31.10.08

BARES E RESTAURANTES - A EXPOSIÇÃO

ESTE TEXTO AGORA PODE SER LIDO AQUI.


30.10.08

BARES E RESTAURANTES - A EXPOSIÇÃO

ESTE TEXTO AGORA PODE SER LIDO AQUI.

29.10.08

BAR DO PAVÃO

Saiu hoje, à tarde, o resultado final da eleição promovida pelo blog TRIBUNEIROS para eleger os melhores em 17 categorias (vejam quais, aqui) - o que eles chamaram PRÊMIO TRIBUNEIRO DE GASTRONOMIA. Como eu digo sempre, em relação a eleições do mesmo gênero, trata-se de uma bobeira divertidíssima. E é achando uma tremenda graça que recomendo a vocês que dêem uma olhada no resultado, aqui.

Notem que a Tijuca levou a melhor em 06 categorias (se fosse como a Fórmula Um, que tem o Mundial de Construtores, e se houvesse o PRÊMIO TRIBUNEIRO DE GASTRONOMIA - SEÇÃO BAIRROS, a Tijuca seria a acachapante vencedora!!!!!). O FIORINO levou a melhor em quatro categorias. O ACONCHEGO CARIOCA em uma e o MITSUBA também, em uma.

Foi citadíssimo, entretanto sem ganhar qualquer dos prêmios, o BAR DO PAVÃO.

E é sobre o BAR DO PAVÃO, comandado pelo casal e Pavão, que quero lhes falar hoje.

Situado na rua Doutor Otávio Kelly 53, na Tijuca, colado à praça Xavier de Brito, uma das mais bonitas (ou a mais bonita, acho que a mais bonita) praças do melhor bairro do Rio, o BAR DO PAVÃO é, sem dúvida, um grande bar.

São inúmeras as razões que fazem do PAVÃO uma parada obrigatória.

Bar do Pavão, Tijuca, RJ, fotografia de Marina Furtado Couto

O Pavão, a nível de elemento humano (dia desses conto a vocês o que vem a ser isso), já vale a visita. Uma grande figura do bairro. Bom de papo, boa companhia, cuida pessoalmente de tudo o que serve. Do chope (cada vez melhor na insuspeitada opinião de um freqüentador assíduo - bem mais que eu -, o Vidal), das cachaças, das carnes esplendorosas que ele serve e que ele mesmo assa, da feijoada dos sábados, do cozido dos domingos (todas as fotos de hoje foram tiradas em um domingo no PAVÃO), dos sanduíches, dos freqüentadores e dos vizinhos.

Falei em vizinhos e preciso lhes falar da dona Olívia e do seu Antônio, vizinhos de parede e de calçada do bar. Só indo lá pra entender o por quê disso. Perguntem ao Pavão ou à dona pela dona Olívia. E eles dirão quem é essa figura fundamental para que tudo, ali, naquela esquina, seja como de fato é.

A praça Xavier de Brito compõe o cenário. O BAR DO PAVÃO fica numa esquina (como os grandes bares!), ocupa toda a calçada sem incomodar ninguém, tem um toldo azul e amarelo que ajuda as frondosas árvores no fornecimento da necessária sombra, fica diante de um imóvel tombado pela Prefeitura (entendam tudo isso, lendo isso aqui), e não é nada difícil passar um dia inteiro, ali, bebendo, comendo e batendo papo sem perceber a hora (quem?) passar.

Bar do Pavão, Tijuca, RJ, fotografia de Marina Furtado Couto

Nos finais de semana, a coisa fica mais grave. Aos sábados, o Pavão serve uma feijoada que vou-te-contar. Aos domingos, um cozido que só-vendo.

Quando eu estive lá com a Marina (autora das fabulosas fotos que ilustram o texto de hoje) e com o Leo Gola (cunhado do onipresente Fernando José Szegeri), no dia em que fizemos estas fotos (amanhã conto a vocês o por quê), o Pavão estava num dia inspiradíssimo.

Chegamos cedo - e é fundamental, sempre, chegar cedo se a intenção for entender o espetáculo que é aquilo tudo ali - e pudemos ver o Pavão tratando do cozido como quem trata do primeiro filho.

Sua faca iluminou-se como mágica.

Bar do Pavão, Tijuca, RJ, fotografia de Marina Furtado Couto

O chope desceu belíssimo, com espessa espuma, e meus dois queridos, de São Paulo, fizeram juras de amor ao Rio de Janeiro, à Tijuca e ao BAR DO PAVÃO.

Uma parada - quero repetir - mais-que-obrigatória.

Até.

28.10.08

TIJUCA-CA-CA!!!!!

Eu pretendo que o título de hoje - TIJUCA-CA-CA!!!!! - seja lido com a euforia dos locutores de futebol! E explico o por quê.

É evidente - não custa repetir - que trata-se de uma brincadeira qualquer eleição que pretenda eleger o melhor-isso, o melhor-aquilo, e refiro-me especificamente a bares, butecos, restaurantes, esses troços. Foi o que fez o site TRIBUNEIROS, que instituiu o PRÊMIO TRIBUNEIRO DE GASTRONOMIA para escolher o (01) melhor restaurante, o (02) melhor botequim, a (03) melhor parada pós-praia, a (04) melhor parada na madrugada, o (05) melhor lugar para comer-beber ouvindo música, o (06) melhor para ir a dois, o (07) melhor para ir com os amigos, o (08) melhor lugar para beber cerveja, o (09) melhor lugar para beber chope, o (10) melhor lugar para beber drinques, o (11) melhor lugar para beber suco, o (12) melhor lugar para petiscar, o (13) melhor lugar para comer sanduíche, a (14) melhor carne, a (15) melhor pizza, o (16) melhor japonês e o (17) melhor serviço.

Eu, tijucaníssimo, em 09 de outubro, no meio da eleição, convoquei meus leitores (os tijucanos, precipuamente), através do texto TIJUCANOS, AVANTE!!!!! (leiam aqui) para o exercício do voto.

Ontem, 27 de outubro de 2008, o TRIBUNEIROS anunciou os primeiros resultados. Está lá (grifos meus):

"E o melhor restaurante, segundo o eleitorado tribuneiro, é o Fiorino, o agradável [e gostoso] italiano da Heitor Brandão, na Tijuca.

Num pleito com 73 votos válidos, a casa foi sufragada 17 vezes. Uma vitória incontestável.

(...)

O Fiorino também leva, de maneira incontestável, o PTG de melhor pizza, com 12 indicações, (...).

Levando a tríplice coroa do Prêmio Tribuneiro de Gastronomia, o Fiorino logra o portento de ser, também, o melhor serviço - com fantásticos 16 votos. (De um total de 66 válidos). (...).

(...)

Absolutamente empatados - com 9 votos - ficaram Filé de Ouro e Porcão, os campeões do PTG na categoria melhor carne. (Contamos 67 sufrágios válidos). Indicado 7 vezes, o Esplanada Grill vem a seguir. Bar do Pavão e Estrela do Sul tiveram 6 votos. (...).

Espetacular empate deu-se na categoria melhor japonês. Manekineko e Mitsuba receberam 12 votos, num universo de 57 válidos. (...)."


Vocês podem ler o texto que anuncia os primeiro vencedores, na íntegra, aqui.

E salve o portentoso bairro da Tijuca, que não pretende, é claro, abafar ninguém. Mas que deixou pra trás, ao menos nessa brincadeira, uma porção de pesos-pesados da gastronomia carioca!

Até.

23.10.08

ELEIÇÃO NO RJ, VOTO A VOTO

Como demonstram os gráficos abaixo (IBOPE e DATAFOLHA), publicados n´O GLOBO ON LINE na noite de ontem, o segundo turno das eleições será disputado voto a voto na cidade do Rio de Janeiro.

gráfico IBOPE divulgado em 22 de outubro de 2008
gráfico DATAFOLHA divulgado em 22 de outubro de 2008

O BUTECO abre, hoje, nesta quinta-feira, a menos de 72 horas do início da votação, pedindo a seus freqüentadores que declarem o voto para que possamos fazer uma mini-pesquisa, não de boca-de-urna, mas de cotovelo-no-balcão.

Se você não for do Rio, não há problema. Havendo segundo turno em sua cidade, mande bala que a gente registra seu voto também.

Até.

ps: se você não tiver uma assinatura BLOGGER que possibilite sua manifestação através do sistema de comentários do BUTECO, registre seu voto por email mesmo; excepcionalmente!

22.10.08

DUAS MORTES: UMA REFLEXÃO

Não pretendo me estender muito, hoje (sempre que assim pretendo, estendo-me infinitamente...). Mas é que, em razão de uma coincidência que evidenciou uma situação curiosa, quero dividir com vocês uma reflexão.

