15.1.08

MEU PAI, IMPERIANO - PARTE II

Eu já lhes contei, aqui, no texto O PAI ME DISSE, de 15 de fevereiro de 2006 (notem bem o que vai em negrito!):

"Já disse isso mas é preciso repetir. Papai, carnaval atrás de carnaval, me tomava pelas mãos e íamos à Avenida Presidente Vargas só pra ver os carros alegóricos do Cacique de Ramos e do Bafo da Onça. Papai me punha no alto dos carros e eu posava para as fotografias quase sempre ao lado de mulatas estonteantes que fixaram, em mim, uma paixão avassaladora por aquelas cores e aquelas curvas (delas, mulatas)."

Faço, agora, então, a confissão pública de minha tristeza mesclada com ligeira decepção, mas que dura segundos depois da visão impressionante da fotografia abaixo.

Fernando Goldenberg, avenida Presidente Vargas, década de 70

Fiz prospecções que duraram meses, mexi e remexi em gavetas, armários, cômodas, toda a sorte de móveis cuja função é guardar alguma coisa, e nada. Pedi a ajuda de mamãe, de papai, da Marina, secretária de meus pais, e nada. Não encontrei uma única foto minha capaz de comprovar, através da imagem que dispensa palavra, o que vira-e-mexe lhes conto, que papai nos levava, miúdos, à avenida Presidente Vargas durante as manhãs de carnaval, nos punha no alto dos carros alegóricos e gritava, animadíssimo, com sua Olimpus Trip na mão direita enquanto a esquerda dava as diretrizes:

- Pra cá, pra cá! Põe a mãozinha na bunda dessa moça... isso, isso, isso, filhão!

E clique!

- Alisa, alisa, alisa... Isso! Sorria! Isso!

E clique!

Mas encontrei - eis aí minha sorte levemente modificada (queria, mesmo, era encontrar uma foto minha na mesmíssima situação, e sei que existe, essa é outra característica de papai desde sempre... tudo o que o mais velho fazia o do meio fazia depois, não havia exceção, daí a certeza que tenho) - essa fabulosa fotografia do Fefê, meu irmão, de calças curtas, uma faixa na cabeça, sandálias brancas, sem camisa, muito provavelmente no começo da década de 70, eu diria que 1974, 1975, no máximo.

Os métodos de meu pai (usados até hoje) me dão sólida certeza de que, minutos antes desse instantâneo, eu estava no mesmíssimo lugar, com a mão na mesmíssima bunda, ouvindo:

- Vai lá, Dudu! Mete a mão nesse rabão!

E clique!

Como já lhes disse, e repito, a minha fotografia eu não encontrei.

Mas ela existe.

Existe e está, é evidente, em algum lugar.

Tenho, às vezes, a impressão de que papai e mamãe, depois de uma conversa rápida, decidiram mantê-la escondida, e bem escondida, longe de mim. Sabem bem, os dois, o efeito devastador que a simples visão da dita cuja causaria em mim.

Falei em papai, falei em mamãe, falei em efeito devastador, e creio que amanhã, se conseguir os ingressos que não existem mais, sentirei emoção semelhante à que senti quando vi meu irmão entre as flores de plásticos e as mulatas de carne e osso (era carnaval, porra, quem me desmentir não entende nada!) quando entrarmos, juntos, os seis (eu, Dani, papai, mamãe, Fefê e Lina) no Teatro Rival, para vermos o menino de 47 em dia de festa.

Até.

Um comentário:

Eugenia disse...

hahahahahah!!!! que foto!!!!!
hoje vai mesmo ser uma festa muito linda, amigo!!!!