31.7.08

AUGUSTO EM PEQUIM

Eu tenho um tremendo orgulho de meus amigos. Dia desses recebi uma notícia que repasso, agora, pra vocês, cheio de justificado (a repetição é proposital) orgulho.

Vejam o que aprontou, dessa vez, o Augusto, já tantas vezes citado aqui no BUTECO, e que esteve em meu buteco de verdade pela primeira vez em 26 de maio de 2005 (vejam aqui).

No dia 05 de agosto, terça-feira da próxima semana, o Augusto (na verdade, José Augusto Nogueira Diniz) embarca em direção à Pequim para fazer a cobertura do portal TERRA durante os Jogos Olímpicos através de um blog, escrito, a quatro mãos, diretamente de lá, é evidente.

Duas das mãos são do Augusto. As outras duas são do outro premiado no concurso promovido pelo TERRA, vejam aqui.

O Augusto, jornalista talentosíssimo, foi escolhido graças a uma emocionante reportagem que fez sobre o futebol no Acre, depois de rodar quase mil quilômetros por aquelas bandas. Vejam, aqui, a reportagem que eu acho que irá emocionar, especialmente, a três outros amigos, Arthur Favela, Bruno Ribeiro e Luiz Antonio Simas, amantes de um futebol mais amador.

O blog entrará no ar no dia em que o Augusto chegar a Pequim e estará na seção OLIMPÍADAS do portal TERRA, aqui!

Daqui, do balcão imaginário do BUTECO, ergo meu copo de chope com quatro dedos de espessa espuma, e proponho um brinde ao êxito da viagem.

Parabéns para o malandro, o terror da Rodésia, em São Paulo!

Até.

30.7.08

FLAMENGO X PALMEIRAS

Flamengo e Palmeiras irão se enfrentar hoje à noite, às 21h30min, no Parque Antarctica, em SP, pelo Campeonato Brasileiro. E quando eu escrevo a palavra "Palmeiras", ou quando eu ouço falar em "Palmeiras", ou mesmo quando leio, em qualquer jornal ou em qualquer revista, "Palmeiras", me vem à mente a imagem, nítida, íntegra, barbada e roliça de Fernando José Szegeri. E foi ele, justo ele, quem me bateu o telefone ontem à noite. Eu, depois de ouvir o tilintar do aparelho e de ver sua fotografia piscando no ecrã, atendi efusivo:

- Boa noite, Fernando José Szegeri!

E seguiu-se um ameno diálogo, por uns bons 10 minutos, do qual extraí uma única mensagem: Fernando José Szegeri estará, hoje à noite, no estádio.

Foi o que o homem da barba amazônica garantiu. E garantiu mais! Garantiu mais! Disse que aparecerá na televisão de qualquer maneira!!!!! Perguntou-me, à certa altura:

- Vai passar na Globo?

- Vai.

- Você vai ver?

- Vou.

Eu estava sendo monossilábico para evitar que meu irmão paulista gastasse demais com a ligação.

- Pois não deveria...

- Não?

- Não.

- Por que?

- O Flamengo vai levar uma surra inesquecível! - e deu de relinchar de rir, o bom Szegeri.

- Veremos...

- Mas assista, assista, sim! Vou aparecer de qualquer maneira na TV!

- Vai?

- Arrã. Tenho um plano infalível.

- Qual?

- Surprise! - disse, o comunista, gastando seu inglês.

Eis então, meus poucos mas fiéis leitores, mais uma atração do jogo de hoje à noite. Como se não me bastasse ter de acompanhar a partida esperando um gol do ataque estéril do Flamengo depois da venda do artilheiro Marcinho (nem mencionarei a venda de Souza, de quem nunca gostei), como se não bastasse a esperança de alcançar, novamente, a liderança do campeonato, como se não bastasse a rivalidade sempre tensa entre esses dois grandes times brasileiros, ainda tem mais essa: ficar brincando de ONDE ESTÁ SZEGERI? durante a transmissão.

Até.

29.7.08

TRÊS DICAS

Eu, que ando sem tempo para me dedicar a esse exercício sublime de pôr os cotovelos no balcão pra jogar conversa fora com a assistência, quero, hoje, indicar três textos de três amigos que mantêm, como eu, blogs que são verdadeiros mananciais. E vamos em ordem alfabética para não ferir suscetibilidades.

Bruno Ribeiro divide com seus leitores - para sorte de todos nós, o texto é belíssimo - o momento que vive no texto chamado PLENITUDE:

"Colho agora os frutos da falta de ambição e do amor desinteressado que plantei há dez anos: a vida retribuiu a confiança que nela depositei e me deu, na maturidade, a chance de levar a vida como sempre quis."

Leia na íntegra aqui.

Felipinho Cereal divide com seus leitores - para sorte de todos nós, a dica e as imagens são de ponta! - mais uma de suas descobertas:

"BOM AMIGO é o nome do simpático boteco do seu Celso, na esquina das ruas do Resende com Gomes Freire, no bairro da Lapa. Passei parte desta noite de segunda-feira por lá, e percebi que este nome realmente lhe cai bem."

Leia na íntegra aqui.

Fernando José Szegeri divide com seus leitores - o texto é lindíssimo, e eu, por exemplo, vi-me em cada parágrafo - o resultado de suas reflexões sobre a boemia e a vida boêmia:

"O tempo do boêmio é (ou era) a noite, porque a noite é suave e fresca, adequada a certos temas delicados da vida, e suas sombras sabem temperar as cores às vezes fortes demais do mundo. Mas quando os que se arvoram em donos de todas as coisas chegaram com seus faróis, motores e buzinas, falando alto e alegrando-se em excesso, o boêmio resignadamente passou a fazer do dia um palco para a sua lida e, concomitantemente, um tempo suportável de se viver."

Leia na íntegra aqui.

Três grandes momentos, frutos de grandes momentos de grandes brasileiros, amigos meus, com a graça de Deus.

Até.

26.7.08

ESSA MULHER

Essa mulher, a quem hoje me refiro sem lhes dizer o nome, fez anos esta semana - esta semana que hoje se encerra. Essa mulher, a quem conheço há - quanto tempo, meu Deus? - pouquíssimo tempo, fez anos esta semana e fui, no dia de seu aniversário, um homem grato as 24 horas do dia. Escrevi a ela, logo cedo, assim que acordei, um email para que ela soubesse - e eu nem sei se ela soube, nem sei se ela o leu - que lembrei-me dela no instante em que abri os olhos. Os mesmos olhos que atestam a felicidade e a serenidade que hoje moram dentro dos olhos dele. Quem o conhece como eu o conheço sabe que aqueles olhos jamais foram morada de tanta segurança, de tanta mansidão para com tudo e de tanta paz. No meio da tarde, sem que tenha deixado de nela pensar um só segundo, bati-lhe o telefone e tive a oportunidade de lhe dizer, de viva-voz, sobre minha gratidão, sobre minha alegria inexplicável (por que fico tão feliz no dia dos anos dos que amo?) e sobre tudo o que lhe desejara desde o abrir dos olhos. Os mesmos olhos que mais tarde viram minha menina, depois de desligar o telefone, me dizer de olhos marejados:

- Ela me emociona, sabe?

Eu sabia, é claro.

Sabia e sabia pois ela também me emociona - e eu creio que pelas mesmas razões.

Pela solidão que ela tem permanentemente estampada nos olhos que mal-disfarçam as dores que ela carrega. Pelo sorriso mais triste que jamais vi, incapaz de esconder a beleza que a tristeza tem. Pela capacidade - parece-me inesgotável - de abraçar a quem ela quer bem, com a intenção de dizer o que ela própria - sabe-se lá o por quê - não consegue. E pela melancolia intrínseca que a permanente ironia, que mora em suas frases e em seus gestos, não é capaz de dissolver.

Mas principalmente - eis o mistério e a beleza que nos une - por tudo o que ela me trouxe. Representado por essa pequenina luz indecifrável a que às vezes os poetas chamam de esperança, como diria, dentre eles, os poetas, o maior de todos.

Até.

