2.10.07

PERSONAL FRIEND

Em 17 de agosto, há pouco mais de um mês, portanto, mostrei aqui mais uma nojeira exposta pela perniciosa coluneta do jota.

Dentre os comentários, eis o de meu querido, de Campinas, Bruno Ribeiro, do PÁTRIA FUTEBOL CLUBE:

"PS: essa história do personal friend me chocou especialmente. Nem sei o que me soa mais triste: se a pessoa que paga para ter um amigo ou se a pessoa que aceita receber para representar este papel."

Eis que acabo de ler, lá no PFC, vejam aqui, no maravilhoso texto SOBRE A SOLIDÃO E A ABJETA GANÂNCIA DE NOSSOS DIAS que a moda parece que também pegou em São Paulo:

"O carioca Silvério Veloso, 42 anos, cobra em média R$ 300 para ser o seu melhor amigo durante uma hora. Criou o serviço em fevereiro e já conta com 30 clientes. Deixa claro que a atividade não tem fins psicológicos ou sexuais. Ele é o que andam chamando de personal friend. Em São Paulo já existe até uma empresa especializada na nova atividade. O responsável pelo "serviço de amizade" é José Adeildo de Souza, 41, mais conhecido como "Amigo Zezinho" ou "Amigo Del". Cobra menos do que seu colega carioca: R$ 100 por uma hora de "amizade". E contabiliza dez clientes fixos, que o procuram duas vezes por semana. Sua função é acompanhar o cliente em qualquer tipo de programa: shopping, supermercado, estádio de futebol, festa de empresa, boteco. E tem de saber ouvir. "As pessoas me vêem como uma válvula de escape. Desabafam sobre problemas e dão risada. Comigo elas têm a certeza de que não sofrerão cobranças e que não serão criticadas". O personal friend nunca divide a conta do bar. Quem paga é sempre o cliente"

Quando leio matérias como esta, veiculada no Jornal da Tarde, sinto tremendo desânimo. Meu parco otimismo no ser humano vai para as cucuias. Tudo me parece errado nessa história: a pessoa que se submete à humilhação de pagar para que alguém lhe faça companhia; a pessoa que se sujeita a cobrar para fingir que é amigo de uma alma solitária; o jornalista que assina o texto como se essa babaquice de personal friend fosse a coisa mais normal do mundo, uma nova tendência do mercado, uma nova opção de emprego...

O que mais me chocou, porém, foi a naturalidade com que a maioria encarou a notícia. Passei o texto para pessoas que me são próximas, esperando comentários indignados. E nenhuma viu aberração no fato de que hoje se pode ganhar dinheiro em cima da solidão alheia. Algumas até se interessaram pela atividade e disseram que não sentiriam nenhum constrangimento em ser também um personal friend. De duas uma: ou as pessoas estão completamente malucas, doidas de pedra, babando na gravata. Ou o louco nesta história sou eu mesmo, que não consegui entender a lógica da coisa.

Não, o louco não pode ser eu.

Eu jamais seria capaz de ganhar dinheiro em cima de alguém que me convidasse para tomar um chope e me dissesse, de repente, que tinha um grande amor não correspondido. E que me recitasse um poema de sua autoria, nascido e morrido na noite. Um desses poemas que a ninguém é dado ler, mas que trazem a dor ancestral dos românticos. Não, eu jamais poderia aceitar o dinheiro de alguém que, depois de abrir o coração, propusesse um brinde ao futuro e às mulheres e à amizade. E me chamasse de companheiro, com os olhos um pouco embargados, esquecido por um momento de que tudo aquilo é apenas teatro."


Um nojo, uma praga, uma tragédia que apenas confirma a evidente falência da cultura e da sociedade ocidentais.

Até.

3 comentários:

Craudio disse...

Edu, acabou de passar - hoje sou um vagabundo - na TV Record uma entrevista com personais...

Primeiro que o termo é horrível. E pior de tudo: as coisas não se resumem aos friends. Tem personal dog (mais conhecido como adestrador), personal home (a antiga governanta), personal party (socialite) e até personal client (o babaca que compra tudo isso).

Digo babaca porque os caras gastam fortunas para tornar tudo impessoal - apesar do nome - e profissional. O tal do friend, principalmente. Já não entendia isso também e, depois de ver a reportagem, me solidarizo com a agonia do Bruno. O talzinho (o personal, não o Bruno) cobra 300 pilas a hora para conversar com você sobre a vida. Mas ele deixou bem claro que era algo motivacional, focado no futuro profissional. Pra mim é desculpa para não parecer tão absurdo...

Pois bem: sou de ascendência oriental, como já mencionei aqui para justificar a grafia Craudio. E todos sabem que os sujeitos mais reservados do mundo são os orientais. Mesmo assim, sempre tento expandir meu rol de amigos, apesar da extrema timidez que me é peculiar. Me pasma, dessa maneira, a profissionalização não só da amizade, mas de todas as outras coisas.

Porra, se você não mantém o mínimo de cordialidade com seu médico, o carteiro que passa na sua rua, o porteiro do prédio e o açougueiro, é bom rever alguns conceitos.

Para finalizar o longuíssimo comentário - e peço perdão por isso -, digo que o único Personal que usamos aqui em casa não recebe dinheiro. Recebe outra coisa...

Abraços!

caíque disse...

pô edu, se alguém propusesse me contratar de personal friend ia me dar uma puta duma tristeza. caraio, véio... que coisa mais melancólica... imagina o cara ser tão sozinho, que precisa... pagar prá ter um amigo! e amigo de mentirinha! usando a frase do vinícius em "gente humilde", "que vontade de chorar..."
putz. acho que vou tomar uma cerveja...
té.
caíque.

4rthur disse...

Será que quem contrata um personal friend não sabe que é só chegar num boteco e pagar uma rodada de cerva que você ficará rodeado de amigos? E não é pelo interesse puro, não, é pelo fato de se ter uma companhia no bar pra beber.

Dá teu livro presses caras lerem, Edu!