21.2.08

A SOBRIEDADE QUE ME FALTA

Dia desses fiz a confissão pública: a ira santa que borbulha em mim não permite que a sobriedade seja a qualidade precípua de meus textos, de meus discursos da tribuna, de meus posicionamentos diante da coletividade. Quero, confessei também, um dia chegar lá.

Em agosto de 2006, diante da notícia do afastamento de Fidel Castro do poder por razões de saúde, escrevi o texto FIDEL CASTRO, que pode ser lido aqui, e que nada mais é do que um libelo de minha paixão, uma de minhas paixões, eis que sou por elas movido graças aos deuses que me permitem ter as condições para cultivá-las e expô-las na vitrine imaginária de mim mesmo.

Somos, agora, um ano e meio depois, surpreendidos pela renúncia do Comandante, gesto que o engrandece ainda mais e que vai na exata contramão da expectativa dos que, como calopsitas ensinadas, diziam, em tom de escárnio, deboche e desrespeito, que Fidel só deixaria o poder (ou largaria o osso, segundo os mais estúpidos) depois de morto.

Sua carta que anuncia a renúncia é mais uma prova de sua grandeza, de sua coragem e de seu desprendimento (os babadores de gravata jamais compreenderão o que é desprendimento), de sua lucidez, de seu carisma e de sua vigilância permanente.

O que se leu nos jornalões brasileiros e o que se leu nos blogs mantidos por pseudo-jornalistas foi de corar de vergonha. Eu lia, incrédulo, as carradas de merda publicada, lia os blogs infestados de bajuladores inábeis e ouvia a voz da minha consciência dizendo:

- Cora! Cora! Cora! Cora de vergonha!

Pois a nossa imprensa, salvo raríssimas exceções, é mesmo de corar de vergonha. Pigarro e vamos em frente.
Quem bem definiu e descobriu a provável razão para a desastrada cobertura da imprensa sobre a renúncia foi meu irmão, vigilante como sempre, Luiz Antonio Simas, que deixou o seguinte comentário no blog do Bruno Ribeiro:

"Brunão, não tinha comentado até agora porque preferi ler os jornais da "grande imprensa" antes de emitir alguma opinião. Reparei algo absolutamente patético: os jornais publicaram materiais que foram visivelmente preparados para a aguardada, e desejada, morte do Comandante. Pegaram o que já estava no forno e publicaram. Essa gente jamais esperaria o gesto de desprendimento e sabedoria do velho revolucionário. Beijo."

Eis então, já que falei no blog do Bruno Ribeiro, o que queria lhes contar e sugerir pra hoje: a leitura de dois textos, sóbrios que só, frios como não consigo ser, escritos justamente pelo Bruno Ribeiro e por meu irmão paulista, Fernando Szegeri.

GRACIAS, COMANDANTE!, que pode ser lido aqui, e JAMAIS ENTENDERÃO, que pode ser lido aqui.

Fernando Szegeri, Bruno Ribeiro, Eduardo Goldenberg e Luiz Antonio Simas, 22 de junho de 2007, São Paulo

Nós quatro, os da foto, erguemos juntos, diante do balcão imaginário, quatro copos longos com bastante gelo e Havana Club, dividindo um Cohiba Robusto, em homenagem a Fidel Castro e ao povo cubano!

Até.

9 comentários:

Bruno Ribeiro disse...

Lindo, Edu! Meu copo longo de Havana, hoje, não será imaginário. Brindaremos juntos, de alguma forma! Não passarão!

Eugenia disse...

É isso aí, Edu!
"Hasta.... siempre"!
Aliás, vc lembra de "Quem não tem Fidel, vai de Leonel"?
Abração!

Cristiano Carlos disse...

Edu, o texto do Szegeri é um chute no saco! Doí, doí muito. Mas é a dor que deixa a pancada inesquecível. Viva Cuba! Viva Fidel!

Roberto Fraga Jr disse...

Pois é Edu..

Minha mulher esteve em Cuba e ficou impressionada como um país que produz açúcar e tabaco pode ter um sistema de saúde e educação muito melhor do que o Brasil.

Eduardo Carvalho disse...

Meu caro Goldenberg.
É por essas e outras que uma vez escrevi a você, aqui mesmo, que é pra cá que corro quando preciso encontrar retidão de princípios, contramão da mesmice, opinião e paixão - paixão é fundamental e soco na cara dos imbecis da "objetividade", e vc sabe disso! - enfim, opinião e paixão coerentes e que nos deixam a salvo da canalha.
Goste-se ou não de Fidel Castro, a grande imprensa não negar ao público (grande parte do qual ela, mídia, julga ser burra) uma análise mais inteligente; como vc bem observa, tudo o que foi publicado estava frio, gelado. Com a saída que pegou os goleiros-sabichões no contra-pé (da vida, da política, da História), Fidel deu um drible na morte.
E ainda, goste-se ou não (e aqui ressalto o respeito que tenho a quem pensa diferente), ele escreveu um dos textos mais bonitos da História recente.
Obrigado e permita-me, no meu bloguezinho (junto com o Da Muda), chamar pra este seu post e os que vc aqui, sabiamente, nos recomenda a leitura.
Um grande abraço.

Eduardo Goldenberg disse...

Meu xará: esteja à vontade, sempre, pra espalhar o que se fala no balcão do BUTECO por aí. É, também, uma forma de estarmos menos sozinhos. Valeu e um abraço!

4rthur disse...

Eis a manchete descaradamente tendenciosa da InVeja, a revista mais detestável que pode ser encontrada nas bancas brasileiras:

"Já vai tarde: O fim melancólico do ditador que isolou Cuba e hipnotizou a esquerda durante 50 anos".

Agora, diz aí: Castro isolou Cuba? Foi ele quem decretou embargo econômico aos EUA e usou suas influências facínoras para levar outras nações a fazerem o mesmo? Putaqueospariu!

Pra se ter uma idéia do quão vergonhoso foi (e ainda é) este embargo, é só ver que o músico Ry Cooder foi multado em 10 mil dólares por estabelecer relações comerciais com músicos cubanos. E sabe qual "relação comercial" foi essa? Simplesmente a reunião de velhos mitos da música cubana para a produção de discos e do filme Buena Vista Social Club, dirigido pelo alemão Win Wenders - que se fosse brasileiro diria, em tom jocoso: Win Wenders e Aprendenders!

Com a atitude da renúncia, Fidel deu uma bela rasteira nos babadores de gravata de plantão, que jamais entenderão o que é ser movido por verdadeiros ideais.

Anônimo disse...

caro Edu
Leio seu blog regularmente, após indicação do amigo em comum, o Rodrigo da Folha Seca.
Gostei demais do seu texto sobre Fidel e dos outros dois que indicou.
Preciso de um favor seu: Vc citou alguns conhecidos em Havana. Estarei por lá de 08 a 26/3 rodando um documentário com um pessoal de Bauru e pessoas conhecidas são sempre bem vindas. Posso contar com sua ajuda?
Estou no hpachancelas@gmail.com e se quiser saber mais de mim acesse: www.mafuadohpa.blogspot.com
abracitos flamenguistas
Henrique P. de Aquino - Bauru SP

Anônimo disse...

caro edu
conto com suas dicas sobre cuba.]
aguardo seu contato
henrique - bauru sp