25.7.08

A IDADE DE FERNANDO JOSÉ SZEGERI

Recebi, ontem à noitinha, de uma leitora que me pediu para não ser identificada (no que será atendida), um email através do qual ela me pergunta, pareceu-me que sofregamente, qual a idade de Fernando José Szegeri (eu quase que escrevi Fernando Szegeri, apenas, e eu sei que eu tomaria um pito tremendo, eu sei que ele ralharia comigo em razão da falta de seu nome na íntegra, do qual ele muito se orgulha). Preferi respondê-la publicamente. E notem bem uma coisa (e note bem uma coisa, você, leitora curiosa): em março de 2006, quando escrevi o texto A XÊNIA E O SZEGERI (leiam aqui), revelei:

"Vejam bem uma coisa. Para mim, que o conheço já há uns 10 anos, o Szegeri nasceu da forma como é hoje.

Barbado. Peludo. Gordo. Já funcionário público e já sonhando com a aposentadoria. O Szegeri, para mim, foi contemporâneo do Borba Gato, o bandeirante paulista. Foi, conta a lenda (que repete-se até hoje), o que mais chorou quando enterrou o amigo, a quem chamava de Borbinha, em 1718. Em 9 de janeiro de 1822, foi Fernando José Szegeri quem deu uma força a D. Pedro I para que ele se mantivesse no Brasil contrariando as ordens das Cortes Portuguesas."


Vamos em frente.

Fernando José Szegeri não tem idade, como a saudade (essa foi sofrível, mas tenho o péssimo hábito, já tantas vezes revelado, de não corrigir o que escrevo). Fernando José Szegeri é um homem que, por exemplo, indagado sobre sua data de nascimento (pergunta normal e comuníssima), ri e apenas ri. Quando muito, diz cofiando a barba amazônica:

- Se eu contar você não acredita.

A barba amazônica, por exemplo, e a carapinha que cobre sua cabeça e emoldura as duas menores orelhas de que se tem notícia, são negras como as asas da graúna. Há quem jure que Fernando José Szegeri pinta a barba e pinta o cabelo. Eu, que o conheço há coisa de 12, 13 anos, sempre o vi com aquela moldura retinta - e não há um fio branco que seja dando pinta por ali. Indagado sobre isso, se pinta a barba, se pinta os cabelos, e indagado sobre o segredo que mantém a nível zero a presença de cabelos brancos, ele ri e apenas ri. Quando muito, diz alisando o lóbulo da orelha direita com o dedo mindinho da mão esquerda:

- Se eu contar você não acredita.

E vive, o meu irmão paulista, cercado por essa onda de mistério. Às vezes, e eu penso que para disfarçar, solta frases que soam falsas - como essa que cravou, certa vez, num de seus textos publicados em seu blog:

"Mas hoje, imobilizado no trânsito, sapatos encharcados, deu uma tremenda vontade de ouvir a voz da Xênia embaixo de um túnel de almofadas e esperar minha mãe trazer uma bandeja bem cheirosa com misto quente e nescau batido no leite."

Trata-se de uma redonda mentira.

Fernando José Szegeri - e não me convencem as juras de Cecília e José, que não têm NENHUMA foto do filho quando bebê - quando veio ao mundo, quando apareceu no Brasil, quando surgiu em São Paulo, já era comunista, já era funcionário público, já sonhava com a aposentadoria, camisolões e pantufas, já tinha a barba que ainda hoje ostenta, já cantava, já bebia, já sabia de cor e salteado toda a obra de Marx.

Essa a razão - ou uma delas - pela qual não posso, nem querendo, responder à pergunta de minha curiosa leitora.

Até.

24.7.08

A PAIXÃO ESPRAIADA

Fernando José Szegeri, já lhes contei quando escrevi o texto O SZEGERI E O TARCÍSIO MEIRA, em 22 de setembro de 2006 (que pode ser lido aqui), é um macaco de auditório do ator global, o marido de Glória Menezes, o pai do Tarcisinho, nosso eterno D. Pedro I. Vez por outra, e quase sempre intramuros, o homem da barba amazônica faz questão de declinar sua admiração, sua fascinação, sua fixação, e eu sou capaz de dizer sua obsessão pelo Tarcísio Meira. Ocorre que, dia desses, o troço ganhou proporções extramunicipais, já que Fernando José Szegeri foi obrigado a fazer suas declarações fora de seu território, e vocês vão entender o por quê.

Numa dessas sextas-feiras, pouco depois do horário do expediente, Fenando Szegeri e Arthur Tirone, o queridíssimo Favela, tomaram um ônibus em direção à Campinas com o exclusivo e justificado objetivo de encontrarem o Bruno Ribeiro para, digamos, uma conversinha à mesa de um bar.

Sentaram-se, os três, no PÁTRIA FUTEBOL CLUBE (você pode conhecê-lo aqui), um bar que parece não existir (é esse o depoimento que tenho de quem o conhece).

Beberam - e de tudo eu soube graças a um inacreditável email que recebi de um leitor do BUTECO que, por coincidência, bebia no mesmíssimo bar e que reconheceu o homem da barba amazônica - bastante. O assunto (meu informante prestava uma atenção militaresca à conversa dos três) era futebol. O buteco estava cheio de gente, de muito cabeça-branca, de bêbados honorários, e uma solitária TV, ao fundo, transmitia a novela da oito, A FAVORITA. Foi quando deu-se o seguinte...

Um freqüentador assíduo da espelunca, o Maurílio (gordo, careca, de bigode, enorme, parrudo, desses de meter medo), grita em voz altíssima erguendo o copo de cerveja:

- Eis o homem mais lindo do mundo! Não houve e nem haverá, nunca, um homem mais bonito do que Tarcisão...

E eis o que se sucede.

Fernando José Szegeri (quem conhece o homem da barba amazônica poderá VER a cena), de olhos embotados, ergue-se com os dois braços para o alto, comemorando um gol imaginário, vira-se para o Maurílio (jamais o vira, é preciso que se diga) e diz, aos berros:

- Eu também acho! Sempre achei! Ninguém, ninguém, vivo ou morto, é mais bonito do que ele! O Tarcísio é lindo! É lindo!

E deu de chorar, o Szegeri, abraçado ao Maurílio, que também ficou visivelmente emocionado. Disse, o gordo:

- Chora não, barba! Eu te entendo! Eu te entendo, barba!

Fernando, cujas lágrimas esguichavam sobre a camisa do Maurílio, deu seu depoimento:

- Meu irmão gêmeo! Encontrei o meu irmão gêmeo!

E o buteco, provando com isso ser um bar seriíssimo, passou a discutir, à larga, se o Tarcísio Meira merecia realmente ser considerado o homem mais bonito do Brasil (do mundo, como propôs o Szegeri).

A coisa tomou proporções inacreditáveis. Improvisaram uma urna com uma caixa de papelão de palitos GINA, distribuiram cédulas em guardanapos daqueles de não secar nada, e deu-se a votação, secreta.

Tarcísio Meira ganhou com ampla vantagem. Houve apenas dois votos dissidentes: John Herbert e Cláudio Marzo.

Hilário, também, foi o desdobramento. Contados os votos, um qualquer gritou do balcão:

- Mas ele era mais bonito quando moço ou agora, grisalho como ele está?

Deu-se a balbúrida, interrompida pelo Szegeri, de pé numa das cadeiras do bar, à moda do seu Osório:

- Ele é atemporal, pô! O Tarcísio Meira é o homem mais bonito do mundo desde a fecundação! Bebê, criança, adolescente, adulto, mais velho, hoje, sempre, sempre! Salve o Tarcísio!

E foi assim.

Até.

23.7.08

TIJUCA, O BAIRRO

Escrevi, recentemente, cinco roteiros de passeios pela Tijuca (aqui o primeiro, aqui o segundo, aqui o terceiro, aqui o quarto e aqui o quinto). Eu, quanto mais os leio (tenho essa mania isuportável de reler o que escrevo com freqüência, principalmente quando alguém me rasga um elogio por conta de um texto específico, o que ocorreu hoje!), mais gosto da idéia de passear a pé pelas ruas arborizadas da Tijuca, bairro onde eu nasci e fui criado. E dentre as coisas que me embriagam nesses passeios, nesse bairro que tanto amo, estão as lojas de rua, o comércio e suas peculiaridades.

Sexta-feira passada, por exemplo, mal intencionado, convoquei meu sogro, o glorioso Comandante, para uma ida, a pé, no final da tarde, até a Praça Afonso Pena. Saímos de casa, os dois, e imediatamente tropeçamos no RIO-BRASÍLIA, uma espécie de gelo-baiano instalado sempre e permanentemente no meu caminho: eu saio de casa e tropeço nele... no que tropeço, me encosto no balcão... no que encosto no balcão, peço a primeira!

