6.12.07

CÉSAR MAIA, MODUS OPERANDI

O alcaide da minha mui leal e amada cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro, César Epitácio Maia (sem o negrito), não satisfeito em ter gerado para a cidade o filhote, Rodrigo Maia (também sem o imerecido grifo), um sujeito que envergonha o Rio de Janeiro, diariamente, com suas atuações patéticas na Câmara dos Deputados, em Brasília, ambos membros do DEMOCRATAS, nominho descolado para o putrefato PFL, trouxe para 2007 a política do panis et circenses quando anunciou o tombamento (pausa para o vômito) da torcida do Flamengo como bem cultural da cidade do Rio. Há menos de um ano das eleições que escolherão seu sucessor - como se já não bastasse a babaquice da decisão pura e simples - o gesto soa como repugnante.

Exatamente como na Roma Antiga (e se eu estiver falando besteira que me corrija o Professor Luiz Antonio Simas), César Maia busca, com mais essa medida burlesca, promover um frisson como meio de manter os plebeus afastados da política, das questões sociais, uma maneira asquerosa de manipular a plebe e de mantê-la afastada e distante das decisões que, geralmente, a prejudicam.

César Maia, tentando justificar o injustificável, defendeu o tombamento ao falar das manifestações recentes da torcida do Flamengo, que teve média de quase 40 mil pagantes por jogo no Campeonato Brasileiro - menos que a média do Bahia, na série C, e mais à frente falarei sobre isso.

Disse, em entrevista, o prefeito:

- Mostrou um caráter de cultura popular em processo de mobilização, além de ter reforçado a marca de centralidade do Rio. A coreografia de massa, o canto de massa. Para todos isso caracteriza cultura popular e deve ser marcada como tal.

Que tal? Nojo. Nojo. Nojo. Cultura popular em processo de mobilização, marca de centralidade do Rio, coreografia de massa, canto de massa... Quanta babaquice dita numa frase só, e não rebatida por NINGUÉM, até o momento.

E é evidente que não poderia ser diferente... O presidente do Flamengo, Márcio Baroukel de Souza Braga (sem negrito também), disse que vai entrar em contato com o prefeito para articular (é evidente que foi ele quem usou esse verbo babaca, e não eu) junto às lideranças da torcida uma solenidade para celebrar a decisão.

Disse o dirigente:

- É uma decisão sensacional, maravilhosa. A torcida do Flamengo é um patrimônio do país e merece todas essas homenagens. Tem que ser uma festa marcante.

Disse, pra variar, merda.

Mas vamos ao que tenho a dizer.

Pausa para o pigarro e em frente.

Não há nada (com a ênfase szegeriana) que justifique o tombamento da torcida do Flamengo, como não há nada que justifique a patética entrega daquele troféu-que-não-vale-nada promovida pelo presidente da SUDERJ, Eduardo Paes (eventual candidato à sucessão de César Maia), por ocasião do jogo entre Flamengo e Santos, no Maracanã, na penúltima rodada do Campeonato Brasileiro.

A torcida do Flamengo é tão grande (e não falo do número de eleitores, mas da grandeza que escapa a grande parte dos homens públicos) quanto a do América, a do Botafogo, a do Fluminense, a do Vasco. O que o prefeito pretende, com essa medida estúpida, é pegar carona na onda rubro-negra, que catapultou o time das últimas posições para o terceiro lugar no final da competição. Não conta com meu apoio e não me entusiasma. Até mesmo porque se o prefeito pretender tratar a torcida do Flamengo como trata os bens já tombados na cidade do Rio, a torcida do Flamengo ruirá como ruiu o Estádio da Fonte Nova.

Falei do Estádio da Fonte Nova (por que ninguém responsabiliza Antônio Carlos Magalhães e seus asseclas, responsáveis durante décadas pela manutenção do estádio que viu parte de sua arquibancada, sem vergalhões, desabar, pela tragédia no último jogo do Bahia pela Série C?????) e falo agora da torcida do Bahia e da patética festa da CBF realizada na terça-feira no Teatro Municipal.

Antes, já que falei em estádio... uma pergunta.

Por que, também, ninguém pergunta a Márcio Braga, Kléber Leite, Michel Assef, Michel Assef Filho, George Helal, Edmundo Santos Silva, dirigentes perpétuos do Flamengo, qual a razão que explica o fato de a maior torcida do Brasil, a mais atuante, a mais participativa, uma das torcidas que mais vai aos estádios, que mais compra produtos licenciados pelo clube, não ter um campo decente pra ver seu time treinar????? A "marca Flamengo" - expressãozinha de merda em voga nas bandas da Gávea - vale bilhões de reais e o clube vive na penúria... Seus dirigentes também vivem?