O Brasil viveu nos últimos dias, graças à imprensa cada vez mais sensacionalista, o drama vivido pela família de uma adolescente, feita refém por seu ex-namorado, também adolescente, que acabou tragicamente morta depois de baleada, levada para o hospital e incapaz de resistir aos ferimentos. Não se falava de outra coisa na TV, nos jornais, no rádio. O assunto era o drama (particular) daquela família. Nos jornais eletrônicos (n´O GLOBO precipuamente, o que mais freqüentemente leio), as notícias envolvendo o fato eram manchete e destaque permanentemente.

O Brasil perdeu, na segunda-feira, um grande artista popular. Consagrado, de certo modo, se levarmos em conta, como parâmetro, a realidade dos artistas populares ligados ao samba em nosso país, costumeiramente ingrato com seus artistas. Levou, com um samba seu, a VILA ISABEL ao campeonato em 1988. Foi gravado pelos mais diversos nomes da música brasileira, e não quero, aqui, citar ninguém. Compunha com uma delicadeza e com uma genialidade comoventes. E pouco se falou sobre ele na TV, nos jornais, no rádio. Nos jornais eletrônicos (n´O GLOBO precipuamente), a notícia de sua morte mereceu um cantinho de página, e olhe lá.

Li, sobre o velório e sobre o enterro de mais uma vítima da violência, que mais de 50.000 pessoas foram se despedir (!!!!!) da menina a quem muitos sequer conheciam. Segundo a PM (ouvi na CBN), 39.000 pessoas passaram pelo velório e 12.000 se espremeram no cemitério. Ainda segundo a PM, familiares e amigos (os mais próximos) não passavam de 50.

Li, sobre o velório e sobre o enterro do smabista, que pouco mais de 300 pessoas foram ao cemitério (não li ou ouvi nada sobre o velório).

Não se trata - antes que venham os detratores de plantão de dedo em riste - de uma disputa mórbida pela popularidade post mortem.

Trata-se, sim, de uma reflexão simples, superficial, até.

Por quê - meu Deus! - esse fomento incessante da violência, da brutalidade, dos mais baixos instintos do homem e da sociedade por parte da imprensa? Não percebem, os homens da imprensa, que a divulgação desses dramas particulares faz crescer um medo paralisante, um pânico destrutivo e uma banalização da dor alheia, na contramão do crescimento da solidariedade? Não percebem que essa falsa e suposta solidariedade das pessoas (as tais 51.000 que se despencaram de suas casas, algumas de cidades distantes, para irem ao velório e ao enterro da menina) apenas expõem, de forma clara (o que é tristíssimo) a solidão, a carência e a doença social que assola nossa gente?

Quando alguém vai perceber - e lutar pelo cessar dessa espiral doentia - que essa exposição constante da violência e da brutalidade é, na verdade, elemento de incremento desses ingredientes que corroem nossas vidas sem que percebamos? Quando alguém perceberá o que é evidente, que os crimes se reproduzem, espocam aqui e ali, na medida em que se lançam luzes sobre um determinado tipo de crime que não interessa - em absoluto interessa! - à sociedade?

Quando não será considerado piegas e bobo aquele que se compromete apenas com a divulgação da beleza que reside nas mais pequenas coisas? Quando não será considerado demodè e deslocado aquele que se preocupa em expôr apenas o que tem capacidade de elevar o espírito do homem, de apaziguar a mente do homem, de aquietar o coração do homem, de fazê-lo refletir, pensar, criticar, modificar-se para melhor?

Por quê - meu Deus! - os homens da imprensa, dos jornais impressos, dos jornais eletrônicos, do rádio, da televisão, não se preocupam com a educação das pessoas, na mais ampla acepção da palavra? A resposta é óbvia - eu sei.

Porque os patrocinadores que fazem girar a roda da informação que deforma o mundo todo (e aqui não seria diferente) querem mais é isso: sexo e violência, que é o que mais se vende hoje em dia. A mistura de ambos (e os dois ingredientes estavam presentes, de certa forma, no tal seqüestro a que me referi), explosiva, entorpece a sociedade e vivemos, então, esses sombrios tempos de recrudescimento do amor.

Daí você dá um pequeno giro pelos jornais nessa última semana e descobre (tudo em destaque!) que uma cantora baiana engravidou de um filhinho de papai abastado, que essa mesma cantora baiana que engravidou de um filhinho de papai abastado perdeu o bebê, que um rapaz desequilibrado seqüestrou sua ex-namorada para chamar a atenção da família, que mataram um PM na avenida Brasil, que um incêndio matou duas crianças numa casa no Paraná, que libertaram uma das reféns do tal seqüestro, que a refém foi devolvida ao seqüestrador horas depois, que encontraram vários corpos na mala de um carro abandonado num canto qualquer da cidade, que não sei quantas balas perdidas fizeram não sei quantos feridos, e assim, meus poucos mas fiéis leitores, nós vamos sendo engolidos - sem que percebamos, quero repetir - por essa onda horrível que nos impede de ver o mundo à nossa volta com leveza.

Não se trata de querer viver com antolhos e não querer saber o que se passa por aí. Mas a cada um, o seu drama.

Vai daí que 51.000 autômatos seguem para o velório e para o enterro de uma desconhecida (e não estou falando da família, chega a cansar explicar o óbvio) como figurantes de uma novela tétrica que nos empurram goela adentro sem que reajamos.

E ninguém é sensibilizado para o desaparecimento de um homem que viveu para tornar o mundo mais bonito. Um louco, a seu modo, que fez o que pôde (prometeu, no samba, fazer de tudo) pra mudar o mundo.

Um homem que plantou, ao menos na minha vida, beleza. Como quem planta, num xaxim, um baita de um jequitibá. Pra bom entendedor, meia palavra basta.

Até.

ps: nos comentários, barbaridades pescadas, já na manhã de hoje, 22 de outubro de 2008, em alguns jornais eletrônicos.

21.10.08

A RECEPÇÃO DE GALA

Talvez eu perca, com a publicação do texto de hoje, um de meus últimos amigos (estou exagerando apenas um pouco; vou explicar).

Dia desses, há coisa de - o quê? - uns seis, sete (acho que oito) meses, o H. me escreveu um email. Dizia mais ou menos o seguinte (e eu li como se ouvisse sua voz de intelectual):

- Você pode me fazer um favor? Não cite mais meu nome. Estou pedindo! Estou pedindo!

E ameaçou, ralhando:

- Por enquanto, pedindo!

Respondi, crente que se tratava de uma brincadeira. E o H. desceu da cátedra e perdeu a linha:

- Experimente citar meu nome mais uma vez. Uma vez! Experimente!

Não experimentei.

Mais recentemente (pela ordem alfabética), o C., o F., o I., a L., a M. e a M., num movimento ensaiado como os piquetes do ABC na década de 80, gritaram (à moda do H.):

- Cite seu próprio nome!

E, antigos, disseram em côro:

- O nosso, não, violão!

Vai daí que meus personagens fugiram todos do palco. Foram em vão as tentativas de convencê-los (dentro do espírito é-mentira-mas-é-bonito) a permanecerem vivos nas minhas histórias. Usei argumentos tolos, confesso: eles estavam sendo imortalizados; eu vou morrer, o blog, jamais; essas bossas que não deram em nada.

O J.S. pediu-me algo semelhante. O F.C. também. E por aí (o V., amigo de há séculos, idem).

Apenas um - por pena de mim ou por aguda falta de tempo - não me fez pedido algum nesse sentido (e encho a boca para dizer seu nome por escrito, aqui no BUTECO, e talvez pela última vez): Fernando José Szegeri.

Ontem à noite, enquanto eu dirigia, piscou seu nome no ecrã do celular (e, junto com seu nome, sua fotografia). Como por ele eu corro o risco da multa, atendi. Fui efusivo:

- Boa noite, querido!

E ele, nada efusivo:

- Tá podendo falar?

Menti:

- Arrã.

Ele, grave:

- Posso te pedir uma coisa, Eduardo? - ele nunca me chamou assim, pelo nome.

Com medo de que eu fosse ouvir o tal pedido (o tom de sua voz era o mesmo tom de voz do H., quando li seu email), desliguei. Desliguei a ligação e desliguei o aparelho.

Dito isso, vamos em frente. Hoje quero lhes contar sobre a última vinda do portentoso Fernando José Szegeri ao Rio de Janeiro.

Quando papai soube que ele viria (e que chegaria num sábado), decretou:

- Domingo ele almoça lá em casa conosco!

Meu irmão do meio (notem que não declino mais o nome de ninguém), que estava ao lado de papai quando anunciei a vinda do homem da barba amazônica, disse:

- Vou levar um puro para ele fumar!

E houve, na família, a euforia de sempre, a mobilização coletiva que só ele merece.

Mamãe preparou um cozido (uma de suas especialidades). Vovó chegou com a sobremesa que ela mesmo fez. Meu irmão levou, de fato, o puro cubano que prometera. Minha cunhada cantou tangos em homenagem a ele ao longo da tarde. A empregada de mamãe, que não trabalha aos domingos, fez questão de ir trabalhar e não admitiu receber nem o do ônibus! Meus tios se despencaram da Barra da Tijuca para ver o sobrinho. E o almoço transcorreu como se estivéssemos numa vernissage, e Fernando José Szegeri, é claro, desempenhando o papel do artista plástico, assediado, adorado, tocado, farejado, procurado para um papinho rápido que fosse. Tratado, enfim, como o gênio que ele é.

