31.8.07

EU SOU UM HUNO

Como lhes contei ontem, aqui, o JB deixou de publicar Aldir Blanc, deixou de publicar Nani. Com isso, disse eu, o outrora aguerrido jornal carioca se mediocriza de maneira aguda. Agudíssima, eu diria. Hoje, sexta-feira, ao ler o Caderno B do JB, senti o peso do vazio. E para que salte aos olhos a mediocridade que grassa, sintam, comigo, o peso desse troço...

Na terça-feira, dia 28, recebi email de um amigo de São Paulo.

Pausa rápida... Não se trata do Szegeri, infelizmente. Não falo com o Szegeri, um verdadeiro iglu em matéria de sentimento, há semanas. E não há quem o demova dessa retração, desse isolamento, desse sumiço. Dito isso, sigamos.

O email a que me refiro dizia, apenas, o seguinte:

"Edu, esse artigo saiu na Folha de São Paulo de hoje. Divirta-se no esculacho!!!"

E fui ler o tal artigo...

Li. Li e digo a vocês que é, de fato - meu amigo foi preciso! - merecedor de esculacho. Dirão alguns que estou, de novo, acendendo muita vela pra pouco defunto. E de fato estou. Mas se lamento vigorosamente a saída do Aldir do JB, se lamento o afastamento do Nani do mesmo jornal, se digo que com isso o JB se mediocriza, igualando-se aos demais jornais, sinto-me - em nome da precisão que me é companheira - na obrigação de apontar o dedo e dizer: eis a mediocridade que se espalha como metástase!!!!!

Tentarei ser preciso e didático.

Já em março deste ano de 2007, chamei a atenção para esse projeto nefasto que atende pelo nome de AMORES EXPRESSOS, leiam aqui. O coordenador editorial dessa coisa, João Paulo Cuenca - que também escreve n´O GLOBO - vão tomando nota da coerência de tudo... - laureou (lendo meu texto vocês saberão mais sobre a vergonha) quinze amiguinhos com viagens de trinta dias para o exterior, com tudo pago. João Paulo Cuenca convidou quinze amiguinhos mas são dezesseis os afortunados pelo - pausa para o vômito - projeto. Um desses dezesseis é ele mesmo, que se escolheu.

Entre os dezesseis agraciados, também, Cecília Giannetti, de quem já falei aqui. A Cecília Giannetti (que chama João Paulo Cuenca de patrão... vejam aqui...), que quando é convidada para dar uma palestra abre a boca pra sair alguma coisa - a triste e lamentável figura é criação dela... - é quem assina a tal coluna a que se referiu meu amigo no email que recebi.

Um poço de preconceito, de soberba e de presunção, eis o teor da coluna, cujo título é HUNOS. Os grifos são meus, o preconceito é dela.

"O que quero eu dizer ao chamar de hunos meus vizinhos? Que vivo e trabalho em rua movimentada - por eles. Que o paraíso artificial deles é a temporada no inferno de quem tenta ler, escrever ou mesmo assistir a um DVD com o volume da TV marcando 29. Que a minha agenda de trabalho precisa ser refeita constantemente para acomodar as oscilações na rotina de farras da vizinhança.

Se chegam cedo ao bar da rua - em torno das dez da manhã-, por volta das cinco da tarde eles vão para casa, depois de terem cantado Ana Carolina, Zeca Pagodinho e/ou Chico Buarque batendo palmas fora de ritmo; de terem brigado; de terem torrado a paciência de todo um prédio, a ponto de seus moradores se transformarem naquilo que, quando jovens, ninguém imagina que será um dia: a pessoa que, pela janela, joga um balde d'água nos bêbados.

Os hunos não são jovens. Dizem até que ali, em meio à baderna diária, está sempre uma professora de graúda universidade federal. Quero crer que não há, pois as discussões -escuto todas- têm o nível de um talk-show ambientado sobre um pau de galinheiro.

Porém, em torno do bar eles estacionam carros bons. Há, portanto, algum dinheiro. Há uma cidade imensa, cheia de melhores bares e lugares. O que me faz quicar entre quatro paredes com censura em forma de perguntas: por que não pegam esses carros, esse dinheiro e essa disposição toda e vão à praia roer queijo coalho no palito? Ou almoçar em Santa Teresa, em vez de subsistir de uma dieta restrita a ovo rosa e lingüiça frita servida no prato de plástico? Um shoppingzinho? Um cineminha? Um café de livraria, já que há entre eles - dizem, dizem...- uma professora universitária?
(E aqui tenho a plena consciência de soar como aquele tipo de síndica coroca que, além de atirar baldes d'água pela janela, fura as bolas que as crianças da rua deixam cair no seu quintal).

Se os hunos partem "cedo" - ou seja, ainda à tardinha-, tenho a noite para trabalhar ou dormir. Se chegam à tarde, minha noite será dedicada a ouvir seus colóquios, angústias de casais desafinados que já não entendem mais quem começou qual baixaria e se acusam de bobagens mesquinhas. Os hunos são uma festa móvel.

Se a ópera ocorrer às primeiras horas da madrugada, os hunos não estarão no bar pela manhã. Aí, calculo que posso dormir mais ou menos por cinco horas e então começar a trabalhar. Até o meio-dia, quando eles retornarem, descansados e esquecidos de tudo o que disseram e fizeram na noite anterior.

Se a última cantoria e/ou debate ocorrer no começo da noite, porém, isso significa que poderei escrever durante a madrugada e dormir até às dez horas da manhã. Às dez da manhã o bar já estará aberto, recebendo as primeiras vedetes desse grupo tão divertido - "síntese do carioca", se levamos em conta a maioria dos cronistas. Salve, simpatia."


Um nojo, vê-se.
Pelo visto, na visão da moça, essa porra toda só pode acontecer na Mercearia, em SP, quintal dos bacanas antenados com a produção cultural...

Até.

30.8.07

E O JB SE MEDIOCRIZA...

É puto dentro das calças, ainda revoltado com a indicação de Carlos Alberto Direito para ocupar a vaga vaga (é de propósito!) no STF (pra quem não se lembra, o douto magistrado foi Secretário de Educação do governo Moreira Franco - a única pessoa no mundo que não tem serventia alguma, apud Fausto Wolff - e responsável direto pelo desmonte dos CIEP´s) que transcreverei, hoje, mais um brilhante texto de autoria desse monstro que atende pelo nome de Aldir Blanc, glória da música brasileira, gênio das letras cariocas, de quem sou dileto amigo.

Este texto, meus poucos mas fiéis leitores, seria - eu disse seria - publicado no JB de amanhã, como de costume. Acontece que o outrora glorioso JB prossegue sua queda livre, ladeira abaixo, se mediocrizando a olhos vistos. Junto com o Aldir, o jornal dispensou, também - notem minha elegância... - o Nani.

O JB faz, assim, sua infeliz opção, e alia-se a essa prática cada vez mais comum nos jornais brasileiros - e falo aqui, particularmente, dos cariocas: o de dar voz e vez a quem não tem nada de interessante, de substancial, de importante - rigorosamente nada - para falar. Gente que diminui o jornalismo.

Com a palavra, então, Aldir Blanc, que terá a palavra, aqui no balcão do BUTECO, sempre que quiser:

"MAIS VELHINHOS BIRITEIROS

Desde que os amigos Jaguar e Fausto Wolff ficaram impossibilitados de beber por ordens médicas e me pediram para honrar seus múltiplos compromissos etílicos, tenho me esforçado para fazer jus a esse trabalho. Eu, um vira-latas da Zona Norte, vertendo underbergues e steinhagers, que não são a minha praia, jogando no ataque por um Jaguar e um Lobo... Devo confessar que, de uma semana para cá, não os representei com o senso de profissionalismo que a nobre tarefa exige. Eu vinha entrando no quarto de muletas (joelhos com síndrome de Torres Gêmeas) e vi no chão, tarde demais, “A Vontade de Poder” de Nitzsche. O cirurgião que me operou em 1991 havia feito a advertência:

- Coisas largadas no chão, uma folha de jornal, livros, uma peça de lego, tudo isso pode ser mortal!

Bom, a muleta deslizou no Nietzsche (tá aí uma expressão bacaninha: hei, cara, tu tá deslizando no Nietzsche, tipo “escorregou na maionese”) e levei um tombo digno de um trapezista - sem redes. Agora, só chamo o tal livro de “Vontade não é Poder”. Fiquei uns dias sem biritar, tomando remédios mais destrutivos que a cervejinha e, não mais que de repente, li uma frase extraordinária do Jaguar, solta no meio do texto “Lucro Líquido”, que nem terrorista larga mala com bomba em saguão de aeroporto: “dias intermináveis”. É a pura verdade e dói mais que o retrato de Itabira na parede do Poeta. Pensei em meus dois companheiros de infortúnio, ergui-me do leito e tomei, pela ordem, uma pilsen Therezópolis Gold, uma Original, e uma belga Stella Artois . Pouquinha coisa, mas não é que o danado do dia passou mais rápido?


