7.1.08

O BATIZADO DO FILHO DO WALDOMIRO - PARTE II

Leia O BATIZADO DO FILHO DO WALDOMIRO - PARTE I aqui.

O sábado amanheceu quente. Céu azul, nenhuma nuvem, e às oito da manhã seu Osório já estava de pé, pronto para sair. Dormira na casa da filha, o que era cada vez mais freqüente às sextas-feiras, quando ele bebia mais do que durante o resto da semana. Passou em revista a sala, sentiu uma levíssima saudade da mulher, Idinha, flagrou-se fazendo festinha num porta-retrato que Gracinha mantinha com uma já amarelada fotografia da mãe, marejou os olhos, foi ao banheiro, lavou o rosto, enxugou-se, escovou de novo os dentes, deu um tapa de leve no próprio rosto, e tomou o rumo da rua.

Desceu os poucos degraus que levam à calçada da rua dos Artistas, franziu a testa diante da explosão de luzes do dia, ajeitou os óculos, conferiu a caneta no bolso da camisa e entrou no Xodó já gritando:

- Minha canoa abarrotada de manteiga! Meu pingado! Bom dia, putão!

E o Bule:

- Bom dia, seu Osório. Tá elegante, hã?! Isso tudo é pro batizado?

- Não, ô, gorducho. Me arrumei assim pra tomar café da manhã nessa merda!

Bule gargalhou sem fazer barulho, mas seu Osório percebeu pelo balançar das pelancas das costas do gordo enquanto ele preparava o pão e o pingado de frente para as prateleiras de bebida.

Aliás, olhando para as prateleiras de bebida foi que seu Osório teve a idéia:

- Bulão! Junto com o pingado e o pão me veja um rabo-de-galo!

Bule tomou um susto com aquele inédito pedido. Com o susto, cortou o dedo indicador com a faca. Chupou o dedo. E tomou um pito do velho:

- Mas que nojo, pôta! É com essa pata que tu vai servir meu pão?

Desculpou-se. Abriu a torneira e deixou água corrente cair sobre o dedo até que estancasse o sangramento. Preparou outro pão enquanto comia o primeiro. Serviu o velho e disse:

- O rabo-de-galo é pra já?

- Pode ser.

E preparou a bebida enquanto seu Osório repetia aquele ritual matinal. Pão mergulhado no pingado, aqueles anéis de gordura na superfície do copo, três simétricas mordidas em cada metade da canoa, um arroto no arremate final e o rabo-de-galo bebido num só gole.

- Saravá, velho Osório!

- Saravá? Que moda é essa agora, Bulão? Virou macumbeiro?

O balofo tornou a rir. Dessa vez em alto e bom som. Beijou a figa que traz sempre pendurada no pescoço e disse pondo a mão sobre a mão do velho:

- Nada disso, meu bom. É que antes do senhor chegar, passou aqui um cidadão, seu Osório, dos nossos! Dos nossos!

- Conta, porra, não enrola! E tira essa pata de cima de mim! – respondeu com a falta de polidez costumeira.

- Conheço não, seu Osório. Mas chegou aqui triscado, nem sete horas eram. Pediu cachaça. Jogou metade da dose no chão. Falou sozinho. Pagou com uma nota de dez, não pediu troco, e me berrou um saravá, depois um axé, que pensei que acordaria a rua toda... – falou com tom de quem continuaria a história.

- Novo na área? – interessadíssimo.

- Nunca vi o caboclo, mas... Quer outro rabo-de-galo? Oferta da casa!

- Evidente! Evidente! Mas conta! Conta! Conta!

Bule servia seu Osório quando entraram no bar, ao mesmo tempo, Quincas, Seis-com-Fome, Vidal e Bigode.

- Rabo-de-galo a essa hora, seu Osório? – disse o Vidal.

- Vou te acompanhar, seu Osório. Paga essa pra mim, Vidal?

- Pago, Bigode, pago. Só essa!

Bule serviu Bigode.

A cena era atípica não apenas em razão da bebida incompatível com o horário, mas principalmente por causa da roupa ainda mais incompatível com os presentes. Todos devidamente convidados por Waldomiro, na véspera, haviam combinado, de surpresa, um churrasco na esquina, idéia de seu Osório. O que, é claro, não exigiria mais do que bermuda e chinelos. Mas havia a cerimônia na Igreja de Nossa Senhora de Lourdes, no boulevard 28 de Setembro, tremenda deferência do gorducho, morador do Grajaú.

- Gente, calem a boca que o Bule tá me contando uma história!

Ninguém, eis um dos dogmas daquele buteco, ousou desobedecer o sumo pontífice do Xodó.

- Onde eu estava, seu Osório?

- Tu disse “eu nunca vi o caboclo, mas...”... Aí esses putos chegaram e te interromperam!

- Ah, sim! – disse Bule dando um tabefe na própria testa.

- Que caboclo? – perguntou Bigode pedindo mais uma dose com olhar de cão sem dono em direção ao Vidal, que fez que sim com a cabeça autorizando a segunda dose.

Bule serviu Bigode, que levou tremenda cotovelada do Vidal – repreendido por interromper o velho Osório –, e o respondeu num chiste:

- Caboclo Mamadô, Bigode! Conhece? Vai chupar teu cérebro!

- Ih! Olha o Bule arrotando erudição! Nem sabia que tu lia Henfil, Bulão! – interrompeu Vidal.

Bigode, a boçalidade e a ignorância em sintonia, não entendeu nada e pediu a terceira dose depois de beber tudo de uma só vez. Bule pediu a aprovação do Vidal, que não a concedeu.

- Continua, pôta! – e arrotou o velho Osório.

- Então. O caboclo chegou perguntando pelo senhor.

- Por mim?

- Simas. Esse é o nome do hômi.

- Simas? Simas? Descreve o puto pra mim, balofo!

- Careca. Olhos claros. Barriga proeminente. E é teu fã! – provocou Bule.

- Meu fã? Que papo é esse, Bule?

- Pareceu, pareceu... Tava vestido com uma camisa do América – e nesse instante marejaram os olhos do velho – e disse que era em tua homenagem. Disse que veio aqui pra conhecer o senhor. Contou que lá perto de onde ele mora o senhor é muito falado. Mas foi só isso. Pediu cachaça, que ele chamou de marafo, derramou metade no chão, disse uns troços baixinho que eu não entendi e, como eu já contei, saiu gritando feito doido, saravá, axé, essas coisas...

- Ficou de voltar?

- Convidei o caboclo pro churrasco...

- E o puto vem? – não estava conseguindo conter a excitação, o velho Osório.

- Quem vai saber?

(continua)

2 comentários:

Lúcio de Lemos disse...

Foda. Me senti encostado no velho balcão do Adriano em Sulacap.

4rthur disse...

Nossa Senhora de Lourdes é também nome de uma rua no Graja, por acaso a rua onde eu morava até duas semanas atrás.

Surpreendente a entrada do Simas na história. Vou correndo ler a conclusão.