7.11.07

O BACALHAU DE DOMINGO

Eu dei como título a este texto, de hoje, O BACALHAU DE DOMINGO, mas minha vontade inicial, confesso, era que fosse FLAVINHO, O ANFITRIÃO, e explico.

Antes de explicar, porém, quero pedir a vocês que leiam os textos ROYAL SALUT E UMA DO PAPAI (aqui) e PRATO CHEIO PARA O SUICÍDIO (aqui), ambos contendo importantes dados sobre essa faceta, de anfitrião, do meu dileto e querido amigo Flavinho, o Xerife do balcão imaginário do BUTECO.

Flavinho e Betinha nos receberam no domingo passado para uma bacalhoada - essa monumental que se vê, abaixo, sendo cuidadosamente preparada (clique na imagem para que sua boca encha d´água) por uma Betinha a cada dia mais apurada na cozinha.

bacalhau na casa do Flavinho e da Betinha, 04 de novembro de 2007
Mas vamos ao Flavinho.

O Flavinho, já lhes contei, é egresso do Cachambi, bairro onde já exercia com maestria - é preciso fazer justiça - o papel de anfitrião. Com maestria, é verdade, mas com ingredientes bem diferentes, vou explicar melhor.

O Flavinho recebia seus convidados na laje de sua casa pedindo a todos, sempre, - prática lamentável... - que levassem cerveja. Servia, como entrada, pãozinho sacadura, broas de milho e pão careca. E o almoço era, geralmente, churrasco de músculo ou, num dia de vaca gorda, de chã de dentro.

Para que salte aos olhos de vocês a diferença que se vê agora, vou transcrever meu breve diálogo com o Xerife na manhã do domingo. Estava eu no Mundial da Matoso:

- Flavinho, quer que leve alguma coisa? Cerveja?

E ele, do outro lado, telefone na mão esquerda e a pistola na direita apontada para o alto:

- Nada! Nada! Rigorosamente nada! Dinheiro há! Dinheiro há! Dinheiro há!

E desligamos.

É preciso que se diga, ainda, em nome da precisão, que a catapulta que o arremessou do Cachambi em direção ao Flamengo tem um nome: Roberta Oliveira, minha querida e cada vez mais querida Betinha, que já morava lá. Foi, portanto, um movimento conveniente, prático, óbvio, natural. Mas é preciso que se diga mais!

O que moveu meu emérito amigo foi a obsessão e o amor que nutria - e ainda nutre, lhes garanto - pela mulher com quem hoje divide a vida, o apartamento, as contas, tudo.

Pequena pausa: num desses domingos recentes almoçávamos, no Salete, eu, Dani Sorriso Maracanã, papai, mamãe, e justamente eles, Flavinho e Betinha. E meu protagonista de hoje fez, a certa altura, tão comovida declaração de amor à Betinha, que meu pai, já levemente embriagado, chorou de soluçar diante de uma mamãe enternecida. Voltemos ao assunto.

Faço questão de lhes dizer isso já que a regra - bem sei a regra, eu que tanto tempo convivi com vacas que tentaram, em vão, destruir meu pasto - é um movimento semelhante ao protagonizado pelo Flavinho - de ascenção social - por meios e interesses menos nobres. Há os pobres de espírito que têm a obsessão do apart-hotel na zona sul da cidade, a obsessão doentia da caminhada no calçadão do Leblon, a cupidez desmedida que a mim, pelo menos, enoja.

Ele, não. Ele, batalhador como pouca gente, estudioso até o último fio de cabelo (fadado aos primeiros lugares, aguardem), mudou-se para o Flamengo por questões meramente práticas. E foi lá, no Flamengo, que adquiriu gostos refinados.

No lugar da cerveja pedida (e as marcas que chegavam eram Malt 90, Belco, Cristal), litros e mais litros de Therezópolis Gold, Erdinger, Stella Artois, Guinness. No lugar do pãozinho sacadura, da broa de milho e do pão careca, pães caseiros feitos com farinha de trigo e semolina, ambos os produtos importados, por ele mesmo, que exibe orgulhoso, como um Olivier Anquier, tesouros recheados com cebola argentina, camembert francês, azeitonas gregas, rúcula italiana. E no lugar do churrasco, pratos refinados como o bacalhau, servido com fartura impressionante.

E cutucava os convidados:

- Quer mais azeite?

Um "não, obrigado" era tomado como ofensa:

- Não?! Custou 80 reais o vidro! É italiano!

E derramava azeite no prato alheio, depois de tirar o dosador:

- Prove! Prove!

Eu vi - eis a confissão final - o Flavinho servindo azeite na boca de Rodrigo Ferrari, com o auxílio de uma colher de sopa, dizendo baixinho:

- Degusta, Digão! Sinta o sabor das oliveiras em flor...

Foi, mesmo com a derrota do Flamengo (que ainda assim manteve-se, até então, entre os classificados para a Libertadores 2008), um domingo auspicioso.

Até.

17 comentários:

Eugenia disse...

kkkkk!!!
depois dizem que churrasco de pobre só tem lingüiça e asa!

zé sergio disse...

Colherzinha na boca, é? Sei não, sei não...

Flávio disse...

Rigorosamente fiel aos fatos!!!
Foi um prazer enorme ter vocês aqui em casa.

Eduardo Goldenberg disse...

