31.5.08

UM PASSEIO PELA TIJUCA - IV

Vou dar seguimento, hoje, sábado, dia em que nem é muito comum eu abrir as portas de ferro do estabelecimento, a essa brincadeira que - confesso - muito tem me divertido, de bolar roteiros para os neófitos em matéria de Tijuca, para os que torcem os narizes quando ouvem falar da Tijuca sem nem ao menos conhecê-la direito, para os tijucanos de quatro costados, como eu, que têm verdadeiro orgulho de sua terra, de seu bairro, de suas ruas, de suas esquinas, de seus bares, de suas meninas, de seu casario, desse privilégio que é viver no Rio e na zona norte - ô, sorte!, é o que diz o tijucano íntegro a cada manhã. Vamos a ele, então.

Mantendo a linha - e repetindo a feira! - saia caminhando pela feira livre da Vicente Licínio, num domingo - tem que ser domingo, é claro - por volta das 11h, um bocadinho mais tarde. Comece lááááá pela outra ponta, oposta à ponta da Campos Sales. Abra seu dia com um pastel de camarão com catupiry e um copão de caldo de cana. Feira é feira, meus poucos mas fiéis leitores, as barracas estão sempre nos mesmos lugares, e o que varia são os produtos, as safras, o humor dos pregoeiros, os peixes expostos, a qualidade dos frutos do mar, as folhas frescas ou secas que a rezadeira trouxe, portanto tenha olhos de ver, ouvidos de ouvir e um bom olfato à mão. Umas dicas?

Bem em frente à barraca do pastel começa a série de caminhões-peixarias. São, ao menos para mim, uma tentação. Quase todos têm um tablado de madeira que te deixa mais perto dos peixes, dos camarões, das lulas, das vieiras, então, sem cerimônia, abuse desse privilégio. Suba. Veja tudo. Converse com os peixeiros, são todos trabalhadores e honestíssimos. Peixeiro desonesto em feira livre dura menos que o jornal que embrulha seu próprio produto. Se gostar muito de alguma coisa, compre, é claro. Ali, entre os caminhões, há um florista. Flores na feira são incríveis, ficam em baldes coloridos, aos montes, e há também galhos de arruda, leve um!!! Siga pela feira, sem pressa, como deve ser, sempre. Prove de tudo o que lhe for oferecido e beba, durante o trajeto - há mais de uma barraquinha vendendo isso... - água de côco geladíssima. Chegando ao final, já na Campos Sales, compre outro pastel na pastelaria que há à sua esquerda, em frente a um outro florista, esse do lado direito. Compare os pastéis. Passe a ter o seu pastel de fé na feira. Isso é fabuloso e é fundamental para que se crie um amálgama definitivo entre você e o mercado de rua!

Resista à tentação e não vire à direita em direção à rua Pardal Mallet. Vire à esquerda. Passe pela rua Gonçalves Crespo (mais tarde você almoçará nessa rua!, aguarde), na contramão da Campos Sales, e observe a sede do América, do nosso querido Felipinho Cereal, tijucano agudo. Quando você chegar na esquina seguinte, à sua esquerda você verá a rua Marechal Marques Porto. Dê uma caminhada pra dentro dela apenas para babar, literalmente, diante de um prédio art-decò (alô, Helion!) belíssimo, escondido nessa rua mínima, peculiar, que a Tijuca abriga, do lado direito de quem entra por onde você entrou. Volte. Volte, atravesse a Campos Sales e pare na esquina. Você estará na esquina da rua Campos Sales com a rua Martins Pena, digamos que a continuação da Marechal Marques Porto. Diante de você, a Praça Afonso Pena (depois, vale uma voltinha).