DISNEY WAR

Leio que os norte-americanos montaram um parque temático semelhante ao, pasmem, Iraque, logo na Louisiana, onde cabra pasta Cheetos. Gastaram uma nota preta. Que desperdício! Bastava o Bushetta no poder usar a cidade destruída pelo furacão Katrina, Nova Orleans, que ficou – a parte mais pobre e negra – dias sem socorro, com cadáveres boiando pelas ruas, graças à omissão do Comandante-em-Chefe das Forças Armadas de lá. Parece que Nova Orleans chegou a ser cogitada mas um tecnocrata objetou:

- O clima do Iraque é mais seco.

Bobagem. As ruas de Nova Orleans estão encharcadas de sangue.


A FLORESTA DE BIALOWIEZA PUSZCZA

Economia de “mercado”, “liberdade” de comércio, neo-liberalismo, tudo somado é igual a caos. Lendo “O Mundo sem nós”, de A. Weisman, descubro que a floresta acima resistiu a séculos de domínio polonês, à Primeira Guerra Mundial, à invasão soviética, à caça predatória e destruição de madeiras nobres, promovidas por nazistas loucos de fome e frio, etc. Só não resistiu à democratização da Polônia, cujas otoridades, depois de restaurados os “livres” isso e aquilo, começam a destruí-la. O argumento é digno de um José Sarney: “Estamos cortando a madeira para restabelecer o caráter original das árvores”. A Polônia está ferrada. Seus políticos mentem mais que Réu-nan Ca(n)galheiros, o que não é brincadeira. Enquanto isso, Vargas Llosa escreveu um artigo precioso denunciando o regime “autoritário e racista da Rússia de Putin”. A grande contribuição da queda dos soviéticos foi o afluxo de estrelas para o cinema pornô norte-americano. Se considerarmos que Baby Bush criou cárceres secretos na Polônia e na Romênia para melhor torturar e matar, não estamos tão distantes assim da Cortina de Ferro. Quando a coisa piorar, Bush Mouse corre pro bunker (Bunker... onde foi que eu li essa palavra antes? Ah, que memória a minha! Foi o esconderijo final de Adolf Hiltler).


EDUFARDO AZEDINHO

Pois é, senadô Azeredo, é possível que os que se esforçam para dar uma cara verde e amarela ao Canal Brasil lhe pareçam desinteressantes – mas também não estamos metidos com a caixa 2 de campanha do “publicitário” Marco Valério. Uma sensível diferença entre nós e Vossa Excrescência, não acha? Por isso, nós do Canal Brasil, nos sentimos honrados com sua defecção (não confundir com defecar. Isso o senadô já faz no mandato). Há momentos, na vida pública brasileira, em que são preferíveis os Bob Jeffersons e os Réu-nans. Pelo menos não bancam o santinho do oco (não acredito que farsantes desse calibre tenham pau).

Aldir Blanc"


Até.

29.8.07

FESTA FECHADA, SINUCA DE BICO

Conforme eu já havia lhes contado aqui, aqui e aqui, foi ontem, e foi ótima!, a festa de aniversário, a comemoração oficial, o rega-bofe restrito, a pândega particular, a reunião mais fechada que cabaço de Honório Gurgel, apud Aldir Blanc, na qual Rodrigo Ferrari, esse poço artesiano de doçura, recebeu não mais do que vinte amigos para - notem que clássico! - soprar quarenta velinhas.

E por que festa fechada - alguns hão de perguntar -, por que sinuca de bico, por que esse título para o texto de hoje? Vou explicar, como sempre. E com a precisão que me é companheira.

Antes, porém, brevíssima digressão.

Adivinhem se o Szegeri veio...

Não.

Não veio e não telefonou - estou falando de um mísero, um árido e único caridoso telefonema - para desejar um gélido e protocolar "parabéns". E isso, meus poucos mas fiéis leitores, isso depois de uma semana inteira de apelo público para que o fizesse. Depois de dezenas de emails sem qualquer resposta. Depois da intervenção - eu sei que houve, e mais de uma! - de alguns amigos que, solidários com a ansiedade ferrariana, cutucaram Fernando Szegeri, esse iglu - não é um homem, mas um iglu! -, implorando atenção a meus pedidos. Voltemos ao palpitante tema de hoje.

No sábado, durante a comovente festa pública realizada na rua do Ouvidor - leiam aqui sobre a festa - o Digão veio a mim, à certa altura, em desespero, as mãos enormes esfregando o rosto:

- Pô, velhinho... Tu me criou mó encrenca...

Eu, que já sabia do que se tratava, disse apenas:

- É? E o que é que tá pegando?

- Tá todo mundo vindo me perguntar sobre a festa de terça-feira, velhinho...

Eu, sem tirar os olhos do fundo do copo:

- Manda vir falar comigo. Fala que eu tô organizando.

E ele então sorriu aliviado:

- Beleza, velhinho!

E tascou-me um beijo na testa.

Chegam-se, então, menos de dez minutos depois, dois caras a quem eu não conhecia. Eu não os conhecia e tinha certeza absoluta de que o Digão também não os conhecia. Além de nunca tê-los visto, um verdadeiro amigo, ou mesmo um colega eventual, não se prestaria a tal papel.

Um deles - os dois, um com o braço por cima do pescoço do outro - abrodou-me com tapinhas nas costas, arma antiga dos caras-de-pau mais toscos.

- Você que é o Edu, do BUTECO?

Não respondi mas ergui os olhos.

- Então... qual é a dessa festa fechada de terça-feira?

Aí eu me animei:

- Pô... fala baixo aí...

Eles se entreolharam, empolgados, e concordaram comigo com meneios de cabeça.

Continuei, falando baixinho, pondo os braços em torno dos dois:

- Vocês não estão sabendo?

E eles numa excitação louca:

- Não! Não!

E eu:

- De nada? De nadinha?

Quase malucos:

- De nadinha! Conta, conta, conta!

- Não sabem de nenhum detalhe?

Sôfregos e juntos:

- Não...

Daí eu levantei a cabeça, desfiz o círculo que formávamos e disse:

- Então...

Pigarreei, dei um vigoroso gole de cerveja e emendei:

- ... é porque vocês não foram convidados. Estão limados. Estão fora...

Precisei repetir tal performance mais umas três ou quatro vezes.

O que foi - Digão há de concordar comigo! - conveniente. A festa de ontem - minha bisavó diria - não teve um senão!

Até.

28.8.07

MENINO DE 67

Eu digo sempre, e não deixarei de dizer nunca - e isso é fruto da educação que recebi, que me fez desse jeito, um homem com constante necessidade de agradecer e de ser grato - que a Sorriso Maracanã, a mulher que me ensinou a sorrir, a mulher que fez com que eu me considerasse incapaz de merecê-la - era demais para meus anseios... -, me fez (e me faz, diariamente) um homem melhor. Faço o intróito para falar desse poço artesiano de doçura, Rodrigo Ferrari, que aniversaria hoje.

Dani sabe que sou homem de poucos amigos. Dani sabe que tenho, neles, um de meus maiores tesouros. E Dani sabe, também, que tenho extrema preocupação (e quem não tem?) com meus gestos, na expectativa constante de que todos eles sejam capazes de traduzir, precisamente, o que sinto.

E digo isso porque, nas semanas que antecederam o dia de hoje - lembrem-se de que eu venho tratando o Rodrigo como se ele mesmo fosse o reveillón fora de época -, uma angústia olímpica me aplacava: dar o quê de presente ao malandro?

E isso porque, aos 40 anos, pai de um moleque maravilhoso - o Miguel Folha Seca, leiam sobre ele aqui -, sócio da mais carioca das livrarias, a Folha Seca, encravada na mais carioca das ruas, homem que é verdadeiro amálgama de gente da melhor qualidade que bate ponto ali, no 37 da rua do Ouvidor, sujeito capaz de ganhar, ao longo do ano, presentes irretribuíveis de todo mundo que se encanta com o jeito do menino que se esconde atrás daquele corpanzil, Rodrigo Ferrari tem de tudo.

E é aí - nesse remoinho em busca do presente e do gesto ideal - que entra minha menina.

Rodrigo Ferrari, 15 de julho de 2007

Dani sabe - e isso talvez seja, mesmo, um de meus gravíssimos defeitos - de meu apego aos meus livros, aos meus discos, às minhas coleções, aos meus registros. Sabe que nutro verdadeira paixão, amor - sabe-se lá... - por tudo isso.

E Dani sabe - como sabe das coisas, minha menina... - o quanto eu gosto desse caboclo que torna-se, hoje, um quadragenário.

Razão pela qual me fez ver o óbvio, mediante simples equação de sentimentos e de gestos. Disse-me, com o sorriso mais bonito do mundo, fazendo festinha em minhas mãos:

- Dê a ele, meu querido, um presente irretribuível... Você não gosta tanto de recebê-los?

