30.1.08

DO BALCÃO AO DIVÃ

No dia 18 de janeiro deste ano de 2008 escrevi, pela primeira vez, o primeiro texto da série que chamei DO BALCÃO AO DIVÃ, vocês podem ler aqui. Sempre que escrever um texto da citada série estarei fazendo, como diria minha bisavó, chiste de mim mesmo, com o objetivo, a ser atingido a longo prazo (duvido um pouco da eficácia da coisa...), de melhorar com relação a esses pequenos sintomas de distúrbios comportamentais aparentemente inofensivos. Naquele primeiro texto expliquei a vocês, meus poucos mas fiéis leitores, sobre minha incompreensível reação diante da falta de uma bata, apenas uma bata, dentre as tantas que ganhei de presente (só lendo pra entender, leiam aqui). Comentando o texto, Fernando Szegeri, esse homem que me conhece como pouca gente, decretou:

"Querido, será que as pessoas tem noção de quanto essa história é a expressão mais lídima, escorreita e irretocável da verdade sobre a vossa pessoa?"

Eu, 59 minutos depois, o respondi:

"Szegeri, meu irmão: acho que não, querido, sinceramente acho que não. Mas note bem que estou fazendo a minha parte, me expondo de maneira olímpica diante do balcão. Quem não quiser crer... que não creia. Dia desses conto sobre o episódio da agenda, tá?, que é bastante elucidativo também. Beijo."

Cumprindo minha palavra, eu que sou preciso do início ao fim, vamos, então, ao episódio da agenda que expõe, cruamente, mais uma de minhas facetas (escrevo isso e sou tomado de gigantesco sentimento de pena da minha menina, coitada, que, sabe-se lá como, suporta o fardo do convívio com minha pessoa).

Lembro-me menino, indo ao trabalho com papai, na avenida Chile, no edifício-sede da Petrobras, o chamado EDISE. Eu passava o dia entre toneladas de papel, caixas de lápis-de-cor, computadores jurássicos da IBM, brincando, saindo pra almoçar com o velho no hoje fechado restaurante Mineirinha, no subsolo do Edifício Avenida Central, vendo meu pai fumar maços e maços de Shelton Lights, e dizendo, sempre ao chegar e ao sair do escritório, alisando uma agenda que repousava sobre sua mesa:

- Eis a melhor agenda do mundo!

Pequena pausa para brevíssima digressão e duas explicações bastante definidas. A primeira: a mesa de trabalho de meu pai era enorme, tinha tampo de vidro, e sob a tampa, dezenas, centenas de fotografias de mamãe e dos três filhos. A segunda: como já lhes contei, em fevereiro de 2006, no texto O PAI ME DISSE (leiam aqui), herdamos, papai e eu, de meu avô, Oizer Goldenberg, esse hiperbolismo ancestral (vejam meu avô aqui). Tudo o que está a nosso alcance, para nós, é o que há de melhor no mundo. Não deixa de ser uma postura diante da vida, mas era apenas o fato, em si, o que eu queria lhes contar.

Então papai ficava:

- Agendas Pombo, meu filho, as melhores do mundo... Quando entrares para a faculdade te darei uma, tá bem?

Eu, que tinha em papai um modelo a ser seguido, ansiava por esse dia.

Esse dia chegou em 1987 e meu pai, implacável, deixou sob minha cabeceira, na manhã do primeiro dia do ano, minha primeira agenda Pombo. Lembro-me do arranco e do arremesso ao passado que sofri naquele instante, eis que diante da visão daquela agenda me vieram à lembrança, de forma aguda, minhas manhãs e minhas tardes passadas na gigantesca sala da Petrobras e a fala de meu pai:

- Quando entrares para a faculdade te darei uma, tá? São as melhores agendas do mundo. Pombo! Pombo!

Vou tentar ser conciso para não tornar enfadonha a leitura de hoje.

São, até o momento, 22 anos usando o MESMO modelo de agenda Pombo (vejam no site da própria empresa, aqui) que meu pai usava.

A cada novembro, o mesmo ritual. Vou a uma papelaria, compro minha agenda semanal Pombo (dizer a palavra POMBO, devagar, essa palavra pomposa, quase-imperial, me dá cócegas imaginárias), modelo B14-23-321V, medindo 19,7cm X 26,5cm, transcrevo aniversário por aniversário, e é ali, na agenda de meu pai, que organizo minha vida profissional, pessoal até.

Em 2007 foi diferente. Na primeira papelaria, o vendedor:

- Não vamos receber agenda Pombo esse ano, senhor.

Na segunda papelaria:

- Está em falta, senhor. O senhor não quer ver de outra marca?

Não o agredi porque era, afinal, a segunda papelaria.

Na terceira:

- Pombo? Sou novo na loja, nunca ouvi falar.

Na quarta (uma papelaria enorme, uma das maiores da cidade):

- Não, senhor. A Pombo, esse ano, nem encomendando.

Foi o estopim.

Dediquei o dia seguinte a fazer uma varredura na cidade, da Praça Mauá à Cinelândia. No mesmo dia, pouco antes do almoço, Tijuca, Praça Saens Pena, rua Conde de Bonfim até o Largo da Segunda-Feira. Em vão.