Fernando Szegeri, Rio de Janeiro, 28 de setembro de 2008

Ele fez questão de fumar o charuto depois do almoço, sentado na mais portentosa poltrona que há na sala da casa de papai e mamãe. Aliás, sobre isso, um pequeno detalhe.

Quando chegamos - eu, ele e minha menina - fui direto em direção à poltrona (é confortabilíssima, a tal poltrona). Mamãe, estrilou:

- Nã, nã, ni, nã, não!

E meu pai, por trás:

- Essa poltrona é do Szegeri! É do Szegeri! - e explodiu em ruidosa gargalhada.

Voltando ao charuto.

Fernando Szegeri, Rio de Janeiro, 28 de setembro de 2008

O homem da barba amazônica dava baforadas que - reparem! - só os grandes comunistas dão.

E enquanto ele fumava ali, quieto, na dele (sempre assediado pelas pessoas), fazendo gracinha com a fumaça que exalava (ele fez uma foice e depois um martelo com a espessa fumaça do charuto) sentado na mais fantástica poltrona da casa de meus pais (meus pais têm uma verdadeira coleção de poltronas), lembrei-me de uma história tristíssima, mas real, e que quero contar pra vocês.

Estive em São Paulo em meados de 2007. E bati o telefone pro Szegeri, uns dias antes:

- Posso te pedir uma coisa?! - eufórico.

E ele, protocolar:

- Fala.

- Eu queria demais encontrar com o Augusto, com o Favela, com o Borgonovi, com o Marcão, com o Capitão Leo e com o Julio Vellozo no Valadares! Você combina com eles?

- Arrã.

- Eu chego sexta. Sexta às nove? Tá bom?

- Tá. Quer que eu te pegue na porra do aeroporto?

- Não precisa. Encontre comigo no Valadares. O.K.? Ah! E avise ao Bruno e ao Gordo!

- Arrã. Pode deixar.

Fernando Szegeri, Rio de Janeiro, 28 de setembro de 2008

E eis o que aconteceu...

Ninguém - nem ele, Fernando José Szegeri - apareceu no bar. Ninguém.

Quando eu digo pra vocês, meus poucos mas fiéis leitores, que o homem da barba amazônica dedica-se, como jardineiro orgulhoso de seu jardim, a cultivar humilhações impostas em doses homeopáticas a mim, eu não minto.

Eu não apenas lembrei-me dessa história.

Eu a contei, em voz alta.

Papai gritou:

- Bem feito!

E Fernando José Szegeri (o instantâneo foi tirado nesse exato momento) afastou de leve o charuto para explodir, junto com meu pai, numa acachapante gargalhada, confirmando o fato que até hoje dói em mim.

Fernando Szegeri, Rio de Janeiro, 28 de setembro de 2008

Até.

20.10.08

O CAPELA

Sinais da idade... você vai à Lapa, por volta das onze da noite de um sábado gelado, com o inocente intuito de beber um vinho acompanhando uma canja no CAPELA, e acha que a Lapa não é mais pra você. Havia - o quê? - mais de seis meses que eu e a Lapa não nos víamos.

Já na rua do Riachuelo assombrei-me com a quantidade de carros e de estacionamentos improvisados cobrando R$ 10,00 por uma vaga (eu, que não sou besta, estava de táxi).

Uma cervejaria imensa do lado direito da Riachuelo com filas intermináveis na porta, um restaurante japonês que deve ser novo (jamais o vira ali) também com enormes filas na calçada.

Perto de dobrar à esquerda na Lavradio, mais novidades.

Bares, bares, bares, todos lotados.

Música (e algumas de gosto duvidoso) no máximo volume.

Entramos na Mem de Sá.

Entre o portentoso BAR BRASIL e o NOVA CAPELA, outra novidade. Bar lotado, botando gente pelo ladrão. Em frente ao CAPELA (nem sei porque usei o NOVA...), idem.

Eu já pensava:

- Isso não é mais pra mim...

Entramos.

O oásis.

O CAPELA relativamente vazio, o glorioso Cícero com o sorriso de sempre, a mesma mesa de canto, chopes com bolinho de bacalhau, canja de galinha com bastante peito, muitas folhas de hortelã e um tinto modesto, como nós.

Thaís e Cícero, no Capela, Lapa, Rio de Janeiro, 18 de outubro de 2008

Com o horário de verão já vigorando, saímos de lá às três.

De volta à Mem de Sá, o táxi foi o refúgio esperado.

Não se ouvia nada, do lado de fora.

As casas que não existiam há seis, sete meses (e as que já existiam e que entraram na onda), têm caixas de som voltadas pro lado de fora e salve-se quem puder. Uma confusão inacreditável. Um barulho ensurdecedor.

E a certeza de que a Lapa, pra mim, hoje, mora no sossego (quem diria) do CAPELA.

Até.

19.10.08

BOEMIA & NOSTALGIA

Esbarrei no sábado à tarde, saindo de casa de carro, com meu amigo e parceiro, meu vizinho querido, Felipe Quintans, mais conhecido nas redondezas como Felipinho Cereal, dono do excelente blog BOEMIA & NOSTALGIA. Ele, que passou por mim de bicicleta, fez sinal pra que eu parasse.

Encostei o carro, abaixei o vidro, e ele, ofegante, disse:

- Edu! Acabei de chegar da Gamboa, cara... Fiz uma pequena entrevista com o seu Almir... Ele é dono da mais antiga chapelaria da cidade!

- Chapelaria Alberto? Não é na Gamboa!

- Chapelaria Porto, Edu! Passa lá no blog amanhã pra ver!

Despedimo-nos.

E eu quero recomendar, vivamente, a visita ao blog do Felipinho. Anda cada vez melhor. É ele, meu amigo, meu parceiro e meu vizinho, preservando, do jeito dele, a cidade que a gente ama. A cidade e sua gente.

Cliquem na imagem. E divirtam-se lendo TIRO O CHAPÉU.

texto publicado no BOEMIA & NOSTALGIA em 19 de outubro de 2008

Até.

BOM DOMINGO!

(clique na fotografia e tente descobrir o que é que não se encontra em qualquer bar por aí)

tente descobrir o que é que não se encontra em qualquer bar por aí!!!!!

18.10.08

E O VENCEDOR DA PROMOÇÃO É...

Vários leitores atenderam à convocação da promoção LEITOR 250.000. A grande maioria, infelizmente, mandou apenas um email comunicando que via, naquele momento, o contador SITEMETER do BUTECO marcando 250.000. É muito possível que falassem a verdade, tais leitores. Todos esses emails a que me refiro foram mandados entre 21h05min e 21h20min, e é factível que o contador, que não marca em tempo real, com 100% de precisão, a entrada de visitantes no blog, estivesse mesmo marcando 250.000.

Mas a regra dizia (leiam aqui): "Se você, leitor, conseguir me mandar por email a imagem do contador do SITEMETER (como essa aí embaixo!) com o número 250.000 (...)".

Portanto, foram considerados apenas os emails que mandaram, em anexo, a imagem do contador. E vamos mencionar, aqui, apenas os três mais próximos do prêmio, incluindo o vencedor, é claro!

O leitor Juliano Brandão enviou, às 21h16min de ontem, sexta-feira, 17 de outubro de 2008, seu email (imagem abaixo). O título de seu email foi, como vocês podem ver, "SERÁ QUE GANHEI?". Não, Juliano, infelizmente não. Vamos em frente.

email do leitor Juliano Brandão, enviado às 21h16min

Às 21h12min, recebi email da leitora (e vizinha) Olga Belém. O título do email - "250.000" - e o simpaticíssimo texto - "Edu, não preciso nem mandar o endereço, né?" -, ambos otimistas, pareciam dizer que ela havia sido a vencedora da promoção. Mas não foi. E cabe aqui uma explicação.

A Olga teria vencido a promoção, mesmo tendo falhado no envio da imagem do contador, se eu não tivesse recebido um email dois minutos antes do seu. E explico: a Olga mandou, é verdade, a imagem do contador. Mas não a imagem estática, e sim a imagem associada ao link do SITEMETER. Ou seja, cada vez que abro seu email, a imagem do contador anexada marca o número real de visitas, razão pela qual não me deparei com o número 250.000 anunciado pelo email. Como a Olga não teria mandado o email se não estivesse, naquele momento, vendo, de fato, o contador marcar 250.000, ela teria levado a promoção. Teria.

email da leitora Olga Belém, enviado às 21h12min

Como eu já lhes disse, dois minutos antes, às 21h10min, com a imagem devidamente anexada marcando 250.000, recebi do leitor Rodrigo Nonno o email abaixo.