E vendo-me atônito diante da iminência de me separar de um objeto que me é tão caro, disse-me ainda mais doce:

- Ele vai gostar, Edu...

Amanhã parto em direção à rua do Ouvidor, pra dar um abraço de tamanduá no cara, levando, embaixo do braço, seguramente, um dos maiores xodós da minha coleção do que chamo raridades. Levei muitos anos em busca do troço, tão difícil é (e foi) encontrar a coisa. Difícil como ele, um sujeito raro, cada vez mais raro nesse mundo cada vez mais fútil.

E parto com a certeza de que o tesouro, datado de maio de 1972, quando Digão tinha ainda 4 anos, e eu apenas 3, será capaz de dizer a ele exatamente o que eu não consigo, agora, embaraçado por tudo, por esse turbilhão que me arremessa ao passado nessas ocasiões, escrever.

Até.

PÉ LIMPO? NÃO. PÉ PODRE.

nota publicada em O GLOBO de 28 de agosto de 2007

27.8.07

ELE MERECIA QUE FOSSE COMO FOI

Ele merecia que fosse como de fato foi. Ele merecia que a festa transcorresse num dia de céu claro, com a rua cheia, com os amigos presentes, ele merecia a roda de choro e a roda de samba, ele merecia o filho presente com um sorriso idêntico ao dele, ele merecia o olhar orgulhoso da mãe, ele merecia o desfecho perfeito, no interior da livraria do meu coração, a Folha Seca, nome gravado no peito do malandro, merecedor daquela boniteza toda, tremendo poço artesiano de doçura, o quase-quadragenário, Rodrigo Ferrari.

Rodrigo Ferrari, 25 de agosto de 2007, na rua do Ouvidor

Debruçado, diversas vezes, nas sacadas da centenária rua do Ouvidor, a mais carioca das ruas, o malandro esteve, mais que nunca, senhor de si. Distanciava-se, vez por outra, e eu percebi em diversos momentos os olhos marejados, para observar aquela beleza, aquela festa, aquele movimento de pessoas que atestavam - como se preciso fosse - a vocação do Rio de Janeiro para fazer festa na rua. E eu imagino a emoção do cara, um dos sujeitos mais sensíveis que conheci (agradeça-me, seu puto!). Ele era a razão da festa, e cada copo erguido (e foram muitos, e incontáveis vezes...) foi à sua saúde, e cada sorriso, e cada abraço, e cada acorde, e cada emoção, desagüava nas mãos imensas do caboclo, que não escondia o orgulho por aquilo tudo.

roda de samba na rua do Ouvidor

A quantidade de gente querida por metro quadrado não cabe num simples texto. Dar o nome de um, dar o nome de outro, será tarefa inglória que não quero enfrentar. Basta o que já enfrentei no sábado, eu que sou - e a cada dia esse troço piora - um emotivo incorrigível.

Emocionei-me em vários momentos.

Desde quando cheguei, às onze da manhã, para dividir com o malandro a ansiedade pelo que viria.

E até às dez da noite, quando de lá saímos, eu e minha Sorriso Maracanã, embriagados de tanta coisa boa e felizes pelo presente que a vida nos deu.

rua do Ouvidor, 25 de agosto de 2007

Amanhã, quando o malandro completa quarenta anos, estarei - sou, já disse, incorrigível, além de previsível para o enfrentamento de determinadas situações... - rigorosamente emocionado e bobo.

Dia de dar presente pro cara. E de agradecer, no fundo é isso, pelo presente que ele é.

Até.

26.8.07

RUA DO OUVIDOR

Prefiro deixar para falar sobre a festa de ontem, na mais carioca das ruas da cidade, durante comemoração dos quarenta anos de um dos homens mais cariocas que conheço, esse poço artesiano de doçura que atende pelo nome de Rodrigo Ferrari, somente amanhã.

Mas não resisto ao ímpeto de dividir com vocês, com orgulho, a imagem desse menino, Tiago Prata, em video que pode, também, ser visto aqui.


Até.

25.8.07

24.8.07

A OBSESSÃO DA CASA CHEIA

Acordei há pouco, e animadíssimo. E acordei animadíssimo porque chega hoje, depois de uns dias fora, a trabalho, a mulher que me ensinou a sorrir. Eu penso nesse exato instante nessa mulher, a que me ensinou a sorrir, e sorrio, como um néscio, olhando para um de nossos retratos ao alcance da minha visão, agradecendo, nem eu mesmo sei a quê (ou a quem), por sua presença em minha vida. Eu, que durante anos vivi sob o jugo de vacas que tentaram, sem êxito, destruir meu pasto, sou um homem de sorte por ter a meu lado, hoje, uma mulher como a minha garota. Feita a efusiva declaração pública de amor, vamos seguir.

Eu vinha dizendo que acordei animadíssimo. E acordei animadíssimo, também, porque hoje é sexta-feira. E às sextas-feiras - não vou me estender sobre o assunto - a cidade parece sorrir. E acordei animadíssimo, por fim, porque sei que amanhã, sábado, haverá uma festa que há de entrar para a história da minha mui amada e leal cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro: diante da livraria Folha Seca, a partir das 13h, comemorando seus 40 anos (a comemoração MESMO será apenas no dia real de seu aniversário, numa festa mais fechada que cabaço de Honório Gurgel, apud Aldir Blanc), Rodrigo Ferrari, esse poço artesiano de doçura, receberá Wilson Moreira (que aproveita a oportunidade para relançar o seu PESO NA BALANÇA, lançado em 1986, seu primeiro LP individual) em meio a uma roda de samba e choro que promete. Feita, portanto, a efusiva declaração pública de amor e a convocação para o furdunço de amanhã, vamos seguindo em frente.

Acordei há pouco, como disse.

E recebi email do seguinte teor:

"Meus amigos,

todo mundo já está sabendo do lançamento do CD do grande Wilson Moreira aqui em frente à loja, amanhã à tarde. O que nem todo mundo sabe é que nesse dia também vou comemorar os meus quarenta anos. Sei que muitos estão longe mas espero que os que possam vir curtam uma tarde/noite memorável de samba e alegria.

Abraços,

Rodrigo"


Preocupou-me - confesso - o teor da mensagem acima transcrita. E explico.

Rodrigo Ferrari, 15 de julho de 2007

O quase-quadragenário, um homem que guardo na alma como um dos grandes tesouros que a vida me deu - e eu atribuo a enxurrada de coisas boas em minha vida à chegada da minha Sorriso Maracanã a meu terreiro -, está visivelmente preocupado com o público que comparecerá à sua festa.

Age, quando pensa nisso (e eu sei que ele pensa nisso obsessivamente), como a criança de sete anos de idade que deseja ver o playground do prédio lotado de amiguinhos no dia de sua festa de aniversário.

Apela, pateticamente, pela presença maciça de seus convidados. Eu ia dizer amigos mas decidi usar, mesmo, a palavra convidados (ninguém pode imaginar ter tantos amigos). Ele valeu-se de malas diretas, mandou imprimir dez mil filipetas que vêm sendo distribuídas, desde segunda-feira, pelo Centro da cidade, tem passado as manhãs, as tardes e as noites numa espécie de comício auto-promocional incessante. Conseguiu, até o momento, o que parecia impossível: mobilizar todo o comércio da rua do Ouvidor, que não abre aos sábados (salvo uma ou outra exceção), e que crê obter, amanhã, o melhor faturamento da história.

Daí eu recebo esse email e bato o telefone pro meu amigo (ele é, de fato, meu amigo, a quem amo agudamente às vésperas de seus quarenta anos):

- Bicho, que email é esse? - perguntei rindo.

- Ô, velhinho... você não gostou? - a voz trêmula.

Pausa no diálogo: eis aí uma característica do Folha Seca... A preocupação contínua com a opinião alheia.

- Não é isso, querido... - continuei rindo.

- O que foi? Algum erro de português? - tenso, nitidamente tenso.

- Não, malandro, relaxa... Mas quem são os muitos que estão longe, querido?

Um silêncio do outro lado da linha.

Eu fiz, de propósito, barulho enquanto bebia o café preto de todas as manhãs. E provoquei:

- Quem, mano?

Ouvi a primeira, a segunda, a terceira fungada, quando meu irmão querido explodiu num choro.

- O Szegeri, porra! O Szegeri!

Eu espicacei:

- Mas... - pigarreei - você espera que ele possa vir para curtir uma tarde/noite memorável de samba e alegria? - repetindo palavras insertas no email.

- Ele tem que vir, Edu, pelo amor de Deus, ele tem que vir...

E isso foi dito, meus poucos mas fiéis leitores, aos prantos. As palavras custavam a sair e eu ouvia a voz truncada, o choro embolado, em tom de desespero, imaginava o cuspe e a baba escorrendo pela barba sempre cerrada do malandro, e tive pena.

Fecho com uma confissão...

