19.10.07

A CANALHA PORCA

(título do texto em homenagem a Daniel A., caçador de antílopes, que adorou a expressão)

Eu não sei quanto a vocês, mas a coerência é um troço que me comove de maneira aguda. Talvez por isso me doa tanto a determinação de não mais voltar ao Rio-Brasília graças a um desentendimento com o Joaquim, talvez por isso eu pague um preço às vezes altíssimo graças à retidão que julgo trilhar em gestos e posturas, talvez por isso pareça, como diz meu pai (amanhã ou domingo falarei sobre ele e sua influência sobre mim), que eu faço tipo. A tendência de quem é assim, coerente, é o isolamento, e eu confesso que sinto-me preparado para o meu próprio velório com audiência zero - é o que me tem dito, seguidas vezes, o Rodrigo Folha Seca. Vejo a cena e - confesso - divirto-me com ela. Um sujeito que não faz concessões - como eu penso que não faço (e notem que eu digo que penso que não faço, já que nós costumamos ser violentamente benevolentes no auto-exame) - acaba, mesmo, sendo visto como um radical, um chato, um ranzinza. Mas vale a pena.

Vale a pena e vale muito a pena quando podemos verificar que estamos certos dentro dessa postura coerente que desagrada a muita gente. Explico.

Desde que o SEGUNDO CADERNO de O GLOBO passou a publicar a coluna GENTE BOA (que é, a bem da verdade, a antítese disso) que eu, daqui do balcão, marco em cima essa coluneta que representa o que há de pior e de mais fútil na imprensa escrita aqui no Rio de Janeiro. Até onde cataloguei, apontei 34 atentados contra a cidade, contra nossa gente, contra nossas mais caras tradições. 1, 2, 3, 4, 5, 6, 7, 8, 9, 10, 11, 12, 13, 14, 15, 16, 17, 18, 19, 20, 21, 22, 23, 24, 25, 26, 27, 28, 29, 30, 31, 32, 33, 34 atentados que podem ser lidos, um a um, bastando clicar sobre cada um dos números! São radiografias nítidas, límpidas, que prescindem de laudo para que emerja, de cada uma delas, a podridão putrefata (a redundância é proposital) da tal coluna.

E mantendo a coerência, mantendo sua postura de vendida, mantendo sua posição anti-popular, elitista e arrogante, a coluneta faz o quê hoje?

Dá ampla cobertura - é o único assunto - à nojeira amplamente debatida aqui, ontem.

nota publicada no jornal O GLOBO de 19 de outubro de 2007

Com um texto paupérrimo, dando voz e vez à gente fútil como a própria coluneta (mais uma prova inequívoca da coerência de tudo), o homúnculo e seus asseclas escrevem mais uma página triste da outrora brilhante imprensa carioca (há, ainda, raríssimas exceções).

Lendo essa bosta, você fica sabendo que o filho do casal Daniel Oliveira e Vanessa Giácomo vai se chamar Raul, que "é luar ao contrário" como "explicou Vanessa". Uma gênia, como se vê. Fica sabendo, ainda, que Carolina Dieckmann gritou "caraca, mané!" quando viu o filho chegando na área vip. Sabe, também, que "a maioria dos mascotes que tiveram o privilégio de entrar em campo era filho de algum famoso". Sabe-se, mais, que Priscila Fantin "dançava abraçada à caixa de som".

nota publicada no jornal O GLOBO de 19 de outubro de 2007

Ou seja... uma quantidade industrial de futilidade. Coerente, portanto.

O tom da bosta (impossível chamar aquilo de matéria, sinceramente...) é de fofoca, o que é, de novo, coerente. Soube, dia desses, por alguém que já teve a infelicidade de trabalhar com o homúnculo, que a ordem da coluneta é a seguinte: não faça entrevistas, não faça perguntas, fique apenas atento ao que dizem os famosos longe dos microfones, das câmeras, dos gravadores. Uma nojeira sem fim.

Não tenho dúvida alguma de que a lata de lixo da história do jornalismo está reservada para jornalistas (dá vontade de vomitar elevar essa gente a essa categoria...) que se submetem à tamanha nojeira.

Quanto à CBF, patrocinadora dessa vergonha, verifica-se a mesma coerência. Nicho de ratazanas obesas que enriquecem inescrupulosamente em razão do futebol, preferiu convidar vips (a qualificação mais escrota que pode haver) em vez de jogadores, ex-jogadores, treinadores e ex-treinadores, os verdadeiros responsáveis pela história e pela glória do futebol brasileiro, verdadeiros heróis do Maracanã, palco do povo, e que não merece a classe dirigente que tem.

Não passarão!

Até.

19 comentários:

Anônimo disse...

Valeu pela homenagem Edu!

Ser coerente, de fato, traz um peso em nossas vidas, mas nos ajuda a colocar a cabeça no travesseiro e dormir sem paranóias, tranqüilos. E isso, meu chapa, tenho certeza - e acredito que vc tenha também -, não tem preço. Essa canalha porca (mais uma vez, mil vezes, é sensacional esse termo) não dorme o sono dos homens de bem.

