seus parceiros, seus amigos, sua família, depois de muito violão - e o bar embasbacado assistindo àquela cena incomum - e de muita emoção, não havia uma única gota de uísque na garrafa.

O que fez com que o João, pouco antes de se despedir, dissesse:

- Não se deve confiar em memórias desfiadas dentro de um bar...

O prenúncio foi preciso: foi uma grande tarde. Com vocês, a entrevista.

entrevista com João Bosco, 17 de janeiro de 2007

Rodrigo Ferrari: Então, estamos aqui, 17 de janeiro de 2007, no Bar do Pires, na Gávea, com João Bosco... Vamos começar a entrevista perguntando seu nome, o nome de seus pais e a rua em que você nasceu...

João Bosco: Bom... Meu nome é João Bosco de Freitas Mucci. Eu sou o sexto filho de Daniel Mucci, libanês, casado com uma mineira... libanês já falecido!... e ... morreu no dia anterior da morte, também, de Vinicius de Moraes... Eu me lembro... acompanhando meu pai até o cemitério... e no trajeto alguém me disse que o Vinicius de Moraes tinha falecido... E casado com uma mineira, de uma cidade também perto de Ponte Nova chamada Barra Longa, Maria Auxiliadora de Freitas Mucci. Eu digo que eu sou o sexto filho homem porque numa família aonde o chefe da família, vamos assim dizer, é libanês, é árabe, teve cinco filhas mulheres, ele já era um árabe completamente desacreditado na praça... (todo mundo ri)... Porque vocês sabem que na cultura do árabe a mulher tem uma importância relativa... Quer dizer... O homem tem a sua importância e a mulher vem a seguir, é uma sociedade que mantém ainda, um pouco, dessas leis prioritárias... E então quando eu nasci foi um motivo de muita celebração, de muita alegria, de muitos presentes. Minha mãe conta que a minha casa ficou repleta de amigos e principalmente das pessoas libanesas e afins, que moravam em Ponte Nova, cuja colônia árabe era... até hoje... não sei por quê... era muito expressiva. A cidade era toda demarcada por lojas, negócios, bancos com nome das pessoas que compunham essa colônia árabe, joalherias, enfim... Todo aquele comércio que faz parte da tradição desse mundo dos negócios árabes. E então foi um dia muito especial o meu nascimento, por causa disso... Meu pai voltou a erguer a cabeça, a andar empinado, com um certo orgulho porque tinha produzido um filho homem! Teve que esperar e amargar muito por isso!

RF: Que dia foi?

JB: Isso foi no dia 13 de julho de 1946. O meu pai era goleiro, um talento do coração!, e ajudava meu avô nos negócios por obrigação. Mas eles falam que meu pai – e eu só vi o meu pai jogando no gol naqueles jogos de veteranos... - ... mas eles dizem que meu pai realmente foi um grande goleiro, e a cidade toda comenta isso, existem diplomas e medalhas conferidas a ele pela sua habilidade no gol... E o que eu me lembro de meu pai, já jogando com os veteranos, era que ele tinha os dedos das mãos todos tortos, todos quebrados e os dentes foram todos quebrados também pelas chuteiras dos atacantes... E meu pai foi um goleiro muito disputado... Ele jogou a vida toda, praticamente, no Pontenovense Futebol Clube, que na época tinha um time excelente, cujas cores eram vermelho e branco, e depois também teve que passar uma temporada em Juiz de Fora, estudando por obrigação do meu avô, aonde ele jogou aonde ele estudava, no time, mas teve convite pra jogar nos melhores times de Juiz de Fora como Tupi etc e foi amigo de grandes goleiros no Rio de Janeiro, principalmente Castilho, que era goleiro do Fluminense, e que era amigo dele, e meu pai era um tricolor fanático, né?, doente... E talvez isso explique porque é que eu comecei torcendo pro Flamengo... Mas o meu pai contava que jogava muito com os times do Rio de Janeiro e eu cheguei a ver muitos times do Rio de Janeiro, ainda criança, jogando em Ponte Nova, os principais times do Rio de Janeiro na época, que eram muitos... não era só Flamengo, Vasco, Fluminense e Botafogo... Mas havia o América, eu vi Pompéia jogar, havia Olaria, havia Canto do Rio que eram times excelentes, né? São Cristóvão... e que faziam campanhas belíssimas... Bangu... Eu vi Zózimo jogar também em Ponte Nova... Então eu tenho uma lembrança, assim, da minha infância aonde a presença da colônia árabe é muito grande e também dos grandes times cariocas e de seus jogadores não menos famosos! Isso é uma coisa que tem um destaque na minha formação de infância!

RF: Quando você nasceu seu pai tinha quantos anos?

JB: Eu nasci em 46... Meu pai tava no auge de sua carreira, jogando bola... Meu pai morreu com cerca de 65 anos... E já se vão aí da data da morte dele... 25 anos... Mais um pouco... 30... Eu tive cinco irmãs, mas lá em casa é mais ou menos de dois em dois... Entendeu? De dois em dois anos... Meu pai era muito regular nessa questão da prole! (todo mundo ri) Se você vem numa escala descendente, começando com a irmã mais velha, você vai me pegar com 60 anos, mas ela deve ter 70, 71, a outra tem 69, a outra 67...

Simas: Uma escadinha!

JB: É... Uma escadinha... Mas eu falo isso porque o Aldir, por exemplo, ele não viu o meu pai jogar. Mas ele sentiu o meu pai jogar, que é a coisa do poeta... E o Aldir tinha uma ligação muito forte com o meu pai, uma coisa que não dá pra explicar – e nem precisa! Nós fizemos uma canção, uma vez, quando ficamos muito tempo sem nos ver, mas ainda trabalhando juntos, me lembro que ele fez uma canção – à distância – aonde ele fala do meu pai, é uma canção dedicada ao meu pai, e nessa canção ele fala do meu pai, das peculiaridades do meu pai, daquilo que ele conheceu intimamente do meu pai e aonde ele cita, inclusive, as suas proezas como goleiro... Meu pai devia ter contado histórias pra ele... Mas a ligação do Aldir com meu pai é uma coisa muito impressionante... Eu tenho uma foto do meu pai, em casa... Uma foto dessas grandes, tipo 18 por 24, uma moldura, mas ela fica na estante, entre os livros, e pra você se deparar com ela você tem que saber que ela está ali pra você olhar pra ela. Essa estante está num ambiente aonde você normalmente é atraído por outros quadros, por outras coisas que compõem, os objetos desse lugar... Mas eu me lembro de uma noite, o Aldir na minha casa, já recentemente, um ano atrás, uma coisa assim... A gente já tinha bebido todas, a gente tava realmente já... eu colocando música pra gente ouvir no som... E de repente ele se depara com a foto do meu pai, e eu do lado dele senti esse momento e ele se comoveu, entende? Aquilo foi uma coisa muito emocionante... E somente duas pessoas viram aquilo, né? Eu e ele! Eu e o Aldir! E meu pai, com certeza, deve ter sentido isso... Mas essa ligação dele, do Aldir, com o meu pai, nos torna muito mais do que parceiros, nos torna praticamente pessoas da mesma família, quer dizer, a gente já era mais do que isso antes, entendeu? Mas esse é um dado que eu acho que é importante...

Eduardo Goldenberg: Essa canção foi gravada?

JB: Essa canção foi gravada por mim e pelo João Donato, no songbook do Donato. Essa canção foi uma coisa impressionante! Eu tava na casa do João Donato, que é uma pessoa maravilhosa, um compositor admirável e de uma simplicidade muito grande não só naquilo que faz mas no trato com as outras pessoas, no caráter, entende? É um sujeito muito gracioso, muito dado, sabe? E eu tinha passado um dia e uma noite com o Donato e a gente tava lá tomando aqueles birinights, aquelas maluquices do Donato, que ele gosta e eu acompanho, e na hora em que eu fui embora... A gente tava fazendo músicas juntos! Aí na hora de ir embora ele foi me levar até a porta e na hora de despedir ele cantou duas frases de uma melodia como quem se despede de alguém com carinho, né? Um músico despedindo do outro, dizendo boa-noite, né?! E ele me cantou duas melodias de uma frase, ele fez... (João cantarola)... Eu fui embora e aquilo me saltou, tinha alguma coisa ali naquelas duas frases tão simples, ditas de uma maneira tão amistosa, tão amorosa, sabe? Um tempo depois eu peguei no violão e desenvolvi isso aí... E acabei fazendo uma música... E essa música eu mostrei pro Donato, e ele adorou! E ele disse: “Temos que colocar uma letra”. E eu já não via o Aldir já há muito tempo... Mas eu falei: “Tem algum empecilho pro Aldir fazer essa letra?”, e ele: “Claro que não! Eu adoro o Aldir”. Daí eu mandei a música pro Aldir. Aí ele fez...

EG: E você já tinha composto pensando no teu pai?

JB: Não! Absolutamente... (pensando) Meu pai sempre dizia uma frase que era “enquanto Deus me der vida e saúde...” e aí ele completava a frase... “eu vou ao seu casamento”...

RF: Era um bordão!

JB: Era um bordão! Só que toda vez que eu fui a missa com o meu pai ele nunca entrou na igreja!!!!! (todo mundo ri muito) Ele sempre ficava do lado de fora, ali, porque a igreja dava pra uma praça, então ele não entrava e ficava ali e ficava com os amigos conversando...

Leo Boechat: Mas ele era libanês e tinha outra religião?

JB: Não! Meu pai era libanês católico. Mas no título! E essas coisas eu aprendi cada vez mais com ele... Porque essa coisa da religião é uma coisa que tá dentro de você, não é uma coisa que tá no templo... Tá dentro! Eu acho que vontade e fé se misturam muito! Tem um livro do João Ubaldo Ribeiro, que é um escritor por quem eu tenho uma admiração profunda e eu tenho muito orgulho de ser muito amigo dele, aonde ele diz: “A vontade pode”. E isso é uma frase que se você for pensar, ela tem uma importância muito grande. A vontade pode. Quem quer, consegue! O que é a fé? A fé é uma vontade litúrgica! A fé é uma vontade! Quando você acredita numa coisa você parte pra cima daquilo, seja com um instrumento, seja com uma bola nos pés, seja com a caneta, com a máquina fotográfica, seja com uma régua de cálculo, com uma máquina de somar, qualquer coisa! E meu pai dizia sempre isso... Ele tinha uma vontade de estar junto das pessoas o maior tempo possível... Mas com respeito... “Enquanto Ele (frisando) me conceder!” Mas acontece que eu nunca vi ele rezando e nunca vi ele entrar na igreja. A gente ficava do lado de fora conversando, ele com os motoristas de táxi, com os amigos, ele gostava de um baralho também, ficavam falando do jogo do dia anterior...