Zé Sergio, madrinha de nós todos, velha coroca querida: o pior é que a verdade é rigorosa, como atesta o anfritrião, imediatamente após seu comentário! Beijo.

Flavinho: no que diz respeito a mim, meu caro, o prazer foi meu. Só os idiotas - os beócios olímpicos e integrais - recusam convites similares ao que vocês me fizeram. Eu é que agradeço, querido. Beijo enorme.

Roberto Fraga Jr disse...

Caracas... fiquei com inveja Edu. Gostaria de ser convidado para uma boca livre dessas. Posso retribuir o convite com um almoço no meu muquifo aqui no Lins (Boca do Mato). A minha esposa faz um Calango com Farinha maravilhoso. De entrada tem Chique-Chique. : )

Eduardo Goldenberg disse...

Roberto Fraga Jr., com o perdão da franqueza e da sutileza tijucana que me caracterizam segundo alguns, e dentro do princípio prefiro-sempre-a-piada-ao-homem:

01) eu fui convidado, não poderia tê-lo convidado... Primeiro porque não lhe conheço pessoalmente, segundo porque a casa não era minha e terceiro porque quem ofereceu a boca-livre não fui eu;

02) é inadmissível, em terras tijucanas, negociatas gastronômicas nestes termos toma-lá-dá-cá;

03) querendo me convidar, esteja à vontade, como eu e minha mulher (na Tijuca não há esposas) estaremos à vontade para aceitarmos ou não;

04) vovó morou muito tempo na Conselheiro Ferraz, no Lins; a princípio, seria um prazer voltar à tão querida terra.

Fortíssimo abraço!

zé sergio disse...

Porra Edu, tu é grosso pra caralho, parece até que foi nascido e criado na Abolição! Custava convidar o cara e depois comer a porra do calango com farinha lá no Lins com o primo do Fraguinha e sua digníssima? Vai ver que o tempero salvava a mistureba. Caralho, esse buteco prima pela falta de etiqueta!!! Repara não, ô Fraga do Lins!

Anônimo disse...

Dada a popularidade do Buteco (blog é o caralho!!!), acredito que muito em breve choverão convites e pedidos de receita. Já posso visualizar o Flavinho ao lado do Renato Machado degustando vinhos caríssimos, cuidadosamente aromatizados a famosa Bacalhoada.

P.S.: Porra Edu, colocar uma foto dessas é sacanagem, um ato vil de covardia. Eu, por exemplo, deparei-me com ela na hora que tava indo almoçar numa espelunca aqui ao lado do trabalho. Senti-me um merda. Nem preciso mencionar qual foi o castigo...

R Fraga Jr., essa história de calango com farinha é verdade mesmo??

Saudações e parabéns a todos os envolvidos no evento.

Daniel A.

Coelho disse...

Daniel,
Já pedi e fui atendido em dois pedidos de receita. A rabada que fiz com a receita do Edu é espetacular, a feijoada, confesso que ainda não fiz. Acho que todos os pratos citados aqui no Buteco, deveriam vir com a receita. E ainda, concordo com você. Buteco, sim, blog é coisa de viado.

fraga disse...

Szegeri,

Acompanho o voto do relator, velho, também entrego os pontos ...

Saravá!

Eduardo Goldenberg disse...

Lamentável a postura fraguiana de entregar os pontos, se ela significar o abandono do barco, na esteira da mesma condenável postura szegeriana, a demonstrar a intolerância de ambos para o convívio que o balcão pede. Lamentável.

fraga disse...

Capitão,

Szegeri com a palavra ...

Saravá!

Szegeri disse...

Fraga velho, em consideração à tua nobre pessoa, e tão somente por isso, volto aqui para dizer somente o seguinte: venha para cá semana que vem e beberemos de verdade em um(ns) butiquim(ns) de verdade, com balcão de verdade que não peça nada, onde não tenha ningém pra ditar o que seja lamentável, condenável, lavável ou injetável. E onde otário não se cria. Deixe a patuléia virtual trocando receita de foagrá.

Saravá!

Roberto Fraga Jr disse...

Pois é Edu, diante do excessivo número de erros de português no meu último post que fariam o seu "Creyçon" ficar envergonhado (espero que tenham sido causados por alguma configuração do teclado já que eu nem tinha bebido), aqui vai...

Como eu ia dizendo, o negócio do Calango é uma receita da família da minha "digníssima". Eles desenvolveram seus dotes culinários por conta das inúmeras "gerações famélicas" no sertão nordestino (a teoria Darwinista explica isso). O Calango é a ponta do iceberg das iguarias nordestinas. No sítio do meu sogro nenhum semomente que "cruze a roça" escapa ileso. Todos vão para a panela (tatus, cotias, micos, capivaras...).Tomara que o IBAMA não tome conhecimento desse post. Ainda bem que a maior parte da família veio para o "sudeste maravilha". Os que ficaram na "terrinha" arrumaram parceriros por lá. Esses, em duas ou três gerações, voltarão a viver em cavernas.

Roberto Fraga Jr disse...

corrigindo... nenhum "semovente".... : )

4rthur disse...

Lembrei de uma das histórias do teu livro, na qual o Flavinho aparece berrando aos 4 ventos o valor daquela bebida cara (100 reais, né? Segunda-feira sou péssimo pra lembrar as coisas...)

Eduardo Goldenberg disse...

Cem dólares, 4rthur, cem dólares.