Esse idiota que escreveu isso no jornal, assim com o Galvão, Teixeira e toda corja, merecem passar pelo saco do Capitão Nascimento. Tortura neles!!!

Saudações,

Daniel A.

TIago Prata disse...

Isso sem falar na incoerencia total de liberar cerveja nessa area vip de merda durante o jogo, e pra todo os outros mais de 80.000, nao teve uma gota de alcool.

Pratinha

Eugenia disse...

Isto nos lembra o q?
Escolas de samba...
Os mesmos camarotes vip´s
A mesma expulsão do povo, pelo preço q cobram (pq os ingressos populares são em lugares péssimos)
A mesma expulsão dos que fizeram DE FATO o samba, q ñ foram aquelas modeletes dos camarotes, e sim como a nossa querida salve-salve Beth Carvalho...
Triste, mto triste.

Arthur Tirone disse...

TÁ CHEGANDO A HORA, PORRA!!!!

Eduardo Goldenberg disse...

Daniel A.: de fato, meu caro, nada como a consciência limpa e a certeza de que fazemos o que queremos e não aquilo que nos impõem querer. Eu, entretanto, no seu lugar, ou não teria aceitado o convite que me misturaria à canalha ou teria aceitado com o único intuito de fazer uma merda olímpica lá dentro, como fiz no festival da TV GLOBO, como se sabe. Ontem, por exemplo, fui de cadeira especial com meu irmão, e ao entrarmos um segurança gritou pra um garoto à minha frente:

- Ô, ô, põe a camisa! Sem camisa não pode!

Eu, malandro, tirei a minha, exibi meu adbomen definido, pedi ao garoto pra não pôr a camisa e ainda gritei:

- Não pode é o caralho! Essa porra é do povo e no calor o povo anda sem camisa!

Prata: e por que você não mijou num copo vazio e o arremessou em direção à canalha?

Eugênia: é triste, mas deve servir mais como incentivo à reação do que ao fomento da tristeza.

Favela: eles não perdem por esperar, malandro...

Anônimo disse...

Caro Edu,

Compreendo e respeito sua posição. Mas não é porque se ocupa o mesmo espaço físico de uma corja, que, necessariamente, mistura-se a ela. Confesso que, de fato, não me senti bem naquele ambiente oco, mas, ainda assim, pude observar a podridão de perto e reforçar minha certeza de que ali não é lugar de pessoas como nós. No momento em que aceitei o convite, sabia onde estaria me metendo, mas pensei como um incorrigível fanático apaixonado por futebol que sou, e optei por aceitar o convite para ver nossa seleção.

Não poderia fazer um protesto olímpico, pois, bem ou mal, fui convidado por um amigo e talvez esse meu protesto o atingisse mais do que a canalha. De qualquer forma, pelo menos dei uma zoada no Galvão que rendeu boas risadas e um sanduba no Jobi no fim de noite.

No mais, concordo com vc, essa porra de mandar colocar camisa na cadeira é coisa de viado.

Sigamos em frente,

Saudações,

Daniel A.

Eduardo Goldenberg disse...

Eu, sei, malandro... Eu acho até que eu aceitaria mesmo o convite... Mas é que eu me conheço e reconheço que às vezes - ainda mais em situações como essa - sou um incorrigível inconseqüente. Abração.

4rthur disse...

Eu sabia! Eu sabia! Li essa merda hoje e tinha certeza de que seria seu tópico. Pedi pra você escrever sobre isso, certo de que você já o fazia. E que chamaria o merdinha de homúnculo.

E, mais uma vez, tu foi preciso: deviam chamar quem fez a história do futebol. Garanto que 99% dos vips e vipvips presentes (caralho, se vip já é escroto, imagina o que é uma área vipvip???) não passaria na mais elementar trivia acerca da história gloriosa do futebol brasileiro. Vão todos se fuder! Não passarão!

Eduardo Goldenberg disse...

Grande 4rthur! De fato eu escrevia hoje pela manhã sobre esse lixo, quando chegou seu comentário provocando o que já vinha sendo tecido com o cuidado que o troço pede, para que emerja coerência e para que fique nítida a indecência da coluneta. Forte abraço!

fraga disse...

Daniel A.,

Pode divulgar o nome do "amigo" que lhe convidou ou é melhor mantê-lo no anonimato?

Saravá!

Bruno Ribeiro disse...

Querido, que baita porrada na canalha! Estás na melhor forma, malandro!

Passei por situação assim a trabalho. No ano passado fui escalado (leia-se obrigado) a cobrir o camarote da Festa do Peão de Americana. O titular da área estava impossibilitado e eu era o único que poderia fazer o trabalho sujo. Tomei uma dezena de anti-ácidos, respirei fundo e fui.