S: Mas não era muito apegado a essa coisa material?

JB: Não, ele não tinha apego nenhum! Meu pai nunca pensou no dia seguinte. Nunca pensou no dia seguinte. Nunca. Toda vez que ele descia em Ouro Preto de ônibus, aonde eu estudava, eu me encontrava com ele no ponto de ônibus no trajeto em frente à escola, ele saltava ali, eu ficava ali com ele, às vezes tinha uma banca de um quitandeiro aonde ele vendia coisas, inclusive laranja! E ele às vezes descascava as laranjas, chupava duas ou três laranjas, batia um papo, pegava o ônibus seguinte e ia embora!!!!! E isso era o nosso encontro. O Aldir inclusive fala disso na letra. Na verdade o Aldir é o melhor contador de histórias que eu já conheci na minha vida. Uma mesma história que eu tenha vivido com ele, eu vou contar pra você e ela não vai ter a menor graça. Mas quando ele conta, é a mesma história, é uma coisa muito espirituosa, muito engraçada, você se diverte ouvindo porque ele é um grande narrador de histórias... Então essa letra está recheada de informações que eu passei pra ele... E ele coloca isso tudo lá, mas daquele jeito, como o grande contador de histórias que ele é.

EG: Mas volta aí pro Donato... Você perguntou se podia mandar a letra pro Aldir...

JB: Então! Aí eu mandei a música pro Aldir sem falar nada...

RF: Sem nem pensar em nada?

JB: Nada! E o Aldir então mandou essa letra...

EG: Chama como a canção?

JB: Chama “Nossas últimas viagens”, e fala da última vez que o Aldir foi a Ponte Nova, viu o meu pai... Meu pai já falecido... Então ele fala das últimas viagens dele a Minas e do meu pai aqui pra Terra!

EG: Foi composta quando?

JB: Ah... Eu não tenho essa memória, mas tem muitos anos... No songbook do Donato eu gravei com ele. Ele toca piano, eu toco violão e canto. E no meu songbook, produzido pelo Almir Chediak, quem canta isso é o Dominguinhos. E o Dominguinhos abre essa música dizendo da emoção que ele teve de cantar essa canção e diz assim: “O que eu queria na minha vida e não fiz, era uma música pro meu pai como vocês fizeram...”.

RF: O título foi o Aldir que deu?

JB: Foi. Foi composta numa época em que a gente se via muito pouco. Mesmo a gente à distância, a gente nunca deixou de ser irmão, porque nós falávamos de uma pessoa que ambos tínhamos um carinho muito grande...

EG: Vamos voltar pra sua infância. Você consegue dizer quando foi seu primeiro contato com música? Ou a primeira vez em que você teve certeza de que era isso que você iria fazer?

JB: Não. Na verdade eu sempre estive junto da música. Eu nunca pensei nisso... Porque pensar nisso implicaria em você ter um projeto de vida profissional com a música. E eu nunca tive isso. E naquela época não existia isso! Não existia a profissão de músico! Você dizia pra alguém aquela célebre frase: “Eu faço música”. E esse alguém: “E você trabalha em quê?”. Então a minha irmã era pianista. A minha mãe era violinista. A minha avó era bandolinista.

EG: Então se fazia música na sua casa?

JB: Se fazia muita música... Tinha sarau... Minha irmã era muito boa pianista...

EG: Tinha piano também na sua casa?

JB: Tinha... Isso é um detalhe que é impressionante... Toda casa tinha piano. Esse negócio da dificuldade de ter piano, isso é uma coisa dos tempos modernos, da economia recente... Na minha história, em Ponte Nova, que é uma cidade topograficamente cheia de subidas e descidas, como Ouro Preto, eu me lembro de subir e descer ruas com as crianças estudando escalas de piano, principalmente as moças. Fazia parte da educação a aula de piano. E não era uma pessoa de classe média, classe média alta! Qualquer casa tinha um piano! Na minha casa tinha piano! Nós éramos de uma família relativamente pobre, meu pai a essa altura da minha infância já tava deixando os negócios e mexendo com seguro de vida, ele era securitário, e minha mãe era professora de escola primária. Nós éramos dez irmãos, e nós vestíamos, comíamos e morávamos, entendeu? E na minha casa tinha piano!

EG: Depois de você vieram mais quatro filhos?

JB: É, mais quatro... Eram dez filhos! Mas deixa eu contar uma coisa... A minha irmã tava sempre envolvida com outros cantores, músicos, ela às vezes tocava no conjunto da cidade, aonde havia um crooner, e ela cantava também! Ela chegou a cantar muito bem, inclusive. Então na minha casa tinha sempre alguém ensaiando com ela no piano, eu criança já. Uma das coisas que eu mais me recordo dela tocando piano não era bem o piano, mas era um anel que ela tinha de uma pedra, tipo uma ametista, que ficava folgada na armação do metal, e ela ficava balançando. E à medida que ela tocava aquilo produzia um som, um ritmo, com os dedos. A pedra chocando com o metal dava um som, e aquilo me chamava muito a atenção. Engraçado, isso. Mas eu cresci no meio dessa audição diversificada. Vinha gente de música popular, vinha seresteiro e eu, garoto, também tinha os meus amigos de rua e eu acredito que eu vim misturado com a música, numa diversidade muito grande.

entrevista João Bosco, 17 de janeiro de 2007

S: Alguém na família tocava violão?

JB: Não. A minha irmã é que ganhou um violão, que foi esse violão que sobrou pra mim. Ela comprou esse violão... Era todo esverdeado, aqueles violões que você compra em loja que você compra bacalhau, peça de roupa (todo mundo ri), língua de sogra, e o violão fica pendurado no teto amarrado com um barbante... Então ela comprou esse violão e ela acabou percebendo que esse violão ficava muito tempo comigo. Aí ela fez de conta que não sentia mais falta do violão e o violão acabou ficando em tempo integral comigo... Foi aí que eu comecei a tocar...

EG: Que idade você tinha aí?

JB: Eu devia ter 10 pra 11 anos... Mas a minha vida musical, no princípio, era muito heterogênea, sabe? Eu tinha uns amigos, jovens como eu, que gostavam do início do que tava acontecendo na música da juventude, e eu tinha um amigo meu que tinha uma discoteca do Elvis Presley, imensa, e a gente ficava ouvindo os discos do Elvis Presley... E você pode até achar engraçado... Mas você sabe que eu sou flamenguista por causa do Elvis Presley, né? Eu comecei a torcer pro Flamengo por causa do Dida, que tinha um topete muito parecido com o do Elvis. Quando eu vi a figurinha do Dida...

S: E o Dida... alagoano!

JB: ... eu falei... O Elvis joga no Flamengo!!!!!

(todos rolando de rir)

JB: Vou torcer pra esse time! Só depois é que eu fui saber que o Dida era alagoano... Fiquei vendo o Dida escondido na Gávea, sem querer perturbar o cara, só vendo o cara de longe... Porque esse cara é o início, pra mim, de tudo... O fato de eu torcer pro Flamengo vem daí! Vem do topete dele... Que é um topete de Elvis Presley! Elvis joga no Flamengo! Era essa a sensação!

EG: Bela história, hein!

S: Magnífica!

LB: Melhor que Elvis não morreu é Elvis jogava no Flamengo!

JB: Aí eu comecei a misturar Dilermando Reis com Elvis Presley, misturava isso com Noel, com Caymmi... Meu pai, naquela época, fazia umas viagens ao Rio pra comprar material pra loja do meu avô. Então ele vinha comprar os tecidos, uma coisa assim. Mas ele, goleiro de futebol – e futebol tem uma relação com a música popular muito forte, inabalável - , eu acho que ele vinha aqui pra Lapa... Ele nunca me falou isso... Mas onde é que ele aprendia a cantar aquelas músicas que ele cantava e que eu às vezes acompanhava no violão ainda garoto? Ele cantava muito samba do Noel. Onde é que ele aprendia? Eu nunca vi ele ouvir rádio em casa... Eu acho que quando ele vinha ao Rio, ele ficava aqui...

S: Escapava pra velha Lapa...

JB: Então a minha formação musical era muito solta, livre, diversa, e não havia um critério. Pelo menos não havia um critério cultural. Ninguém baixava uma norma pra dizer o que prestava e o que não prestava. Na verdade essa norma era ditada pelo meu sentimento, por aquilo que meu coração mandava! Então eu acho que dentro dessa mistura toda, na audição, e eu dou muito valor a isso, há essa maneira solta de estar ligado à música... Por exemplo, é muito difícil você dizer, numa música feito “Tiro de Misericórdia” que ali não tem um pouco de... Por exemplo... essas coisas que vêm porque querem... independente da sua vontade... porque a música tem muito isso... vem porque quer! Né? E você não controla isso. E é muito difícil você especificar determinadas influências, ou pelo menos aonde é que elas estão. Mas eu acho que é muito difícil em certas músicas, por exemplo, que eu andei fazendo, dizer “aqui não tem o Little Richards”... Eu acho importante isso...

RF: Tinha vitrola na sua casa em Ponte Nova?

JB: Tinha rádio, no início... E depois, duas irmãs mais velhas, que eram muito ligadas em música... A minha irmã pianista, que é viva até hoje, que é a mais velha, e que tem um coral lá em Ponte Nova, o coral aonde a minha mãe inclusive participa, e uma outra irmã, já falecida, que também gostava muito de música... Elas começaram a trabalhar na Receita Federal, tinham um salário bom, então permitiu que elas comprassem uma vitrola pa casa... Eu achava, inclusive, naquelas vitrolas, que o instrumento – e eu só fui saber isso muito tempo depois – baixo elétrico só existia nas vitrolas “high fidelity”, e não no rádio! Eu achava que quem tocava aquele instrumento era a vitrola! Porque o baixo ele precisava de uma estrutura pra se expressar! Como o rádio era uma coisa pequena, tinha ondas que não permitiam uma tradução com fidelidade do que se registrava, eu achava que o baixo só existia nas grandes vitrolas! Então eu, quando ia ouvir música na casa dos outros, que eu via que a vitrola era pequenininha, daquele tipo que você tira a tampa, aí eu dizia “não quero, essa vitrola não toca baixo”... Isso era muito engraçado, cara! Eu só fui descobrir que o baixo era um instrumento mesmo muito tempo depois! Muito engraçado. E eu tive uma vitrola dessa de tampa... Em Ouro Preto era a minha vitrola. E eu sofria muito. Porque eu já tinha a consciência de que o baixo existia, mas que eu tinha que imaginá-lo, ali era impossível ouvir...