Na Martins Pena, molhe seu bico com a primeira cerveja do dia. Peça uma Brahma estupidamente gelada no APERTADINHO, nome do buteco que fica ali, coladinho ao SALÃO AMÉRICA (que estará fechado, é domingo, lembre-se). Aquela calçada estará, sem dúvida, em festa. Beba uma, beba duas, puxe conversa - se for dia de jogo do Flamengo o APERTADINHO estará sediando mais um encontro da FLAMIGOS, uma torcida pacífica que reúne pais, avós, filhos, netos, todos na maior tranqüilidade do mundo. Depois dessas cervejas, obrigue-se a, na segunda-feira, ir lá, de novo, só que ao lado, pra puxar papo com o Seu Ernesto, um grande praça, maiúsculo, barbeiro do glorioso SALÃO AMÉRICA, ao lado do APERTADINHO, como eu já disse. Faça a barba, arrume uma desculpa qualquer, apare o pé do cabelo, qualquer troço, mas sente-se na cadeira FERRANTE do Seu Ernesto, a última do salão, junto à parede, à direita de quem entra. A conversa será das boas, o salão tem uma atmosfera absurdamente tijucana, porta de correr, a TV ou o rádio sempre ligados, escudo do América na parede, potes e bisnagas de creme de barbear, aquele cheiro único das barbearias, tudo o que é preciso para fazer o clientes feliz! Feito esse plano - cumpra-o! -, vá ao buteco do lado. Isso mesmo. A ordem é essa. Um buteco. Coladinho, o salão. E coladinho ao salão, outro buteco, esse de esquina. Acho que chama-se AMÉRICA também (a conferir... Cereal, faz isso pra mim? Um pulinho lá com a sua Caloi 10 e pronto!) (pedido feito, pedido atendido... o buteco chama-se AMÉRICA ESPORTIVO, como nos conta, o Cereal, nos comentários). Beba uma cerveja, uma água gasosa, vá à praça. Vá à praça pra ver gente. Como é domingo, é certo, a praça estará lotada de cabeças-brancas, de crianças, de vendedores de tudo o que se possa imaginar, e de árvores, muitas árvores, reforçando a verdade que aponta para essa incontestável conclusão: a Tijuca é um bairro verde, com céu amplo, arejado, salve, salve a Tijuca!

No entorno da praça, um açougue de primeira (atravesse a rua Doutor Satamini, pô!), fechado. Há, reparem nisso, cada vez menos açougues. Os supermercados estão esmagando esse comércio tão fundamental, estão acabando com a figura do açougueiro, o homem que sabe, de fato, manusear uma carne, cortar, pelas juntas, o rabo do boi pra fazer a rabada direitinho, limpar, sem um senão, uma peça inteira de contra-filé... Ao lado do açougue, outra raridade... uma sapataria de rua, chamada APENA (genial, não?). Também vai estar fechada. Mas seu destino será um pé-sujo na rua Afonso Pena, quase na esquina da Doutor Satamini, do lado esquerdo. Uma cerveja só, o bastante pra você curtir a assistência (sempre lotado!) e perceber que ali, ao lado, funciona mais que uma banca do bicho. Aquilo parece, de fato, um banco! E volte pra praça.

Passe pelo APERTADINHO de novo, lembre-se de voltar no dia seguinte para uma ida à barbearia!!!!!, e entre na Campos Sales no sentido do trânsito. Entre, à direita, na rua Gonçalves Crespo. Caminhe até o final dela. Você verá a feira sendo desfeita à sua esquerda, na Vicente Licínio. À sua direita, um portão enorme, portentoso, vermelho, sem letreiro algum. Entre.

Você estará no CENTRO CULTURAL DA CHINA, um prédio com muros altos, esse tal portão vermelho, duas estátuas de dragões brancos enormes, e à direita de quem entra, um restaurante, também sem letreiro, chamado HUAN LIAN. É seu destino.

Na entrada, pregado numa espécie de quadro móvel, o cardápio inteiramente escrito em chinês. Entre. Você estará num dos ambientes mais simples que já observou num restaurante. Sendo domingo, deverá estar bem cheio, e as mesas lotadas por chineses, apenas. Nada como se sentir estrangeiro em sua própria terra...

Peça ao garçom o cardápio (vem também em português). Daí, aproveite! As entradas, os pratos principais, tudo, rigorosamente tudo, é inacreditavelmente delicioso. Esqueça, se algum dia você caiu nessa armadilha, esses fast-food de comida chinesa em caixa. Esqueça. O troço, no HUAN LIAN, é infinitamente mais sério.

Até.

4 comentários:

Felipinho disse...

Edu, o boteco se chama América Esportivo.

Eduardo Goldenberg disse...

Grande, Cereal!!!!! Valeu, garoto! Beijo.

Eugenia disse...

Nossa, achei q tinha fechado. Fui lá em dezembro e estava fechado, mas o cara q tava na calçada (chinês) não soube me explicar (em português) se tinha fechado só aquele dia ou definitivamente.

Eduardo Goldenberg disse...

Tem esse detalhe que eu preferi omitir... Os horários são extremamente incertos... Um dia estive lá com minha menina. Portão fechado. Estávamos indo embora quando o Lin (à época era o dono, que mudou - sem que a qualidade do restaurante fosse comprometida) - que nos conhecia há tempos - chamou-nos. Eu disse:

- Boa noite, Lin! Pensei que estivesse fechado!

E ele, chinês há cinco mil anos:

- No, no, no! - e riu.

- Mas o portão está fechado, né? Como é que faz? - ri junto com ele.

E ele:

- Ué. Glita! Glita! Glita que o Lin able!