Pensei que fosse demorar para dar merda, mas a merda aconteceu cinco minutos depois da minha entrada no infecto recinto. Ao ver chegar o fotógrafo que me acompanhava - este já íntimo daquele habitat - um playboy campinóide de sobrenome pomposo, estendeu-me seu copo de uísque sem me dirigir o olhar ou a palavra.

Na hora agi por instinto e reflexo: peguei o copo que me fora passado. Imaginando, talvez, que o pulha estava me servindo uma dose. Porém fui tratado como seu serviçal. Notei que ele me passou o copo para poder abraçar duas loiras turbinadas, com ridículos chapéus de cowboy, e sair bonitão na foto. Essa foto não saía nunca, ele queria ser fotografado de vários ângulos, fazendo caras e bocas. E eu lá, segurando o copo do canalha.

Quando a ficha caiu de verdade e vi que o calhorda realmente havia me tratado como empregado dele, sem sequer falar a palavrinha mágica conhecida como "por favor", não tive dúvidas: dei uma cuspida bem grossa no uísque e foi assim que lhe devolvi a bebida, quando ele gritou, autoritário, em minha direção: "Cadê o meu copo?".

A merda, Edu, foi que o cara não virou o uísque, como eu imaginei que ele fosse fazer. Ele olhou e viu o que havia dentro. Resumo da ópera: saímos do camarote, eu e o fotógrafo, tomando pescoção de segurança. Só não apanhamos deveras porque a canalha ainda guarda um certo medo de jornalista.

Não fiz a matéria e tomei duas broncas na mesma noite - uma da organização do evento e outra do meu editor. Mas fui dormir com a alma lavada. E certo de não ter cometido nenhum absurdo.

Não passarão!

Eduardo Goldenberg disse...

Dá-lhe Brunão! Você é jornalista maiúsculo, malandro, e não suporta a vergasta. Cospe - literalmente! - na cara da canalha. Como se isso ainda fosse possível... mais 1.000 pontos na minha tabela pessoal! Beijo.

Anônimo disse...

Outrora assíduo, ando em falta por essas plagas. Portanto, alguns comentários para matar a saudade:

1) O futuro cidadão "Luar ao contrário", terá, acredito eu, libido sexual igualmente "ao contrário" e sentará numa formidável berinjela quando crescer. Pelo menos se continuar nesse meio fútil - quanta banalidade - que lhe é imposto pelos pais celebridades. OBS.: O Edu incentiva meus comentários homofóbicos....

2) Comentário mais geral: esse papel de fofoca não pode nem ser chamado de coluna social. Há colunas sociais que tratam de temas mais relevantes.

3) A torcida carioca tem dado mostras seguidas de amor pelo futebol. O jogo da Seleça foi mais um capítulo, mas todos os clássicos têm sido fantásticos e não só os clássicos - a torcida do Flamengo está lotando até casados e solteiros.

4) Por último, a única coisa dessas mal traçadas que talvez cause polêmica: sou praticamente macaca de auditório do Galvão Bueno. Estou arquitetando um plano para quebrar a unanimidade contrária ao grande radialista no jogo aqui de SP.

Abraço,

Borgonovi

OBS.: Edu, volte para os braços de Joaquim. Onde beberei contigo às 8h da matina?

Anônimo disse...

Acabo de escrever o comentário e noto que escrevi "berinjela" e não "beringela".

Rubro de vergonha, recorro ao Edu. Ele me sai com essa, que me desobriga a reescrever o comentário:
"Mas o Houaiss aceita com j"

"Berinjela = forma não preferencial de beringela".

Sem palavras para descrever como massageou meu eco linguístico ferido. Saber que cometi um homicídio contra a língua pátria, mas foi culposo e não doloso, já me salvou.

Abraço,

Borgonovi

Bruno Ribeiro disse...

Eco lingüístico, Brogô? Ou não seria Ego? Que lindo! Que lindo!

Eduardo Goldenberg disse...

Brogô, Brunão? Não seria Borgô? Que lindo! Que lindo!

Anônimo disse...

Eu tenho a teoria de que foi o mala do Galvão Bueno quem matou Ayrton Senna. O boiola não aguentava mais os gritos de "Äcelera Ayrton!!!" e se atirou contra o muro.
Arthur Mitke

Anônimo disse...

Fraga,

Posso divulgar. É Carlos Pollastri. O cara é gente boa, meu amigo mesmo, conhecemo-nos na PUC, cursando a faculdade de Direito. Ele é advogado de uma emrpesa de Marketing que presta serviços à CBF, por isso do convite. Infelizmente, ele trabalha conectado a um bando de escroques, o que não faz dele um.

Saudações,

Daniel A. (Ataide de Andrade, para ser mais preciso, porque anonimato também não é comigo)

caíque disse...

cacilda edu! eu vi essa bosta e lembrei que você cair de porrada nessa bobagem era questão de tempo. "famosos se divertem..." prá mim é coisa da revista caras. ou de viado. ou as duas coisas. e concordo geral com a eugênia: já tiraram a rapaziada do samba. agora querem tirar do futebol? essa não, bro. essa não!