RF: Você não começou com acordeon, não?

JB: Não... Minha irmã ticava acordeon... E tinha muito professor de acordeon... Mas é que o violão tinha foto, tinha pose, se fazia mais publicidade...

EG: E depois do violão verde... o segundo... você comprou?

JB: Não... O segundo era um violão que eu tinha na república em Ouro Preto, na Sinagoga, que quando eu entrei pra essa república esse violão já existia lá há muito tempo, e eles não davam a menor bola pra esse violão... Esse violão, inclusive, tinha uma marca de ferro elétrico no verso, porque neguinho botava o ferro ali... Daí eu peguei esse violão pra mim...

LB: Em Ouro Preto você já tocava violão legal?

JB: Em Ouro Preto realmente eu comecei a tocar violão.

EG: Aí você tinha o quê? 18 anos?

JB: Eu fui pra lá em 62, tinha 16...

LB: Mas você já tocava bem?

JB: Eu tocava em Ponte Nova, parei de tocar, fui pra Ouro Preto e lá o violão ressurgiu. Mas aí ressurgiu intensamente, eu comecei a conviver com os músicos da escola, com os colegas...

RF: Você fazia qual engenharia?

JB: Civil.

EG: E você começou a compor lá em Ouro Preto?

JB: Comecei a compor lá sem perceber que estava compondo...

EG: Pegava o violão e...

JB: ... e ficava tocando música dos outros... Que é o que eu faço até hoje! Eu nunca pego o violão pra compor, eu pego o violão pra tocar música de alguém. Às vezes eu cismo com músicas... Ontem quando eu falei com você eu cismei com “Tudo se Transformou”... Porque eu sempre que toco “Chega de Saudade”, quando chego naquela parte (cantando) “mas se ela voltar, se ela voltar que coisa linda, que coisa louca, pois há menos peixinhos a nadar no mar do que os beijinhos que eu darei na sua boca...”, eu sempre me lembro do Paulinho da Viola... E isso há muito tempo! Eu sou canceriano, sou mineiro, sou preguiçoso... Eu demoro, demoro a pegar. Aliás, escuta isso! Eu até dei um computador pra minha mãe um dia desses... Não me deixa não voltar ao assunto!

RF: Tá!

JB: Mas eu dei um computador pra ela – ela queria aprender!, minha mãe já está com 90 anos, e isso deve ter uns 5 anos... – achei que seria bom pra ela, aprendendo ou não. Aí um dia eu ligo pra ela e digo assim “Mamãe, e aí?”. Aí falamos de uma série de coisas, e tal... E eu digo assim: “E o computador?”. “Ah! Tá aqui, meu filho... De vez em quando ele pega, de vez em quando ele não pega...”. (todo mundo ri muito) Eu fiquei com aquilo na cabeça... Aí eu conversei com alguém e contei “Falei com minha mãe, rapaz, sobre o computador, e ela diz que tem dia que ele pega, tem dia que ele não pega... você não acha isso interessante, em se tratando de computador, uma coisa de ponta, de tecnologia, pegar e não pegar?”. E o cara “Não, João, mas faz sentido! Antigamente o rádio pegava e não pegava!”... Eu tava falando sobre...

EG: Paulinho da Viola!

S: “Tudo se Transformou”...

JB: Então sempre que eu toco esse samba, me vem o Paulinho, de quem eu tenho a honra de ser amigo pra caramba e durante muitos anos eu fui meio até que cambono, uma espécie de assistente (Simas ri) do Paulinho, porque eu carregava aquela cesta de chuteira, pro futebol... Eu ficava à beira do campo e dizia “Olha, você tem que cair mais pra direita... desse jeito você não vai receber bola, não... você tem que voltar”... Eu dava instruções pra ele... Imagina você! E ele tinha um Fusca... E quando acabava o futebol a gente ficava naquele sopão que tinha lá no Portelão, tomava a sopa, tomava aquela cerveja... e quase todo sábado era isso aí. E agora, recentemente, eu disse pô “pára de ficar pensando nisso e vai ver o que é que é”... Aí eu fui pegar o “Tudo se Transformou”... Então tá lá... (cantando) “Violão até um dia quando houver mais alegria eu procuro por você, cansei de derramar inutilmente em tuas cordas as desilusões deste meu viver, ela declarou...”... A segunda parte de “Chega de Saudade” passa por ali! Você vê como é que é engraçado isso... Na verdade a música pra mim é uma espécie de carretel de linha, porque você vai puxando e uma coisa vem depois da outra... Ou seja... Depois de um, vem dois, vem três, vem quatro, vem cinco, vem seis... Não adianta pular pro oito, que antes do oito tem sete... Entendeu? Não tem essa de escutar isso! Eu não escuto isso! Eu escuto uma coisa que me leva à outra e que me leva à outra e que me leva à outra!!! Eu acho que “Tudo se Transformou” dialoga com “Chega de Saudade”, o Paulinho estabelece um diálogo com Vinícius e Tom, pois se um samba diz “ela declarou recentemente que ao meu lado não tem mais prazer” o outro diz “vai minha tristeza e diz a ela que sem ela não pode ser”...

entrevista com João Bosco, 17 de janeiro de 2007

LB: Pensando assim foi que você misturou Noel Rosa com Beatles?

JB: Exatamente! Fita Amarela com Eleanor Rigby...

LB: Ou como fez com o Expresso 2222, do Gil, com a música do ET!

JB: Já misturei Bethoven com Tico-Tico no Fubá! (cantarola) Aí entra no choro... (cantarola)... Pô! Tico-Tico e Bethoven! E não é gratuito! Existiu mesmo... É uma coisa feita que chama a outra... Não sei por que cargas d´água, mas eu acho que música é um pouco assim... Fazendo um corte, rapidinho, eu li uma série de entrevistas do Chico Buarque pra esse show recente, onde ele fala isso! Que o roteiro do show foi construído com uma música puxando a outra! Eu acho que na verdade todo roteiro, todo repertório, toda a maneira de se fazer música vem de uma coisa puxando a outra! É assim que eu penso. Então não existe, formalmente, um critério pra se educar musicalmente. Não! É uma coisa puxando a outra!

EG: Mas vamos voltar lá pra Ouro Preto. Você falou que começou a compor sem saber que estava compondo... Era por isso? Você ficava tocando música dos outros e de repente tava compondo?

JB: É porque quando eu procurei o Vinicius de Moraes em 67...

EG: Você que o procurou? Ele tava lá?

JB: Eu que procurei, ele ia sempre lá. Eu entrei pra escola em 67. Por isso é que eu digo que eu perdi um ano, junto com o nosso amigo Gilberto... Porque eu saí em 72. Na verdade o meu curso de engenharia, que era de cinco anos durou seis! E eu devo esse primeiro ano que eu perdi na escola – eu perdi por freqüência! – eu devo ao Vinicius. E é uma dívida que eu não vou conseguir pagar! Foi o ano em que eu mais aprendi na vida! Foi ano que eu não fui à escola! Eu procurei o Vinicius na pousada aonde ele ficava hospedado, “Pouso do Chico Rei”. E comigo foi o rapaz que era meu colega de república e que tocava no quarteto vocal que eu tinha chamado “Quarteto de Ouro Preto”, aonde nós já tocávamos música popular brasileira e eu fazia os arranjos vocais sem conhecer nada de música, uma nota de música... Aliás não conhecia e não conheço. E peço desculpas publicamente por isso, porque isso não é nenhuma vantagem! Isso é um complexo que eu tenho... Não aprendi música, não consegui aprender música porque meu saco estourou! Eu devia, ao invés de estar estudando engenharia, eu devia estar estudando música! Por isso é que eu acho que as escolas têm que ter nos seus currículos educação musical! Porque se o sujeito revela ali o talento dele, ou a sina de ser músico, é dali que ele parte. Como eu não tive isso, eu fui estudar engenharia. Não reclamo também! Porque na engenharia também eu vi coisas muito bacanas e que estão muito ligadas à música, principalmente através dos gregos, dos filósofos, dos matemáticos e que estão dentro da engenharia, porque a maioria dos cálculos, dos matemáticos, desses enunciados, foram feitos por gente biruta igual qualquer tipo de músico louco que tem por aí, tudo feito na base da inspiração, da intuição. Mas me diga uma coisa... Como é que um garoto, de Minas Gerais, com seus 21 anos, bate na porta do Vinícius do Moraes – que era tudo no Brasil, Vinicius reinventava a letra da música brasileira (e eu digo reinventava porque eu acho que quem inventou a letra na música brasileira foi Noel Rosa e depois o Vinícius a reinventou, mas o Noel encabeçando, na década de 30!) – então como é que você bate na porta de um cara desses pra mostrar música, sendo que ele se chama Vinicius de Moraes? E por que o Vinícius de Moraes? Porque Vinícius de Moraes era o cara que escrevia poesias muito parecidas com a pessoa dele. Toda a poética de Vinícius, toda a generosidade que você encontra na poesia de Vinícius, toda a vontade de fazer amigos, de encontrar o amor... tava nele! Ele era aquilo! Então eu bati na porta procurando um cara que eu tinha certeza que ia me receber de braços abertos...

EG: E foi o que ele fez?

JB: Foi o que ele fez! De braços abertos e com uma garrafa de uísque. E ele disse: “Você faz o quê?”. E eu disse “Entrei pra escola esse ano...”... “Ah, é?...”, e eu com o violão do lado... “Eu tenho um quarteto vocal, esse rapaz aqui toca comigo...”, o nome dessa rapaz é Paulo César Pavanelli – quase Carpegiani mas não é!!!! (todo mundo ri muito). Só pra lembrar que 81 foi o ano que não terminou para os outros times! E o Vinícius: “Ah, você tem um coral? O que é que vocês tocam?”. Eu disse e ele disse “Mas esse repertório é muito bom...”, e inclusive tinha coisas dele. “Toca alguma coisa aí!”... Aí eu toquei um samba que eu tinha feito... “Pô, mas esse samba é bom, toca outro...”. Eu fui e toquei outro. “Pô, mas esse também é bom... toca outro!”. Aí eu vi que tinha acabado. Eu era um compositor de dois sambas! Eu nunca estive atento ao lance de compor, eu tava tocando a música de todo mundo... só depois vinha a minha...

