30.5.08

UM PASSEIO PELA TIJUCA - III

Se eu quisesse soar velho, velhíssimo, quase mumificado - o que não é nada difícil, eu sou assim mesmo! -, eu diria que os roteiros que tenho proposto para passeios a pé pela Tijuca estão virando - notem a idade da expressão! - uma coqueluche. Escrevi o primeiro (aqui), o segundo (aqui) e parto hoje, sexta-feira, para o terceiro roteiro que há de ser, é o que sinceramente espero, tão bem recebido quanto os dois primeiros.

Proponho que a partida seja dada, numa sexta-feira (é essencial que seja sexta-feira), da rua Garibaldi, a mesma que entrou no segundo roteiro, e de dentro do BAR DA DONA MARIA, o mesmíssimo bar que dele também constou. Com uma diferença: sexta-feira é dia de feira livre na Garibaldi, portanto, esbalde-se! De pé diante do balcão de mármore do buteco, não deixando de prestar atenção aos detalhes impagáveis (a caixa registradora, as geladeiras com portas de madeira, o pé-direito altíssimo, o menor banheiro masculino de que se tem notícia) e torcendo pra ser atendido pela Dona Maria em pessoa, esteja lá por volta das 10h30min. Sei - sei disso, sei disso! - que apenas os homens de sorte poderão estar lá, numa sexta-feira, dia útil, a essa hora. Mas há sempre a possibilidade de um feriado (quem sabe?), de um profissional liberal com agenda flexível, de uma febrinha de última hora, sacumé? Então... Dez e meia da manhã, você ali bicando sua primeira cervejinha da sexta-feira, curtindo esse pedaço fabuloso da Tijuca - a Muda, para os locais - e maravilhado com o casarão em frente (já falamos dele), com as árvores imensas e frondosas ao longo de toda a rua e com o movimento da feira, dos feirantes, dos ambulantes, das rezadeiras e suas folhas, dos pregoeiros, dos fregueses, das freguesas, dos floristas, com o movimento ali, inteiro, à sua frente. Beba uma, duas, três cervejas. Arremate com uma água com gás. Saindo do bar e dobrando à esquerda, já na feira, flanando entre a assistência, procure a barraca do pastel e mande um de queijo, tradicional, pra dentro, junto com um copão de meio litro de caldo de cana. Glicose, malandragem, troço fundamental pro êxito do passeio!

Siga em frente até o curso do Rio Maracanã. Pare diante dele. Olhe para seu curso, suas pedras, seu lixo, seu soro poluído, e saiba que o Rio Maracanã e a Tijuca foram feitos um para o outro, siameses que são. Dobre à direita, seguindo o curso do rio, pela avenida Maracanã (ela mesma, só que num trecho pacatíssimo). Babe com as árvores monumentais que vivem à margem do rio, com os flamboyants que colorem a caminhada, assombre-se diante daquela calma, daquela quietude, em plena cidade do Rio de Janeiro. Você ouvirá o canto dos pássaros, pouco barulho de automóvel, você passará, dessa vez pelo lado oposto, pela rua Guajaratuba, à sua esquerda, e caminhará até a rua Radmaker, na qual você deverá entrar à esquerda, andando pela calçada do lado esquerdo, até a esquina da rua Pinto Guedes. Você já está diante de um buteco pé-sujo. Não perca muito tempo ali. Mas veja as coisas, respire o ambiente, beba mais uma garrafa de água com gás (vá por mim!) e siga a Pinto Guedes na mão do trânsito. Em poucos segundos, poucos passos, você estará na Praça Xavier de Brito.

Aprecie, francamente, a beleza da praça que completa, em 2008, 80 anos de existência. Estaque após a primeira pisada na praça. Repare nas quadras de bocha onde os mais velhos passam os dias, pertinho da pista da Pinto Guedes. Vire de costas e perceba a beleza de construção que é a ESCOLA MUNICIPAL SOARES PEREIRA, em estilo neo-colonial luso-brasileiro. Construída em 1926, fica na esquina da rua Pinto Guedes com a avenida Maracanã. Volte-se novamente e caminhe até o chafariz, francês e de bronze, que foi construído e instalado, primeiramente, numa praça qualquer da Europa, trazida mais tarde para o Brasil. Para o Brasil. Para o Rio de Janeiro. Para a Tijuca, mais precisamente! Atravesse a praça em direção ao BAR DO PAVÃO, palco de encerramento do segundo roteiro que propus. Ali, quase diante do bar, preste atenção ao imóvel do número 110 da rua Otávio Kelly (você estará diante dela!), que acaba de ser tombado pela Prefeitura. Trata-se da antiga ELEVATÓRIA de água da Tijuca, construção imponente da década de 20, e que hoje funciona como prédio da CEDAE. Com a medida, diga-se, afasta-se dali o fantasma da especulação imobiliária.