E ficamos apenas na primeira.

Então, tomem nota (isso não será exatamente um roteiro proposto, mas o histórico de nossos passos naquele final de tarde): saímos da Haddock Lobo, atravessamos a monumental rua Domício da Gama e suas casas de fazer cair o queixo, e entramos à direita na Almirante Gavião, parando no número 11, loja G, onde bebemos uma Brahma estupidamente gelada. Seguimos pela Almirante Gavião, rua que também abriga casas espetaculares, e demos na Doutor Satamini. Atravessamos a Satamini e subimos, a pé, a Marechal Marques Porto, agradabilíssima rua tijucana que vai desembocar na Martins Pena e depois na Campos Sales. Era nosso destino: fui cortar o cabelo no SALÃO AMÉRICA, com o seu Ernesto. O Comandante, que não é bobo, disse:

- Estou te esperando aqui do lado bebendo uma cerveja! Onde tem a mais gelada, hein?! - dirigiu-se ao seu Ernesto.

- O salão é cercado pelos sete lados! - e riu.

Eu indiquei o APERTADINHO, ao lado direito de quem sai do salão. Seu Ernesto mandou ver com a máquina, aparou a costeleta, tratou da nuca, talco, escova, paguei aqueles dez reais que você paga pro manobrista em salão grã-fino na zona sul e fui ao encontro do meu sogro. Chegando lá, um susto. Havia, dentro do bar, que é minúsculo, duas máquinas desses jogos de azar que estão proibidas em todo o Rio de Janeiro (no Brasil, eu acho...) e que quase nenhum bar mais ostenta, ao menos pela área a que me refiro. Disse ao Comandante:

- Me empresta cinco reais.

Ele estendeu-me a nota e gritou ao me ver meter a cédula na máquina:

- Pra isso?!

Em menos de dez minutos pedi ao dono do buteco que me pagasse R$ 55,00 que eu havia acabado de ganhar! O Comandante:

- Mas que sorte, meu Deus do céu! Vai ter que pagar a conta!

Paguei.

Atravessamos a rua, entramos no supermercado depois de atravessar a pracinha, fui mostrando a ele os lugares que conheço há quase quarenta anos, compramos frios e tomamos o rumo de volta pra casa, atravessando a Campos Sales, subindo a Doutor Satamini, entrando novamente pela Almirante Gavião, bebendo mais uma no buteco do Joaquim, e eu embriagado de meu bairro, esse bairro que tanto amo, que faz parte de mim e que eu exploro com a avidez de conhecê-lo, como ele a mim.

Até.

22.7.08

DO DOSADOR

* ninguém me contou, eu mesmo vi com esses meus olhos e também ouvi com meus ouvidos. Chegam ao RIO-BRASÍLIA três pessoas que procuram pelo dono, o Joaquim. Explicam, rapidamente, que estão fazendo umas fotografias para uma exposição sobre bares e botequins, pedem permissão para algumas fotos na área, e o Joaquim, fino como ele só, diz que sim - rosnando. Diz a fotógrafa:

- Seu Joaquim, o senhor pode servir uma dose de batida de maracujá para que eu faça umas fotografias?

Ele não responde mas abre a geladeira, pega da garrafa da batida e começa a servir a dose num copo americano. A fotógrafa senta o dedo na câmera até que o Joaca interrompe o serviço. Ela diz, sem parar a série de fotografias:

- Contiua, seu Joaquim, continua...

- Pô! Mas aí eu vou ter que cobrar duas doses!

Um gentleman, como se vê. Ah, sim. Pequeno detalhe que omiti para que a grossura ficasse ainda mais evidente apenas no final: um dos três a que me referi era eu.


* eu lhes contei, dia desses, aqui, que fui abordado, justo no RIO-BRASÍLIA, por um camarada, o Lúcio, que se apresentou como leitor do blog e tal. Foi, como relatei no texto indicado, uma experiência gratificante. É legal, de fato, ser reconhecido e receber, como shampoo no ego flutuante, um elogio inesperado. Pois anteontem, domingo, estava eu no RIO-BRASÍLIA, na companhia da (ordem alfabética para não ferir suscetibilidades) Candinha, do Comandante, do Felipinho Cereal, do Leo Gola e de Luiz Antonio Simas. Até que ouço alguém me chamando na mesa ao lado. E dou de cara com a anã do Borgonovi (se você não sabe de quem se trata, saiba aqui):

- Edu! Esse meu amigo leu seu blog ontem, pela primeira vez, e adorou!!!

E virando-se pro cara, sentado a seu lado:

- Esse é o Edu! Conta pra ele como você chegou no blog, conta!

O cara:

- Prazer, Edu! Fui fazer uma pesquisa no google e tasquei lá as palavras barbearia e Afonso Pena, já que eu queria cortar o cabelo por ali e não conhecia nada, daí fui dar num texto em que você sugere um passeio pela Tijuca, muito bom, aliás!!! E muito bom, também, o Salão América! O seu Ernesto te mandou um abraço!

Incríveis, essas coincidências. Referia-se, o camarada, a esse meu texto, que pode ser lido aqui!

Até.

17.7.08

A ROSEIRA

Muito provavelmente - eu quase que seria capaz de apostar vultosa soma - meus mais ferinos leitores terminarão de ler o texto que começo, nesse instante, a escrever (escrevo quase que de forma mediúnica, querendo com isso dizer que escrevo de sopetão, sem burilar isso ou aquilo, que fique claro), julgando-me ainda mais fresco do que na cozinha. Mas acordei, eis a verdade, mexido com a história que passo a lhes contar.

Há, numa determinada cidade, num determinado bairro, numa determinada rua, uma casa antiqüíssima (jamais deixarei de usar o trema). A casa abrigou, durante anos, uma família inteira que foi, com o tempo, desaparecendo. Vive ainda, dessa família, um homem que viveu a infância (felicíssima) na tal casa e que a alugou por razões que não vêm, realmente não vêm, ao caso. Quando a alugou, sem a intermediação de administradoras ou de advogados, o homem foi - no dia da mudança da nova família que na casa se instalaria -, pessoalmente, até a casa.

Já estaríamos, aí, diante de um caso raro, antigo. O proprietário, apegadíssimo à coisa alugada, vai até o endereço responsável por tantas marcas em sua alma e entrega, de olhos marejados, ao inquilino, a chave da casa, a chave dos quartos, conta a ele os detalhes sobre cada registro d´água, sobre cada tomada, cada parte do assoalho, do telhado. Vê, comovido, os empregados da empresa de mudança carregando caixas pra lá e pra cá, até que chama o inquilino para a parte da frente da casa. Ensaia despedir-se e diz:

- Posso lhe pedir uma coisa? - mal disfarça os olhos molhados e as mãos trêmulas.

- Claro... o senhor está sentindo alguma coisa? - responde o inquilino, um homem de bem, pondo a mão em seu ombro.

Fica mudo, o proprietário. Olha para baixo, para o alto, para os lados, esfrega o antebraço nos olhos e responde:

- Muitas coisas, meu caro... muitas coisas... Mas eu gostaria de lhe pedir uma coisa, apenas...

- Pois não.

- Está vendo esta roseira? - e aponta a roseira do jardim da casa.

- Claro!

- Trate bem dela... por favor... É o que mais quero lhe pedir... Era o xodó de meu pai, que a plantou há muitos anos, muitos anos... - e deu de chorar sem cerimônia.

Tal preocupação comoveu o novo morador, que prometeu especial dedicação à roseira. Não soou falso o abraço de antes da despedida. O homem partiu, visivelmente triste, mas grato por tudo aquilo, pela confiança depositada e pela promessa que ouviu e que lhe soou legítima, franca e verdadeira.

Passaram-se os anos e a roseira floria que era uma beleza. A cada inverno, a cada mês de junho, julho, explodiam as rosas, dezenas delas!, diante da casa, e o proprietário que jamais se deixou ver, pelo menos uma vez por mês passava pela rua, à tardinha, para matar as saudades e para ver, com os próprios olhos, o roseiral de seu pai em flor.