Fui ao site, à loja virtual da Pombo. Aliviado, escolhi o modelo, preenchi os dados, e quando cliquei em FINALIZAR COMPRA, a mensagem saltou diante de meus olhos em desespero: MODELO ESGOTADO - PRODUTO EM FALTA

Era como se um vaticínio sobre 2008 pairasse sobre minha cabeça, como se um pombo fizesse um pastoso cocô sobre uma estátua imaginária de mim mesmo.

Eu diria que o IBAMA, se me visse, se me ouvisse, se captasse meus pensamentos, me prenderia em flagrante, eis que eu era, em gestos, em expressões, em mãos e em verdade, um criminoso caçador de pombo.

Até que recorri a ele, Fernando José Szegeri. Mandei-lhe pungente email implorando que rodasse São Paulo, e fiz os maiores elogios à São Paulo na esperança de sensibilizar, ainda mais, meu irmão paulista. Eis sua resposta (ligeiramente editada):

"Querido, quando eu acho que já vi todas as manifestações da vossa maluquice, eis que você me surpreende."

O fato é que 48 horas depois, eu fui um homem em estado bruto de felicidade quando estrilou, pela manhã, o interfone. Era o porteiro:

- Edu? Chegou SEDEX 10 pra vo...

Desci como um louco as escadas, ainda de pijamas, arranquei, como um bárbaro, a encomenda das mãos do carteiro, e subi os quatro lances, de volta, abraçado à agenda de meu pai, azul, que reluz, agora, sobre minha mesa de trabalho e até o final de 2008.

Até.

12 comentários:

Luiz Antonio Simas disse...

Eu só não entendo, querido, como você gosta de fotografias em preto e branco, que são, tenha certeza, altamente perigosas.
Aliás, tenho agora a absoluta certeza que a Casa Cruz pegou fogo por culpa de suas pragas! Quem manda não ter a Pombo, cacete.
Beijo

Eduardo Goldenberg disse...

Simas, meu irmão... Você sabe o quanto sou devoto de suas lições, que jorram de sua boca em forma de sabedoria, como água dos mais fartos chafarizes do mundo... Conte-me qual o perigo das preto-e-branco, por favor! Abração.

Luiz Antonio Simas disse...

Fantasmas, meu caro, fantasmas. Almas penadas, eguns burukus, gente que vem das profundas. Esse pessoal todo adora fotos em preto e branco. Aliás, você já reparou que TODAS as fotos de túmulos ( eu observo sempre essas fotos) sáo em preto e branco. Aquelas sinistras, que vem em molduras redondas? Morto não tira foto colorida.
beijo

Anônimo disse...

Edu, ainda bem!!! As agendas Pombo são imprescindíveis. E o Guaraná Caledônia, de Friburgo??? Cadê a porra do Guaraná Caledônia, que nunca mais vi!!! Vai também virar uma foto p&b, caceta?!?! ZS

Craudio disse...

Edu, admiro pessoas que têm a capacidade de usar agendas. Não tenho o menor senso de organização para isso, e todas as tentativas foram desastrosas. Aliás, acho que foi no blog do Simas que eu li sobre uma experiência semelhante e nada prazerosa.

Mas a Pombo, de fato, é uma grande agenda. Tenho uma imagem marcante da empresa, também da infância. Havia um outdoor imenso na Avenida Ibirapuera da Pombo, que inclusive ficava na esquina da Praça do Pombo.

Toda vez que eu passava por ali de carro ficava contemplando o letreiro. Assim como adorava o letreiro da finada Gurgel.

Abraços!

Seu pai !!! disse...

Du , se eu fosse voce já encomendaria a agenda para 2009 !!!!

4rthur disse...

Quer uma dica? Passe a comprar duas a cada ano. Infelizmente - e entristece-me dizer isso - existe uma chance real das agendas Pombo ficarem para a história. E pelos meus cálculos, como a cada ano avançamos um dia na semana (à exceção dos anos bissextos, quando pulamos dois), em 2013 você poderá usar a mesma agenda que está usando agora! Passe a adotar este método e garantirá uma sobrevida de 7 anos de agendas Pombo!

Grande abraço.

Rodrigo Santiago disse...

Estamos diante de um psicopata em potencial...

Cristiano disse...

Gostei da D8-Amalfi...

Bruno Ribeiro disse...

Fiquei com medo das fotos em preto e branco. Sério.

Anônimo disse...

Oi, também sou sua leitora diária, e este ano quando recebi a agenda da empresa onde trabalho, o meu colega comentou que as agendas Pombo são as melhores e antigas. Achei muita coincidência o seu comentário. rsrs

Ave disse...

Infelizmente o comercio do Rio só gosta de vender 'marca barbante'. Todos os bons produtos, não importa o assunto, só são encontrados em São Paulo. E lá a gente encontra em qualquer lojinha. Sei disso faz mais de 10 anos. E agora me programo, anoto todas as 'impossibilidades' e, uma vez por ano, vou a São Paulo com a lista. Resolvo em um dia, as vezes em uma única rua.