14.12.07

REGISTROS

Terça-feira próxima passada, 11 de dezembro, almocei - a trabalho - com Luiz Carlos Fraga, o Fragata, como prefere chamá-lo Rodrigo Ferrari, esse poço artesiano de doçura. Eu, aliás, que não sou muito chegado a alto-mar e travessias marítimas, detesto o epíteto. Mas vamos em frente.

Eu disse isso apenas para manter a fama de polemista.

Marcamos o almoço, eu vindo do Tribunal de Justiça e ele do Tribunal do Trabalho, no Antigamente, na rua do Ouvidor 43.

Devo dizer que antigamente eu detestava o Antigamente. Tudo ali era estranho, tudo ali era anti-carioca, tudo ali impedia e repelia minha freqüência, ainda que mínima ou esporádica para uma única cerveja - que jamais bebi. Mas eis que o Antigamente foi vendido e uma bela figura tomou a frente do negócio: o Carlinhos.

O Antigamente tem, portanto, seu divisor de águas, sua demarcação de eras, o Carlinhos. Há o Antigamente AC e o Antigamente DC. Eis a verdade e vamos ao almoço.

Aliás... não vamos ao almoço eis que não quero lhes contar nada sobre o almoço, que foi todo ele, das 15h às 17h, dedicado a trabalho, e eu sou, na matéria, um sigiloso.

Fazia uma canícula na cidade. À certa altura, já terminando os trabalhos, depois de correr os olhos pelo cardápio mais uma vez e não encontrar o que me apetecia naquele momento, pedi que chamassem o Carlinhos.

- Há como mandar preparar um steak tartar, Carlinhos? Vimos que não consta do cardápio...

Luiz Antonio Simas chegou exatamente nesse momento e sentou-se à mesa conosco.

O Carlinhos, provando a fidalguia da era DC, apenas sorriu, fez sinal para que esperássemos, ouviu de cada um de nós um pedido diferente com relação ao prato - que tem incontáveis variantes! - e em menos de quinze minutos veio à mesa um fabuloso steak tartar.

Dito isso, vamos ao que quero lhes dizer hoje, precípuamente.

Poucas coisas na vida são mais importantes do que fazer registros. E registros, que fique registrado, de tudo. Eis aí uma das grandes vantagens dos avanços tecnológicos, que permitem que saquemos da pasta, do bolso, das bolsas, uma câmera digital, uma filmadora do tamanho de uma câmera digital, um telefone celular de última geração, um gravador digital do tamanho de um isqueiro, e façamos o registro dos momentos que vivemos para que a saudade seja melhor documentada, as histórias sejam melhor contadas, a vida seja mais bem revista.

E eu, um obsessivo com esse troço do registro, após lambermos os beiços, os três à mesa, com o primeiro steak tartar do Antigamente, saquei de uma toalha de papel e mandei ver:

"Rio de Janeiro, 11 de dezembro de 2007

Serviu-se hoje, 11 de dezembro de 2007, o primeiro steak tartar do Antigamente na rua do Ouvidor, 43. Presentes,

Eduardo Goldenberg
Luiz Antonio Simas
Luiz Carlos Fraga"


E o Fraga pôs um PS:

"O nascimento do prato deveu-se à maiúscula figura de Carlinhos, após Eduardo Goldenberg"

registro do primeiro steak tartar servido no Antigamente, na rua do Ouvidor, 11 de dezembro de 2007

Não satisfeito com o primeiro registro feito, ao chegar à mesa a conta pedi ao Carlinhos que destacasse a comanda do steak tartar e assinasse, para que eu a guardasse comigo.

E assim foi feito.

A comanda da mesa 6, com o steak tartar comandado a R$25,90, tem o carimbo do Antigamente e o autógrafo - o cara é um artista, pô! - do Carlinhos.

comanda do primeiro pedido de steak tartar, no Antigamente, na rua doi Ouvidor, assinada pelo Carlinhos, 11 de dezembro de 2007

Partimos, então, em direção à livraria do meu coração, a Folha Seca, ao lado do Antigamente.

Lá chegando, cerveja que vem, cerveja que vai, cutuca-me o Simas:

- Edu... Fiz um samba em homenagem a Oyá...

- É? Pô, Simão, canta aí...

Ele, num gesto clássico que o caracteriza, coçou a testa com o dedo mindinho, o seu vizinho, o pai de todos e o fura-bolo da mão direita, o punho bem no alto da careca, o cotovelo apontado para o lado e para o alto:

- Não sei se lembro... Não sei se lembro...