Há um ano e meio, mais ou menos, o proprietário bateu o telefone para lá. Contou sobre sua intenção de vender a casa, disse o preço, comentou que já havia recebido uma proposta de uma construtora, que estava apenas oferecendo a preferência, essas coisas. Ficou de mandar uma notificação por escrito apenas para cumprir as formalidades legais - a notificação de fato chegou e foi devidamente respondida -, mas naquele mesmo telefonema o inquilino declinou, com o coração apertado, da preferência. Não tinha e nem teria o dinheiro... Mas como o tempo passara sem mais nenhum telefonema, mais nenhum contato, nada, o assunto ficou esquecido.

Semana passada esteve lá, pessoalmente, uma vez mais, o proprietário. Mas dessa vez bateu à porta. Foi recebido efusivamente pelo casal que o convidou para entrar. O dono da casa, o inquilino, fez questão de perguntar:

- O senhor viu a roseira?! Viu que beleza?! Mais de trinta rosas abertas, fora os botões! De rosa eu entendo! - disse piscando pra mulher.

- Vi, vi, sim... - e tinha os olhos cabisbaixos.

Explicou o por quê da visita.

Havia vendido a casa, há coisa de uma semana. Para a tal construtora mesmo, que comprara, também, mais cinco casas na mesma calçada para subir um espigão. Fez-se silêncio naquela sala de onde se avistava a roseira. O ex-proprietário estendeu em direção ao inquilino a notificação já assinada pela empresa, a nova proprietária, concedendo noventa dias para a desocupação do imóvel. Pouco se disse. Ofereceram ao homem um café, um chá, mas ele não aceitou. Levantou-se, despediu-se, mas repetiu-se a cena de anos antes.

O inquilino atravessou a porta da sala, caminhou pelo alpendre, com os punhos cerrados travando o choro, e foi até os pés da roseira, de onde chamou seu senhorio.

- E a roseira? E a história de seu pai?

O homem partiu sem nem olhar pra trás, chorando de soluçar e pedindo desculpas, visivelmente constrangido.

Quando - eis a pergunta que eu faço - alguém terá coragem de dizer não ao dinheiro, de dizer não à especulação, de dizer não à ganância para manter de pé - que seja - uma roseira, uma história de vida, um roseiral de lembranças e de memórias?

Até.

16.7.08

UM BREVE TELEFONEMA

Eu não ia mesmo escrever nada hoje, quarta-feira... A discussão está comendo solta nos comentários no balcão público do BUTECO, e é um prazer - confesso - ver que o Homero, um dos maiores responsáveis pelo êxito grandioso do MITSUBA, apoiou seus cotovelos na área e deu seu pitaco no texto UM PASSEIO PELA TIJUCA (leiam aqui), ver que minha rabada está, literalmente, na boca do povo (leiam aqui), ver as pessoas delirando com uma simples receita de bife à parmegiana (leiam aqui), perceber que a camisa do Antônio Lopes chama a atenção de tanta gente (leiam aqui) ou mesmo perceber que meu modus operandi na cozinha causa tamanha balbúrdia (leiam aqui). Razão pela qual eu, a princípio, preferi deixar o balcão quieto, hoje, pra ver a discussão crescendo nos comentários... Mas qual o quê!

Bateu-me o telefone, há minutos, Fernando José Szegeri, e repito depois de encher os pulmões de ar e de bater uma imaginária continência: Fernando José Szegeri. Diga você também, meu caro leitor, de preferência com os pulmões turbinados, o nome do homem da barba amazônica: Fernando José Szegeri. E preciso, para que o exercício seja exitoso, lhes dizer como se pronuncia, na língua natal de seu último nome (a origem é húngara), o pomposo nome Szegeri. Já fiz isso, é verdade, uma vez, leiam aqui este texto de 21 de junho de 2006 que vocês saberão. Diz-se XÊGERI, sendo que o "g" é o "g" do gato e não o "g" do gerúndio. Mas isso lá na Hungria... Aqui no Brasil dizemos SÊGERI mesmo, ignorando o "z" e mantendo o "g" de gato. E como ele faz questão do nome completo, brademos: Fernando José Szegeri. Vamos ao telefonema.

Estrilou meu celular, a telinha mostrou o homem da barba amazônica flagrado na travessa do Comércio, no velho centro do Rio (ah, as modernidades...), e eu atendi:

- Szegeri!

Ele, do lado de lá:

- Hein?!

- Fala, mano!

- Você me chamou de quê?!

Eu, obediente:

- Fernando José Szegeri!

E ele riu.

Seguiu, o funcionário público:

- Queria que você contasse, hoje, que te dei esse telefonema. - e eu ouvia, ao fundo, o som de uma maçã sendo mordida.

Indaguei:

- Tá comendo maçã?

- Na mosca! E maçã da Turma da Mônica, que eu só gosto das bem ácidas!

Notem bem, meus poucos mas fiéis leitores, que imagem, que imagem!, o homem da barba amazônica, funcionário público, está sentado sozinho em sua mesa na repartição, comendo uma maçã da Turma da Mônica enquanto liga para este que vos escreve. Eu pergunto:

- E queres que eu conte o quê, querido?

- Que te liguei. Apenas isso. Mas escreva lá, Fernando José Szegeri, por favor.

Eu ri.

- Mas tenho que contar do telefonema?

- Eu prefiro. Assim todos ficam sabendo que não te abandonei, como você maldosamente insinuou dia desses. Mas veja lá, mano... Decline meu nome completo, na íntegra, por inteiro!

- Se você preferir...

- Prefiro.

- Escuta... - comecei a provocar.

- Desembucha...

- Teu chefe, teus colegas de repartição, teus desafetos...

- O que é que têm eles?

- Imagina... tascam Fernando José Szegeri no Google, por exemplo, e...

Cortou-me acompanhado do som da maçã sendo roída:

- E daí, maninho?!

- Não te incomoda? - e ouvi o som seco de um sopro, como o de uma zarabatana em funcionamento.

- O que foi isso?

- Isso o quê?

- Esse barulho.

- Cuspi o bagaço da maçã. Não, não me incomoda. O que tem me incomodado mesmo é ler meu nome pela metade, ou seu terço, ou ainda um apelido que não gosto. Quero meu nome em neon, maninho, em destaque sempre que eu for citado!

Eu, com pressa:

- O.K., deixa comigo!

E despedimo-nos.

Eu, que nasci Eduardo Braga Goldenberg, que sou advogado e que ostento em minhas petições apenas o primeiro e o último nome (o que me transforma num judeu na íntegra, o que não corresponde à verdade), eu que lancei um livro que estampa, na capa, também, apenas meu primeiro e último nome, eu que ignoro meu nome do meio até mesmo em meu endereço eletrônico (edugoldenberg@gmail.com), sofri de vergonha depois de mais esse telefonema de meu pomposo amigo.

Meu pomposo e dileto amigo, Fernando José Szegeri.

Até.

15.7.08

FRESCURA NA COZINHA

Vejam vocês uma coisa... Publiquei, dia desses, aqui no BUTECO, minha receita de bife à parmegiana (que pode ser lida aqui). Dias antes, meu chapa Bruno Ribeiro escreveu um texto sobre a rabada que preparo, e que pode ser lido aqui. E tanto no meu texto como no texto do Bruno, meteu o pitaco Fernando José Szegeri:

- Daria meio braço pra saber por que diabos o bife é à parmegiana e o queijo é parmiggiano... Ô, frescura! - disse ele diante do meu balcão.

Depois foi ao balcão do Bruno e esbravejou:

- Mano Bruno: eu, que não sou exibido como o Edu e moro mais perto, terei enorme satisfação de fazer-te uma rabada à moda suburbana. Leia-se, sem frescura. E tomando cachaça!

Notem bem, meus poucos mas fiéis leitores, que Fernando José Szegeri, um homem que tem extremo orgulho de seu nome e de seu sobrenome, tirou os dias recentes para me agredir (é, é verdade, uma de suas velhas manias, mas a coisa vem piorando a olhos vistos).

Pequena pausa. Deu-me, há semanas, o Szegeri, um telefonema. Em resumo, deu-se o seguinte:

- Edu?

- Sim!

- Posso pedir-te um favor?

- Dois!

- Quando te referires a mim, em teu blog, escreva Fernando José Szegeri, por favor.

- Como assim?

- É que escreves sempre Fernando, ou Szegeri, ou Fernando Szegeri, ou o homem da barba amazônica... não é verdade?