Mais pigarro e sigamos.

A festa promovida pela CBF no Teatro Municipal foi uma festa para autopromoção de Ricardo Mais Uma Dose Teixeira, presidente da CBF há quase vinte anos (e assim será, por acordo, até, pelo menos, 2014, ano da Copa do Mundo no Brasil).

Saudado como o homem que ajudará muito o povo com as obras de infra-estrutura para a Copa de 2014 (o apresentador Marcos Palmeira disse algo do gênero), Ricardo Ôpa Vou Cair Teixeira é o mais beneficiado com a Copa do Mundo no Brasil, assim como foi César Maia, e seus asseclas, o mais beneficiado com o PAN de 2007.

E pra terminar: agindo com as mesmas intenções do alcaide, Ricardo Só Mais Uma Por Favor Teixeira mandou entregar um prêmio especial para a torcida do Flamengo por sua participação no Campeonato Brasileiro de 2007.

Mas qual foi o critério, hein?!

Se foi raça, amor e paixão, a torcida do Bahia, na série C do Campeonato Brasileiro, dona da maior média de público de todo o campeonato, e que pagou, caríssimo, com a vida de torcedores assassinados por seguidas administrações incompetentes no último jogo do ano, ganhou de longe, de muito longe.

Mas isso interessa a quem tem escusos interesses?

Até.

14 comentários:

Wanderson disse...

Sem contar que o Sr. Ricardo Teixeira era genro do Sr. Havalange que só saiu da CBF quando viu que estava virando uma múmia. Agora o Sr. Ricardo Teixeira que nada fez pelo futebol, irá ficar lá até surgir um outro dirigente obviamente da sua família e assim serão os próximos anos do futebol brasileiro. Agora o sr.césar maia vem com essa de tombamento de torcida??? Sinceramente é uma falta do que fazer!!!!

Não passarão


Wan

Juergen Stendhal disse...

Texto dotado de muita lucidez. Também achei populista e demagógica a medida do prefeito César Maia. O texto ganha mais força porque você é Flamengo e isso faz com que a crítica ganhe em autenticidade. Você está de parabéns!

Milton Molon disse...

Eu sei que a WIKIPEDIA é feita por qualquer pessoa, mas é curioso ler o que se fala sobre esse dirigente do futebol brasileiro:

"O jovem mineiro do interior, filho de um bancário, estudava Direito no Rio de Janeiro quando conheceu Lúcia, filha de João Havelange, no carnaval de 1966. Tinha apenas dezenove anos.

Ao nascer seu primeiro filho (1974) fez um agrado ao sogro ao registrá-lo com o nome de Ricardo Teixeira Havelange, colocando por último o sobrenome materno, ao contrário do que determina a lei brasileira.

Teve uma mal sucedida passagem pelo mercado financeiro, numa sociedade com o pai, o sogro e um irmão.

Chegou ao comando da CBF, em 1989, sucedendo Octávio Pinto Guimarães, após derrotar na eleição a Nabi Abi Chedid, presidente da Federação Paulista de Futebol. Encontrou a entidade quase sem condições de arcar com os custos da preparação da seleção brasileira para a Copa do Mundo de 1990, na Itália.

Escândalos atingiriam a gestão de Teixeira, com acusações de nepotismo no preenchimento de cargos na CBF, pagamento de viagens para países sedes da Copa do Mundo a magistrados e outras autoridades, importação irregular de uma choperia dos Estados Unidos, após a Copa de 1994, e a celebração de contratos lesivos para o futebol brasileiro, em especial com a fabricante de artigos esportivos Nike.

Também dispendeu recursos da CBF para campanhas políticas de dirigentes esportivos, com o intuito de constituir no Congresso Nacional uma bancada simpática a seus interesses, que ficou conhecida como bancada da bola. Com a montagem deste esquema de poder, assegurou suas quatro reeleições.

Em 1998, vê-se envolvido em comissões parlamentares de inquérito na Câmara de Deputados e no Senado Federal, mas, com auxílio de congressistas fiéis, consegue se livrar das acusações.

Na vida pessoal, Ricardo Teixeira fez da fazenda Santa Rosa, em Piraí, a 70 quilômetros do Rio, sua base de operações na região. No Rio, o presidente da CBF soma negócios variados, como uma revenda da marca Hyundai, boates e restaurantes.

