24.1.08

MINHA PRIMEIRA VIAGEM

Vou manter, hoje, a mesmíssima linha que venho tirando do carretel de imagens que amealhei durante a insana procura de uma imagem, uma única imagem minha, como já lhes contei aqui, e expôr, no balcão do BUTECO, uma fotografia feita em 02 de setembro de 1969, tinha eu pouco mais de quatro meses de vida.

Ela está no álbum vermelho, aveludado, onde se lê, na capa, NOSSO FILHO, e onde, logo abaixo, há uma daquelas fitas adesivas, preta, com letras em relevo (todo mundo tinha isso, não há nada que me faça lembrar o nome do troço!), escrito EDUARDO BRAGA GOLDENBERG (imagino que deva ter sido mamãe, pacientemente, girando o disco, letra por letra, quem preparou a tal fita), na décima quinta página.

Sobre a fotografia, um papel com a letra de mamãe anuncia: PRIMEIRA VIAGEM (2-9-69). Abaixo da fotografia, outro papelzinho: TERESÓPOLIS.

Mariazinha (mamãe), Isaac (papai), Mathilde (minha bisavó) comigo no colo, e Alzira (minha tia Zirota)

Eu já lhes contei, quando escrevi DEBUTE NO ENGENHO NOVO (leiam aqui) que uma criança que teve um tio chamado Beneval não pode - não pode mesmo - crescer como as outras. E a mesmíssima obervação vale para quem teve uma tia chamada Alzira que todos chamavam de Zirota (lê-se Ziróta... Fique você aí repetindo, umas cinco, seis vezes, o nome Zirota, veja se não é de causar um frisson de gargalhadas internas e tente dimensionar o que seja isso para uma criança).

Na preto-e-branco acima, que daria arrepios no meu irmão Luiz Antonio Simas, que tem um medo incontrolável dos mortos, daí sua ojeriza à fotografia muito antiga, estou no colo da minha muito amada bisavó (a quem já rendi olímpicas homenagens no BUTECO, notadamente aqui, aqui e aqui), entre mamãe e tia Zirota, irmã de minha bisavó, que morava em Teresópolis. De pé, atrás, a todos escoltando, como sempre, meu velho pai, que fica ainda mais velho amanhã.

Falei em tia Zirota e quero lhes contar um caso muito sério que marcou nossa infância (digo "nossa" porque marcou a de Fefê também, e digo isso sem nem ao menos consultá-lo, tamanha a certeza que tenho do mesmo susto).

Bastava uma brisa mais abusada, um ventinho qualquer, o mais tênue sinal de chuva, e as mulheres da família, mamãe, vovó, minha bisavó, tia Linda, tia Noêmia, tia Irene, partiam para cima de nós e diziam, olhos esbugalhados e em tom dramático:

- Certa ocasião choveu tão forte e ventou tanto, mas tanto, que a pobrezinha da Zirota teve de agarrar-se com as duas mãos nas grades de um portão qualquer para não ser levada!

As mais teatrais juravam de pés juntos:

- Ficou com as pernas em paralelo ao chão, parecia um papel a coitadinha!

Isso fez com que eu NUNCA (com a mais aguda ênfase szegeriana) encarasse uma chuva com naturalidade. Até o dia em que tia Zirota foi oló, bastava um chuvisco inocente e uma lufada de vento para eu discar, com o lápis, o telefone vermelho para Teresópolis:

- Tudo bem, tia Zirota?

E ela ria.

Quando ela estava no Rio, pois passava longas temporadas com as irmãs (Mathilde, minha bisavó, e Hidinha, outra de minhas tias), eu pegava em sua mão na inocente esperança de impedir um novo vôo.

O Fefê, que sempre foi dotado de instintos mais selvagens que os meus, ficava puto:

- Deixa a velha voar, caralho! A gente nunca vai saber se é verdade! - e propunha passeios pelas ruas da Tijuca sempre que o tempo ameaçava virar.

É o que digo sempre...

Os arremessos ao passado me fazem um bem tremendo.

Só vocês estando aqui, diante de mim, para perceberem minha vivíssima expressão de felicidade e de gratidão a meus antepassados.

Até.

12 comentários:

Perla disse...

Quanto mais leio o blog, mais admiro você.

Seu Pai disse...