- É verdade.

- Então. Se puderes, escreva Fernando José Szegeri... Inteiro. Pode ser?

Ri, falamos um bocado mais, e desligamos.

Como o atendo sempre, voltemos ao tema de hoje.

Fernando José Szegeri crê, então, como se vê diante de suas duas declarações, que eu cozinho com frescura. Confesso a vocês, diante do balcão, que fui pego de surpresa. Já cozinhei inúmeras vezes para o homem da barba amazônica, no Rio e em São Paulo, e NUNCA (dito com uma ênfase que só ele sabe dar) recebi crítica parecida. Assim, de cabeça e de sopetão, sem parar muito para pensar, posso afirmar, sem medo do erro, que já preparei pra ele uma carne assada na cerveja, uns canapés que aprendi a fazer no BAR LÉO em SP (de rosbife caseiro, de pasta de gorgonzola e copa e de carne crua), risottos (mais de um, seguramente), pratos que sempre preparo (e os preparei assim pra ele!) com extremo esmero (o que ele considera, noto só agora, frescura).

Mas eu, que normalmente me rendo à sabedoria que aqueles olhos embotados escondem, não me renderei dessa vez. Se para Fernando José Szegeri eu cozinho com frescura, sem qualquer traço suburbano (valendo-me de seu raciocínio exposto no balcão campineiro), prosseguirei cozinhando com frescura.

Se para Fernando José Szegeri picar alho (trocadilho de propósito) simetricamente é frescura, triturar a cebola com a faca sem dela retirar a água é frescura, preparar marinadas para as carnes é frescura, tirar dos tomates as polpas com as sementes é frescura, então - eis a confissão que faço de pé, diante do balcão do BUTECO - sou, de fato, um fresco cozinhando (e vocês me julgariam muito mais fresco se soubessem mais detalhes de todo o meu modus operandi dentro da cozinha).

Como sou autodidata, como agrado de forma olímpica quando sirvo o que preparo, não vou mudar.

E Fernando José Szegeri que me perdoe.

Até.

14.7.08

DO DOSADOR

* estive, no sábado, por um bom número de horas, com meu velho pai, no glorioso RIO-BRASÍLIA, onde derrubamos algumas casco-escuro acompanhadas por uma fabulosa porção de lingüiça (jamais deixarei de usar o trema!) fina, isso depois de um lauto almoço, que nos custou a fortuna de R$ 11,00... Leia-se: arroz, feijão, batatas fritas e dois filés à milanesa do tamanho dos pés de meu pai, que calça 44. Foi fabuloso, também, ser interrompido por um cara que chegou-se à mesa:

- Com licença... você é o Edu?

- Arrã...

- Muito prazer. Sou seu leitor, leio seu blog diariamente...

- Ô, rapaz, que legal... Muito prazer...

Papai orgulhosíssimo.

- O prazer é meu, Edu. Eu sou Lúcio...

- Esse é meu pai, Lúcio...

- Famoso, famoso...

E retirou-se, o malandro, depois das despedidas.

Daqui, diante do balcão do BUTECO, deixo meu fraterno abraço público pro Lúcio, torcendo para que possamos, em breve, trocar umas idéias ali, naquele templo encravado na Almirante Gavião.


* estive, no domingo também, ontem, no mesmíssimo RIO-BRASÍLIA, para assistir a Flamengo e Vasco na companhia de meu velho pai, do Fefê, do Mauro e do Felipinho Cereal. Cercado por três vascaínos e por um americano, vi - felicíssimo! - uma contundente vitória do meu Flamengo, por três tentos a um. Duas notas tristes: a TV insistindo em mostrar Márcio Braga e Roberto Dinamite, lado a lado, na tribuna do Maracanã, e meu pai e meu irmão abandonando o barco aos 25 minutos do segundo tempo, esbravejando contra o inacreditável técnico Antônio Lopes. Dez Brahmas e dois limões da casa depois, tomei o rumo de casa com a sensação do dever cumprido.


* eu ando pior a cada dia com essa mania insuportável - confesso - de querer o bem dos meus, mesmo no futebol. Sofri, confesso, com a derrota do Palmeiras por 2 a 1 para o São Paulo. Eu - vejam que patético - só conseguia pensar no Szegeri, na sua expressão de angústia durante o jogo, na sua barba cerrada sendo cofiada após o apito final, no seu muxoxo melancólico antes de desligar a TV.


* eu disse, logo aí acima, "o inacreditável técnico Antônio Lopes" - e isso porque meu pai e meu irmão têm horror às qualidades do atual treinador vascaíno -, mas preciso dizer a vocês que não há nenhum técnico em atividade no mundo, vivo ou morto, mais adequado ao Vasco da Gama. Antônio Lopes comove-me, sobremaneira, jogo após jogo, com a camisa verde de seda que ele considera seu maior talismã - passada a ferro, sempre, pelas carinhosas mãos de Dona Elza, sua mulher. Para entender melhor minhas razões, leia SOBRE O VASCO DA GAMA, aqui.


Até.

11.7.08

BIFE À PARMIGIANA, A RECEITA

ESTA RECEITA AGORA PODE SER LIDA AQUI.

10.7.08

MINHA RABADA NA BOCA DO POVO

Meu queridíssimo amigo, de quem tenho olímpica saudade, Bruno Ribeiro - "o maior", na insuspeitada opinião de outro irmão de quem tenho saudade indescritível, Fernando Szegeri (ambos me abandonaram e eu devo fazer por merecer) -, aprontou-me uma. Publicou, ontem, em seu indispensável blog, um texto chamado A RABADA DO EDU, que pode ser lido aqui. No tal texto, o Bruno exalta minha rabada como quem exalta um título, uma conquista, um prêmio, e vejo-me obrigado a dizer a vocês uma coisa, talvez com isso decepcionando o mais valoroso jornalista de Campinas, quiçá do Brasil se tomarmos caráter e conduta como parâmetros: o Bruno jamais provou da minha rabada, jamais sentiu o cheiro da minha rabada, jamais pôs as mãos, os dedos, jamais chegou perto da minha rabada!!! E é verdade, também, que o malandro não engana seus leitores. Confessa, apenas, seus sonhos, como costumeiramente são feitas as confissões pela manhã diante da xícara de café e do pão com manteiga. O Bruno - eis a confissão que me encheu de estranho orgulho! - sonhou com a minha rabada. Sonhou, mais precisamente, que eu e uma amiga sua, a quem não conheço, preparávamos juntos uma rabada, numa casa qualquer, e que fazíamos tudo para que ele perdesse a paciência e fosse embora sem provar do prato. E foi o que aconteceu. Para se vingar, valendo-me do verbo que ele próprio conjugou, espalhou em seu blog, na íntegra, a receita da rabada que preparo com renovado prazer. E eis onde eu queria chegar. O prazer que experimento ao cozinhar.

Dia desses mesmo, na casa de meus pais, decidi por fazer um prato, para o jantar, e anunciei em voz alta:

- Hoje farei meu clássico filé à parmegiana!

Mamãe deu rodopios pela sala lambendo os beiços, minha menina revirou os olhinhos antevendo a hora do jantar e só meu pai, um incorrigível, muxoxou:

- Você e essa sua mania de fazer de cozinhar um evento!

Pois desci, fui ao Largo da Usina a pé, comprei filés altíssimos com três dedos de altura, devidamente limpos e cortados (um grande açougueiro, o Fernando!), comprei mussarela, comprei presunto, manteiga sem sal, tomates, queijo parmesão, pimenta do reino preta em grão, farinha de trigo, farinha de rosca e voltei como se carregasse a matéria-prima do tesouro que eu mesmo faria (e carregava, de fato).

Cheguei em casa e lá estava meu pai, incorrigível, muxoxando na cozinha já com uma dose de uísque generosa servida num copo de cristal empunhado pela mão direita:

- Lá vem o artista...

E é assim, meus poucos mas fiéis leitores, que sinto-me cozinhando. Não um artista, como disse meu pai. Mas - literalmente - em meio a um grande evento. Basta vocês lerem a receita da rabada que o Bruno tirou do escaninho mofado do BUTECO e expôs em seu blog, visitadíssimo e concorrido!

Pausa: pressinto que nesse próximo final de semana haverá cheiro de rabada no ar, tantas as pessoas que, incitadas pelo bom malandro, prepararão o prato em suas casas!