Cumprimente o Pavão, a Dona Jô, babe diante da casa da Dona Olívia (na Otávio Kelly, coladinha ao BAR DO PAVÃO) e marche até a rua General Espírito Santo Cardoso. Do seu lado esquerdo, repare numa casa que é, hoje, uma loja expositora de tintas. Fenomenal! Dobre à direita e tome a direção do BAR DO MOMO, à esquerda, quase na esquina da rua Uruguai.

No MOMO - para os íntimos -, e você deve estar chegando por volta do meio-dia, você dará com o que posso chamar de "fauna tijucana", na melhor acepção da expressão. Muita cabeça branca, muita história boa pra se ouvir, e você pode dar a sorte de esbarrar com o Ceceu Rico, com o Paulo Amarelo, com o Mário, com o Seu Antônio, sendo certo que você encontrará cerveja gelada, petiscos imperdíveis (as sardinhas são inacreditáveis) e muito papo bom. Desses de fazer você perder a hora, literalmente.

Mas resista. Fique ali, no máximo, umas duas horinhas. Minha proposta é pesada mas valerá a pena. Tome a esquina e dobre à esquerda. Caminhe pela rua Uruguai na contramão do trânsito. Ande até esbarrar com a JIV'S DELICATESSEN, no número 280. Faça ali, se quiser, umas compras pra mais tarde, no descanso do lar. Siga em frente e entre, à direita, na rua Barão de Mesquita (ali, pertinho, está um outro ponto que constará, em brevíssimo, de novo roteiro que prepararei, um restaurante de comida nordestina de deixar cearense com lágrimas nos olhos).

Já na Barão de Mesquita, também na contramão do trânsito, entre na primeira rua à esquerda, a Pontes Correia. Minha proposta é simples: atravesse com calma a Pontes Correia, um oásis encravado na Tijuca. Rua calmíssima, pouquíssimos edifícios, muitas casas, algumas vilas, muitas árvores, a Pontes Correia é sonho de consumo de muita gente que mora por essas bandas... Vá até a avenida Maxwell e dobre à direita. Você vai passar pela rua Amaral, pela rua Silva Teles (onde fica a quadra do SALGUEIRO), pela Agostinho Menezes, pela Araújo Lima e pela Gonzaga Bastos, não deixando de prestar atenção à fábrica de tecidos, cantada por Noel Rosa, que aparecerá, monstruosa, à sua esquerda durante a travessia da Maxwell. Você vai entrar na Gonzaga Bastos, à direita.

Entrando na Gonzaga Bastos, entre na primeira à esquerda, na rua dos Artistas. Preste atenção quando passar em frente ao número 257, casa - ali até hoje! - na qual passou grande parte de sua infância o compositor Aldir Blanc, ponto central de seu fabuloso livro VILA ISABEL, INVENTÁRIO DA INFÂNCIA, que virou curtametragem dirigido por Isabel Diegues. Curta a rua dos Artistas, uma rua também pacata, dotada de forte carga da alma tijuca, suburbana, zona norte. Atravesse a Pereira Nunes, a Ribeiro Guimarães, siga em frente e dobre à direita apenas na Almirante João Cândido Brasil. Resista ao SIRI, fabuloso restaurante na esquina. Não, não. Beba um chope, apenas, de pé mesmo. Lamba os beiços e siga pela Almirante João Cândido Brasil até a Praça Varnhagen, não parando em nenhum dos bares do caminho. Vá até o meio da praça e olhe, de leve, para a sua esquerda.