EG: E essas duas deram samba?

JB: Essas duas deram samba! Uma ele letrou, que foi o “Samba do Pouso”, a primeira, que tá gravada no songbook dele, eu gravei com “Os Cariocas”...

EG: Foi a primeira música que você fez na vida?

JB: A primeira música que eu fiz na vida...

S: E foi ele que se dispôs a letrar?

JB: Naquela hora!

EG: Dentro do quarto?

JB: Ali! Na pousada! Meu primeiro parceiro... O segundo quem letrou foi um cara que eu conheci aqui no Rio de Janeiro, chamado Torquato Neto. Porque eu venho ao Rio, nas férias, e porque aí o Vinícius resolve me adotar!, e eu via o meu nome pipocando naquelas notinhas... O Vinícius dava notas sobre mim nos jornais, no “Jornal do Brasil”... E havia o “Correio da Manhã”, e outros jornais, “O Globo”, e o Vinícius sempre falando de mim. Isso era uma coisa que eu não vou conseguir nunca devolver ao Vinícius... (visivelmente emocionado)... entendeu? Toda a generosidade que ele deu, não só a mim, mas como a muitas pessoas do meu tempo, e acho que extensivamente ao público do Brasil que, pô... que tem por ele... e não sou eu que digo isso... que tem a experiência que esse público tem de reencontrá-lo através de especiais, de filmes biográficos e tudo, e revelarem a sua admiração por uma pessoa tão bonita e tão maravilhosa feito o Vinícius. Mas ele resolveu me adotar... E ele e o pintor Carlos Scliar, que é meu padrinho de casamento...

RF: Que tinha casa lá, né? (em Ouro Preto)

JB: Tinha casa lá e eu freqüentava muito a casa...

RF: Casa maravilhosa...

JB: Exatamente... aquele chalé... que era do Scliar e do pintor Ivan Marquetti, que faleceu há pouco tempo e foi grande amigo meu esse tempo todo da minha vida, um grande amigo, um grande pintor. E o Vinícius adorava o Ivan, tinha um carinho muito grande pelo Ivan. Mas os dois começaram a me convidar pra passar as férias escolares, da escola de Minas, no Rio! Então na época de julho e na época que vai de fevereiro a fevereiro, eu passava no Rio de Janeiro. Numa dessas que eu vim, entre janeiro e fevereiro... eu vou te dizer até a época... foi a época que o Chico Buarque lançou um disco aonde ele tem uma foto segurando um violão na Lagoa... E que tem a música “Realejo”... (disco de 1967, “Chico Buarque de Hollanda)

LB: Preta a capa?

JB: Preta! Eu vou te dizer porque é que eu me lembro desse disco... Quando eu estava na casa do Torquato, o Chico ligou pra ele naquela madrugada. E conversaram sobre música. Aí o Torquato faz uma menção a esse disco, que tava ouvindo, que tava curtindo o disco, e esse disco nunca mais me saiu da cabeça e por dois motivos... O Chico ser o que é, compositor maravilhoso, genial e único e o Torquato por ser um pensador, e poeta, e representante de um pensamento que é singular e que é fundamental inclusive no Tropicalismo. Eu fui parar na casa do Torquato por causa de um sujeito que morava em Niterói, e que mora até hoje, chamado Chico Enói e que ninguém sabe quem é, ninguém conhece, que não conseguiu impor o seu repertório, a sua obra. Ele mora em Niterói até hoje, e não conseguiu mostrar o seu trabalho, mas que tinha e tem talento para estar aí, hoje, fazendo a sua música... Que a música tem muito disso, a poesia tem disso, a literatura tem disso...

RF: Oportunidade, né?

JB: Enfim... ele não teve oportunidade. Mas quem me levou ao Torquato foi o Chico Enói. Portanto nesse samba nós temos parceria... Eu e o Chico Enói. Aquela parceria que a gente entra porque a gente é amigo... aquela parceria de antigamente!

S: Tem que entrar!

JB: Tem que entrar... É a parceria que eu mais sinto falta! Porque é a parceria que vai a qualquer lugar, a qualquer hora...

RF: Como o Donato foi teu parceiro por causa daquelas frases no dia da despedida de vocês...

JB: Exatamente! Né? Se não fosse aquele negócio aquela música não existiria... O Chico Enói, se não me leva à casa do Torquato, eu não teria ido, eu não teria feito um samba com ele chamado “Fique Sabendo”...

EG: Que foi o segundo samba que você mostrou pro Vinícius...

JB: Não. O segundo samba que eu mostrei pro Vinícius, e que ele letrou, chama-se “Rosa dos Ventos”. O Torquato letrou esse samba naquela noite... Agora eu vou te dizer... Naquela noite quem é que estava na casa do Torquato? O telefonema do Chico Buarque, que não é pouca coisa e eu presenciei... (Rodrigo ri) Um pianista de São Paulo, que é um gênio, chamado Laércio de Freitas, conhecido pela alcunha de “Tio”, tenho a honra de ser amigo do Laércio... Sempre que eu vou a São Paulo nos encontramos, e todo show meu em São Paulo ele vai, e quando eu estou em São Paulo, aonde quer que ele esteja tocando eu vou assistir... Estava um sujeito chamado Jards Anet da Silva mais conhecido...

RF: Macalé!

JB: ... como Macalé... Deitado num canapé... (todo mundo ri)... Devia ter tomado uns birinights, tava ali sonhando com os anjos, tirou uma soneca... Conheci o Macalé dormindo! Não é qualquer pessoa que é apresentada a uma outra dormindo! Eu conheci o Macalé dormindo, tive esse prazer... E um músico, numa mesa, que estava com um terno marrom, mas um marrom muito especial, mais pro brown do que pro marrom, marrom cheio de guéri-guéri, uma camisa rosa, uma gravata verde, uma meia rosa, um sapato clássico marrom, um anel muito bonito nos dedos... Esse sujeito era conhecido como Ismael Silva! (Simas gargalha)

EG: Que noite!

JB: Estávamos numa mesa como essa aqui... Conversando... Eu acho que a mulher do Torquato tinha um parentesco com o Ismael que eu não vou dizer a vocês porque eu não me lembro mais! Mas tem um parentesco com o Ismael. E foi essa a noite que eu passei na casa do Torquato Neto, na Ladeira dos Tabajaras! Que eu nem sabia o que era o Rio de Janeiro, mas toda vez que eu vejo Tabajaras... Pode ser num filme de Hollywood, pode ser no Casseta e Planeta, pra mim... Tabajaras vem essa turma toda junto!

EG: E você foi parar lá por conta desse amigo de Niterói?

RF: 1967, né?

JB: 67 pra 68... Final de 68...

EG: E quando você e Vinícius fizeram “Rosa dos Ventos”?

JB: Fiz em outra época em que ele foi pra Ouro Preto...

EG: Volta lá pro encontro com o Vinícius lá em Ouro Preto , o primeiro samba...

JB: Então... Ele letrou o samba, eu voltei pra república com o Paulinho Pavanelli...

EG: E você louco, né?

JB: Já bêbado e ali, naquele dia, eu tive uma certeza na vida... A minha vida ia ser música... Ali! Naquele dia! Naquela noite!

EG: Você lembra o dia exato, João?

JB: Não... não lembro...

EG: Mês?

JB: Abril, maio... O inverno tava se anunciando... Eram noites um pouquinho mais frescas, mais frias... ainda não era inverno... abril, maio... de 67! Ali, naquele dia, eu descobri que meu negócio era música. E aí eu comecei a ouvir música diferente. Eu comecei a olhar pra música não mais como aquele sujeito que não se programa, que não tem vínculo, que não tem responsabilidade com a música, eu comecei a olhar música diferente. Então eu comecei a ouvir música e já queria saber quem era, quando foi gravada, quem é que cantou, que tom que estava, eu comecei a olhar música com outro propósito! Acho que a partir dali eu virei compositor, virei músico! E coincidentemente parei de ir à escola! Então... Perdi o ano! Repeti o ano... Mas o Vinícius, outras vezes, me aconselhou: “João, que é isso? Vai à escola! Não vai pro Rio agora não... Vai fazer o quê no Rio? Tá aqui com seus amigos, numa cidade maravilhosa...”.

RF: Você tocou naquele teatro municipal de Ouro Preto?

JB: Várias vezes! Várias vezes... E vi o Vinícius lá várias vezes... Com o Toquinho, se apresentando lá, com a Marília Medalha... Eu conheci o Victor Assis Brasil...

RF: Quantos músicos do Rio iam se apresentar lá?

JB: Olha... eu conheci Victor Assis Brasil lá. Na noite em que eu conheci o Victor eu até me aproximei dele, eu já tava envolvido com música lá... Aí eu disse pra ele... “Um dia, no Rio de Janeiro, eu vou te procurar e te convidar pra você fazer alguma coisa...” e ele... “Pô, com o maior prazer!”... E ele nem sabia o que eu fazia! E no disco “Linha de Passe” eu cumpri a minha promessa! E ele também! Ela toca comigo uma canção chamada “Mara”, minha e do Aldir... Ele toca, só eu e ele... O solo é dele, o contracanto é dele... Isso em 78. Você vê que a minha promessa se cumpriu! E a dele também!

S: E então você seguiu o que Vinicius tinha proposto e só veio pro Rio depois de se formar?

JB: Só vim depois de 72. Mas vinha todas as férias, mas só mesmo depois de formado é que eu vim... Rapaz... Eu não colei grau!!!!!

S: É mesmo? Terminou o curso e...

JB: Eu terminei o curso... Na verdade eu colei grau mas não busquei diploma! É isso! Eu colei grau no dia 4, vim pro Rio no dia 6 e casei no dia 9! Na verdade eu casei oficialmente no Rio, no dia 9, eu colei grau no dia 4, vim pro Rio no dia 6, e casei aqui oficialmente com um Juiz e pronto... Não voltei mais! Não busquei nada, não fui pra república, não busquei meus livros, meus cadernos...

RF: Sua foto tá lá!