Tento, desde a segunda-feira, contato com Fernando Szegeri. Mando emails, telefono, deixo recados na repartição, deixo recados em sua casa, mando mensagens pelo celular, e nada.

O homem da barba amazônica recusa-se a me atender e, conseqüentemente, a atender o apelo óbvio, de que venha ao Rio de Janeiro. Para o bem do aniversariante.

Imploro aos queridos de São Paulo que façam chegar ao homem este texto e este apelo.

Até.

23.8.07

A OBSESSÃO DO FOLHA SECA

Agora que já dei minha porradinha habitual no homúnculo, aqui, vou retomar o trilho da semana, em que todas as lentes, todas as atenções e todas as expectativas estão direcionadas para esse poço artesiano de ternura, esse menino e esse gigante, que atende pelo nome de Rodrigo Ferrari, um quase-quadragenário. Eu digo quase-quadragenário e não posso deixar de fazer a chamada para a primeira festa de comemoração de seus quarenta anos, que acontecerá no sábado, na rua do Ouvidor, diante da livraria Folha Seca, número 37, com roda de samba comandada por Wilson Moreira e com direção musical do meu garoto, Tiago Prata, filho também do aniversariante. Eu digo primeira festa e não posso deixar de dizer da minha alegria por ter sido convidado para a segunda festa, que acontecerá no dia de seu nascimento (há quarenta anos, não é demais frisar o redondo do número), mais fechada que cabaço de Honório Gurgel, apud Aldir Blanc.

Mas vamos aos fatos.

Ontem, eu que estou sem a fundamental companhia da minha Sorriso Maracanã, embelezando Curitiba desde a noite de segunda-feira, convidei o Digão para jantar lá em casa. Convidei o Digão para jantar lá em casa para que o jantar fosse entendido como parte das comemorações e do presente por seus quarenta anos. Fiz o convite por telefone e eis o que ouço como resposta:

- O Szegeri vai estar lá?

É bem verdade que ele, sem jeito diante da aguda falta de educação, desculpou-se em seguida.

As horas do dia passando e bateu-me o telefone o Vidal, convidando-me - vejam como são as coisas! - para jantar - leiam sobre ele aqui. Convoquei-o, o convite foi aceito, e eis que jantamos, então, os três.

Quero confessar a vocês, diante do balcão imaginário do BUTECO, que eu me esmerei.

Bebericamos Red Label (que o Digão sorvia com a sofreguidão do menino diante de bolas de sorvete), servi alheiras artesanais de entrada, preparei uns suculentíssimos bifes argentinos acompanhados de batatas gratinadas, abri uma garrafa de Malbec 2006, argentino evidentemente, até que perguntei à certa altura, constrangido diante do silêncio do homenageado, que fez EXATAMENTE essa cara quando perguntei:

- Tá gostando?

Rodrigo Ferrari, 2007

- Não.

O Vidal tossiu pra não rir.

- Não? - perguntei puto.

- Não.

A expressão mantinha-se a mesma, os olhos cabisbaixos, a boca num desenho de lua minguante, e ele prosseguiu:

- Eu quero o Szegeri.

Francamente, vocês vejam bem.

O Folha Seca está recebendo um tratamento de reveillón. As pessoas têm passado por ele na rua, esbarrado com ele nas esquinas, procurado por ele, todas com a ânsia e a obsessão da meia-noite do dia 27 de agosto:

- Tá chegando, hein!

- Quarenta! Quarenta!

E ele - eis o que é inacreditável e eu diria que inconcebível - com essa obsessão insuportável de só querer o Szegeri.

Pediu-me, na hora de ir embora, já no corredor e já diante do elevador, e aos gritos - para desespero de vizinhas que abriam as portas em busca da causa de tamanha balbúrdia:

- Me dê o Szegeri de presente, Edu. Traga o Szegeri. Pelo amor de Deus... o Szegeri... - e dizia isso bêbado, atarantado, enrolando a língua de maneira vexaminosa.

Quando despediu-se, aliviado eu fechei a porta.

Mas qual o quê!

Menos de cinco minutos depois estrila o interfone:

- Alô?

- Edu?

- Eu.

- É o Tião, Edu.

- Fala, Tião.

- Esse seu amigo que acabou de sair...

- O que é que tem?

- Pediu que eu interfonasse praí e...

- O que houve, Tião?

- ... lembrasse a você de não esquecer de trazer pra ele o...

- Fala, Tião!

- Não sei o nome...

- Szegeri?

- ...isso! Isso!

Vejam vocês a que ponto chegamos.

Até.

E PROSSEGUE, O JOTA

Jota (maiúsculo apenas por estar no início da frase), o pernicioso - leiam aqui -, com o auxílio de três estagiárias, escreve, hoje, de novo, em sua perniciosa coluneta em O GLOBO, mais uma nota que posso classificar, sem medo do erro, como abjeta, repulsiva, baixa, ignóbil, desprezível.

Não há, na referida nota, nada que seja irônico, como pretendeu me fazer ver um anônimo (também abjeto, repulsivo, baixo, ignóbil e desprezível como são todos os que se valem do anonimato), quando comentou, justamente, o texto JOTA: PERNICIOSO, que pode ser lido aqui.

nota publicada no Segundo Caderno do jornal O GLOBO em 23 de agosto de 2007

O que há, na nota, é o mesmo que tem havido (ainda que implicitamente) desde o primeiro dia de uma das colunas mais inúteis da imprensa escrita: aversão às coisas mais simples, nojo pelo povo carioca, desprezo pelas mais caras tradições da cidade, publicidade gratuita (será?) de tudo o que não presta.

Até.

22.8.07

SINAL DOS TEMPOS

Ontem lhes contei, aqui, sobre o domingo passado. Omiti, por ser, naquele momento, um fato rigorosamente divorciado do caminho que trilhei no texto, que à certa altura fomos lá pra casa eu, Rodrigo Folha Seca, Prata e Simas, para assistirmos ao jogo entre Flamengo e Palmeiras. Estávamos no Rio-Brasília e o Digão, agoniado, batia com quatro dedos da sua enorme mão direita no próprio pulso da sua igualmente enorme mão esquerda, sem relógio (trata-se de vício gestual, evidente), gritando, rouco como sempre (a rouquidão do Digão é permanente, o que faz dele um sujeito com uma constante e aguda saudade do Pedro Bloch, nosso maior foniatra):

- Tá na hora, tá na hora! Faltam dez minutos! Vamos, vamos, vamos!

Fomos.

Nem bem sentamos no futon (Dani obrigou-me a comprar um no ano passado, como lhes contei aqui), antes mesmo do apito inicial, ouvimos o ronco.

Rodrigo Ferrari, Tiago Prata e Luiz Antonio Simas, 19 de agosto de 2007

O Simas, que é botafoguense, bocejava mas assistia ao jogo. O Prata, rubro-negro como o pai, tirou as sandálias (tem os pés mais feios do mundo, o meu garoto), jogou-se sobre o futon e manteve os olhos na telinha. Eu, bebericando meu Red Label tranqüilamente, acompanhava lance a lance. O Digão, não. O Digão, num gesto clássico dos idosos, à beira dos quarenta anos, ressonava, roncava, assobiava, babava, para delírio do menino Prata, que espicaçava:

- Fotografa, pai! Fotografa!

Eu, corujíssima, fotografava.

O Flamengo sofreu o primeiro gol e logo empatava o jogo.

- Gooooooooool! - gritou meu garoto.

Nosso Folha Seca, nada.

O Prata, pra me comover ainda mais (sou um sentimental com as demonstrações do amor filial), chamou o Pepperoni:

- Peppinho, vem com seu irmão, vem!

O vira-latas saltou espetacularmente sobre o futon, pisoteando, solenemente, a barriga do Digão que, não é demais repetir, sequer se mexeu.

Rodrigo Ferrari, Tiago Prata e Pepperoni, 19 de agosto de 2007

Fim do primeiro tempo.

- Vamos pro Estephanio´s? Tenho que tocar às seis! - disse o responsável Prata.

E quem conseguia acordar o quadragnário?

Simas cutucou o malandro, que limitou-se a dizer:

- Um maracujá e uma Brahma!

Depois de muito, sonolentíssimo, bocejando e mal-humorado, insuportável, ranzinza, o gigante levantou-se.

Rodrigo Ferrari, 19 de agosto de 2007

Eu tenho a ligeira impressão de que os sonos do Ferrari, às vésperas de seus quarenta anos, são o passaporte garantido para os tempos de criança. O menino de 67 dorme, e em questão de segundos está de calças curtas e camisas listradas, como se fora o Miguel. Daí, eis a defesa do inconsciente do quadragenário, não quer acordar de jeito nenhum.

Até.