Saquei, na hora, do telefone celular, liguei o gravador e disse:

- Canta, Simão, canta!

E ele cantou.

A gravação está cheia de chiados porque eu sou uma negação no domínio dessas novidades. Gravei no celular, depois passei para o gravador digital e só então para o computador, e mesmo assim contando com o auxílio luxuoso da minha comadre Mariana Blanc, que transformou o arquivo em MP3.

Mas vale - como já disse - o registro.

Pedi a letra ao Simas, que mandou-me o email abaixo reproduzido.

No final, o acesso à gravação do samba, lindíssimo. A gravação está tão cheia de chiado, mas tão cheia de chiado, com a taxa de bits tão baixa, que o programa DivShare, que disponibiliza o arquivo, não o reconhece vez por outra. Eis a razão pela qual optei, desta vez, pela disponibilização do acesso ao arquivo, e não ao arquivo diretamente postado no BUTECO.

""A mãe dos nove espaços do Orum
É madeira que cupim não incomoda
Yabasse prepare o acarajé
Hoje tem batucajé, tem candomblé, samba de roda.

A borboleta encantada
Fez morada em Ifé
Atrás desse búfalo selvagem
Há uma imagem de mulher

Que amou Ogum
Com todo fervor
Até o dia
Em que conheceu Xangô
Trocou o ferreiro
Por um novo amor.

Oyá se apaixonou
Foi ventania
Se amaram noite e dia.

Põe epô que dá o axé
Para receber as bençãos da senhora do Balé

Ke matim alaba ê
Ê mabo
Olha o vento dando nó
Conduzindo Egum
Ke matim, alaba ê
A guerreira de Olorum"

Lembrando: em certos mitos Iansã é um búfalo da floresta, em outros foi seduzida por uma borboleta encantada. O último refrão louva a posição de Iansã no culto aos mortos. Balé é a casa onde são cultuados os eguns. Iansã comanda os eguns e dança no reino dos mortos. O acarajé é uma de suas comidas prediletas. Dizem que Oyá comanda os nove espaços do Orum, o invisível..."


PARA OUVIR CLIQUE AQUI


Até.

8 comentários:

Bruno Ribeiro disse...

Que beleza tudo isso, querido! Os registros são imprescindíveis! E o steak tartar há de fazer sucesso! O samba do Simas! Que beleza o samba do Simas! Epa hey, Oyá!

Anônimo disse...

Edu,

Se não for incômodo, dada à ausência de fotos, em quais das - tantas - variantes o steak tartar foi servido? Tinha hortelã?

abs.

Daniel A.

Eduardo Goldenberg disse...

Bruno: belíssimo o samba, não? O malandro é bom, querido, ou você não se lembra do que nos mostrou lá em SP?

Daniel: sem hortelã... E aceite minha sugestão. Vá lá, chame o Carlinhos e peça o prato... Você não vai se decepcionar.

fraga disse...

Hortelã?

Malandro, tinha aliche, ovo caipira (cru, evidentemente) e pimentas variadas - tá de bom tamanho?

Szegeri, meu irmão, lamentando não tê-lo encontrado, salva a gente!

Saravá!

Carlinhos disse...

Obrigado pelas carinhosas palavras e pela força! Agora Edu, você esqueceu de falar que o prato vai entrar no Cardápio em Janeiro e que já foi batizado de "Steak Tartar Eduardo Goldenberg",
Abraço!

Eduardo Goldenberg disse...

Carlinhos: não tem nada que agradecer, malandro. Cada um dos elogios feitos a você é mais-que-merecido.

Quanto ao nome do prato... ainda bem que Luiz Antonio Simas é testemunha do quanto tentei demovê-lo da idéia.

Depois não vá reclamar, hein!?!

A manter-se a intenção da imerecida homenagem, esteja certo de uma coisa: será o prato mais coerente da casa!

Coerente, parcial e polemista!

Por exemplo... se o Daniel A. pintar lá e pedir hortelã... pode!

Sacou?

Abração.

Anônimo disse...

Sua sugestão está aceita, Edu.

E seja com, ou sem hortelã, qualquer dia desses estarei lá a conferir.

Tá certo o Fraga: com ovo, aliche e boa variedade de pimenta, o sucesso do prato independe do hortelã. Aliás, quem sou eu para meter bedelho na composição do Steak Tartar Eduardo Goldenbenr??

Forte abraço,

Daniel A.

Vanessa Dantas disse...

Antes tarde do que nunca. Fiquei com água na boca! E essa história de fazer registro em guardanapo é ótima. Também tenho dessas! Beijo.