JB: Eu sei! Eu sei! Eu tinha uma mala muito especial com as minhas coisas... Então eu busquei essa mala, ficava debaixo da minha cama, como todo bom mineiro, onde guardam os tesouros... O Scliar foi meu padrinho aqui...

RF: E a sua mulher é de lá?

JB: A Angela nasceu no Rio e foi criada em Ponte Nova. A família da mãe era carioca, e a própria mãe era cantora lírica.

entrevista com João Bosco, 17 de janeiro de 2007

RF: E quando você veio pro Rio foi morar aonde?

JB: Eu fui morar na Pacheco Leão... Trouxe os móveis de Minas, de Ouro Preto... Quem fez os meus móveis foi um carpinteiro de Ouro Preto... Com o primeiro adiantamento que eu recebi da RCA Victor quando eu assinei o contrato. Então com esse dinheiro eu comprei os móveis que eu precisava e vivi com esse dinheiro um ano aqui no Rio de Janeiro enquanto eu não tinha trabalho.

LB: E o encontro com o Aldir?

JB: Meu encontro com o Aldir foi mais ou menos no final de 69. No final de 69 eu conheci um sujeito de Petrópolis, chamado Pedro Lourenço Gomes. O conheci em Ouro Preto porque ele era amigo de um amigo meu de Ponte Nova, chamado Roberto Lopes, que gostava de cantar e que cantava de uma forma muito peculiar, muito macia, muito cool, e eu me lembro que uma das canções que ele cantava – e fazia isso muito bem! – era uma canção do Johnny Alf. “Ah, somente um dia longe dos teus olhos...” (cantando) Ele cantava isso muito bonito. E o Roberto era amigo desse Pedro Lourenço, de Petrópolis. E eu o conheci em Ouro Preto junto com o Roberto, e ele me viu tocando e já fazendo aquelas coisas, em 69, eu já fazia umas músicas meio malucas, tipo “Agnus Sei”, essas coisas... Aí ele disse assim: “Rapaz eu tenho um amigo meu lá no Rio que quando ouvir essas músicas... eu não sei, cara, eu acho que ele vai botar umas letras que você vai gostar aí...”, e eu falei “É?” e ele “É! Inclusive ele é um amigo com quem eu toda segunda-feira estudo com ele, nós lemos livros juntos e estudamos filosofia e psicanálise, um rapaz chamado Aldir Blanc”, e eu “Legal... fala pra ele...”. Aí eu fiquei pensando naquele nome, já tinha ouvido aquele nome em algum lugar... Aí fuçando a minha memória, que naquela época funcionava muito bem (ri), eu me lembrei dos festivais universitários! Lá na escola de Minas havia um jornal chamado “O Martelo” e eu escrevia sobre música, e eu já tinha falado dele mas não falado religiosamente, sabe?, mas já tinha passado por aquele nome. Aí um belo dia em tô em Ouro Preto e me liga o Pedro e me diz “Nós vamos praí”... E eu disse “Nós quem?” e ele “Eu, Aldir, o Paulo Emílio, o Eduardo Andrade”... que era percussionista, fotógrafo, tocava com o Gonzaguinha e trabalhou muito tempo na TV Manchete. “Quando é que vocês chegam?”, “Depois de amanhã”. Aí eu passo na casa do Ivan Marquetti, que é a casa que o Scliar tinha com ele... A empregada disse “Seu Ivan viajou...”, “Pô, mas o Ivan não falou nada...”. Aí eu encontro um amigo nosso, estudante, que disse... “É... o bicho tá pegando aí...” E era o negócio da ditadura! “Os caras em Belo Horizonte estão atrás de algumas pessoas, o Ivan tá na lista, fulano tá, mas se eu fosse você eu dava um pinote, porque vocês estão sempre juntos...”... Aí eu lembrei da comitiva que vinha do Rio! Aí deixei uns amigos avisados em Ouro Preto. “Vou me mandar”, “Pra onde?”, “Pra casa de mamãe!”. Eu era um garoto, um jovem, a maldade era do mesmo tamanho da inocência, daí fui pra casa de mamãe, se alguém quisesse me achar era só ir pra casa de mamãe porque eu tava lá! Aí deixei, em Ouro Preto, o pessoal avisado que eu ia pra casa de mamãe. Depois eu perguntei pro pessoal da república se eles já tinham chegado em Ouro Preto e eles já tinham chegado e estavam indo pra Ponte Nova. Daí eles foram pra minha casa em Ponte Nova. Foi a primeira vez que eu encontrei o Aldir! E nesse dia minha mãe fez aquela macarronada né?, que dá pra vinte pessoas, foi quando eu fiquei conhecendo o Aldir, que já tinha levado um gravador, o Pedro tava presente e ficou “toca aquela, toca aquela!” e eu toquei o “Agnus Sei”, o “Bala com Bala” e o “Angra” que não tinham letra. Aí o Aldir botou no gravador as três e levou. E começou a me escrever do Rio de Janeiro e a gente se correspondia por cartas e ele me falando dos livros todos que eram na verdade dicas que ele me passava de literatura sem querer dizer “leia isso”, ele dizia “olha, eu li isso...” e aí citava as passagens e eu comecei a procurar os livros pra estar junto dele, pra entender o que ele queria me dizer... Foram as três primeiras músicas: “Agnus Sei”, “Bala com Bala” e “Angra”. Isso foi no princípio de 70.

EG: João... e de quando foi aquele disco de bolso do Pasquim?

JB: 72. Nós já tínhamos trinta música nessa época! Porque aí eu comecei a mandar as fitas pra ele, 70, 71, e ele mandava as letras...

EG: Então a parceria se estabeleceu assim mesmo?

JB: É! Fita pra cá e letra pra lá!

LB: Quando voltou o resultado das primeiras letras, qual foi sua reação pra essas três primeiras músicas?

JB: Cara, a primeira coisa que me chamou a atenção foi a sonoridade das letras...

EG: As músicas já tinham nome?

RF: Você que deu o nome?

JB: Não! Não! Ele deu os nomes! “Agnus Sei” vinha assim... “Ê andá pa Catarandá que Deus tudo vê...” (cantando)... Aí eu dizia... “Gente! Era mais ou menos o que eu fazia tocando!!!!”... Então o sujeito já tava dentro da sonoridade, não era só em letrar, ocupar os espaços da melodia, ele olhava dentro e sentia o seu ritmo, o que você pensava quando tocava aquilo... Entendeu? Isso foi a coisa que mais me impressionou... Você vê a letra de “Bala com Bala”... “A sala cala / E o jornal prepara / Quem está na sala / Com pipoca e bala...” (cantando)... Tudo lá... pó-pó-pó... O ritmo! Tudo era rítmico... Mas o Aldir é um letrista extraordinário também em função do ritmo que ele tem também... Porque o Aldir foi o primeiro percussionista aqui no Rio de Janeiro! Tocava tumbadora comigo! Primeiro nós tínhamos um duo, eu e ele. Depois uma banda. E ele tocava percussão. E vou lhe dizer uma coisa que ninguém desconfia! No primeiro show que nós fizemos aqui no Rio, no Colégio São José, eu toquei duas músicas do Ray Charles e o Aldir na tumbadora!!!! Eram “Tell me the truth” e “I´ve got a woman”. Fazia parte do nosso roteiro!

LB: Excelente!

JB: (rindo muito) Primeiro show, no Colégio São José! Que o nosso baterista... Não tem lá uma escadaria?

EG: Tem!

JB: Então! O nosso baterista desceu aquela escadaria de Fusca... Eu não sei como é que ele faz, mas ele tomou um porre tão grande que ele errou o caminho e desceu as escadarias do São José de carro! Foi aí que nós entendemos a primeira piração de músico que a gente viu explícita! O nosso batera desceu as escadas de carro!

RF: Isso foi quando, João?

JB: Isso em 73, 74 no máximo. Não passava disso aí... Mais pra 73. E em 73 eu gravei meu primeiro longplay pela RCA Victor cujos arranjos são do Luizinho Eça e do Rogério Duprat aonde tem o “Bala com Bala”.

LB: A Elis gravou você em 72, né?

JB: Ela grava “Bala com Bala”...

EG: Como é que vocês chegam na Elis?