Peço, então, ao Rodrigo - que durante o dia anunciou, algumas vezes, que estava de olho no contador! -, que mande um email fornecendo endereço completo (CEP inclusive!!!) para envio do prêmio, devidamente autografado.

email do leitor Rodrigo Nonno, enviado às 21h10minA todos que participaram, muitíssimo obrigado.

Até.

17.10.08

O RESULTADO DA PROMOÇÃO

Três leitores mandaram imagens (com leves diferenças, depois trato do assunto) do contador marcando 250.000 hits, com uma diferença de minutos. O alto comando do BUTECO está decidindo quem ganhou o prêmio (entendam a promoção lendo isso aqui e isso aqui).

Até.

FALTA MUITO POUCO!

No instante em que escrevo, o marcador marca 249.916 hits.

O leitor Marcelo Alves, abrindo mão do prêmio (ele já tem o livro!), mandou-me há pouco o email abaixo.

email do leitor Marcelo Alves recebido em 17 de outubro de 2008

Será que alguém vai conseguir chegar na marca de 250.000?

A promoção é essa aqui!

Até.

250.000 HITS

Tudo aponta para mais uma promoção-fiasco (como essa aqui!), mas como eu lhes disse aqui, aproxima-se, o contador do BUTECO, do hit número 250.000 (nesse momento, ele marca 249.605). Os 250.000 serão atingidos hoje ou amanhã pela manhã. Participe. E note que a falta do ponto de exclamação depois do "participe" denuncia minha descrença na participação do leitor.

Até.

O COLARINHO DO CHOPE

Chope sem colarinho não é chope - seguramente você já ouviu essa frase. E não é mesmo, na minha modesta e humílima opinião. Sempre senti engulhos diante da mesa ao lado pedindo ao garçom:

- Seis chopes...

Seguindo-se um sorriso:

- Mas ó... sem colar, hein?! - que esse povo de mau gosto chama colarinho de colar.

E vinham à mesa seis copos cheios de um líquido amarelo idêntico à urina. Feios. Desinteressantes. Incapazes de mexer com o coração da gente.

Eu, que sempre fui (e sou) adepto do bom e velho schinit, que admiro a tulipa ou a caldeireta bem lavada, sem as bolhas que denunciam gordura e sujeira, a espuma íntegra, espessa, a bebida esperando os olhos sedentos e os lábios com sede (é de propósito), jamais considerei "chope sem colarinho" como "chope". Razão pela qual delirei ao saber do que passo a lhes contar.

Um fiscal sem-ter-o-que-fazer do INMETRO (Instituto Nacional de Metrologia, Normalização e Qualidade), multou um bar em Blumenau, SC, em pouco mais de mil reais, depois de verificar, in loco, que o estabelecimento (seriíssimo, pelo visto!), servia chope com colarinho. E que graças ao colarinho, servia menos do que os anunciados 300ml de chope (vão tomando nota!!!!!), lesando os consumidores (é de doer!!!!!).

O bar, que tem um advogado que honra a profissão, ingressou com uma ação contestando a absurda cobrança da multa (vou evitar os detalhes processuais para não enfadá-los). Perdeu a ação (vão tomando nota!!!!!).

Foi preciso, então, recorrer ao Tribunal Federal de Recursos.

E lá, no TRF, o bar conseguiu reverter a sentença de primeiro grau e anular, conseqüentemente, a absurda multa.

A Desembargadora Federal Maria Lúcia Luz Leiria, relatora do recurso, foi brilhante (como o chope). Vamos a trechos de sua sábia decisão, com grifos nas partes que me interessam:

"EXECUÇÃO FISCAL. MULTA APLICADA PELO INMETRO. COMERCIALIZAÇÃO DO "CHOPP". INCLUSÃO DO COLARINHO NA SUA MEDIÇÃO.

A medição realizada na bebida comercializada, denominada de "chopp," deve considerar o colarinho, pois este integra a própria bebida e é o próprio produto no estado "espuma" em função do processo de pressão a que é submetida a referida bebida.

Vistos e relatados estes autos em que são partes as acima indicadas, decide a Egrégia 3ª Turma do Tribunal Regional Federal da 4ª Região, por unanimidade, dar provimento à apelação, nos termos do relatório, votos e notas taquigráficas que ficam fazendo parte integrante do presente julgado.

Porto Alegre, 23 de setembro de 2008.

APELAÇÃO CÍVEL Nº 2003.72.05.000103-2/SC
RELATORA : Des. Federal MARIA LÚCIA LUZ LEIRIA
APELANTE : JFT COM/ DE ALIMENTOS LTDA/
ADVOGADO : Sergio Fernando Hess de Souza e outros
APELADO : INSTITUTO NACIONAL DE METROLOGIA NORMALIZACAO E QUALIDADE INDL/ - INMETRO
ADVOGADO : Eleonora Savas Fuhrmeister

VOTO

(...)

No que se refere ao mérito da infração, entendo que assiste razão à recorrente.

A multa imposta à embargante decorreu de autuação de fiscal do INMETRO em face de irregularidade na medição de "chopp" por ela comercializado.

É de ser provido o presente recurso, porque efetivamente há um desvio na interpretação efetuada pelo fiscal do INMETRO. Ora, o "chopp" sem colarinho não é "chopp", como conhecido nacionalmente. Aliás o colarinho integra a própria bebida e é o próprio produto no estado "espuma," em função do processo de pressão a que é submetida a bebida "chopp." Portanto, entendo que a portaria do INMETRO em tela não se aplica ao "chopp", na forma em que mediu o fiscal, ou seja, o "chopp" é também o seu colarinho. Assim, a bebida servida pela parte embargante estava de acordo com as caracterizações necessárias.

Assim sendo, deve ser dado provimento ao presente recurso para julgar procedentes os embargos à execução, determinando a desconstituição da certidão de Dívida Ativa que fundamenta a execução fiscal nº 2002.72.05.004242-2, e invertendo os ônus sucumbenciais.

(...)

Ante o exposto, voto por dar provimento à apelação."


Monumental!!!!!

Ergo, daqui, um copo cheio de espessa espuma de chope bem tirado, em homenagem a Maria Lúcia Luz Leiria, aos demais Desembargadores Federais que com ela votaram tornando unânime a gloriosa decisão, a Sergio Fernando Hess de Souza e a todos aqueles que sabem que chope sem colarinho é qualquer coisa, menos chope!

Publique-se! Registre-se! Intime-se!

Até.

16.10.08

A TIJUCA EM ESTADO BRUTO - XVI

Estou pra conhecer alguém mais otimista que mamãe. E o otimismo de minha mãe tem um quê que só na Tijuca, sinceramente. Mamãe é salgueirense, teve uma babá que era baiana da escola e moradora do morro (mamãe morava na rua dos Araújos), mamãe estudou no Instituto de Educação, recitava (era aluna e afilhada da então famosíssima Dalila Geraldo - falo sobre ela, de leve, aqui), presidiu um grupo de jovens de um centro espírita no Andaraí (uma das maiores alegrias de minha avó, a maior espírita da Terra depois de Allan Kardec - até mais que o francês), casou-se com um aluno do Instituto La-Fayette e morou, a vida inteira, até o presente momento, no glorioso bairro da Tijuca.

E quero lhes contar, hoje, dentro dessa série que cresce a olhos vistos - A TIJUCA EM ESTADO BRUTO -, sobre as manifestações brutais de otimismo de mamãe.

Lembro-me de um dia em que, por muito pouco, não vivenciei uma tragédia. Estávamos eu e minha menina em Cabo Frio. Era uma sexta-feira. Sábado, pela manhã, chegariam papai e mamãe. E fomos dormir, na sexta à noite, depois do Jornal Nacional (não, não, foi depois do Jornal da Globo). Acordamos de madrugada graças aos latidos alucinados do nosso carismático vira-latas. E eis o que vimos: as almofadas do sofá da sala pareciam buchas de balão junino. As chamas atingiam dois metros de altura, os porta-retratos na mesinha ao lado do sofá derretiam, as fotografias queimadas exalavam um cheiro pavoroso e salvamos tudo graças a arremessos precisos dos objetos que ardiam em direção à rua, diante de casa. Havíamos esquecido uma daquelas espirais verdes contra mosquitos acesa. E deu no que deu.

Papai e mamãe chegam sábado pela manhã e nos percebem assustadíssimos. Contamos o drama da noite anterior. E mamãe tem, ao final do relato, os olhos cheios de lágrimas. Estende as duas mãos em nossa direção. Com a mão direita, agasalha minha mão direita, com a mão esquerda, agasalha a mão esquerda da Dani:

- Que bom, meus filhos...

- Bom? - pregunta papai servindo-se de uísque às dez da manhã.

- Dizem que fogo é sinal de vida, de luz, de energia. Que bom! Que bom! Que bom! - e dá um beijo em cada uma de nossas mãos.

Outro lance: estou em sua casa e mamãe está preparando um café com leite para nós. Ajeita a mesa, esquenta o leite, prepara o café e esbarra na bandeja sobre a mesa da cozinha, deixando cair uma das xícaras de porcelana inglesa de seu jogo de seis. A xícara quica no chão e parte-se em dezenas de pedaços. Mamãe grita com as mãos pro alto, sendo 100% espírita:

- Graças a Deus!