21.8.07

O PRESENTE QUE O DIGÃO QUER

Semana que vem, mais precisamente - como tem de ser, sempre! - daqui a exatamente uma semana, completa 40 anos - a pompa redonda da idade pede o número por extenso, quarenta, quarenta, quarenta! - esse poço artesiano de doçura, Rodrigo Ferrari, o Rodrigo Folha Seca, o queridíssimo Digão. A data será devidamente comemorada em evento fechado para o qual fui, o que muito me honra, convidado. Mas não é sobre a festa, mais fechada que cabaço de Honório Gurgel, como diria o Aldir, o Blanc evidentemente, que eu quero lhes falar. Nem quero lhes falar sobre a festa pública, que fará tremer o centro da cidade, e que acontecerá no próximo sábado, 25 de agosto, a partir das 13h, em frente à livraria do meu coração, a Folha Seca. Quero lhes contar, isso sim, sobre o presente que me pediu o Digão. Aliás, anda pidão o quadragenário.

Rodrigo Ferrari, na livraria Folha Seca, em 18 de agosto de 2007

Domingo pela manhã, coisa de 8, 9 da matina, ligou-me o Simas:

- Feira?

- Evidente!

Bati o celular pro Felipinho Cereal:

- Feira?

- Feira!

Quando estava de saída, pisca na tela do meu celular o nome do Digão:

- Fala!

E ele, nitidamente bocejando:

- Vocês vão à feira, né? O Felipinho me disse...

Antes que eu respondesse, ele emendou:

- Me pega aqui?

Eu, que não sei dizer não aos amigos, achando aquilo um abuso olímpico - eu moro a poucos metros da feira e o malandro mora em Laranjeiras! - disse resignado:

- Tá. Desça em vinte minutos.

Ele, excedendo-se:

- Passa antes no Felipinho e venha com ele.

Estávamos eu e Felipinho Cereal, em vinte minutos, diante da portaria de seu prédio.

Depois de cinco minutos de espera - e nada me tira mais do sério do que esperar o carona - bati-lhe o celular:

- Tô fazendo a barba, imbecil. Espera! - disse ele, à moda szegeriana.

Notem que o Szegeri, que me espicaça e me tortura com requinte, anda fazendo escola.

Pois o Digão desceu, entrou no carro, tomamos o rumo da feira, lá encontramos com o Simas, com a Candinha, com o Fefê, depois tomamos a direção do glorioso Bar do Chico, juntou-se a nós o Cassio Loredano, e de lá seguimos para o Rio-Brasília, onde engrossaram a turbamalta o Claudão, a Ana Paula, a Joana e o Prata.

À certa altura, quando falava-se sobre a roda de samba do próximo sábado, alguém disse:

- Digão vai querer o quê de aniversário?

Não prestei a devida atenção à resposta - o troço não era comigo. Mas achei pertinente entrevistar o aniversariante:

- E aí, malandro? Queres o quê de mim? - fiz troça.

E ele, sério, os olhos já ligeiramente embaçados, cravando as mãos enormes no meu braço:

- Quero que você traga o Szegeri.

E repetiu, sequioso:

- Entendeu? Traga o Szegeri. Quero o Szegeri no meu aniversário, desde cedo...

Tentei replicar:

- Mas...

Ele, num corte:

- Não interessa. Você não me interessa. Sua opinião não me interessa. Quero o Szegeri, viu? O Szegeri!

Notem vocês o poder do meu amigo paulista e a obsessão do quase-quadragenário.

Até.

17.8.07

JOTA: PERNICIOSO

O jota, empregado do jornal O GLOBO, o homúnculo que assina a coluna GENTE BOA, diariamente, no SEGUNDO CADERNO, e que conta com o auxílio de três pessoas (recuso-me, terminantemente, a chamar qualquer um dos quatro de jornalista em homenagem a Joel Silveira, que foi oló há uns dias) - Cleo Guimarães, Maria Fortuna e Telma Alvarenga - , depois de ter desistido (parece...) de adular de modo servil os bares-de-merda que pervertem a cidade - pelo menu à direita podem ser acompanhados as trinta e quatro menções que o infeliz fez sobre esses lixos em sua coluneta - especializa-se, agora, em dar voz e vez a troços que, francamente, como diria meu eterno e saudoso governador, Leonel de Moura Brizola, jogam contra a cidade do Rio de Janeiro e demonstram, de forma nítida, a falência da civilização ocidental (volto ao assunto dia desses com a licença dos meus queridos Simas e Mussa, que têm batido nessa tecla de forma olímpica).

E vejam a quantas anda o jornal O GLOBO! O homúnculo e suas três estagiárias ainda são colegas de Artur Xexéo, Cora Rónai, João Paulo Cuenca, Joana Dale (para ficar apenas por aqui...), o que faz com que eu, diariamente, fique felicíssimo com a decisão que tomei em 18 de outubro de 2006 - leiam aqui - quando cancelei a assinatura desse lixo.

Eu venho tentando não mencionar o nome do homúnculo, desde a segunda-feira, quando me deparei com uma nota abjeta em sua coluneta. Uma nota não, duas. Só que hoje, sexta-feira, o infeliz (ele ou uma de suas geniais estagiárias) emplaca mais uma nota digna de demissão (jamais será demitido, a razão é evidente). Vamos a elas.

Antes, pequena pausa.

Anseio pelos comentários sempre elegantes do Favela e do Bruno, seu irmão.

Na segunda-feira, na coluna GENTE BOA (notem o nome da coluna!), os holofotes são voltados para um sujeito que atende pelo nome de Fabrício Longo. Nada contra Fabrício Longo, a quem não conheço, de quem nunca ouvi falar, e nada contra seus hábitos, suas manias, suas coleções-de-merda e suas 258 bonecas (pausa para o vômito). Mas eu gostaria muitíssimo que alguém me explicasse (de preferência alguém que seja jornalista, como meus queridos Zé Sergio Rocha e Bruno Ribeiro) o que motiva uma nota escrota dessas:

nota publicada no Segundo Caderno de O GLOBO em 13 de agosto de 2007

Notem bem! O cara é louco pela Barbie, tatuou no corpo o primeiro logotipo da boneca americana, passa horas em grupos de discussão da Barbie pela internet (ou seja, é um doente maiúsculo), acha que a Barbie "não é apenas aquela loura sorridente" (é o quê, então, porra?!) e por isso merece uma nota no jornal de maior circulação do país.

Mas a merda não pára por aí.

No mesmo dia em que o homúnculo e suas estagiárias adulam o boiola das bonecas, é dada publicidade a uma nova atividade, segundo eles: o "personal friend". Vejam:

nota publicada no Segundo Caderno de O GLOBO em 13 de agosto de 2007

Assim, de cara, a coisa (e a própria nota) pode soar como piada, pilhéria, brincadeira. Mas quem acompanha a coluneta do homúnculo sabe que, coerentemente, ele dá continuidade, com a publicação dessa nojeira, a um processo pernicioso e planejado, que visa aniquilar com nossas mais caras tradições e empobrecer o homem, lato sensu.

E a nota imunda de hoje sobre "one bites" - termo que deve substituir a palavra canapé?

Manifestando de forma clara, aberta, evidente e incontestável, sua aversão às coisas simples da vida (segundo o homúnculo devemos esquecer o termo salgadinhos que evoca simplicidade...), os quatro responsáveis por uma das mais inúteis colunas da imprensa escrita brasileira escrevem seus nomes na página dos venais, dos vendidos, dos inimigos da cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro - simples por excelência.

Até.

16.8.07

NÃO PASSARÃO!

Ele começa o texto, imprescindível, dizendo que às vezes bate, nele, uma esperança. Ele é dos meus, amigo recente, amigo querido, e eu chamo de amigo querido justamente porque também nisso - no reconhecimento dos que são nossos, no mais amplo, mais valioso e mais bonito sentido que possa haver no pronome possessivo - subvertemos a ordem que impera mundo afora e que querem nos empurrar goela abaixo (para valer-me de expressão que ele usa no texto que reproduzirei hoje). Estivemos juntos não mais do que três vezes. O que bastou para que tivéssemos, e tenhamos, a certeza de que seremos amigos para a vida inteira. E tanto é verdade que a ordem que impera hoje é babaca, fútil, superficial e descartável (e estou falando de gente, de seleção de gente, de escolha dos que são nossos), que o homúnculo, esse jornalista minúsculo que não serve para rigorosamente nada quando assina, diariamente, uma das mais escrotas colunas do jornalismo brasileiro, fez propaganda, dia desses, de uma ignomínia que atende pelo nome de "personal friend". Isso mesmo, meus poucos, mas fiéis leitores: agora tem quem pague por um amigo - e tudo é tão absurdo, tão nojento, tão abjeto, que é melhor mesmo que o nome seja "personal friend". Sei que vocês me entendem.

Ele - o amigo a quem me refiro - é Bruno Ribeiro.

Eu, ao contrário dele, não perco a esperança.

E eu, ao contrário dele, acordei hoje sem inspiração para dizer qualquer coisa.

