13.2.08

HOJE É DIA DE MARIA HELENA

Faz anos hoje, oito mais precisamente, essa coisa mais linda, Maria Helena, sobrinha querida, afilhada emprestada, chamego olímpico.

Publico hoje, como homenagem à pequena, o texto PEQUENAS MULHERES, publicado orginalmente em 24 de julho de 2000, quando ela só tinha pouco mais de cinco meses, na revista eletrônica SENTANDO O CACETE, que mantive no ar, durante alguns anos, ao lado de Aldir Blanc, Fernando Toledo, Mariana Blanc, Mauro Rebelo e Mello Menezes.

Maria Helena, 10 de novembro de 2007

"Sexta-feira, 18h, como combinado, estávamos Dani e eu a postos na casa de Magali e Ricardo pra cuidar da pequena Maria Helena até às 8 da manhã de sábado. Os dois, depois de meses de sufoco, iriam passar a noite fora, dormir num motel, algo do gênero, deixando Maria sob nossos cuidados.

O curso, proferido pelo pai, durou das 18h às 21h. Incluía apostilas do Delamare, uma boneca Barbie pra dar realismo ao treinamento, pequeno estojo de primeiros socorros pesando aproximadamente 16 quilos contendo umas 2 dúzias de fraldas de tecido, 5 pacotes de fraldas descartáveis, 2 conjuntos de camisetas pagão, 2 casaquinhos de lã, 4 pares de sapatinhos, 6 pares de meia, toucas, luvas, babadores, óleo Johnson, cotonetes, lenços umedecidos da Turma da Mônica, toalhas com capuz, termômetros, 12 mamadeiras de 240 ml, 12 mamadeiras de 150 ml, 6 mamadeiras de 80 ml, esterilizador de mamadeira, chupetas, prendedores de chupetas, pinça, bebê conforto, funchicória, band-aid, talquinho, diversas mantas, bisnagas de Hypoglós, potinhos coloridos com papinha, água de ameixa, água de laranjeira, água de melissa, chá de jamelão, chocalhos, babá eletrônica e pilhas de reserva, além de um pára-quedas e máscaras de oxigênio para um caso de emergência (eles moram no décimo terceiro andar, e nunca se sabe...). Eu e Dani assistíamos a tudo um tanto quanto horrorizados, e era tarde pra desistir da tarefa.

A mãe chegou somente às 21h15min e tomou, digamos, nosso ponto. Nos entregou duas pranchetas com perguntas básicas, todas acertadas, gabaritamos, tchau, tchau. Da porta do apartamento ao elevador levaram uns 15 minutos. Revisão dos tópicos mais importantes, gritos de "vê lá, heim!", "olha a mamadeira das onze!", "não esqueçam de trocar a fralda depois do cocô", "cuidado", "nada de pizza pra menina"... e pronto. Foram embora em estado de absoluto pânico, demonstrando extremíssima confiança em nosso talento.

Bem que estranhamos quando, menos de meia hora depois, a campainha tocou e uma voz do lado de fora disse "a pizza chegou". Não pedimos pizza nenhuma e acabamos reconhecendo Ricardo, o pai, pelo olho mágico, de capacete vermelho, óculos escuros, uma jaqueta de plástico estranhíssima e uma pizza gigante numa das mãos. Descoberto e denunciado, disse apenas "ela está bem, gente?" e saiu de volta deixando a pizza no corredor.

A apostila apontava: entre onze e onze e sete da noite, Maria Helena acordaria aos berros de fome. Deu onze. Onze e meia. Meia-noite. Nada. Fomos ao quarto e levantamos a tampa do moisés (esse foi o nome que aprendemos). Tampa, sim. De palha, com orifícios para respirar e camadas de filó para evitar ataques de mosquitos. Maria Helena dormia plácida.

Voltamos pra sala. Assitíamos TV com o zumbido da babá eletrônica ao fundo. Quando nos preparávamos para tornar a noite mais quente, o berro. Dani em disparada partiu pro quarto e me mandou pra cozinha preparar a mamadeira M-57, segundo a apostila. Vesti o macacão branco, uma espécie de escafandro asséptico, e iniciei a receita: 120ml de água Perrier, 3 colheres rasas de NAN, uma colher de sopa de água de ameixa, mexer bem com colher de pau virgem, deixar ferver por 48 segundos em fogo médio e pronto. Quando terminei as duas estavam na sala. Maria felicíssima. Um sorriso de doer de bonito. Mamou tudinho, eu orgulhoso. Dani fotografando. O único problema foi que, desrespeitando as regras, fui tocar violão pra menina assim que a mamadeira terminou. A menina fez cocô, arrotou, mamou de novo, fez outro cocô, espirrou e tossiu, e numa birra clássica dos bebês, me obrigou a ficar tocando até às 7h45min quando pai e mãe entraram em casa estarrecidos com a cena. Dani dormia exausta, havia pilhas de fralda no chão, a cozinha estava um pandemônio, e Maria sentada à minha frente, minha garrafa de uísque pela metade entre as suas perninhas, batendo palminha ao final de cada canção, armando um berreiro ao menor sinal de intervalo, meus olhos vermelhos de sono e desespero, feridas nos dedos, e um "que bom que você chegaram", foi tudo o que conseguimos dizer antes de saltar de pára-quedas para o playground do prédio.

Acabou? Não. Porque fomos então buscar Pimentinha, minha cocker spaniel, Milena, minha afilhada, Mariana, minha comadre, Maurício, namorado da Mariana, Igor, o pastor canadense deles, e Henrique, outro sobrinho da Dani, pra um passeio na Lagoa. Semana que vem conto a aventura, mas pra terminar, o acontecimento daquela tarde.

À certa altura, eu, Dani, Mariana e Maurício estávamos tomando um chope às margens da Lagoa, quando vimos Milena vir correndo de longe, braços abertos gritando em direção à Dani... "diiiiiiindaaa!!!!!!"...

Acordei em casa."

Até.

Um comentário:

Roberto Fraga Jr disse...

Erudito Edu,

Crianças sabem "esgotar" os adultos, razão pela qual fui pai muito cedo (aos 24) e fiquei até os 25 sem ir ao cinema ou dormir uma noite inteira pois, invariavelmente, eu tinha que preparar uma mamadeira ou um "gagau" de arroz.

Não sei se beirando os "enta" eu conseguiria passar por tudo aquilo novamente, mesmo sentindo saudades daquele tempo.

Parabéns pela linda sobrinha!

Um forte abraço!