JB: Elis tava ensaiando um show no Teatro da Praia e o Ziraldo me ligou e disse “Olha, a Elis tá no Teatro da Praia ensaiando um show, por que é que você não vai lá mostrar umas coisas pra ela?” O Ziraldo já conhecia muita coisa da gente em função do disco de bolso... Aí eu fui. Peguei o violão e fui. Essas coisas da vontade, da fé. Entrei no Teatro e ela tava no palco. Quem tava começando o trabalho com ela ali era o César Camargo Mariano, era o primeiro trabalho dele com ela. E iria começar ali naquele show. Ele falava muito pouco, mas de uma musicalidade extraordinária... Cheguei no palco e o Ziraldo já tinha ligado pra Elis. Ela disse “Você que é o cara lá de Minas?”, e eu falei “Sou...”, e ela “Ih, eu adoro Minas Gerais, tô em estado de graça com Minas Gerais!”... Isso porque ela tinha gravado Milton, “Canção do Sal”, que nos remete à Salinas, nossas grandes cachaças... Aí eu fiquei mais à vontade. Aí ela falou “Toca aí...”, e o César parado no piano. Peguei o violão e saí tocando umas coisas que eu realmente não me lembro mais o que era, mas quando chegou no “Bala com Bala” ela disse “César, essa aí a gente bota no show na segunda-feira!”. O show ia estrear na segunda-feira! Não era de quinta a domingo, não! Era de segunda a domingo! “Essa eu vou botar no show de segunda-feira”... Aí ela disse “As outras, nós vamos gravar!”... Aí eu botei no gravador dela “Caça à Raposa”, “Caçador de Esmeraldas”, “Comadre” e o “Agnus Sei” que ela já conhecia e botei “O Mestre Sala dos Mares”. No disco seguinte ele vem com quatro! Ela gravou quatro músicas nossas e quatro músicas do Gil sendo que essa do Gil – “Amor até o Fim” – ele não gravou até hoje! E eu ouvi essa música pela primeira vez quando o Gil foi mostrar pro Vinicius na casa que ele morava aqui na Gávea, já em 73... Eu tô na casa do Vinicius e ele oferecendo uma festa pro Astor Piazzolla, nos convidou – a mim e ao Aldir, Flávio Rangel, Egberto Gismonti, Chico Buarque – e nós estávamos ali, naquela pequena casa que o Vinícius morava, na Gávea, e no meio da festa o Vinícius disse “Joãozinho, toca pra eles...”, aí eu peguei no violão e fiz o “Agnus Sei”, fiz o “Bala com Bala”, fiz o “Angra”, fiz o “Amon Rá e o Cavalo de Tróia”, fiz o “Cabaré”, um monte de coisa e ficou todo mundo, né?, o Flávio Rangel, o Egberto, querendo saber de onde aquele garoto vinha... Ficou falando do Aldir... Cada um pegando prum lado, né? O Flávio, dramaturgo, um sujeito do teatro, pegando pelo lado da palavra... Aí toca a campainha e o Vinícius fala “Espera um minutinho...”, vai, volta e diz “Joãozinho, você quer vir aqui fora comigo?”, eu fui e quando cheguei lá fora, no alpendre, quem é que estava lá? Gilberto Gil! Com um violãozinho na mão, de jaqueta jeans, e fala assim “Gil, esse é um estudante lá de Ouro Preto que tá vindo aqui pro Rio, gravou recentemente lá no disco do Pasquim...”, aí o Gil reconheceu e tal, e o Vinícius pediu “Gil, mostra esse samba aí, que você me mostrou, inédito...”, aí o Gil cantou “Amor Até o Fim”... (cantando) “Amor / Não tem que se acabar / Eu quero / E sei que vou chegar / Até o fim / Eu vou te amar / Até que a vida em mim resolva se acabar...”. Foi a primeira vez que eu vi o Gil pessoalmente, que eu já conhecia o Gil de repertório que quem me mostrou foi o Baden Powell, mas não pra mim, mas na casa do Scliar, o Baden, numa dessas idas a Ouro Preto, falou “Eu queria mostrar pra vocês um cara lá da Bahia...”, e aí botou a fita cassete pra rodar no gravador e veio tudo! “Procissão”... Tudo! Isso antes do Gil ser o Gil... Então quando eu conheci o Gil pessoalmente pra mim foi uma coisa! Eu já conhecia aquele cara, já era fã daquele cara, e aquele cara ali, me cantando um samba novo, inédito... Tanto que só agora, recentemente, há uns 5, 6, 7 anos atrás fomos fazer um show nesse Claro Hall que não tinha esse nome... Era o Metropolitan! Fomos fazer um show pra UNIMED e a UNIMED pediu Gilberto Gil e João Bosco. O Gil me perguntou “O que é que você quer fazer?” e eu pedi que fizéssemos “Amor Até o Fim”!!!!! Ele curtiu o arranjo pra caramba e eu lembrei a ele o episódio na casa do Vinícius...

entrevista com João Bosco, 17 de janeiro de 2007

LB: Mas João... Você já vem de uma turma que chega depois do Gil, do Caetano, do Milton, Paulinho da Viola, já nos anos 70...

JB: Mas na verdade a gente conhecia essas pessoas! Não me pergunte como, mas alguém mostrava o que o outro fazia... Como o Baden mostrou o Gil que eu nunca tinha ouvido... Chegava uma outra pessoa e mostrava um outra cara desses, sabe? Fantásticos, maravilhosos, e que não época estavam começando carreira. Então a gente conhecia. Eu, por exemplo, quem me apresentou Milton Nascimento foi um compositor chamado Nelson Ângelo, que é meu amigo desde a minha juventude...

EG: Mineiro de Belo Horizonte!

JB: É, com amigos e parentes lá em Ponte Nova! Aquela música “Fazenda” foi feita pros tios que moram em Ponte Nova, na fazenda! Entendeu? Então o Nelson Ângelo, que é um compositor que eu acho assim, admirável, fantástico, gênio, maravilhoso – e também é desses compositores que não tiveram ainda, né?, o Brasil ainda não fez por merecer a obra dessa gente!, entendeu? – foi quem me apresentou o Milton. Quando eu conheci o Milton, o Milton Nascimento, que a gente chamava naquela época de Bituca, tocava num restaurante na Rua da Bahia! E quando nós fomos visitar o Milton, que o Nelsinho me apresentou o Milton, nós tivemos que esperar o intervalo pra ele parar de tocar e a gente falar com ele na porta, porque a gente não podia entrar! Que era um restaurante! A gente não podia entrar! Não era teatro! Não era night club! Era um restaurante onde as pessoas comiam e ele tocava naquele espaçozinho ali, e você não podia entrar! Você mandava o maitre avisar o cara, o cara acabava o set dele e vinha lá fora! Foi assim que eu conheci o Milton!

S: Quer dizer, João, as pessoas se comunicavam muito mais, né?

JB: Eu acho que é isso aí! É o negócio da comunicação... Hoje você tem toda uma tecnologia do seu lado e morre de solidão, tá entendendo?

S: E como surgiu, nesse meio todo aí, uma influência muita grande pra você, que é a Clementina? Como é que ela chega na tua vida?

JB: Eu já tinha encontrado os negros em Ponte Nova. Eu fui criado por uma senhora que tinha todas as marcas, todas as características dos negros oriundos da África. Então ela tinha um jeito de falar as inflexões, tinha os rituais, as maneiras de se comunicar com os santos, através das plantas, através das ervas... Então essa pessoa nos criou a todos na minha família. Ela morreu agora com 102 anos, morreu no ano passado. E eu fui a Ponte Nova agora visitar o túmulo dela, e o portão do cemitério, às quatro e cinco tava fechado! Aí eu não pude entrar. Aí tinha um velório do lado, numa casa funerária, eu entrei e falei que queria entrar no cemitério e uma senhora me disse que o cemitério fecha às quatro. Aí eu perguntei “O cemitério fecha às quatro pra quem?” (todos riem) Eu ia viajar no dia seguinte, então eu fiquei falando com ela do lado de cá do portão, mas nos comunicamos! Nos comunicamos! De maneira que os africanos eu já havia visto em Ponte Nova, e lá em Ponte Nova havia muitas usinas de açúcar, pra ser preciso eram sete. E todas as usinas de açúcar eram provenientes da plantação da cana, por isso os alambiques. Ponte Nova também foi uma grande produtora de cachaça e isso qualquer cachaceiro que se preza sabe, que em Ponte Nova se produziu muito boas cachaças nos anos sessenta... Então aquela cultura dos canaviais era dos africanos, dos operários, dos trabalhadores braçais, que tinha uma relação com a cultura do povo, que a cana vem dessa cultura... E eles tinham as congadas... E todos os domingos eles saíam pela cidade batucando e cantando e eu seguia aquela gente, que eu achava aquilo maravilhoso, eu era atraído por aquilo. Então eu já tinha um vínculo, tanto que você pega um samba feito “Bala com Bala” e ele é feito em Minas, ainda sem eu conhecer o Rio de Janeiro, nem a música negra. Mas eu já sabia disso por ouvido. Mas quem me apresentou a Clementina foi Hermínio Bello de Carvalho que quando me ouviu tocando me disse “Minha mãe tem que te ver!”... Aí eu tomei um susto! Imaginei aquela senhora, com aquele tricô já, cansada, e ainda pensei “Eu vou matar essa senhora de susto, com esses gritos, esses troços...”. Mas, não. “Minha mãe” era a Clementina. Foi aí que em 76, já no LP “Galos de Briga” ele diz “Vocês vão inaugurar o Projeto Seis e Meia no Rio de Janeiro”. E foi o primeiro “Seis e Meia”... Clementina e eu... E eu tenho uma fita que me foi dada de presente agora que é uma fita recuperada e gravada na época, eu e Clementina cantando “O Ronco da Cuíca”. Foi com ela que eu aprendi que, de fato, em função da música africana, que a palavra importa, porém a sonoridade tem a mesma importância. A Clementina cantava o “Benguelê”, que é música do Pixinguinha, cujo título remete à Angola, cidade de Benguela – é Benguela, ê!, Benguela, ê, Benguelê, Benguelê, que é um banzo que se tem quando se vem do lugar... -, mas a letra me foi dada pelo Nei Lopes, e na época eu pedi pelo amor de Deus ao Nei pra me explicar aquilo, pra eu saber o que é que eu tava cantando! Ele escreveu e muitas palavras não correspondiam ao que a Clementina cantava... Ou seja, a Clementina já adaptava a sonoridade dela à palavra. Não correspondia à letra! Então, o que é bonito na língua africana, e acho que na língua portuguesa – que pra mim já é a língua brasileira, já passou de português! – é que ela é dinâmica, ela não pára, não cria limo. A letra e o som que Clementina emitia não é mais o que está escrito no papel! Aí é que eu achei bacana, porque isso vinha muito de encontro ao que eu sentia na música. Pelo fato, inclusive, de ouvir música estrangeira sem falar a língua e repetir a língua a seu modo! Você não falava inglês, nem francês, nem espanhol, mas você falava a sua língua que era aquilo que você entendia quando ouvia. Você ouvia aquilo, e falava aquilo! Aí vem aquele conjunto de rock, que eu tinha, chamado “X GARE”... Só muito tempo depois eu fui entender que era um rock que eu ouvia que era “She´s got it”!!!!! Isso é a Clementina, e a língua dinâmica que não cria limo e que vai se desenvolvendo, se moldando...

S: João... Você fez isso na sua versão de “Jambalaya”, né?

entrevista com João Bosco, 17 de janeiro de 2007

JB: Isso é o som que eu ouvia! Exatamente! Você deu um exemplo que pra mim é perfeito! Eu nunca gravei essa música, que foi gravada pelo pessoal do Boca Livre...

LB: Você não gravou?

JB: Não! E na verdade o título que eu botei nessa música era “Jambalaya, chureia, faz casa e prega botão”. Porque em Minas o verbo chulear virou chureia! Ofício de costureira. Eu ouvia isso! (canta “João Balaio”).

LB: A partir de certo ponto, você e o Aldir passam a ter, nos anos 70, várias referência ao candomblé... O que foi isso? Vocês se envolveram realmente com isso?

JB: Olha... o Aldir se envolveu tanto com essa literatura, com essa religiosidade dele, que eu cheguei na Bahia uma vez e um cara disse pra mim... “Amigo de ala, aqui, nos dedos, se conta quem sabe da existência deles...”. Na Bahia, que é uma África no Brasil! Amigo de ala! O cara foi fundo. Por que é que ele foi fundo nisso? Eu acho que só a religiosidade de um sujeito meio ateu, feito o Aldir, explica. Porque a música da gente vinha nessa pegada!

LB: Mas você embarcava?