Separou-se da mulher Lúcia em 1997 e no mesmo ano tornou público um romance com a socialite Narcisa Tamborindeguy . Em dezembro de 2003, casou com a administradora Ana Rodrigues.

Durante sua gestão na CBF, seleções brasileiras, de todos os níveis, conquistaram 11 títulos mundiais e 27 sul-americanos, consolidando a sua hegemonia no cenário mundial. Por outro lado, durante seus cinco mandatos aumentou em muito a êxodo de craques brasileiros para o exterior, nem sempre para os grandes clubes do futebol europeu.

Deve-se ainda a Ricardo Teixeira a criação da Copa do Brasil que propicia a pequenos clubes, alguns de fora dos grandes centros, a oportunidade de aparecerem no cenário nacional.

Ricardo Teixeira é cidadão honorário de vários estados brasileiros.

Em Assembléia Geral realizada em 18 de abril de 2006, dirigentes das 27 federações estaduais decidiram aumentar de quatro para sete anos o mandato do próximo presidente da Confederação Brasileira de Futebol, que será eleito no ano que vem. Embora não tenha antecipado nada a respeito, Ricardo Teixeira continuará como o candidato oficial da entidade. Ele garantiria assim sua presença no cargo até depois da Copa do Mundo de 2014 , que pelo rodízio da FIFA, será realizada obrigatoriamente na América do Sul. O Brasil desponta como país favorito para sediar a competição.

Segundo os autores da proposta, esta medida evitará que, perto da Copa de 2014, Estados pressionem para serem mais favorecidos na hora de escolher as cidades-sedes.

Nos seus primeiros mandatos, Teixeira foi eleito por um colégio eleitoral composto pelos presidentes de federações estaduais. A partir de 2003, também votaram os presidentes dos clubes que disputaram a Série A do Campeonato Brasileiro do ano anterior.

Caso Teixeira seja reeleito, será o dirigente que por mais tempo comandou a CBF. Ficará, no mínimo, 18 anos no cargo e vai superar João Havelange, que dirigiu a CBF de 1958 a 1974."


Saudações acreanas.

Craudio disse...

Quando escutei esse papo, logo achei que se tratava de uma medida eleitoreira. Me estranha demais esse tipo de coisa, principalmente porque, se olharmos na história (corrija-me, Edu, se eu estiver errado), a torcida rubro-negra já se manifestou muito mais ativa e bela em outros tempos.

Explico a linha de raciocínio: como fazer espetáculo nas arquibancadas se cada vez mais o futebol se elitiza e se submete aos caprichos da Globo e do Ricardo Teixeira?

Minha avaliação é a mesma que a tua. Querem tornar popular algo que está cada vez mais para poucos (vide camarotes nos jogos da seleção), só para justificar a coisa toda.

Só mais dois exemplos, aqui de SP:

1) o time tricolor do Jd. Leonor está incentivando o vira-casaca e terá torcedores com contrato assinado (é, eles "profissionalizam" até a torcida);

2) o presidente (tsc) do meu amado Coringão declarou, após visitas de dirigentes do Barcelona, que se o Corinthians tiver um estádio vai ser privilegiando os abonados;

Triste.

Abraços!

Bezerra disse...

Eu acho que é pelo fato de estarmos a menos de um ano das eleições municipais, Edu (e reforçando que você disse no segundo parágrafo), que o Cesar Maia tombou como bem cultural carioca a massa rubro-negra. Afinal, a torcida do Flamengo tem eleitor pra cacete, né?! É evidente que, com essa atitude, o Cesar não quis jogar pra perder. Prefiro crer, enfim, que tudo isso não passa de jogada política, com a única intenção de puxar votos - isso é velho...

Anônimo disse...

Parabéns pelo texto, pela isenção, pela coerência e pela escolha do momento oportuno para lançar esse assunto no balcão.

O relato sobre o oportunismo do alcaide é preciso. A torcida do Flamengo (sou tricolor como vc sabe) merece toda a deferência, não só pelo que fez nesse campeonato, mas por seu histórico de devoção ao time.

O que César Mala, esse pulha, esse asno bípede, esse vagabundo, fez, novamente mordido pela mosquinha azul do poder, não passa de um ato que tem como pano de fundo sua autopromoção e manutenção de seu poder. Algo absolutamente repugnante! Infelizmente, essa cultura de perpetuação – a qualquer custo e por cima de qualquer princípio – no poder é uma tradição em nossas terras (Simas já falou sobre isso em texto que merece ecoar nos quatro cantos do mundo e em todas as galáxias).