Dani, ali perto, e papai, a seu lado, morrem de rir.

- Graças a Deus, mãe? - pergunto.

- Dizem que é algo ruim indo embora!

E uma das mais recentes provas de seu otimismo exacerbado ou de seu talento para jogar o chamado "jogo do contente" deu-se durante as Olimpíadas. Corria a prova final do atletismo, a final da prova de solo, e Diego Hypólito era esperança de medalha. Papai roía as unhas e bebia seu Red Label sem nem piscar. Mamãe, a seu lado, lixava as unhas e bicava, também, sua dose de uísque.

O brasileiro ia bem, ia muito bem. Papai, um empolgado com os esportes, gritava:

- Vai, Diego! Vai, prrrrr! Vai!

No último movimento de sua apresentação, entretanto, sofreu uma queda na aterrissagem.

No que ele caiu, mamãe levantou-se.

Com as mãos unidas, em prece, gritou olhando para o teto da sala:

- Graças a Deus! Graças a Deus!

Papai quase enlouqueceu:

- Ah, não! Graças a Deus, Pixuxa?! Ele caiu! Perdemos a medalha! Assim é demais! Vá ser espírita assim lá na China!

E mamãe:

- Coitado! Quantas cobranças se ele ganhasse esse ouro. Brasileiro nunca está satisfeito. Quer sempre mais. Tadinho do menino!

Uma otimista, minha mãe.

Volto a ela, dia desses.

Até.

15.10.08

A TIJUCA EM ESTADO BRUTO - XV

Hoje é 15 de outubro. Hoje eu quero, apenas, uma pausa de mil compassos.

(...)

Feita a pausa, em frente.

Quero lhes contar mais sobre meu pai, suas manias, suas obsessões. Como é possível, meu Deus, um homem com tantas manias e obsessões? Gostaria que o Szegeri, meu irmão (e conseqüentemente filho também de meu pai), me respondesse, por aqui mesmo ou por email. Uma delas envolve o seu Farias, o técnico de confiança de meu pai, o homem que conserta seus eletrodomésticos há mais de quarenta anos. Uma frase lapidar de meu pai, é essa:

- O seu Farias cuida das nossas geladeiras e de nossas máquinas de lavar desde antes de você nascer, Dudu! - e ele conta isso com um orgulho impressionante.

Eu chego a dizer, sem medo do erro, que quando meu pai vai comprar um produto dessa natureza, uma geladeira, um freezer, uma lava-louças mais moderna, uma secadora mais incrementada, ele vai pra fila do caixa, pagar pelo troço, já com a ânsia do defeito. Fica, enquanto espera sua vez, sonhando com a presença do seu Farias, sua malinha de couro, seu bloco de orçamento, sua perícia inigualável.

Estive com papai, há uns meses, comprando uma geladeirinha, dessas pequenas, para sua suíte (papai tem uma suíte de sultanato em casa). Estávamos no carro, voltando para casa (e eu a ajudá-lo), e ele, no primeiro sinal, discou do celular para o seu Farias:

- Seu Farias?! (...) É o Isaac, seu Farias! (...) Não, não... Não quebrou nada! Não quebrou nada! Ainda, ainda!

E ri, meu pai, piscando o olho em direção a mim. E continua:

- Estou ligando só para lhe dizer que acabei de comprar uma geladeirinha pequena para meu quarto... (...) É, isso, isso. (...) Consul, seu Farias, Consul!

Continua, excitado:

- O senhor acha? (...) A garantia é de um ano... (...) Sei, sei. (...) O.K., então, seu Farias... Assim que quebrar, já sabe, né? Tá O.K., tá O.K.!

Desliga e me diz, minutos depois:

- Há tempos que não quebra nada lá em casa.

E como tendo uma idéia luminosa, explode:

- Vou chamá-lo pra instalar a geladeira!

- Instalar a geladeira?! Pai, é só pôr na tomada!

E ele, metódico:

- Que nada! Vou ler o manual quando chegar em casa e chamar o seu Farias hoje mesmo pro serviço!

- Manual?

- Meu filho, você acha que as empresas escrevem manuais à toa?! Tem que ler o manual, tem que ler as instruções!

Já está quase estacionando o carro na garagem de casa quando balbucia:

- Tem que tirar o chapéu pro seu Farias! Mais de quarenta anos comigo! Quarenta anos!

E emenda a frase com uma comparação digna de registro:

- O seu Farias é uma espécie de doutor Mauro!

E, de fato, papai chega em casa, serve-se de generosa dose de uísque, disca pro seu Farias, marca a instalação da geladeira para o dia seguinte, e ainda demonstra excitação aguda, quando chama a Marina, a empregada, e pergunta:

- Tem alguma coisa com defeito na cozinha, Marina?

Ela, bem humoradíssima, responde:

- Além de mim, não.

- Tem certeza?

- Tenho, seu Isaac.

- Que pena, que pena, que pena! É que o seu Farias vem aqui amanhã!

Esse é meu velho. Volto a ele, dia desses.

Até.

14.10.08

DO DOSADOR

* rendeu polêmica a escolha do samba para 2009 na quadra do SALGUEIRO na madrugada do dia 12 de outubro. Eu escrevi O SALGUEIRO E A OPÇÃO PELA MEDIOCRIDADE (aqui), Felipinho Cereal escreveu E FICAMOS NA MESMICE (aqui), Marcelo Moutinho mandou ver em LEGADO E OPÇÃO (ou A VITÓRIA DO MODERNOSO, aqui), o jornal EXTRA publicou UM VENCEDOR ABRAÇADO PELA ESCOLA (aqui) e a grande rede deve estar lotada de comentários à conturbada decisão da escola. Eu quero lhes dizer, de público e de pé diante do balcão imaginário, que às vésperas de completar quarenta anos (notem como sou retardado na mais simples acepção da palavra) é que me dou conta de que não há mais espaço para arroubos de romantismo nas escolas que compõem o Grupo Especial da LIESA (haverá nas demais?!). Alimentei, é verdade, a ilusão de que poderíamos (sou salgueirense desde que nasci) desfilar com o samba que já nasceu antológico, de Beto Mussa, Simas, Edgar Filho, Gari Sorriso e Bené. Durante a final, decidi que ficaria igualmente feliz se vencesse o samba de Guilherme Sá, Luizinho Professor, Dartagnan do Salgueiro, Mauro Speranza e Márcio do Swing. Inadmissível, entretanto, foi assistir à vitória do pior samba dentre os quatro finalistas, e justo o que vinha sendo apontado, dias antes, como o já escolhido pela escola por razões inexplicáveis. O discurso da presidente da escola, Regina Duran, momentos antes do anúncio da escolha, foi das coisas mais deselgantes que já presenciei. "Quem escolhe o samba aqui são os segmentos da escola. Quem não estiver satisfeito, a porta da rua é serventia da casa.". Inadmissível e incompatível com a tradição da escola.

* inadmissível, também, o destaque dado, durante a noite de festa, aos atores e atrizes globais que pouca ou nenhuma ligação têm com a vermelho-e-branco da Tijuca. Como inadmissível foi a subida de Carlinhos Brown ao palco, mandando todo mundo "tirar o pé do chão" e "levantar a mãozinha" enquanto cantava (?????) seus sucessos (?????) para o carnaval baiano. O SALGUEIRO não merecia isso. Mas... repetindo o que disse aí em cima, só agora percebi, definitivamente, que não há mais espaço, dentro do SALGUEIRO, para o SALGUEIRO que eu aprendi a amar. Vou continuar torcendo, é claro. Mas da rua, como sugeriu a presidente.

* o BUTECO aproxima-se dos 250.000 hits. A contagem pelo SITEMETER, que começou em 18 de janeiro de 2005 embora o blog exista desde março de 2004, está, no instante em que escrevo, em 248.312 hits. Pelo ritmo das visitas (a média está em torno de 400 visitas ao dia), o visitante 250.000 deverá pousar aqui no balcão entre a sexta-feira e o domingo. Imitando descaradamente a Leonor (vejam aqui), quero promover semelhante promoção. Se você, leitor, conseguir me mandar por email a imagem do contador do SITEMETER (como essa aí embaixo!) com o número 250.000, você ganha um exemplar de meu livro, MEU LAR É O BOTEQUIM, com as despesas da remessas pagas pelo caixa do BUTECO, é evidente. Boa sorte!

contador do BUTECO

* estamos, eu e o Felipinho Cereal, escolhendo qual será nosso próximo destino - na Tijuca, é claro! - para mais registros aqui no BUTECO. Diante do enorme sucesso que foi a série RUA DO MATOSO, estamos decidindo para onde vamos. Ainda que não façamos uma nova série (não é sempre que se esbarra numa rua como a Matoso!!!!!), publicaremos um ou mais textos sobre determinado canto do bairro. Assim é que se perpetuam as histórias e se mantém vivo o orgulho de nossa gente. É muito possível que nosso próximo destino seja o trecho da Haddock Lobo que fica entre a rua do Matoso e a Batista das Neves. Lojas antiqüíssimas, um buteco vagabundo à nossa moda, e muita coisa pra contar, seguramente.

