13.8.08

RB

É preciso, às vezes, uma certa dose de cinismo, um sorriso de canto com o cigarro imaginário pendendo do canto da boca, uma dose de limão da casa numa das mãos, um punhado de gente querida sentada à mesma mesa, para driblar o peso do dia-a-dia. É preciso que a mesa seja num lugar que fale ao coração, é preciso sentir-se em casa, é preciso não se preocupar com rigorosamente nada, ainda que por algumas horas, é preciso, é imperiosamente preciso. É preciso que, nesse tal lugar, que há de ser um bar, haja intimidade com os garçons, é preciso ser servido por Deus num dos mais pagãos templos do bairro, benção maior que um homem de fé pode desejar, ou então pelo Imperador em pessoa, um sujeito que faz do morro do Borel a sua Roma Negra e que é capaz de atender a você durante toda a noite com um sorriso digno de começo de dia. É preciso que o dono do buteco tenha a dose certa de mau-humor e de intolerência diante das reclamações injustas lançadas da mesa ao balcão, desde a temperatura da cerveja até o alto teor de gordura dos pastéis. É preciso que a dona tenha permanentemente as mãos cheias de carinho e os olhos cheios de fumaça - a cozinha não pára, o exaustor não dá conta e o bêbado insiste em fumar diante dela, falando sem parar e sem exigir atenção. É preciso que o cenário esteja em ordem, que os personagens estejam na área, que as casas em volta façam silêncio, que haja um grito de prazer vindo de alguma janela entreaberta suscitando os mais torpes comentários da assistência e que haja uma briga, dessas escandalosas, a fim de que os cronistas anônimos tenham o que contar no dia seguinte. É preciso que haja barulho de vidro denunciando os brindes feitos com os copos americanos cheios de cerveja, que haja o barulho de talheres cortando a mais bem feita carne assada da cidade, que haja um gemido de êxtase diante das coradas, que haja limão e maracujá dando ainda mais cores à mesa e à vida, que haja disposição para perceber que é preciso viver tudo isso, é preciso. É preciso. Definitivamente, é preciso.

6 comentários:

Marcelo Moutinho disse...

Belo texto, Edu. De fato, é preciso.

Eduardo Goldenberg disse...

Valeu, Moutinho. Você, afinal, já conhece o RB?

Rodrigo disse...

Belo texto, Edu!

Sem dúvidas quando eu der um pulo ai no Rio, (espero que o quanto antes), passarei no RB sem sombras de dúvidas, é preciso.

Marcelo Moutinho disse...

Só na teoria, Edu rs

Bruno Ribeiro disse...

Sinceramente comovido, releio pela décima vez esta crônica de antologia!

Cazé disse...

Li esse post coincidentemente quando adentra o João com o Aldir em "Vida Noturna". Perfeita a coincidência...perfeito o texto.
Abraços.