Mire a rua Jaceguai, palco do MAU (movimento artístico universitário), que teve origem nas reuniões feitas na casa do psiquiatra Aluízio Porto Carreiro de Miranda e de sua mulher Maria Ruth, na década de 60. Coincidência ou não, os famosos saraus musicais aconteciam, também, às sextas-feiras! Freqüentavam a casa, famosíssima à época, jovens como Taiguara, Gonzaguinha, Ivan Lins, Aldir Blanc, entre muitos outros, já mais conhecidos, como Cartola, Milton Nascimento e Ney Matogrosso.

Na esquina da rua Jaceguai está o ponto final deste terceiro roteiro: o BAR VARNHAGEN. Portentoso buteco, azulejos na parede, muitas plantas dentro, cerveja sempre estupidamente gelada, pataniscas de bacalhau (é obrigatório provar as pataniscas), termine ali a sua sexta-feira agradecendo aos deuses, todos, por seu dia, por seu passeio, por cada visão, por cada sensação, por cada descoberta.

Até.

13 comentários:

Marcia Frantz disse...

que lindo Edu... e ainda dá tempo de fazer esse passeio....

Bruno Ribeiro disse...

Querido: sei que nem todos tiveram o privilégio de conhecer essa figura exemplar e única, mas valeria citar, dentre os grandes tijucanos que você citou, o nosso eterno Fernando Toledo. Sempre que vou à Tijuca, dou um jeito de parar diante do Rio Maracanã e, tal como você sugere, olho seu curso, suas pedras, seu soro poluído... E faço, SEMPRE, uma discreta reverência. Axé!

Eduardo Goldenberg disse...

É verdade, meu irmão. Eu, que estive lá, diante do rio Maracanã no dia em que o malandro seguiu, pra sempre, o curso daquelas águas, eu, que com a voz travada cantei a Valsa do Maracanã acompanhado pela voz dos amigos que ali estavam, NUNCA - com a ênfase szegeriana - passo pela rua Garibaldi sem me lembrar, fortemente, do Fernando Toledo. Grande intervenção, querido! Grande intervenção!

Chiquinho Genu disse...

Olhando sua página hoje, vi que você sugere iniciar um dos passeios pela Tijuca na Rua Ribeiro Guimarães.

Minha mãe nasceu e viveu toda a mocidade nessa rua, numa grande casa velha ainda existente. Uma casa entre a rua Dona Maria e, se não me engano, rua Baltazar Lisboa. No sentido avenida Maxwell - avenida Maracanã, fica do lado direito. Parece que a numeração atual foi modificada, na época era número 53 ou 59, minha mãe não se lembra muito bem.

A casa ainda está lá, firme e forte.

Eu também tenho ótimas lembranças da Ribeiro Guimarães.

Quando criança, eu freqüentava a tal casa, brincava no jardim e coisa e tal.

A propósito, a casa ainda é da família, ficou com uns primos distantes.

Um abraço.

Eduardo Goldenberg disse...

Chiquinho: seja bem chegado, rapaz! Imagino a emoção que você sente a cada vez que passa lá. Eu, por exemplo, comovo-me sobremaneira a cada vez que passo diante do 84 da São Francisco Xavier. E olha que eu acho que eu sei qual a casa a que você se refere!!! Há várias, ali, várias, mas tenho meu palpite! Vou tentar descobrir e depois te falo! Abração.

Vera disse...

Querido Edu... consegui rever rigorosamente TUDO, enquanto a delicadeza de suas palavras regava a minha memória afetiva. A Tijuca é um dos bairros cariocas com maior número de belas e encantadoras mansões de classe média, quando a classe ainda podia pensar em ter e morar em casas. Cercadinha de colinas, dali sairam poderos sambas que costumo chamar de "sambas de bainha de morro" , no tempo que essa bainha era muito bem alinhavada. Quanto à Jaceguai... ah a Jaceguai 27, lá ficou a memória dos melhores anos da minha vida. Gonzaguinha compondo na garagem , Aldir falando o Poema dos Navegantes (hoje ele acha coisa de criança, mas achávamos lindo) , Albarran pintando, Rolando dividindo os compassos como ninguém, Edson Frederico chegando tarde do trabalho para pegar a sopa da madrugada , Maria Carmen Barbosa batendo papo na cozinha, Ivan Lins pelo quintal, Paulo Emílio "cantando" meninas poeticamente pelos cantos e brincando com o Lunik (um cão alegre e alucinado que ele tratava de enlouquecer ainda mais) , brincadeiras inesquecíveis, como por exemplo, concurso para ver quem lembrava a MELHOR FRASE POÉTICA DA MPB da noite , enfim... até os PMs da patrulhinha entravam para saber o que estava acontecendo e acabavam sentando para ouvir boa música , no tempo em que as portas das casas não tinham grades e os transeuntes eram "bem chegados"