JB: Eu embarcava, mas eu embarcava muito na intuição. Eu confesso pra você que a única sabedoria que eu tenho na minha vida é a intuitiva, a intuição, quando você sente que é por ali. Mas você não leu, não estudou aquilo. Você apenas sente que é por ali. Então eu ia, eu apontava pra ali. Agora, eu tive um cara que não só veio comigo, como diz assim: “Deixa que eu venho aqui abrir a picada”, entendeu? Porque ele veio escrevendo... Fizemos “Tiro de Misericórdia”, “Escadas da Penha”, “O Ronco da Cuíca”, “Boca de Sapo” e eu sentia aquilo tudo, entendeu? Eu te confesso que fui a um pai-de-santo uma vez pra saber onde é que tava metido. O cara jogou, deu três passos pra trás e disse: “É o seguinte, cara, tá liberado!” (todo mundo riu). Foi o melhor médico que eu fui na minha vida foi esse! Médico igual a esse não tem! O cara que joga o negócio e diz pra você “não precisa voltar, tá liberado”... Aí eu fiquei nessa onda...

EG: João... conta uma coisa... Fala do Paulo Emílio...

JB: Isso era um santo, um anjo torto, embora um galã...

EG: João, eu vi o Paulo Emílio uma vez, eu era muito moleque, e ele ia num bar na Rua do Bispo, na Tijuca, o “Caras & Bocas”, acho que você foi algumas vezes lá...

JB: Fui! Lógico!

EG: Vocês começaram a compor ali?

JB: Na verdade o Paulo Emílio, quando eu conheci o Aldir, foi a primeira pessoa que o Aldir me apresentou. Eles tinham uma afinidade muito grande. O Aldir tinha uma preocupação com o Paulo Emílio que era mais do que irmão. E o Paulo Emílio tinha uma admiração pelo Aldir, que ele não escondia isso... Ele falava claramente, falava pra mim isso... Quando nós, eu e o Aldir, fizemos uma música chamada “Denúncia vazia”, que a Nana Caymmi gravou, e eu não havia gravado ainda, eu tava no estúdio da Odeon e a Nana entrou com aquele jeito dela “Seu filho da puta, seu merda, você não fez nenhuma música pra mim...”... “Tem essa aqui”, e ela disse “Porra, eu quero gravar essa merda agora!” (todo mundo ri) Aí o Toninho Horta tava no estúdio, o Luiz Alves, e eles na hora, comigo, fizemos a gravação antológica. A Nana fala dessa gravação toda vez. O Paulo Emílio fez um relato sobre essa letra do Aldir que eu nunca mais vou esquecer na minha vida. Defendendo que toda aquela letra trazia em si uma novidade naquele momento, um frescor dentro da letra de música. O Paulo Emílio e o Aldir tinham essa relação. E pra te falar a verdade o “Tiro de Misericórdia”, quando eu e o Aldir por questões de santos e times de futebol andamos meio, assim, atravessados um com o outro, quem pulou pra cá pra defender a parceria foi o Paulo Emílio. Foi ele que dirigiu o show “Tiro de Misericórdia”, foi ele que viajou comigo pelo Brasil, foi ele que escreveu o programa do show...

entrevista com João Bosco, 17 de janeiro de 2007

EG: E o Marco Aurélio, João?

JB: O Marco Aurélio era o enviado! Do Aldir e meu! Do Aldir pra mim e de mim pro Aldir! Eu cansei de brigar com o Aldir com o Marco! O Aldir nem sabia! Eu brigava com o Aldir... Eu achava que era o Aldir... O Marco incorporava tanto o Aldir quando ele estava comigo... Quando eu falava com o Marco, que eu queria dizer as coisas pro Aldir que eu não conseguia, eu dizia pro Marco! (rindo) Ele é que matava no peito! Aí ele chegava lá no Aldir e mandava tudo... A primeira vez que eu e o Aldir nos vimos, muitos anos depois sem nos falarmos assim... ao vivo... o motivo foi o Marco Aurélio... Eu li no jornal um dia antes o anúncio fúnebre da morte do Marco Aurélio... (emocionado) E eu não consegui resolver isso... Ninguém foi capaz de me ligar pra me dar essa notícia... Aí, coincidentemente, nesse dia, eu vou assistir o show dos cartunistas, Chico Caruso, Veríssimo, Aroeira, e o Aldir está lá. Quando o Aldir vem passando, e passa por mim, ele pára e nós dizemos um para o outro a mesma coisa: “Pô... e o Marco Aurélio?”... Simultâneo. Você vê que não interessava o fato da gente estar esse tempo todo sem se falar. A nossa relação continuava inabalável. É como se tivéssemos nos visto no dia anterior. Isso não contava. Mas a primeira coisa que nós nos cobramos juntos, foi o Marco Aurélio. Eu disse... “Pô, bicho, eu soube ontem pelo jornal...” e ele “Isso é um absurdo...” e começamos a conversar...

EG: O Marco você conheceu através do Aldir?

JB: Bem no princípio... Junto com o Mello Menezes... Paulo Emílio foi muito amigo do meu pai também. Ele ia muito à Ponte Nova, meu pai adorava ele... E Paulo Emílio foi um poeta por definição! Aquele poeta do Fernando Pessoa! Ele era o cara! Ele fingia que a dor que ele sentia era a dor que realmente ele sentia!

S: Com ele você fez o quê?

JB: “Nação”, “Coisa Feita”, “Linha de Passe” – a primeira parte é dele!

S: A primeira parte é dele, é?

JB: E só tinha aquela! Começou eu e Paulo Emílio... Aí encontramos o Aldir um dia, mostramos pra ele o samba que se chamava “Made in Brasil” e o Aldir entrou com “Cana e cafuné / Fandango e cassulê / Sereno e pé no chão / Bala, candomblé...”... Ele foi sentando o cacete! Mas aí ele mudou o título. Negócio do Aldir, né? E tem também “Cobra Criada”, né? Elis gravou em Montreux!

EG: Como ninguém!

JB: “Cobra Criada”... “Sudoeste”... “Coisa Feita”... (canta) “Sou bem mulher...”...

EG: João... me diz uma coisa agora... Como é que é a história de compor com seu filho? Quem propôs isso? A que horas isso aconteceu?

JB: Não... Isso ninguém propõe, não... O Chico morava ainda na minha casa. Eu tava tocando uns troços e ele desceu de noite, de madrugada. E ele disse “Eu tenho ouvido você tocar essas coisas aí...”... Ele já escrevia, já tinha publicado um livro... E como o Aldir, era baterista. O Aldir foi baterista e depois percussionista, cujo apelido era Zumbala.

EG: Do Aldir?

JB: É... Zumbala... Todo cara que gosta de letrar e que é percussionista, meu amigo, sai de baixo! Eu trabalhei com gente que não faz noção do que é que é isso! Quando sua música tem muita sílaba, se o sujeito não for percussionista, ele não consegue, ele não entra! E o Chico, vou te falar, ele é afilhado do Aldir. O Aldir é padrinho de nascimento! Lá na certidão tá lá... Padrinho: Aldir Blanc!

EG: E você é padrinho da Mariana, né?

JB: Sou! O Chico é afilhado do Aldir. É canhoto, como o Aldir. E o Aldir, desde o princípio, tem uma espécie de orgulho... É como se fosse filho. Como se ele tivesse parte nisso, né? É um orgulho de família, não é orgulho de admirar apenas... Ele tá preocupado aonde é que o cara vai, com quem ele anda, o que ele bebe... “Ele tá bebendo o quê, João?”, sabe? Então é barra pesada. Ontem eu falei com ele horas... Comecei no telefone sem-fio, acabei no celular, tudo acabando a bateria... (todo mundo ri) Nenhum telefone não resiste a um diálogo com o Aldir! Não acaba nunca! Você acha que acabou e vem outro! Mas o negócio do Chico foi isso... Ele chegou de madrugada... E quando eu comecei a ouvir o que ele sabia do meu trabalho com os meus parceiros, principalmente com o Aldir, quando eu comecei a ouvir os comentários dele, as análises dele, eu disse “esse cara não é bobo!”. Pensei assim... Vou experimentar... Vou dar uma de Vinícius de Moraes. Aí fizemos o “Enquanto Espero” (cantarola). Aí fizemos “Das Mil e Uma Aldeias”... O disco inteiro! Tem recado do Aldir na minha secretária eletrônica, assim: “Jão...” – ele me chama de Jão, elimina o “o” e começa no “ão” – “... eu li o artigo dele na Cult... é foda!”. E desliga. Ele comenta! É só isso o recado! Só isso. Vou te falar, cara... Eu tô lá em casa um dia, três horas da manhã... Eu, tocando, parei de tocar, fui pra janela na frente da casa, tô vendo ali os Dois Irmãos, a rua, o silêncio, e eu olho e tem um tamanduá na porta da minha casa! Dentro da minha casa! Encostado no muro... Um tamanduá. Eu falei, porra, já tô começando a ver tamanduá... Toca o telefone, eu vendo o tamanduá, e a secretária eletrônica acionou e eu ouço o Aldir: “Jão, tá tocando violão ou tá vendo tamanduá?”. (todo mundo ri muito) Tô te falando! Pergunte a ele! Aí eu liguei de volta! “Tem um tamanduá aqui!!!!!” E eu vou te explicar por quê ele falou isso... Eu tinha visto um ouriço, um porco-espinho na minha casa há uns meses. Eu vi o porco-espinho na garagem, subindo no muro, e falei pro Aldir “Pô, o porco-espinho tinha uma bunda desse tamanho...” e ele ficou me sacaneando com isso, porco-espinho, a bunda do porco-espinho, com os espinhos... E quando ele me ligou nesse dia, eu acho que ele queria falar do porco-espinho. Errou no bicho mas acertou na milhar! Ele não acreditou! É que o Aldir quando bebe, de noite, sozinho, ele liga pra uns dois ou três, e eu sou sempre um dos dois ou três, sempre...

entrevista com João Bosco, 17 de janeiro de 2007

LB: João... Tem uma coisa, que vocês faziam, que eu não vejo ninguém fazendo hoje em dia... do cafajeste...

JB: Do “Latin Lover”, né?

LB: Cadê isso, João? Não tem mais isso?

JB: Ninguém apara o bigode, mais, como antigamente, deve ser isso...

LB: Você acha que é porque isso é datado?