* fecho hoje, o BUTECO, prestando minha homenagem à dona Nair, avó de meu irmãozinho, Zé Preto, que foi, ontem, encontrar-se com a dona Dirce, sua filha. É como eu disse ao Zé Preto, ontem à noite: eu nunca mais passarei pela Paulo de Frontin sem lembrar-me dela! Dia desses, conto por quê. Um brinde!

Até.

A TIJUCA EM ESTADO BRUTO - XIV

Durante esses exercícios fascinantes de regressão que faço para escrever a série A TIJUCA EM ESTADO BRUTO, e mamãe sempre me diz espetadíssima - "Edu, mas que memória prodigiosa, meu filho!" -, tenho me deparado com coisas absolutamente hilariantes e dignas de registro. Papai, dia desses, diante de mim - bebíamos uísque em minha casa -, pedindo mais gelo e mexendo os cubos com o médio da mão direita, disse tentando ser grave (ele não consegue):

- Quer escrever sobre mim, escreve... Mas não põe meu nome todo, pô!

Dito isso, em frente, que é dele mesmo que quero falar, hoje.

Papai, como já lhes disse noutras oportunidades, é um homem que já acorda com um colete imaginário, desses com vários bolsos. Nesses bolsos, as frases que ele vai soltando, diariamente, diante das situações que se apresentam no curso do dia (todas rigorosamente previsíveis). Eu e meus irmãos, o Fefê e o Cristiano, e também mamãe, e também minha menina e também minha queridíssima cunhada, aprendemos a fazer disso, dessa previsibilidade, dessa coerência verbal e comportamental, um trampolim para as gargalhadas inevitáveis.

O troço é impressionante e, ao mesmo tempo, apaixonante. Se acontece de um dia, por qualquer razão (pode ser uma gripe, uma tosse), papai deixar de ser e de agir como previsto, abate-se sobre a família uma espécie de luto interno que vou lhes contar! E isso por quê? Porque quando o previsível é um chato de galochas, a assistência bufa, maldiz o pobre-diabo, grita frases como "de novo?", "lá vem ele!", essas bossas que espelham repulsa. Mas quando o previsível é um sujeito adorável como meu pai (amado por toda a família de forma aguda, e seus mais recentes filhos, Felipinho Cereal, Fernando Szegeri e Luiz Carlos Fraga não me deixam mentir), o que se vê é um festival brutal de guinchos, gargalhadas, engasgos e rubor na face.

Vamos a algumas situações (estou pensando em algumas delas e estou, confesso, dando soquinhos na mesa diante do monitor, de tanto que rio).

Estamos todos à mesa, jantando. Tenham em mente, antes, que papai é um homem que madruga, acorda cedíssimo! A troca de olhares entre nós deixa evidente que é a vez do Cristiano fazer o comentário que dará ensejo à frase pronta de meu pai:

- Hoje eu acordei às nove, atrasado para o trabalho...

Papai larga os talheres e diz:

- Eu acordei tarde também! Tardíssimo!

Ninguém pergunta nada - de propósito. Mas ele prossegue:

- Acordei quatro e quinze!

E aí vem o comentário meteorológico, igualmente obrigatório para meu velho:

- Estava fazendo doze graus! Doze!

Na semana seguinte. A Lina, olhando para o próprio prato:

- Dormi muito mal, essa noite...

Mencionado o assunto, papai bufa:

- E eu? E eu?

Ninguém diz um "a".

- Acordei às três e meia! E fazia um frio daqueles! Doze graus!

Sem contar os comentários gerados por frases pré-moldadas.

Um de nós pergunta pra mamãe:

- Tem tido notícias da tia Noêmia, mãe?

E papai, eufórico:

- Eu gosto da Noêmia! Gosto da Noêmia! Uma lutadora!

Faz que sim com a cabeça, levanta as palmas da mão pra cima e diz:

- Como sofreu!

O Fefê comenta, como quem não quer nada:

- Fui ao homeopata hoje e senti tanta falta do doutor Mauro...

Ele:

- Dr. Mauro!!! Tem que tirar o chapéu pro doutor Mauro! Insubstituível!

E a mesa, qual as mesas de Kardec, na França dos idos do século XIX, girando de tanto que rimos.

Eu provoco:

- Sabem com quem falei hoje? Com o Arnaldo, pai do Mauro...

E papai, fazendo cara de dor:

- Coitado! Tem dor de cabeça há mais de 40 anos! Que coisa impressionante!

Fefê vai ao chão pra rir de joelhos.

Mamãe está bebendo vinho. Após o jantar, ela diz:

- Vamos de Frangelico?

Papai gane:

- Vai misturar?! Prrrrr! Prrrrr!

Uma explicação para a onomatopéia: esse "prrrrr" é um som que papai emite, constantemente, quando contrariado. Deriva da palavra "porra". É que nós, quando pequenos, ouvíamos constantemente:

- Palavrão na frente de sua mãe, não, hein?! Ouviram!

O máximo que papai se permite - e isso até hoje - é esse "prrrrr".

Mas tem mais, tem mais!

No restaurante, seja qual for o restaurante e seja qual for o atendimento (pode ser de excelência), papai dirá, em algum momento e em tom de reclamação aguda, como num transe mediúnico:

- Chame o gerente! Chame o gerente!

Papai é servido de café. O café está pelando, 90 graus centígrados. Ele virará a xícara num só gole e dirá, com os olhos lacrimejando:

- Gelado, pô! Gelado!

O que rendeu a ele, éramos pequenos, o apelido de "língua de couro".

E pra finalizar. Papai, sabe-se lá por qual razão, tem, desde sempre, uma implicância olímpica com o Cristiano, o caçula, no que diz respeito a restaurantes e banheiros. Explico. Vamos ao LA MOLE, por exemplo (nada mais tijucano que almoçar, aos domingos, no restaurante da Marquês de Valença).

Sentamo-nos. Vou ao banheiro lavar as mãos. Volto. Mais uns minutos, é a vez do Fefê, que anuncia:

- Vou dar uma mijadinha - antes da Lina ele era dado a esses anúncios.

Volta.

Papai quieto, na dele, bebendo sua cervejinha.

Mamãe pede licença, vai ao banheiro e volta.

Até que o Cristiano anuncia:

- Com licença...

Meu pai, olhos flamejantes:

- Onde você vai?

Eu, Fefê e mamãe já engatinhando no chão, de tanto rir.

Ele, coitadinho, responde:

- Vou ao banheiro.

E papai:

- Prrrrrrrrrrrrrrr! De novo!? Mas que mania de ir ao banheiro!

Nunca entendemos esse "de novo", muito menos a marcação com o moleque.

Volto ao assunto noutra altura, que papai é fonte inesgotável de boas histórias.

Até.

13.10.08

A TIJUCA EM ESTADO BRUTO - XIII

Dia desses, conversando com mamãe - nunca será demais dizer, de público, que mamãe é um dos melhores papos, é sempre uma grande conversa! -, fui provocado:

- Tanta história tijucaníssima de seus avós paternos, tanta...

É verdade. Eu que, durante as dozes histórias até então contadas sob a grife TIJUCA EM ESTADO BRUTO, falei à beça da perna materna da família, vou lhes contar, hoje - atendendo à sugestão de mamãe -, uma história envolvendo Oizer e Elisa, pais de papai (conheçam vovô, aqui).

Quando vim ao mundo, eles moravam na rua Santa Alexandrina, no Rio Comprido. Lembro-me com perfeição do edifício em que moravam. Amarelo, pintado em escamas (parecia um peixe), sem elevador. Anos depois, creio que em meados da década de 70, meus avós tomaram a mais sábia decisão de suas vidas: deixaram o Rio Comprido e atracaram, para sempre, na Tijuca. E atracaram na rua Haddock Lobo. Justo no apartamento em que, hoje, moro com minha menina. Vejam que boniteza. Vamos às tijucanices.

Vovô, que era um velho bonitão, tinha olhos azuis e cabelos brancos esvoaçantes, como Einstein. Adorava passear a pé, andava com as mãos cruzadas para trás (isso, até precisar da bengala para caminhar), vivia flanando pela praça Afonso Pena, pela Haddock Lobo, pela Aristides Lobo, pela Campos da Paz, era um andarilho. Tinha passarinhos em casa, tratava deles com intenso carinho, adorava exibir os bichos pra nós, seus netos. E vovô ria muito. Minha avó, por sua vez, era uma mulher sisuda, tinha um olhar triste, vivia muito em casa, cozinhava, ria pouquíssimo. E os dois - era um número, era um número! - implicavam um com o outro de maneira hilariante, mas isso não vem, ao menos por agora, ao caso. Quero lhes contar sobre os lanches na casa de meus avós.