Essa a razão pela qual reproduzo, na íntegra, o texto imprescindível publicado hoje em seu igualmente imprescindível blog PÁTRIA FUTEBOL CLUBE:


"Às vezes me bate uma esperança. Como chegar cedo no cinema e quase não conseguir ver o documentário sobre Milton Santos. Porque a sala estava lotada. E mesmo sentado na escada, espremido, poder ver o filme no mais completo silêncio. E receber uma grande mensagem. E deixar o cinema feliz com os aplausos do público -- que ficou para o debate com a professora Maria Adélia. E notar que, na platéia, não havia só universitários da faculdade de Geografia, mas muita gente do povo, interessada em repensar esse conceito de globalização que tentam nos enfiar goela abaixo como a única verdade possível. Eu sei que não é a única realidade possível. Eu vivo isso na pele. Eu ando em lugares que não obedecem essa lógica; eu vivo as quebradas; eu sinto a vida pulsar em bocadas onde esse discurso não chega; eu venho de lugares solidários. Sei que é possível. Esse mundo que não sai nos jornais e que a classe média costuma tratar de duas maneiras: ora com paternalismo -- seríamos pobres coitados, alienadinhos, manipuladinhos, vitimazinhas... Ora com desdém e ódio -- seríamos os radicais, os contrários, os disseminadores de ódio, os petistas, os lulistas, os xiitas... À merda com essa visão pragmática de quem não quer sacar que estamos no olho do furacão! Tem gente que finge não perceber a gravidade do problema! Defender um Estado forte não é mais uma mera questão ideológica! É a nossa sobrevivência! Entregar à iniciativa privada ou ao terceiro setor a responsabilidade de cuidar do destino de seres humanos é encurtar o caminho para a extinção. Todos os indicadores demonstram isso -- e a galopante miséria do terceiro mundo não me deixa mentir. Ou repensamos o real sentido da vida -- e damos à filosofia um peso tão grande quanto o que temos dado à economia -- ou o futuro nos reservará um destino muito sinistro: o desaparecimento, sem direito à segunda chance."

E que esse texto chegue aos que bateram boca comigo, há uns dias, no blog da colega de redação do jota, a Cora Rónai. Arrependi-me, profundamente, de pôr os pés lá para defender o presidente Lula da raiva irracional da tucanalhada que faz daquele blog seu poleiro virtual, onde neguinho manda bom-dia pra gato que nem conhece, onde neguinho delira diante da aparição de uma capivara de pelúcia, onde neguinho destila ódio contra o povo, onde neguinho tem o perfil, perfeito, da clientela dos tais "personal friend".

No fundo, no fundo, tudo uma questão de coerência que não me deixa perder a esperança.

Até.

15.8.07

AMORES EXPRESSOS: E ELES SÃO GENIAIS...

Reconheço que têm algum talento, nem que seja o da perpetuação do engodo, alguns dos agraciados com viagens, dinheiro e outras mumunhas advindas do inacreditável projeto AMORES EXPRESSOS. Leiam mais sobre esse troço aqui.

Mas há um certo exagero na exposição dessas mumunhas, há uma certa falta de pudor que transforma o deboche da turma em motivo de chacota.

Leiam texto pinçado do blog de Cecilia Giannetti - confiram aqui:

"Hoje, às 15h, vou falar no auditório RDC da PUC. O quê, não sei. Mas costuma funcionar. Eu chego ao local, abro a boca e sai alguma coisa. O debate se chama "Além do livro" e eu presumo que se trate de eu discorrer sobre tudo o que eu faço que não seja livro. A mesa faz parte da Flap!, que chega ao Rio de Janeiro depois de três edições consecutivas em São Paulo."

Abre a boca e sai o quê, hein? A organização dessa babaquice olímpica - a FLAP - sabia desse, digamos, método da palestrante? E como se sentirão, agora, lendo essa confissão, os palhaços que pra lá se dirigiram?

Seguramente, posso afirmar sem medo do erro, que a "coragem" da autora do blog - pensam assim, os bobalhões - foi motivo de pilhéria nas mesinhas da Mercearia.

A propósito, a moça, amiguinha - é evidente - do coordenador editorial do projeto, passou um mês em Berlim às custas de dinheiro público, fruto da farra das leis de incentivo cultural.

Até.

14.8.07

O DIA DOS PAIS

Eu havia dito a vocês, aqui, que encerraria o dia dos pais no Estephanio´s, na roda de samba comandada pelo - pausa para o pigarro do orgulho - meu filho mais velho, Tiago Prata. Comandada, que fique claro, é maneira de dizer, troço que somente a corujice explica. O conjunto é formado por quatro feras que não precisam, em absoluto, de uma voz de comando: meu garoto, o endiabrado, no 7 cordas, Mackley Matos, dono de uma voz e de um pandeiro seguríssimos, Gabriel Cavalcante no cavaquinho e na voz que me remete a tempos imemoriais, e Fábio Cazes, percussionista e filho do pai, não menos coruja que eu, Beto Cazes, que também deu canja!).

Fui, é evidente, especialmente para receber o abraço do menino, que bateu o telefone pra mim na hora do almoço:

- Feliz dia dos pais!

Como eu já estava na terceira dose de uísque, almoçando com meu velho pai, não segurei as lágrimas. E enquanto eu fungava, ele disse:

- Ah! E pede ao meu tio pra reservar uma mesa lá. A Beth vai. Beijo. - e desligou.

O Fefê perguntou, já chorando, numa espécie de solidariedade antecipada:

- O que foi?

Contei.

E choramos os dois, abraçados, para desespero de meu velho pai.

Esse choro coletivo (notem que somos apenas eu e meu irmão chorando juntos) foi, digamos, uma prévia da noite.

Para minha felicidade - e tudo foi importante para que fosse desenhado um domingo perfeito! - estiveram lá, no domingo, essa figura cada vez mais presente no balcão do BUTECO, Arthur Mitke, que levou o cantor Moyseis Marques, que deu canja e fez tremer a esquina, que retoma, aos poucos, seu axé original. A mãe e os avós do Prata, sendo que sua avó lançou-me a seguinte pérola, comovente. O samba comia solto e vi suas mãos acenando em minha direção. Fui até lá e abaixei-me. Ela:

- Leio seu blog todos os dias...

Fiz uma cara de espanto e disse:

- É mesmo?

- Leio, ué! Você não é pai do meu neto?

Eu de novo salgando o piso do bar.

Luisa, minha nora; Maria Paula e Guerreira, a quem não via fazia tempo. Beth Carvalho, que também deu canja e tornou a noite mais inesquecível. e Janis, amigos novos, presente do meu mano Szegeri e da minha irmãzinha, a Stê. Levadas pela Clarisse, duas das netas do Che - ele mesmo! - Stefania e Celia, simpaticíssimas, e que foram, tadinhas, em razão do estado etílico da multidão, saudadas como se fossem o avô redivido. E isso pra não citar, nominalmente, todos os personagens que sempre fizeram daquela esquina da Artistas com a Ribeiro Guimarães um lugar especialíssimo... Deixar de citar um outro nome me deixaria - e isso é raro! - violentamente sem jeito. Mas estavam lá Sogrinho e Bianca, Duda, Leo Huguenin, Beto Cazes com a Verinha, Victinho, Gerardo, Fred, gente pra burro, muita gente mesmo, que pôde testemunhar, agudamente, a retomada do fio da história daquele canto.

Eu saí de lá, em direção aos braços da minha Sorriso Maracanã, que foi pra casa um bocadinho mais cedo, por volta da meia-noite, desse jeito aí, ó!

Tiago Prata e Eduardo Goldenberg, no Estephanio´s, 12 de agosto de 2007

A último cliente - quem? quem? quem? - fechou o bar perto das quatro da manhã.

Até!

10.8.07

O DIA DOS PAIS DE TIAGO PRATA

O título de hoje - O DIA DOS PAIS DE TIAGO PRATA - pode gerar (e vai gerar, com certeza) certa confusão.

Eu não quero que o foco seja o DIA DOS PAIS do menino. Mas o DIA dos PAIS do menino. Explico.

Domingo comemora-se o dia dos pais, troço, aliás, tremendamente chato. Eu, por exemplo, filho dedicado que sou, vou, religiosamente, todas as segundas-feiras, jantar com papai e mamãe - e o jantar é, eis um dos grandes prêmios que a vida me dá, uma delícia indizível. O pau ronca à mesa, invariavelmente, mas o afeto que paira naquele apartamento no Alto da Boa Vista semanalmante justifica a romaria semanal. Mas como eu estava dizendo... domingo é o dia dos pais. Deu-me vontade de falar mais um troço.

Só gosta, mesmo, do dia dos pais, o sujeito que abomina, que não tolera, que não suporta seu próprio pai (e o sujeito que não tem, pelo pai, uma adoração e uma idolatria cegas, não é ninguém). A besta passa o ano inteiro sem vontade alguma de ver o velho. Daí, no segundo domingo de agosto, vai ver o coroa com um presente nas mãos (razão precípua da data exclusivamente comercial) e sente-se (todo canalha é assim) o melhor dos filhos no final do dia. Vamos em frente.