Mas, mudando o assunto (o que tinha de ser dito, vc já o fez muito bem e eu não vou ficar aqui enchendo lingüiça) para a CBF e sua festinha, parece sina, mas eu me recuso a seguir. Veja só: novamente fui convidado para participar da dita festa de premiação da CBF. Escaldado pela última experiência (a do jogo, lembra?), recusei, não fui, preferi ficar em casa acompanhado somente pelo Fidel, o cão que, acredito eu, muito tem em comum com o seu Pepperonni (um dia te conto o que esse sonso já me fez passar).

Não me arrependi de recusar o convite; pela televisão, o que vi - e olha que vi muito pouco -, como diz um amigo meu, foi de arrancar pentelho do cú de tanta raiva que dava. Primeiro, colocaram um atorzinho de quinta categoria, bobo alegre e metido a galã, para apresentar a mixórdia junto com um outro que, desconfio eu, estava tendo uma caganeira daquelas, pois suava compulsivamente, narrava tudo se tremendo todo e não dava um sorriso. Tava esquisito.

Depois de ouvir os depoimentos do Márcio Braga e do Rogério Ceni joguei a toalha e fui dormir. O Marcio Braga já é um fanfarrão notório, conhecidíssimo na praça. Mas esse Ceni eu não suporto, um babaca de marca maior, politicamente correto, cheio de retórica de merda (ahhhhh! Vai pra puta que pariu!), daqui a pouco, pode escrever ai, vai se candidatar a alguma coisa, esse merda. O texto está meio grande, não precisa publicar não, eu só queria mesmo é te dar os parabéns e externar minha revolta com essa corja.
Saudações,
Daniel A.

Anônimo disse...

Estimado Edu

Vejamos uma das possíveis conseqüências da estranhíssima decisão do alcaide.
Todos sabem que ao ser tombado um bem passa a ser detentor de certos benefícios em face do Estado. Tia Monza, por exemplo, morou numa casa tombada ali pros lados do Catete. Ela não pagava IPTU. A conta de luz recebia um gordo desconto e a Prefeitura, de quando em vez, dava-lhe gratuitamente um retoque na fachada do imóvel.
“Ficou pior do que antes”, dizia ela, pobre, que tinha que pagar o Nilo, pintor de paredes profissional, para ir lá consertar a lambança.
Dou então o recado: por que não, torcida do flamengo, invocando a qualidade de tombada não vais pleitear isenções como, por exemplo, deixar de pagar ingressos no Maracanã? Ou bilhetes do Metro ou da Flumitrens?
“Sou torcedor do Flamengo, não pago passagem”. Putaquipariu!
Perigoso precedente, caro Edu. Se a história se repetir - e sei que ela só se repete como farsa, mas tenho esperanças, que digo o Professor Luiz Antonio Simas - o próximo acontecimento, para a nossa Roma, será o envenenamento de César e a maravilhosa chegada dos bárbaros.

Sapere aude. Beijo no coração.
Eduardo Junqueira

Marcelo Menezes disse...

Texto lúcido e digno de publicação em um grande jornal.

Fábio Brasil disse...

Faço minhas cada uma de suas palavras, Edu. Poucas vezes li você tão centrado e desprovido de paixão (não é uma crítica a seu estilo, mas uma constatação diante de um texto tão sóbrio e justo).

Anônimo disse...

Baêêa!
Baêêa minha vida...
Baêêa meu orgulho...
Baêêa meu amoooooor!

Daniel (SSA)

Dudu disse...

Sensacional o texto. Não retiraria nem acrescentaria uma vírgula sequer.

Palhaçada total.

Um abraço.

Jubba disse...

Filinto Epitácio maia, homem digno, que estudou com meu avô em Belém do Pará, deu mais uma reviradinha em seu jazigo.
"Pra que, meu filho? Não bastava o Obelisco? A rasgação de dinheiro do PAN? O Rodrigo Maia, meu neto?"
AiAIAIAIAIAIA

Casé disse...

Edu,

Eu fiquei muito satisfeito com o rebaixamento do Corínthians, pois não engoli aquele brasileirão de 2005. E como bom vascaíno, torço para que chegue o dia em que comemoraremos a morte daquele escroque em pele de presidente interino.

Abraços,

José Mafra disse...

Edu,

É fundamental esquecermos das nossas paixões clubísticas em certos momentos. A paixão exercitamos com intensidade nos estádios e nos bares. E só.

Vi isso em sua resposta ao meu comentário no 'post' "Do Dosador" e vejo agora nesse excelente texto.

Parabéns.