Na minha caixa de registros, esses lanches aconteciam uma vez por semana. Mamãe diz que não. Mas, para todos os efeitos, uma vez por semana íamos lanchar na casa de meus avós paternos. A sala (que é hoje a minha sala, com tudo mudado, é evidente!) era atravancadíssima! Eles tinham uma mesa enorme, retangular, de oito lugares, e essa mesa estava sempre, rigorosamente sempre!, lotada de comida para os tais lanches. Antes, pequena pausa.

Herdei de vovô Oizer um costume. Vovô dizia, durantes os lanches, sempre a mesma coisa:

- Comprei esses pães aqui ao lado, na melhor padaria do mundo!

Ou:

- Está bom o presunto, Isaac? É da mesma padaria e é o melhor presunto do mundo.

Ainda:

- Venham ver a televisão nova que comprei. É a melhor TV do mundo!!

Um homem feliz, como vocês podem imaginar.

Vamos à mesa. Digamos que estamos eu, papai, mamãe, Fernando, Cristiano, vô Oizer e vó Elisa. Oito pessoas. E sobre a mesa estão quarenta sanduíches de brioche com queijo prato, quarenta sanduíches de brioche com presunto, quarenta sanduíches de brioche misto, uma quantidade formidável de bolinho feito de aipim, um bolo de chocolate, um bolo de nozes, um bolo de laranja, refrigerantes de diversas marcas, uma quantidade inacreditável de comida. E a mesma cena, semanalmente:

Vovô Oizer pro Cristiano:

- Come mais, menino!

- Tô satisfeito, vô...

- Nada! Toma, toma! - e punha dois brioches, um em cada mão de meu irmão.

E dava a ordem:

- Come! Come!

Papai:

- Pai, ele não quer...

- Quer, sim! E come mais você também!

Quando papai ia dizer alguma coisa, recusando, mamãe o chutava por baixo da mesa e dizia:

- Mais um, Isaac...

E papai comia.

Os olhos azuis de meu avô brilhavam vendo netos, filho e nora enfarados. Era uma coisa, de fato, impressionante. Anos depois - eu acho - atribuí essa necessidade a um possível trauma causado pelas dificuldades passadas pelo homem que veio de Odessa para o Brasil, trabalhou muito, e honestamente, casou, teve dois filhos e os criou como homens de bem. Mas não era nada disso. Era a Tijuca cravada dentro de meu avô, pô!

Se vovô tinha essa mania de achar que tudo aquilo que ele podia ter era o que havia de melhor no mundo, vovó tinha outra. Era uma mulher, vocês verão, sem nenhuma habilidade (ou disposição, vá saber!) para o diálogo. Eu dizia, durante o lanche:

- Acho que esse presunto foi cortado grosso demais.

E ela, em tom autoritário:

- Também acho.

O Fefê, retrucando:

- Você achou, Edu? Nossa! - e mostrava uma fatia do presunto - Pra mim, está finíssimo!

E ela:

- Também acho!

E se o assunto tomasse rumos meteorológicos? Meu avô dizia, olhando pela janela:

- Vai chover...

- Também acho.

Meu pai replicava:

- Vai não, pai. Li no jornal hoje que só chove na quinta-feira. Não vai chover!

E minha avó:

- Também acho.

O bonito é que, invariavelmente, na hora da despedida, o pau estancava entre meus avós, com um carinho que só muitos anos de casamento permite.

- Levem mais brioches! - bradava vovô.

- Cala a boca, Oizer! Eles estão botando brioche pelas narinas!

E ele, de voleio:

- Cala a boca você, Elisa! Prepare o farnel pros meninos!

Nós, já no corredor.

- Não vê que eles não querem, Oizer?! Cala a boca!

E ficavam, ali (nós ouvíamos o doce diálogo com a porta já fechada, o prédio tem um eco impressionante!), batendo boca sem nenhuma intenção de agressão.

Era o hábito, apenas.

Volto a eles, dia desses.

Até.

12.10.08

O SALGUEIRO E A OPÇÃO PELA MEDIOCRIDADE

Antes que os detratores de plantão lancem mão de suas bordunas, sugiro uma ida ao dicionário para que a palavra MEDIOCRIDADE seja entendida como de fato deve ser.

O SALGUEIRO escolheu, na manhã desse domingo, dentre os quatro sambas que disputavam a finalíssima, o pior deles.

E de longe.

Vou assistir de casa, distante da Sapucaí, a mais um desfile do SALGUEIRO sem chance de título.

Título é um troço inatingível para uma escola que faz opção pela mediocridade.

Até.

A TIJUCA EM ESTADO BRUTO - XII

Eu tenho tido a tendência, mais recentemente perceptível, de sempre, ao falar de minha avó materna, referir-me a ela como "a espírita", "a mulher capaz de fazer do Kardec um ateu", "a fanática pela doutrina", "a que dá ao Chico Xavier a dimensão de um gazeteiro", esses pequenos exageros capazes de dar a vocês, meus poucos mas fiéis leitores, a exata impressão que vovó causa em mim - e sempre causou, no que diz respeito à sua religiosidade. E quando eu fico me lembrando dessas demonstrações explícitas de resignação e de dedicação full time à doutrina por parte de minha avó (notem que o "full time" destoa, agudamente, do assunto), várias histórias me vêm à cabeça.

Minha bisavó - por exemplo. Católica fervorosa, tinha tendências ao espiritismo bastante evidentes. Aliás, minha bisavó dizia sempre:

- Meu filho... Como eu não sei quem manda lá em cima - e invariavelmente ela apontava para o alto com a ponta do leque fechado -, vou de "a" a "z"! - e morria de rir.

Mas era, para todos os efeitos, ao menos os visíveis, católica. Não dispensava, todas as manhãs, a sua reza, que levava horas e horas, o livro de missa nas mãos, os santinhos marcando as páginas que tinham que ser lidas (era quase um Céu, tamanha a quantidade de santos!), e sua irmã, tia Idinha, a seu lado cumprindo o mesmíssimo ritual, ambas com rede nos cabelo e as mesmas perguntas, decorridas algumas horas: "Já acabou?", "Falta muito?", essas bossas pagãs durante as orações. Tudo isso - que fique claro - na casa de minha avó, que morou por muito tempo com as duas, enquanto as duas foram vivas (minha bisavó foi na frente, tia Idinha foi um pouco depois).

Lembro-me dessa cena, muito viva, quando vovó morava no Lins, na rua Conselheiro Ferraz 88, em um prédio de tijolinhos e varandas simpáticas, com uma vista que me impressionava. Moravam, se não me falha a memória, no quarto andar (ou sexto, acho que no sexto andar!). E minha bisavó (vejam como dou rodeios para chegar onde quero), sempre dizia quando diante de alguma situação desagradável (podia ser o horário político, podia ser uma chuva torrencial que acabava com a luz na hora de sua novela, podia ser uma visita que se demorava demais):

- Isso, nem Cristo agüenta!

E minha avó, espírita à mais alta potência:

- Agüenta, mamãe, Cristo agüenta.

E minha bisavó sempre fazia uma cara de medo, que só vendo.

- Desculpa, filha. Não foi por mal.

Nessa época, é claro, vovó já freqüentava um centro espírita (freqüenta até hoje) no Andaraí. E eu ficava impressionadíssimo com a tenacidade de vovó. Tomava o ônibus, todas as segundas-feiras, sozinha (vovô não tinha ligação com religião), e ia para o Andaraí com um livro, sempre com um livro, debaixo do braço - livro espírita, é claro. E minha bisavó, sempre baixinho, pra tia Idinha (uma católica extremada que não admitia a vida após a morte) não ouvir, à saída de vovó:

- Peça por mim, minha filha! E veja se vem mensagem psicografada para mim!

Vejam que o vocabulário de minha bisavó católica, a naturalidade com que fazia o pedido, seriam, mesmo, capazes de arrepiar os cabelos azuis da tia Idinha. Vovó, moderna demais, dizia antes de bater a porta:

- O.K., mamãe! O.K.! - isso com o polegar apontando pra cima.

Até que um dia - e eu estava lá, lanchando, eu iria dormir lá naquela noite de segunda-feira, eu estava de férias e papai e mamãe nos deixaram, os três, dormindo na vovó - tia Idinha estava bem atrás de minha bisavó justo na hora da tal despedida de praxe, e disse, diante do "O.K." de minha avó:

- Pidoca... está me faltando o ar... não acredito no que eu ouvi!

Fazia um calor dos diabos. Minha bisavó, abanando o leque e lançando um olhar espetado em direção à irmã mais nova:

- Qual o problema, Idinha? Você não tem curiosidade de saber o que há do lado de lá? - e apontou com o leque, que foi fechado num gesto rápido, para a varanda e para o alto.

- Deus me livre, Pidoca! E fale baixo que as crianças estão à mesa!

Meu avô, impávido, sentado em sua bergére (estilo de cadeira que, durante anos, esteve à frente na preferência dos tijucanos), bebia sua dose de Teacher´s e fazia palavras-cruzadas fingindo não ouvir aquele diálogo.