Escrevi, dia desses, um texto chamado PRATA, A OBSESSÃO COLETIVA - que pode ser lido aqui.

Nele, comento sobre esse desvario coletivo: todo mundo quer ser pai do Prata. Todo mundo quer cutucar um desconhecido durante uma roda de samba, uma roda de choro, apontar pro menino e dizer orgulhoso:
- Meu filho, ó!

Acabei de escrever essa frase e lembrei-me, agudamente, de Sérgio Prata, pai biológico do pequeno gênio - leiam seu verbete aqui. Não bastasse o sujeito ser verbete, é ainda pai biológico do gênio das 7 cordas. Vamos em frente.

Comentando o tal texto, disse José Sergio Rocha, o Zé Sergio, dinda de todos nós:

"Edu, tenho uma notícia triste pra te passar: o Pratinha não é teu filho. Rodrigo, o Digão da Ouvidor, também está enganado. E o Szegeri, tadinho, também. Pra ser honesto contigo, o próprio pai biológico do mais barbeiro dos motoristas não o é, pois também levou bomba no exame de DNA. A figura em questão (cinco fotos!!! quanta viadagem!!!) é, na verdade, filho do Grande Otelo com a Odete Lara. O irmão mais velho dele, também apelidado de Pratinha, fazia anúncio pra Ótica do Povo (morou?). Quem me contou foi o Nei Lopes, que vai verbetar (no bom sentido) o conhecido violonista (e motorista infrator) na próxima edição da "Diáspora"."

Tiago Prata em SP, 24 de junho de 2007

Vai daí que ontem reunimo-nos, na livraria do meu coração, a Folha Seca, eu, Luiz Antonio Simas e esse poço artesiano de ternura, Rodrigo Ferrari, o Digão Folha Seca.

Cerveja que vai, cerveja que vem, eu tinha justamente acabado de escolher o presente para dar a meu velho pai no domingo, quando o Digão perguntou, coçando a espessa barba grisalha, enquanto embrulhava o livro:

- Será que algum de nós ganhará presente do Prata no domingo?

Estabeleceu-se o caos.

Nos entreolhávamos no instante em que o Digão respondeu à própria pergunta:

- É o mínimo, né?

Eu, tentando me defender de uma eventual decepção no domingo, disse:

- Pra mim não precisa... Nós nos falamos todos os dias... - e mostrei, orgulhoso, o nome do menino na lista de chamadas recebidas de meu celular.

O Simas, pra não ficar por baixo:

- Entre nós não há isso! Ele mora aqui independente de presente! - disse batendo com a mão espalmada no lado esquerdo do peito.

Mas a verdade - a aguda, nua, crua e crudelíssima verdade - é essa: passaremos, os três, o domingo inteiro, esperando um mísero telefonema, que seja, para um singelo "feliz dia dos pais".

Eu, por exemplo, para evitar decepções maiores, vou ao encontro do menino, que comanda, aos domingos, desde o domingo passado, a roda de samba, a partir das 18h, no Estephanio´s Bar, em Vila Isabel.

Até.

9.8.07

RADICAL? EU?

Arthur Mitke, assíduo freqüentador desse BUTECO, cutucou-me ontem, por email, recomendando a leitura de um blog que eu - confesso - não conhecia.

- Vá lá, vá lá, leia! - ecoava a voz do Mitke, em tom provocativo, em meus ouvidos, enquanto lia sua mensagem.

Fui.

Fui e li.

É evidente que o Arthur queria, mesmo, era ver o circo pegar fogo. E isso porque o malandro me conhece, e sabe que bateção de boca é troço mais-que-necessário em balcão de buteco, mesmo o virtual, e que isso, no meu BUTECO, é até mesmo desejável, ainda que uma ou outra pessoa fique chocadinha com o tom agressivo que dou às causas que me apaixonam. O tom provocativo do email do Arthur associado ao teor confuso do texto indicado (que faz referências ao texto publicado aqui, ontem) evidencia isso de forma incontestável. Só que - mais uma confissão - eu confesso que não compreendi o texto que me foi recomendado (não me foi exatamente recomendado, na acepção mais comum da palavra, mas indicado, apenas).

O texto do cara é - repito - confuso. Tucanóide demais (fala, fala, fala, fala, fala e não chega a uma conclusão), evidencia à toda prova que seu autor não lê, com freqüência, o BUTECO (o que não é, antes que me acusem de excesso de egotismo, problema algum, já que tenho poucos, mas fiéis, leitores). E isso porque o moço acha, realmente, que somos radicais (eu, Szegeri, Simas, Bruno Ribeiro, a tropa de choque que divide comigo as mesmas paixões) apenas por conta de babaquices como a demonstrada no badaladíssimo vídeo onde aparecem membros da corja jogando ovos pela janela.

Nada disso.

Fazemos, isso sim, das pequenas batalhas, nossa bandeira.

Termina assim o texto a que me refiro (deixo de indicar o link específico do texto porque eu não soube, mesmo, como fazê-lo, mas ele pode ser lido neste blog aqui):

"O que o autor não percebe, porém, é que “o rabo sujo entre as pernas bambas de medo” do jornalismo nacional abre confortável espaço [oportunidade d´ouro!] para qu´ele e sua turma de machos justiceiros ataquem e raptem a escória elitista zonasulesca qu´esta gente tão apodrecidamente afetada ora encarna.

O fogo aberto contra os condenados-seqüestrados, perfilados no paredão suburbano, encerraria o histórico [e breve] encontro entre os tipos desequilibrados e intolerantes, que, separados pelo túnel, cada um a seu jeito e canto, construíram o Brasil como hoje o conhecemos."


Notem como é confuso! Devo eu - como propõe o texto - agradecer ao "rabo sujo entre as pernas bambas de medo do jornalismo nacional" pela oportunidade de poder escrever aqui? Devemos todos nós - eu e minha "turma de machos justiceiros" (?????) - agradecer ao jornalismo nacional? Não entendi. Mas vamos encerrar.
Talvez seja novo demais, o moço, que assina apenas "C.A." - não sei seu nome. Não é, seguramente, um velho como eu, que não sou cinqüentão como o mesmo afirma levianamente, capaz de compreender um bocadinho mais sobre a verdadeira história da construção do "Brasil como hoje o conhecemos".

A venda do Brasil, a pilhagem do Brasil, planejada e executada durante os mais de vinte anos de ditadura militar, que abrigou a escória, é a verdadeira responsável pelas profundas diferenças que nos põem, hoje, no topo da desigualdade.

Foi ela - a ditadura e os anos de chumbo - que enriqueceu presidentes, vice-presidentes, governadores biônicos, ministros, generais, escroques e caciques políticos que ainda rondam por aí.

Rondam por aí, hoje, por exemplo, cansados de tudo, sabem como?

Até.

8.8.07

A COVARDIA E A CONVENIÊNCIA

A FOLHA DE SÃO PAULO, lixo diário que circula por lá, como merda impressa, do mesmo modo que O GLOBO por aqui, publicou ontem, no caderno ILUSTRADA (uma merda também), uma coluna (tão consistente quanto a coluneta do homúnculo do SEGUNDO CADERNO de O GLOBO) assinada por Mônica Bergamo (sem o negrito imerecido).

Como autêntica representante da classe dos lambe-cu (segundo o Houaiss, bajulador, notem minha categoria), ao invés de fazer o que todo jornalista deveria fazer (apurar, denunciar, formar opinião, defender e tomar partido em prol dos mais fracos, sempre), a moçoila entrevista essas duas figuras desprezíveis, sem qualquer serventia, como abaixo transcrito. Leiam. Após, farei breves e delicados comentários.

"A socialite Narcisa Tamborindeguy falou à coluna sobre o vídeo, hit do YouTube, em que ela diz que joga ovos pela janela de seu apartamento no condomínio Chopin, em Copacabana.

FOLHA - Você joga ovo pela janela?

NARCISA - Joguei quando era criança. Mas não jogo ovo para acertar pessoas.

FOLHA - No vídeo você diz que joga coisas pela janela e que se esconde quando a polícia sobe.

NARCISA - Isso foi há anos. Jogar flor pela janela pode.

FOLHA - Você está escrevendo um livro chamado "Ai, que Absurdo"?

NARCISA - É bem positivo, com muito charme. Para mostrar o absurdo do mundo.

FOLHA - Dá para viver com charme no Brasil?

NARCISA - Tem que dar. Faço yoga, isso me deixa em paz.

FOLHA - Você ouviu falar do movimento "Cansei"?

NARCISA - Cansei de quê? De tudo? Não conheço. E acho que não adianta nada. Não adianta porque eles vão ter o trabalho de se cansar para depois descansar. É só para perder tempo. Você não pode se cansar nunca, senão entrega os pontos.


BRUNO CHATEAUBRIAND

E Bruno Chateaubriand, que diz no vídeo jogar vassoura e garrafa pela janela? "Era brincadeira", diz. "A janela a gente tem que usar pra tirar as coisas ruins da casa, e não atirar".