Cozinhar não é, em absoluto, um troço mecânico. Esta a razão, por exemplo, que me faz detestar as aparentes facilidades que a indústria de alimentos inventa. É prático comprar alho picado, como o que vem nesses potinhos plásticos imitando baldinhos? É. Mas e o prazer de escolher uma boa cabeça de alho, escolher o maior dente, descascá-lo e picá-lo artesanalmente enquanto se beberica um uísque? É prático o molho de tomate enlatado? Evidente. Mas e a arte de escolher os mais vermelhos, cortá-los em quatro, retirar-lhes a polpa, as sementes, cozinhá-los com azeite e com ervas para preparar seu próprio molho, infinitamente mais saboroso? Como meu pai - voltando a ele - é um homem prático e eu não sou - ao menos no que diz respeito ao tema - o preparo do tal jantar, naquela noite, foi, para ele, uma tortura:

- Vai demorar?

- Bastante.

Meia-hora depois.

- E aí? A quantas anda?

Eu, provocando:

- Vou beber uma dose contigo enquanto os filés descansam antes de irem para a frigideira...

- Descansam?

- Arrã.

Um pouco mais tarde:

- Tô com fome, pô! E aí? E aí?

- Já estão gratinando no forno...

- Demora?

- Hum... mais uns vinte minutos...

Mas eis que sirvo o jantar e papai não consegue disfarçar.

A cada corte do filé, a cada escorrer do queijo e do presunto de dentro dele (segredo que conto noutra altura), a simples visão do queijo gratinado e dourado dando ainda mais graça à aparência que somava-se ao sabor do prato, e papai fazia uns sons indecifráveis que eu nem fiz questão de entender. Ele comeu - eis a verdade numérica incontestável! - três filés acompanhados do mais espetacular purê de batata que já provei, o meu, evidentemente, que é preparado também sem pressa com batatas cozidas ainda com casca, manteiga sem sal, leite integral, queijo parmesão, noz moscada e sal. Uma garrafa de vinho tinto sem maiores pretensões e estava terminado mais um grande jantar. Caseiro, sim, mas um grande jantar. Como convém, é claro.

Instado a manifestar-se durante a sobremesa, disse meu velho pai, depois de suspirar e pensar durante uns bons segundos de olhos fechados:

- Bom.

Pra quem o conhece, um elogio incomensurável.

Terminando, então.

Assim como minha rabada já está na boca do povo, prometo para brevíssimo a receita de meu filé à parmegiana com purê de batatas, para que caiam, ambos, no gosto e na mesa de vocês todos.

Até.

8.7.08

SOLIDARIEDADE, UM TIRO PELA CULATRA

Pela primeira vez desde que comecei a cometer essa insanidade de contar, diante do balcão do BUTECO, as histórias que vivo, que vivencio, que testemunho e das quais ouço falar, vou atender a um pedido desse gênero... Vou mudar os nomes dos personagens dessa história realíssima em respeito às famílias envolvidas. A protagonista jurou-me, de pés juntíssimos e beijando os polegares em cruz, na frente e no verso, que a família do falecido (vocês entenderão!) lê o blog. Se lê, mesmo, irá reconhecer o enredo. Mas - confesso - o baque será infinitamente menor diante dos nomes não revelados. Vamos à história.

O telefone celular estrilou e ela, sempre solícita, mesmo correndo o risco da multa - estava dirigindo - e sempre com voz de o-que-eu-posso-fazer-para-ajudar:

- Alô?

Só ouviu soluços do outro lado da linha. Diana levou um susto, reduziu a velocidade, encostou o carro junto ao canteiro lateral, ligou o pisca-alerta e perguntou:

- Lucinha?! O que aconteceu?!

- Meu pai, Di, meu pai...

Diana perguntou, sem saber de nada, chutando:

- Piorou? - segurava o celular junto ao ouvido com o ombro esquerdo, mirava o retrovisor avaliando a situação do tráfego e roía o dedo mindinho da mão direita.

- Morreu.

- Morreu?

- Ainda há pouco... - e desabou de chorar.

Diana, óbvia como a multa que tomou do guarda municipal em plena avenida das Américas, fez a pergunta estúpida:

- Mas, mas... como?!

A amiga não respondeu. Só chorou, chorou, chorou, até que desligou.

É preciso brevíssima interrupção para uma explicação que dará ainda mais graça à história. Embora eu tenha usado a palavra "amiga" para me referir à Lucinha, ela e Diana não eram, exatamente, amigas. As filhas eram da mesma creche há exatos dois anos, e os encontros diários, na hora da entrada e na hora da saída da tal creche, as trocas constantes de obas e olás, a posterior troca de telefones e essa mania insuperável, do carioca, de travar intimidades a torto e a direito, fizeram com que ambas se considerassem, praticamente, amigas de infância. Mas façam uma idéia... Os maridos não se conheciam, não freqüentavam a casa uma da outra, nada disso. Eram, no máximo, colegas - como as filhotas. Vamos voltar.

Diana (diga-se), uma pessoa maravilhosa, sempre disposta a ajudar o próximo, sempre disponível para o que der e vier (ela adorava dizer isso sobre si mesma), chegou em casa esbaforida, afundou-se no sofá e discou para a casa de Lucinha. Atendeu o marido da amiga que contou-lhe o drama, na íntegra.

Em resumo: o pai de Lucinha fora, a passeio, para Nova York. Lá, no primeiro dia de férias, tomou um tombo, bateu com a cabeça no meio-fio, foi levado a um pronto-socorro, internou-se por conta de complicações que não vêm ao caso e, dois dias depois, morreu. A filha, preocupadíssima e incitada pela mãe, foi ao encontro do casal, tendo chegado aos EUA minutos antes da morte do pai. De lá mesmo, do corredor do hospital, bateu o telefone celular para a amiga - o telefonema do começo da história. Segundo o marido, preciso no repasse dos detalhes à Diana, o traslado do corpo estava sendo providenciado por Lucinha e o velório e o enterro estavam marcados para dali a dois dias, em Brasília, onde nascera o velho.

Assim que desligaram, entrou pela sala o marido de Diana, chegando do trabalho e trazendo, a tiracolo, as duas filhas. Deu de cara com a mulher com as mãos no rosto, expressão de susto, perguntou o que havia, a mulher foi minuciosa e encerrou, assim:

- Vou pra Brasília!

O marido desesperou-se. Não compreendia mais aquela demonstração aguda de solidariedade e de companheirismo, ainda mais com uma mulher a quem ele sequer conhecia! Mas a mulher tinha argumentos que soavam como definitivos:

- Eu não vou deixar a Lucinha sozinha nessa hora! Imagine! Ela mora no Rio, vai enterrar o pai em Brasília! Sei lá se ela conhece alguém em Brasília... Imagine! Imagine! Amiga minha não fica só numa hora dessas! Imagine a coitadinha sozinha com o caixão e a mãe, numa capelinha qualquer, sem companhia... Nunca! Nunca! Nunca!

E Diana foi, contra a vontade do marido e mesmo com as intensas queixas das filhas como prenúncio de uma saudade dolorida, no dia seguinte, à noite, para Brasília. Embarcou sozinha e embarcou - vocês verão - numa tremenda furada.

Foi, durante o vôo, fazendo planos que poderiam soar mórbidos, não fossem a pureza d´alma e a grandeza da intenção de Diana. Faria companhia, até a manhã do dia seguinte, no enterro, à amiga diante do corpo do pai. Faria festinha em suas mãos provavelmente trêmulas, diria uns ohs e uns ahs durante uns suspiros inevitáveis durante a madrugada, essas coisas...

Ao chegar à capital, bateu o telefone celular pra Lucinha. Desligado. Tentou uma, duas, três vezes, até que desistiu da idéia, conformou-se com sua presença apenas pela manhã, pediu a dica de um hotel para o motorista de táxi, comentou com ele o motivo de sua viagem, e o chofer:

- Ah! A senhora também veio pro velório do senador?

- Como?

- O velório do senador, coitado. Morreu longe do Brasil...

- Senador?

- Ex-senador, a bem da verdade... Mas, liturgicamente, minha senhora, senador da República, sim... Foi senador durante uns oito anos, o velório recomeça amanhã às sete da manhã no Salão Nobre do Congresso Nacional... Pobre doutor Caruso...