Porra Du , voce não se lembra da fita preta ???? eram e ainda são as famosas fitas/aparelho DYMO !!!!
e quanto a seu velho pai e que vai ficar mais velho amanhã , engana-se ....... estou ficando cada vez mais jovem e cheio de sequelas da velhice.....rsrsrsrsrs

Marcelo Menezes disse...

Cara é comovente a relação que você mantém com a sua família. Parabéns.

Fefê disse...

Excelente! Adoro quando você me faz rir. Você tá escrevendo cada vez melhor.

Perla (do Pará) disse...

Gosto muito desses seus arremessos ao passado, Edu. Não pare a busca pela foto com a mão na bunda da mulata. E, desculpe, mas espero que vc demore um pouco mais a achá-la, assim teremos oportunidade de ir vendo estas lembranças sempre acompanhadas de textos muito bons.
Abraço,
Perla Lima

Luana disse...

Concordo com a Perla. É uma pena que tão pouca gente tenha acesso a seus textos. Eles são maravilhosos. Pobres jornais que não tem você.

David da Silva disse...

Pô, a Perla me driblou!!! Entrei aqui firme pra demandar a foto da suculenta mulata, mas, como a vigilante paraense também está nesta marcação: primeiro as damas.
Você é malandro, mas creio sinceramente - com a desconfiança indispensável dos vira-latas de butiquins - que a procura da tal foto não seja uma jogada pra nos manter de cotovelos fixos no balcão.
E você tinha de usar o adjetivo "su-cu-len-ta", pôrra? A curiosidade está em brasa, meu!
E olhaí, Edu. Não conheço teu pai - embora o imagine (pelo que escreves) gente da melhor qualidade. Por isto vou dedicar uma das cachaças de hoje à noite ao feliz aniversário dele.

Szegeri disse...

Diiiiinda...
Fraguiiiiiinha...
Tem ninguém aí, não???
A gente bem que tenta, né? Mas tá difícil.

Cristiano disse...

Edu, a fotografia da mulata bulinada tão esperada por todos não é a publicada no texto “Meu pai, imperiano – parte II”? Esclareça por favor. Ah, antes que me esqueça, 300 anos de vida para seu pai. Inté.

Eduardo Goldenberg disse...

Cristiano: meu pai não é o seu pai? Ou você não é o Cristiano, meu irmão? Se não é... nós nos conhecemos? O moleque que aparece na foto a que você se refere é o Fernando, meu irmão do meio. Abraço.

Cristiano disse...

Não,não Edu. Meu pai não é o seu. Sou um mero xará de seu irmão. E não, infelizmente não nos conhecemos pessoalmente. Digo pessoalmente porque leio muito e, há muito tempo o seu Blog. Creio que te conheço virtualmente um pouco. Ah! obrigado pelo esclarecimento da fotografia, fiquei um pouco confuso. Bom, aproveitando o contato, vendo o meu: www.ecodalatinha.blog-se.com.br. inté.

Anônimo disse...

Finalmente, Edu, deixarei breve e descompromissado comentário.

Ziróta é um nome dos mais recônditos fundos de baú que já li. Desnecessário dizer que alcunhas desse porte só são possíveis às zonas nortes.

Eu venho de uma família de nomes exóticos. A união de um Laurindo com uma Adélia resultou três formosuras: Elenir Regina, Izilda Aparecida e, pasmem, Creusa Maria.

Elenir Regina, que vem a ser minha mui amada progenitora, casou-se com Asdrubal Borgonovi.

Pequeno hiato: reparem que a exoticidade do nome, em geral, é inversamente proporcional às contas bancárias dos nomeados. Eu diria que um Eustáquio não tem, seguramente, um bilhete único pra tomar uma condução. Ao passo que um simples e singela Ana é capaz de fortunas nababescas.

Posto que meu pai atende por Asdrubal, sempre tive, de criança, uma vergonha aterradora de responder àquelas perguntas sobre família que toda professora de primário faz. Até o dia em que conheci um amigo que vinha de uma indefectível e orgulhosa família de Damázios. Ele, todo serelepe, era Damázio NETO. Na mesma sala, um outro rapaz tinha uma mãe chamada Cemírames (ou Semírames). Afoquei-me de orgulho de meu Asdrubal.

Abraço,

Borgonovi