JB: Não! Não é datado! São personagens que se comportavam dessa maneira, e aí eles foram ilustrados... Mas hoje em dia você passa aqui, nos dias de semana, nos dias de aula, e isso aqui fica lotado de estudantes e não se têm mais essa relação, nenhum deles tem o bigodinho, ninguém tem o topetinho, ninguém é cafajeste... Ou não é cafajeste nesse sentido... Mas eu acho que isso são detalhes de personagens que quando se compõem esses personagens, eles vêm muito da fantasia do poeta, né? A música ela é mais abstrata. Ela é menos explícita. Ela pode induzir, pode estar tudo ali. Mas eu encontrei um cara que foi meu tradutor! O Aldir sabia de quantos band-aids era feita aquela melodia. Isso é um negócio de parceria, né?

LB: Quantos anos de carreira, João?

JB: Eu me considero no início de 72. “Siri Recheado...” Eu fiz aquele samba e eu tinha um Corcel 76. Aliás eu sei a data do nascimento do meu filho por causa desse Corcel. Eu tenho um Corcel em 76, portanto meu filho nasceu em 76! Igual ao Chico que diz que entra em forma pra jogar pelada e não o contrário, que eu acho genial, e daí eu digo que eu tive um Corcel em 76, daí o meu filho nasceu nesse mesmo ano, senão eu não saberia. Eu fui pra um carnaval na Rio Branco e no trajeto me veio um samba, eu cantando dirigindo... E era o “Siri Recheado e o Cacete”!!!!!

EG: João, ontem eu pus no blog a imagem do roteiro do “Seis e Meia” de 86... Eu tava lá!

JB: Lançamento do disco “Cabeça de Nêgo”... Nesse show eu canto um samba do bôto cor-de-rosa do Costeau, que eu adorava esse samba, e que há muito tempo eu não pego nesse samba e todo dia eu falo pra mim que eu tenho que pegar no samba... Igual ao Paulinho da Viola que eu demorei três anos pra pegar... É coisa de mineiro! Negócio de mineiro, mineiro tem essa preguiça construtiva... Então eu tenho que esperar o momento adequado...

EG: E João, o que é que você está fazendo agora, janeiro de 2007?

JB: Eu tenho uma porrada de músicas prontas, e eu tô tentando fazer um disco com essas coisas inéditas, coisas minhas com o Aldir, coisas com o Chico, tem coisas com o Nei Lopes... Eu musiquei um texto do Nei... que ele vai curtir muito! Que é a história de um trombonista que é o rei do jongo mas que adora jazz. O Nei, pra mim, é um cara muito esperto... Porque ele fez essa letra acho que pensando em mim mesmo... Porque um cara que é jongueiro e gosta de jazz, né?

S: Já que eu sou imperiano, quero te fazer uma pergunta. Você gravou o Silas de Oliveira... Por que o Império?

JB: Quem me levou pro Flamengo foi o Elvis e o Dida, quem me levou pro Império foi o Silas! Quando eu ouvi aqueles discos das grandes escolas de samba do Rio de Janeiro, quando eu ouvi o disco do Império, e ouvi as músicas de Silas de Oliveira eu pirei! Eu pirei com o Silas de Oliveira! Eu queria tocar aquilo toda hora... Aí eu fui pro Império. Quem produziu esses discos foi o Pelão... Só tinha Mangueira, Império, Salgueiro, Portela, esses quatro que o Pelão produziu. Aí veio a Sony e fez das dez melhores escolas. Mas quando eu ouvi esse disco que o Pelão produziu do Império eu pirei com o Silas de Oliveira. Aí comecei a tocar Silas de Oliveira, comecei a procurar as coisas do Silas de Oliveira, aí eu fui pro Império. A comecei a subir a Serrinha. Aí fiquei amigo dos imperianos, aí fiquei amigo de Tia Ira, comecei a freqüentar as lajes onde se faziam os churrascos, comecei a fazer música com os caras, aí pintou uma ligação muito grande com o Império, mas através do Silas. E o Silas continua sendo, pra mim, o grande compositor de sambas de enredo de todos os tempos. Eu acho que aquela gravação de “Heróis da Liberdade” uma gravação muito feliz...

S: Bonita...

JB: Eu gosto daquela gravação... Depois do Pelão...

EG: Mas não é tão bonita quanto a sua gravação do hino do Flamengo no CD do Ary Barroso!

S: Nunca ouvi...

EG: Nunca ouviu?

JB: E aquela gaitinha que tem na gravação é do Ary...

RF: E você, como intérprete, como é que fazer mais de cem apresentações do mesmo espetáculo?

EG: Ah, não se faz mais isso...

JB: É... Isso é difícil...

RF: Esse disco da centésima apresentação me marcou muito, em vinil... E tenho agora em CD...

JB: Não se faz mais esse tipo de coisa... Sair em grandes temporadas...

EG: Grande temporada hoje é de seis semanas...

JB: Nem isso! Só Chico Buarque e Bethânia fazem isso... Todos os outros artistas fazem geralmente de quinta a domingo... Vocês sabem que eu tenho muita vontade de fazer um disco solo agora, depois desse DVD, com banda grande...

entrevista com João Bosco, 17 de janeiro de 2007

RF: E o que é que você tá ouvindo agora?

JB: Então! Ontem eu ouvi “Miudinho”, do Paulinho da Viola, que eu tenho vinil em casa...

RF: O chiadinho da agulha é fundamental, né?

JB: É... (cantando) “Vai, meu samba / Tudo se transformou...” Eu ando tocando esse samba, tirei o samba, toquei o samba até umas duas da manhã... Ontem eu fiquei só por conta do Paulinho! Você sabe que eu ganhei na Loteria Esportiva, né?

RF: Não!

JB: Ninguém sabe disso...

EG: Conta, conta, conta...

JB: Fizemos 13 pontos!

RF: Quando isso?

JB: Fizemos 13 pontos em 1980!

RF: Hoje ninguém mais faz 13 pontos, agora são 14!

EG: Ganharam muito dinheiro?

JB: 13 pontos é sagrado! Loteria Esportiva são 13 pontos, são 13! Eu ganhei um dinheiro compatível com a compra de um apartamento de dois quartos no Jardim Botânico, naquela época! Eu! Metade. Quer dizer que a outra metade também... Então aquele dinheiro daria pra comprar um apartamento de quatro quartos (todo mundo ri)!!! Mas por razões pessoais eu não posso dizer aqui porque é que eu e Paulinho não alardeamos essa notícia e nem fizemos um samba falando disso... (todo mundo ri, João ri muito...). Só jogamos uma vez e ganhamos uma vez! Fizemos um triplo no Vasco e Flamengo, foi a primeira coisa que a gente resolveu na hora de marcar o cartão, que foi pago com cheque, que estávamos duros, o cara fechando a loja... Embaixo do Cine Veneza... O cara fechando a loja e o Paulinho pedindo pra aceitar o jogo... Dois triplos, só! Pagamos o dobro da aposta mínima... 13 pontos! Paulinho pagou em cheque e eu fui pra Cuba com Chico Buarque, Djavan, fui participar do Festival de Varadero... Passamos 15 dias em Cuba. No primeiro domingo, Paulinho em casa, 1, 2, 3, 4, 5, 12, 13, caralho! E eu ainda tinha mais sete dias em Cuba. O cartão tava em nome da minha mulher, que na hora que a gente jogou eu disse “Não bota o meu”... Eu só me dou na música, no jogo eu não tô com nada. Paulinho não quis o dele, não quis o da Lila, mulher dele... Eu falei “Bota no nome da Ângela!”... E a gente em Cuba, o Paulinho pirou!!!!! Foi uma grana, bicho, muito legal... Agora, fazer 13 pontos com Paulinho da Viola é fazer 13 pontos duas vezes! E agora eu quero fazer um disco assim, tocando... Tem um samba novo do Aldir comigo nesse disco chamado “Sonho de Caramujo”...

EG: Tá pronto?

JB: Pronto!

EG: Mostra aí!

João pega o violão, afina, começa a cantar “Sonho de Caramujo”, a mais nova parceria com Aldir Blanc.

JB: Ele sonhou comigo... “Sonho de Caramujo”... E eu morava dentro do violão... Eu musiquei o sonho dele... E o tom desse samba remete aos puxadores da antiga, né? Tá sempre no limite... (canta de novo)... Porra... “caramujo musical”...

EG: Pô, João... você falou dos puxadores da antiga... Um dos sambas seus que eu mais gosto é “Da África à Sapucaí”...

João canta. Todo mundo aplaude, o e o bar, a essa altura, já se vira pra nossa mesa.

JB: Eu adoro esse samba também! E esse, que eu não paro mais de cantar!

João canta “Tudo se Transformou”, de Paulinho da Viola. Visivelmente à vontade, canta “Ingenuidade”, sucesso na voz do imperiano e saudoso Roberto Ribeiro.

JB: É lindo esse samba, né? Foi gravado também pela Clementina em 77...

S: O Edu outro dia tentou me ligar de São Paulo pra que eu cantasse “Boca do Sapo”...

João canta. Eu ligo pro Szegeri, que estava comigo quando liguei de São Paulo pro Simas, e ele ouve o samba ao vivo, pelo celular! E o João ainda fala com ele!

S: Maravilha! Agora, cá pra nós, heim! O Aldir aí dá uma lição de um trabalho... (e ri)

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JB: E eu recentemente mudei a introdução... (e cantarola, rindo muito)

LB: Toca um Noel Rosa aí...

João canta “Pra quê Mentir?”.

JB: Escuta esse samba!

Canta “O Filho do Alfaiate”, de Noel Rosa. Emenda com “Amigos Novos e Antigos”, parceria com Aldir Blanc.

JB: Pô... nossa conversa então já foi pro caralho, né?

(todo mundo ri muito)

RF: Mas foi ótima!

EG: Digão, então fecha oficialmente!

RF: Fecha você!

(todo mundo ri)

S: Eu fecho! Eu fecho! Em nome de Eduardo Goldenberg e de Rodrigo Ferrari, dois flamenguistas, nós encerramos aqui essa entrevista maravilhosa, com João Bosco, no dia 17 de janeiro de 2007, estamos no Bar do Pires, oficialmente chamado “Rainha do Mar”, com o João Bosco no violão, com Rodrigo Ferrari, grande Eduardo Goldenberg, Leonardo Boechat, já emocionado, totalmente alcoolizado, absolutamente alcoolizado (ri), estamos juntos aqui. É isso aí...