A história da Tijuca e sua importância para a MPB ainda está para ser escrita. Há uma citação aqui, outra ali, mas a "ficha" de sua significação cultural ainda não caiu. Minha esperança é que você, Aldir e alguns outros companheiros Tijucanos de estirpe, consigam preencher essa lacuna. Você está fazendo a sua parte. Contem com a minha contribuição. Quem sabe um dia? Parabéns e obrigada querido.
Vera Mello ou Verinha, como você prefere e eu também gosto :-)

Eduardo Goldenberg disse...

Ô, Vera! Quanta história boa!!! Obrigado pelo seu carinho e por sua intervenção, que só enriquecem o texto e valorizam, ainda mais, a minha mais-que-amada Tijuca. Quanto à importância da Tijuca para o que você chama de MPB, discordo um bocadinho. A Tijuca é importante para o Rio de Janeiro e para o Brasil. Aqui, na Tijuca, é que fica o tal tambor de ressonância nacional, do qual nos falava o meu eterno e saudoso Governador Leonel de Moura Brizola. Dia desses debruço-me mais sobre o tema, mas a Tijuca deu e dá de tudo o que há de melhor. Creia nisso! Beijo.

Gustavo Mehl disse...

Edu, mudando um pouco de assunto, ou melhor, retomando o assunto dos meios de transporte.

Não resisti à vontade de pitaquear aqui sobre outra praga (essa, imagino, polêmica): o ar condicionado.

O ar condicionado e o tal do insul film.

Parados no trânsito, aqueles carros todos parecem uma porção de bolhas, todo mundo tentando ao máximo se isolar do que está à sua volta.

Sem falar nos ônibus com ar condicionado. Poucas coisas me irritam mais do que, depois de meia hora esperando, ver, de longe, que teu ônibus tem aquela maldita corcova no teto. Já fico sabendo que não vou poder me debruçar na janela, ouvir a rua, olhá-la "de perto"... Se for inverno e você tiver apanhado chuva, tanto pior (aconteceu comigo hoje!).

As empresas de ônibus (ê mafia..) tiveram que renovar a frota, negociaram de botar uns ônibus com ar condicionado (modernidade e conforto para o cidadão!..) e emplacaram uns 50 centavos a mais na passagem, dinheiro que, imagino, paga o investimento em menos de um mês - e que faz uma tremenda falta ao trabalhador fudido de grana e dependente de transporte público.

Abraços.

Eduardo Goldenberg disse...

Ê, Gustavo, discordamos agudamente quanto a isso... Eu, por exemplo, pra manobrar o meu brizolamóvel dentro do estacionamento do meu prédio já ligo o ar-condicionado. Se meu ônibus vem com a corcova (e o 406, que uso pra ir e vir do trabalho, sempre tem corcova!!!!!), sou um passageiro feliz desde o instante em que estendo o braço e o dedo, fazendo o sinal. Se entro no táxi e o motorista - geralmente um pão-duro que mente - diz que o ar-condicionado quebrou, peço desculpas e tomo outro. E por aí vai... Abração.

Gustavo Mehl disse...

Edu, não me diga que seu brizolamóvel tem insul film também!?....

Eduardo Goldenberg disse...

Evidentemente que sim! Do mais translúcido possível, mas tem. Ajuda a gelar mais o carro, eis a razão para tê-lo. Abraço.

Gustavo Mehl disse...

Tá certo..........

Szegeri disse...

Tou 100% com o Gustavo. Aliás, discordância eterna entre mim e o mano Galo. A dupla insulfil/ar condicionado está para quem anda de carro como os deprimentes foninhos de ouvido, para quem anda de metrô, trem ou ônibus.