Ouvir o nome do pai da amiga doeu-lhe fundo.

- Salão Nobre?

- Sim.

- Congresso Nacional?

- Sim, senhora...

- Meu Deus...

- O que foi, madame?

- Nada...

Disse "nada" mas sentia, por dentro, que seus planos não se concretizariam.

Às cinco e meia estava de pé. Tentou o celular da amiga novamente. Permanecia desligado. Tomou um bom banho, vestiu-se e pediu o café da manhã no quarto, que engoliu com pressa. Desceu à recepção, pagou a despesa com o cartão de crédito, pediu um táxi e tomou a direção do Congresso Nacional.

- Com licença, senhora... A senhora está indo para o velório do doutor Caruso?

- Sim.

Olhavam-se pelo retrovisor.

- Está lotado... Já fiz quatro corridas para lá essa manhã.

- Lotado?

- Sim. Fila.

- Grande?

- Enorme.

Deu um muxoxo, fechou os olhos, respirou fundo algumas vezes até que ouviu o motorista.

- Pronto. Boa sorte, senhora.

Ela não podia crer no que via. Uma fila enorme, homens de terno, mulheres bem vestidas, carradas de meninos carregando coroas de flores imensas para dentro do Congresso Nacional, e ela de jeans, camiseta de malha, um agasalho de moleton e um desejo incrível de abraçar a amiga. Chegou-se para um segurança que tentava organizar a fila:

- Bom dia... Eu sou amiga da filha do senador e...

Foi interrompida:

- A senhora é da família? - perguntou consultando uma lista.

- Não, mas...

- Pro final da fila, minha senhora! Preferência só para os familiares...

Foi para o final da fila tentando o celular da amiga. Desligado.

Esperou - notem bem!, notem bem! - duas horas e quinze minutos para entrar no Salão Nobre do Congresso Nacional. A fila andava a passos lentos, e Diana, ao avistar Lucinha, tirou o agasalho de moleton e passou a girá-lo, segurando-o por uma das mangas, para chamar a atenção da amiga. Em vão. Lucinha, com o rosto mergulhado na janelinha do caixão do pai, estava num espaço reservado para a família e nenhuma atenção prestava ao que se passava naquele austero ambiente. Diana foi se aproximando - já havia desistido dos acenos patéticos com o agasalho - e percebeu, nervosa, quando Lucinha foi levada para um cômodo isolado por dois homens que a amparavam. Foi justo no instante em que ela passou diante do corpo do senador. Não foi vista.

Não foi vista e aquilo lhe doía como corte.

Quando percebeu, já estava do lado de fora do Salão Nobre. Dirigiu-se a um outro segurança:

- Por favor... a que horas vai ser o enterro?

- Às quinze, senhora.

- Onde, hein?!

- Será fechado apenas para a família, senhora.

- O quê?!

- Fechado para a família, senhora. Ordens da viúva e da filha do doutor Caruso.

- Mas o senhor pode dizer a elas que...

- A senhora é da família? - perguntou isso olhando Diana de cima a baixo.

- Sou! - mentiu.

- Seu nome, por favor.

- Diana Caruso.

O segurança consultou uma lista. Chamou alguém pelo rádio. Fez uma, duas, três perguntas. E dirigiu-se à Diana:

- Lamento, senhora. Não há autorização para nenhuma Diana Caruso, e por favor, não insista.

Desesperou-se, a pobre mulher. Tentou de tudo. Perguntou a um, perguntou a outro, mas tudo - desde sua roupa, incompatível com a cerimônia, até seu desespero desproporcional ao que se via - o que ela conseguiu foi um ou outro olhar de comiseração. Ficou ali, plantada, estacada, diante da porta do Congresso Nacional, até que viu a família saindo em direção a cinco carros oficiais estrategicamente parados diante da saída. Avistou a amiga. E gritou, a plenos pulmões:

- Lucinhaaaaaaaaaa!

Lucinha entrou no carro sem nem levantar o rosto, amparada por um segurança. A comitiva passou por Diana, ela acenou efusivamente para Lucinha, que finalmente a viu. Diana acenou com o celular e tentou, minutos depois, contato com a amiga. Chamou. E Lucinha atendeu:

- Olá, Diana, fale rápido que minha bateria está acabando...

- É que...

- Não precisava ter vindo...

- Aonde vai ser o enter...

Caiu a ligação.
Tentou de novo, de novo, de novo, e conformou-se. Disse, a caminho do aeroporto:
- Eu tentei... Mas deve mesmo ter acabado a bateria...

A viagem de volta foi tristíssima.

Não vira a amiga como pretendia. E pensou, durante o vôo, no que contaria ao marido para evitar a - mais que merecida - chacota.

Até.

7.7.08

SAMBA DA OUVIDOR

Gabriel Cavalcante e Ricardo Brigante lançaram há poucos dias um blog que tem tudo para virar referência, o SAMBA DA OUVIDOR. Diante da magnitude da idéia dos dois malandros e do (já surpreendente) material que ambos, generosamente, dividem com quem pinta na área, não há o que dizer. Apenas isso...

Já pra !

Até.

4.7.08

A DOR ESTAMPADA NA VOZ

Liguei, ontem à tarde, para um amigo meu, tricoloríssimo - e não revelarei seu nome nem à fórceps - e compungido ouvi sua saudação depois de uns quatro ou cinco estrilados do celular:

- Alô?!

Mesmo com o BINA acusando meu nome na telinha de seu aparelho, mesmo ele sabendo que era eu, evidentemente que era eu, ele foi incapaz de uma saudação mais calorosa ou mesmo mais pessoal. Era a dor da véspera - eu não tive dúvida.

Perguntei, tentando, sem êxito, demonstrar solidariedade:

- E aí, rapaz?

Ele grunhiu algo que não entendi. Continuei:

- Jogaço...

Novo som que não identifiquei.

Eu ainda disse uma coisa ou outra e não obtive, eis a verdade, nenhuma resposta capaz de sustentar um diálogo. Tudo o que ele conseguiu dizer, mais de uma vez, foi:

- O Renato é uma besta.

O treinador do Fluminense, que está se transformando numa espécie de Leão carioca - uma unanimidade negativa -, foi, na visão do meu amigo, o culpado pela não-conquista da Libertadores. Mas não vou entrar nesse mérito.

O que eu queria lhes dizer, apenas, foi o quanto me impressionou o tom soturno, o tom tristíssimo, o tom tétrico da voz do meu amigo. E muito da minha torcida pelo Fluminense na véspera (como contei aqui) deveu-se a uma tentativa tola de evitar a audição da dor egressa das profundezas de meus amigos tricolores.

Dirão vocês:

- Mas por que, então, você ligou para seu amigo?

Ora, ora...

Para prestar solidariedade. Enquanto escrevo ouço, nitidamente, palavra por palavra, tudo o que disse e tudo o que eu ouvi ontem durante o telefonema. E digo, sem medo do erro, que quando ele despediu-se com um "um beijo, meu irmão", sua voz já era outra. E o objetivo, pueril, que seja, que quis atingir com a ligação no meio da tarde, foi atingido.

Até.

3.7.08

QUEM ESPERA SEMPRE ALCANÇA

E os tricolores terão de esperar mais um bocadinho, sabe-se lá mais quantos anos, para verem o Fluminense tornar-se campeão da Libertadores - e quem espera sempre alcança, reza o hino tantas vezes entoado na noite de ontem, no Maracanã. Noite, diga-se, trágica, bem ao gosto do Sumo Pontífice da Catedral de Álvaro Chaves, Nelson Rodrigues. O Fluminense saiu perdendo de um a zero, reverteu o placar com três gols de um iluminado Thiago Neves (que, mais tarde, perderia um pênalti) mas não conseguiu o quarto gol, conforme eu previra aqui. O três a um levou a partida para a prorrogação, prenúncio da sempre desumana disputa de pênaltis. Um modorrento zero a zero na prorrogação empurrou, de fato, a decisão para os pênaltis, e o que se viu foi o que se viu: o Fluminense converteu apenas uma das cobranças e deixou escapar, no centésimo sexto ano de sua história, o título de campeão da Libertadores. Sobre o jogo, sobre a transmissão, sobre o que vi sentado diante da TV ao lado de meu velho pai, alguns pitacos:

* durante a resenha, antes do jogo, no SPORTV, foi curioso e engraçado assistir a um dos treinadores mais retranqueiros do futebol brasileiro, o tricolor Carlos Alberto Parreira, pedindo a escalação de dois atacantes desde o início da partida. Instado a se explicar graças à intervenção espirituosa do repórter Marcelo Barreto, saiu-se bem o treinador dizendo que estava, ali, palpitando como torcedor apenas;

* a transmissão da TV GLOBO dava a impressão de que apenas mulheres (e feias) estavam no Maracanã;

* impressionante a teimosia do treinador Renato Gaúcho que, uma vez mais, ainda que tendo feito a substituição bem mais cedo do que de costume, demorou a pôr o Dodô (que não esteve bem ontem) em campo;

* o preparo físico dos jogadores da LDU sobrou durante os quinze minutos finais da partida e ainda mais durante a prorrogação, pondo em xeque a comissão técnica comandada pelo fanfarrão treinador das Laranjeiras;

* falaram demais, na minha opinião, e cedo demais, alguns jogadores tricolores... Um disse, logo após o final da partida no Equador, há uma semana, que havia feito naquela noite o gol do título (o segundo da derrota por quatro a dois). Mesmo tendo sido o herói da partida de ontem, com três gols, Thiago Neves precisa aprender uma das máximas do futebol, que é tão óbvia e evidente que não me darei ao trabalho de transcrevê-la;

* de parabéns a torcida que lotou o estádio e fez a sua parte;

* e lamentável o (mais uma vez...) derrame de ingressos falsos e a quantidade de cambistas agindo sem qualquer repressão, isso no país que sediará a Copa do Mundo de 2014.

Até.

2.7.08

SOU TRICOLOR

É evidente que eu não seria capaz de seguir a letra do hino e, conseqüentemente (recuso-me a abandonar o trema), completar o título com um falso "de coração". Sou Flamengo desde que minha alma foi soprada pelo Criador, razão pela qual eu não soaria leviano, ainda que em nome de um título mais bonito pra crônica do dia. Mas hoje, quarta-feira, 02 de julho de 2008, logo mais à noite, sentar-me-ei na imaginária arquibancada ao lado do Vidal (que vai ao jogo, eu sei, com seu saudoso amigo Fabiano), do Valmir, do Marcelo Moutinho, do tio Osias do alto de seus oitenta e muitos (quantos, Szegeri???), do meu primo, Leonardo, do meu tio, Leopoldo, do Thiago Vasco (vejam que ironia o sobrenome do malandro!), do Carpilovsky, do Paulinho e do Dado, queridos de SP, do Daniel A., do Arthur Mitke, do Leo Huguenin, do meu cunhado, Marcelo Miranda, o Neném, enfim, de todos os tricolores que me cercam e a quem quero bem, e torcerei como um bárbaro pelo clube das Laranjeiras.

Agora, às oito da manhã dessa quarta-feira - a quarta-feira mais importante da história do Fluminense - quero dizer, diante do balcão do BUTECO, que acredito na vitória tricolor por um placar suficiente para que a conquista do título venha nos 90 minutos regulamentares. Eu sei, bem sei, que os tricolores todos, marchando na onírica procissão pela rua Pinheiro Machado e conduzidos por Nelson Rodrigues, Sumo Pontífice da Catedral de Álvaro Chaves, crêem numa vitória dramática, trágica, que há de vir nos acréscimos da prorrogação ou mesmo nos fatídicos pênaltis. Mais do que simplesmente crerem, os tricolores desejam, como bestas-feras alucinadas pelo risco, o sofrimento e a iminência do fracasso final, uma vitória épica, com a mesma ânsia do menino que persegue, como um louco, a figurinha mais difícil para completar a página de seu álbum.

De um jeito ou de outro, sofrendo ou não (mesmo sabendo ser inevitável o sofrimento desde o primeiro minuto do dia de hoje), tenho para mim que hoje é dia de Fluminense. Não apenas pelo impressionante retrospecto dentro do Maracanã (parece-me que, nesta Libertadores, são 16 gols pró e apenas 2 contra), não apenas pela diferença que tem feito - sempre que instada a fazer a diferença - a torcida do Fluminense, mas principalmente porque creio na fatalidade do futebol, é que tenho como certa a conquista tricolor na noite desta quarta-feira.

Verei o jogo quieto, possivelmente com uma garrafa de Red Label ao alcance da mão, como faço sempre que meu Flamengo não está em campo, mas ao lado de meus amigos tricolores presentes ao estádio ou não - se é que me faço entender.

A eles, meu fraterno abraço. Saibam todos que, segundos após o apito final, erguerei meu copo em homenagem a cada um, congratulando-me com a alegria, hoje deles, a mesma que experimentei, menino de calças curtas, em 1981.

Até.

1.7.08

LEVANTANDO AS PORTAS DE AÇO

Promessa é dívida, cumpri-la é sempre uma dádiva e reencontrar a Rotina (maiúscula), essa deusa a quem rejeitamos por pura falta de bom senso, é sempre um prêmio. Eu digo que rejeitar a Rotina é falta de bom senso pois só quem a perde inesperadamente é que passa a dar intenso valor a ela, companheira-prenúncio de que tudo vai bem, obrigado. E eu, que no dia 06 de junho anunciei recesso até o final do mês - que terminou ontem - reabro hoje, primeiro de julho, as portas de aço do BUTECO devagarinho, sem pressa, sem alarde, mas com a sensação do dever cumprido, da promessa cumprida. Feito o intróito, em frente.

Em 06 de junho publiquei PROSSEGUINDO COM A REFORMA (aqui). No tal texto - e sabe-se lá onde eu estava com a cabeça quando cometi tamanha insanidade - lancei duas promoções, tolíssimas, que foram, eis a confissão que faço diante do balcão reformado, o maior fracasso, o maior fiasco, a maior prova de que não tenho NENHUM (com a ênfase szegeriana) talento para o marketing (o que, aliás, me deixa felicíssimo, já que atribuo ao marketing grande parte das mazelas que assolam o mundo).

Notem bem.

Pedi a meus leitores que mandassem fotos suas com a tela do computador ao fundo, com a imagem do BUTECO aparecendo. Disse, ainda, que sortearia, entre os participantes, um livro meu. Passados vinte e cinco dias... o que aconteceu? Recebi quatro fotografias, todas devidamente publicadas. A primeira da Inês, amiga querida que mora em Boston, no EUA, e que JÁ TEM MEU LIVRO. A segunda do Cláudio Menezes, de Volta Redonda, a quem não conheço. A terceira do Rodrigo Medina, de São Paulo, a quem também não conheço. E a quarta de meu cunhado, Marcelo, com sua mulher, a Thaís, que, evidentemente, TÊM MEU LIVRO. Vejam que sucesso retumbante.

Pedi, também, que os leitores mandassem fotografias tiradas durante os passeios feitos seguindo os roteiros que propus, aqui mesmo no BUTECO (o primeiro, o segundo, o terceiro, o quarto e o quinto). Esses leitores também participariam de um sorteio do mesmo prêmio. E essa promoção (soa-me patético, nesse instante, escrever "promoção") foi ainda mais fracassada. Notem bem: apenas meus pais atenderam a meu apelo.

O resultado desse fracasso olímpico, desse fiasco aterrador, dessa deprimente adesão à minha infeliz idéia, é o seguinte: eu não vou sortear, sob pena de cair ainda mais no ridículo diante de todos, rigorosamente nada. E explico.

Inês, Marcelo, Thaís, papai e mamãe já têm meu livro. Sobram, portanto, o Cláudio, de Volta Redonda, e o Rodrigo, de São Paulo. Para chegar ao vencedor da promoção (e escrever "vencedor da promoção" me dá uma vergonha impressionante) eu não precisaria de sorteio algum. Poderia chamar qualquer pessoa, fazer um par ou ímpar e decidir o troço. Mas seria, convenhamos, de um ridículo sem precedentes. Peço, portanto, aos dois, publicamente, Cláudio e Rodrigo, que comprem meu livro caso queiram, de fato, lê-lo. Podem comprar por aqui, por exemplo, em 04 (quatro) parcelas de R$ 10,00 (dez reais), sem juros, no cartão de crédito.

Decidido isso, deixem-me encerrar por hoje.

Levanto, pois, as portas de aço do estabelecimento e os recebo, a todos, com indisfarçável alegria. E vamos em frente.

Até.