FOLHA - O que você já jogou?

BRUNO CHATEAUBRIAND - Gente, eu nunca joguei nada! Eles me pegaram, eu "tava" sentado num sofá e falaram: "A gente "tá" fazendo um vídeo sobre o que as pessoas jogam da janela". Eu disse: "Gente, eu nunca joguei nada". E aí ele pediu pra eu falar uma coisa engraçada. Eu falei: "Joguei uma vassoura pra tirar as bruxas da minha casa". Era brincadeira, entendeu?

FOLHA - No vídeo, você diz que jogou outra coisa também.

CHATEAUBRIAND - Uma garrafa de big Coke. Ele pediu: "Fala outra coisa". Daí eu falei, mas a única coisa que eu jogo é uma cascata de bolas, no fim do ano.

FOLHA - O que você jogaria?

CHATEAUBRIAND - Olha, ovo eu nunca jogaria em ninguém. A janela a gente tem que usar pra tirar as coisas ruins da casa da gente. E não atirar objetos físicos. Isso é uma falta de educação! Sou radicalmente contra!"


Vê-se, pelas respostas e pelo teor das entrevistas (entrevistas?!), que a intenção da colunista foi refrescar a barra dos dois elementos que não servem para rigorosamente nada.

Mas acho interessante, antes de continuar, mostrar isso que descobri aqui, na revista ISTO É. Vai com uns trechos em destaque:

"Advogada e estudante de jornalismo da Faculdade da Cidade, em Ipanema, na zona sul do Rio, Narcisa conta no livro que sustentou os dois ex-maridos - José Bonifácio Brasil de Oliveira, diretor da TV Globo e filho do ex-todo-poderoso José Bonifácio de Oliveira Sobrinho, o Boni, e Carlos Bier Johannpeter Gerdau, filho do empresário Jorge Gerdau, do grupo Gerdau. Contra Boninho, a munição é pesada. Ela o acusa de não ter sido um bom marido e bom pai. E dispara: "Pagava tudo para o Boninho, ele foi meu gigolô", diz ela. Boninho é pai de sua filha Mariana, 14 anos. Narcisa diz que o diretor queria transformá-la numa "dondoca". "Ele queria que eu freqüentasse o Country Club", reclama, referindo-se ao tradicional clube, no qual os sócios só ingressam depois de passar por uma rigorosa seleção. "Para mim, o Country não tem nada a ver. Só gosto do cachorro-quente de lá", desdenha. O diretor não quis se manifestar nem ser informado sobre o conteúdo das acusações da ex-mulher. "Não quero nem saber o que ela disse", desconversou. "Não tenho o menor interesse em falar sobre este assunto", afirma Boninho, que hoje namora a atriz Ana Furtado."

Curioso, isso. Boninho - outro ser abjeto que dirige um dos mais podres programas da TV brasileira - namora hoje a atriz (quem?) Ana Furtado. Narcisa, Boninho e Ana Furtado aparecem, todos, no tal vídeo, ao lado de um dos netos de Leonel Brizola, ao lado de uma das filhas de Tom Jobim - não mereciam isso, nenhum dos dois... - todos na companhia de uma raça podre que infesta o planeta mas que há de ver sua hora chegar.

O paredão seria pouco pra gente como eles, tem dito o brasileiro máximo Luiz Antonio Simas, meu irmão, com o que concordo sem ressalvas.

Mas o que mais me chama a atenção, é o seguinte...

NENHUM colunista de merda, nenhum jornalista (o nome não cabe neles) covarde escreve uma linha contra a barbaridade que o vídeo mostra. NENHUM.

Xexéo, o afetado colunista do SEGUNDO CADERNO, Joaquim Ferreira dos Santos, Cora Rónai (essa chegou a ser provocada por um leitor em seu chatíssimo blog mas esquivou-se dizendo não ter nada com a coisa), a escumalha que escreve no caderno ELA, NINGUÉM teve coragem de dizer uma palavra.

Isso porque TODOS se beneficiaram, de algum modo, com a roda podre do poder da imprensa brasileira, loteada e fatiada ao longo de décadas de ditadura. Todos com pânico de perderem seus empregos. Todos com receio de seus chefes de redação, todos com o rabo sujo entre as pernas bambas de medo.

Até.

6.8.07

RESGATANDO MEU LIVRO

Eu lhes contei, aqui, sobre o rapto - não há nome mais adequado - de um livro meu, e logo do Nelson Rodrigues, cometido por Fernando Szegeri, um homem que dedica-se, com a paciência e o afinco de um escultor florentim, à arte de me pespegar os piores castigos.

E minha angústia foi tanta, a obsessão do livro que jamais seria devolvido consumiu-me de tal forma, sofri tão estupidamente, que na quinta-feira acordei resoluto:

- Vou hoje a São Paulo buscar você! - gritei já de pé, de camisolão (eu durmo de camisolão), como se o livro pudesse me ouvir (e tirem, por aí, suas conclusões sobre minha sanidade).

Por uma dessas coincidências inacreditáveis da vida (ou meramente circunstâncias favoráveis), minha Dani Sorriso Maracanã estava em SP, a trabalho, desde a terça-feira, e o brizolamóvel, meu xodó, desde a segunda-feira, na oficina para uma revisão geral.

Pequena pausa para uma explicação.

Revisão geral de um carro ano 1993 significa um gasto superior a seu próprio valor de mercado. Coisas que somente a paixão e o desequlíbrio mental do proprietário explicam. Vamos em frente.

Bati o telefone pra oficina, que fica na Penha:

- Bom dia, Paulo! O carro já está pronto?

- Pronto?

Gelei:

- Sim...

- Está zero quilômetro! Zero! Vai vir buscá-lo?

Em menos de meia-hora eu estava estacado diante do automóvel. Luzia. Reluzia. E paguei o preço do conserto chorando, aos prantos, numa crise de soluços que chocou mecânicos e eletricistas, muito mais pela emoção da transformação do carro do que pelo rombo causado no orçamento.

Parti em direção à gloriosa Tijuca.

Fiz minha mala em menos de cinco minutos, enlacei o Pepperoni e partimos.

Ah, meus poucos mas fiéis leitores... No que transformou-me o brizolamóvel...

As cancelas dos pedágios foram sendo liberadas, uma a uma, por cobradores atônitos diante da beleza da máquina, policiais rodoviários nos paravam para uma fotografia, quando passamos por Taubaté toda a turma do Sítio do Picapau Amarelo quicava às margens da Dutra, e assim foi até que cheguei a meu destino.

Quando toquei a campainha da Casa Vermelha, onde mora Fernando Szegeri com sua família, fui recebido - creiam nisso - pelo próprio, com um muxoxo:

- Mas já? - e deu-me as costas.

Referia-se, o homem da barba amazônica, ao fato de que havia passado pouquíssimo tempo desde nosso último encontro, tenho certeza disso. Uma triste certeza... O que para mim é uma benção, para ele é - chega a doer reconhecer isso... - uma amolação.

brizolamóvel em SP

Eis aí a prova irrefutável do êxito da viagem: o brizolamóvel estacionado na garagem da Casa Vermelha.

Êxito que repetiu-se na volta, quando embarcamos eu, Dani, Pepperoni e o livro.

Sou, de novo, um homem em paz.

Até.

2.8.07

E ASSIM CAMINHA A CANALHA

Revoltante, no mínimo, o que emerge da notícia publicada hoje no jornal EXTRA - e por que, pergunto-me, os jornalões não deram destaque a essa nojeira? - como mostra a manchete abaixo.

manchete do jornal EXTRA de 02 de agosto de 2007

A divulgação de videos através do YouTube mostra gente como Boninho (filho do Boni - e vão todos sem negrito), diretor da merda que atende pelo nome de BigBrotherBrasil, a (o quê faz essa mulher?) Narcisa Tamborindeguy, o boiola Bruno Chateaubriand, autênticos escroques membros da canalha, atirando ovos nos pedestres, do alto de suas varandas e janelas de frente para o mar, debochando das pessoas, debochando da polícia, debochando dos que não têm aquilo que eles têm e que os fazem sentir-se melhores: dinheiro; e dinheiro mal havido, quero completar.

Aparece também, participando da brincadeira de mau gosto, o neto de Leonel Brizola, tremendo desgosto para o avô, tenho certeza.

Aparecem ainda umas moças, autênticas vadias, vagabundas da pior espécie, se divertindo com aquilo tudo.

São esses imbecis, esses vermes abjetos, que são adulados pela imprensa de merda dos jornalões, pelos colunistas sociais, verdadeiras parasitas que encontram guarida nas redações de nossos jornais.

São esses seres desprezíveis que estão no comando das televisões brasileiras, ocupando cada vez mais espaço na cena política.

E é essa gente, são esses dejetos, que estão cansados do Lula - leiam aqui.

Mas não passarão.

Há de chegar o grande dia.

Até.