Eu, Fernando e Cristiano, cotovelos sobre a mesa, não perdíamos uma fala.

- E o que é que tem as crianças? Isaac e Mariazinha também são espíritas! Elas são espíritas também!

- Não são! Não são! Não são, não! - gemia, entre dentes, a tia Idinha.

Fefê, provocando a velha Hilda:

- Que é isso, tia Idinha? Kardec é o maior!

A velhota segurou-se no bar, enorme, que atravancava a sala.

Eu, pegando carona, puxei o coral (meus dois irmãos me acompanharam):

- É! É! É! É Chico Xavier! É! É! É! É Chico Xavier!

O Cristiano, pra exasperar ainda mais a pobre velhinha, disse com a mão esquerda cerrando os próprios olhos, a cabeça baixa:

- Tia Idinha...

Ela, contrariada:

- O que foi, menino? Estás sentindo alguma coisa?

E o Cristiano, provocando:

- Eu sou médium.

Minha bisavó gargalhava, batendo com o leque na palma da mão esquerda.

Meu avô se servia de mais uma dose de Teacher´s, mas tinha sob o bigode o esboço do sorriso escancarado que jamais deu.

Tia Idinha fazia o sinal da cruz, balançava negativamente a cabeça, e ficamos ali, na sala, comendo devagarinho o lanche delicioso da noite, ouvindo o bate-boca carinhoso entre as duas irmãs, até que vovó, por volta das dez da noite, pôs a chave na porta.

-E aí? - minha bisavó, excitadíssima.

Quando vovó pisou em casa, ela continuou:

- Algum recado... - e fez a pausa misteriosa, apontando com o leque para o alto - ... para mim?

Vovó balançou a cabeça num "não" clássico, apontou o queixo pra tia Idinha, e disse:

- Para a Idinha!

E estendeu a ela um papelucho, no qual vimos uns garranchos.

Tia Idinha, em fúria, tomou para si o papel e o rasgou em dezenas de pedacinhos, enfurecendo minha bisavó:

- Mas que absurdo! Que absurdo!

E voltando-se para minha avó:

- O que dizia? De quem era a mensagem?

E vovó, espírita do início ao fim:

- E a senhora acha que eu li, mamãe? Não era endereçada a mim!

- Ora, bolas! Vá ser kardecista assim na China! Não há Cristo que agüente!

E minha avó, em tom de advertência:

- Mamãããããeee...

Notem vocês que, para mim, criança que eu era, as lições jorravam como água da fonte. E essas lições criavam, em mim, a identidade tijucana, mantendo-se cravadas em mim até hoje. Além das lições, criavam-se em mim os personagens vivos que me cercam, ainda. Era um absoluto delírio ver de perto - e reviver tudo isso, hoje, de novo, graças a mecanismos que aprendi a dominar - o duelo entre as duas cabelo-azul da família (tia Zirota tinha o cabelo cinza). Foi um delírio ver a metamorfose da vovó, de jogadora e fumante inveterada à espírita praticante incapaz de se render à curiosidade - às frivolidades, como ela gosta de dizer -, nesse específico caso que hoje eu lhes contei. Foi um delírio assistir, anos a fio, o mesmo filme, com os mesmos personagens, e ouço vez por outra as pedras de gelo batendo no copo do meu avô, o vento leve que brota do leque de minha bisavó, a reza católica apostólica romana de minha tia.

E adoro saber - mesmo, vovó delirará lendo isso - que eles três, vovô, minha bisavó e minha tia (para não ter de citar a parentalha toda) vira e mexe vêm me ajudar a contar essas histórias.

Até.

11.10.08

A TIJUCA EM ESTADO BRUTO - XI

Não é demais repetir (se eu não puxar a brasa para meus textos, quem o fará?!). A série A TIJUCA EM ESTADO BRUTO nasceu e ganhou corpo por acaso. E se você, leitor, está lendo o BUTECO pela primeira vez justo hoje, ou se caiu de paraquedas aqui, neste texto, eu recomendo uma passada de olhos nos dez textos da série que o antecedem. Leiam aqui o primeiro da série, texto no qual conto o que vi e vivi numa pizzaria tijucana, O FORNO RIO, numa noite de domingo (domingo é o dia mais tijucano da semana!); aqui o segundo, que traz o relato de um jantar no melhor restaurante de comida italiana do país, tijucano, é claro, o FIORINO; aqui o terceiro, pequena descrição do encontro de minha mãe com uma amiga de há séculos de vovó; aqui o quarto, narrativa saudosa fruto de um encontro meu com meu concunhado, no SALETE, na Tijuca, evidentemente; aqui o quinto, no qual faço uma comparação entre a mãe judia e a mãe tijucana; aqui o sexto, sobre o simpaticíssimo assalto que sofreu vovó, há umas semanas; aqui o sétimo, sobre os vícios de minha avó; aqui o oitavo, sobre o jantar que ofereci à Lina, minha querida cunhada, no já citado melhor restaurante italiano do Brasil, aqui o nono, dando início aos relatos envolvendo o médico homeopata de minha família e aqui o décimo, sobre o mesmo tema.

Quando escrevi o décimo texto da série, lhes contei sobre como vovó, mãe de mamãe, fez com que papai fosse parar no consultório do doutor Mauro. A primeira consulta de meu pai, graças a uma gripe e a uma febrícula - coisa à toa -, foi marcante. E foi marcante pois estabeleceu-se, da parte de meu pai, uma relação de confiança absoluta no homeopata (um grande espírita também). É bem verdade que papai já chegou à recepção do consultório com a mais cálida gratidão nos bolsos da calça e da camisa. Afinal fora ele, doutor Mauro, quem salvara a vida de Mariazinha (leia aqui para entender o imbróglio).

Mas papai estava lá, sentado na recepção do consultório médico - era uma segunda-feira -, quando abriu-se a porta e um homenzinho, bem vestido, com um sorriso sereno no rosto, disse:

- O próximo!

Papai estava sozinho e, portanto, entrou.

Cumprimentou-o e disse:

- Doutor Mauro?

- Sim! O senhor é...

- Não me chame de senhor, doutor Mauro... Eu sou o Isaac, quem me recomendou seu nome foi a...

- Dona Mathilde! Eu sei, eu sei! Sente-se!

E fez um comentário, como se falasse sozinho:

- Santa Mathilde! Santa mulher!

Papai sentou-se e disse, assoando o nariz (papai tem um senhor nariz!) no lenço branco:

- Obrigado pelo que o senhor fez pela Mariazinha, doutor Mauro... - tossiu.

- Oh! Já lhe contaram?! Essa dona Mathilde, ai, ai, ai... - e deu um tapinha de leve na mão de meu pai, pousada sobre sua mesa.

E continuou:

- Mas isso já faz tempo, Jacob... O que o traz aqui?

- Isaac, doutor Mauro.

O médico deu com anelar, o médio e o indicador da mão direita na própria testa, num estalo:

- Perdão. Mas, o que você tem, meu rapaz?

Papai disse.

E o médico:

- Abra bem a boca, Davi...

Antes de abrir a boca, papai:

- Isaac!

- Diga ahhhh... e ponha a língua pra fora.

Papai obedeceu.

- Mais forte...

Papai obedeceu.

- Muito bem, Moisés... - e pôs-se a escrever a receita.

Antes, porém, perguntou:

- Moisés do quê mesmo?

- Isaac, dr. Mauro. Isaac Goldenberg!

- Me desculpa, filho.

Estendeu a receita em direção a meu pai, explicou timtim por timtim como deveriam ser tomados os remédios ministrados, e papai deparou-se com uma das mais fortes características do médico que seria seu médico por anos a fio (doutor Mauro não clinica mais):

- O que eu tenho, doutor Mauro?

- Abraão, você veio aqui para tratar-se ou para saber o que você tem?!

Rindo, e sendo agudamente espírita, despediu-se, já de pé:

- Vá com Deus!

- Eu sou Isaac, doutor Mauro... - ligeiramente enfadado.

Eis o que eu queria lhes contar, meus poucos mas fiéis leitores: essa é uma das pequenas mágoas que papai guarda na gavetinha de sua cômoda emocional. O doutor Mauro - ele poderá, se quiser, dar seu testemunho publicamente - NUNCA (e esse "nunca", por favor, dito com a mais enfática ênfase szegeriana) acertou seu nome.

Desfilava, pela recepção do consultório a cada nova consulta de meu pai (e depois de cada um de seus três filhos), saindo da boca do médico, todas as tribos de Israel. Papai foi chamado, ao longo de anos, de Abraão, Jacó, Davi, Moisés, Esaú, Israel, Simeão, Levi, Benjamim, , Judá, Nebulom, Naftali... mas NUNCA de Isaac.

A família divide-se, até hoje, em acirradas discussões.

Metade acha, sinceramente, que o doutor Mauro sacaneava, acintosamente, meu pai, por pura diversão. A outra metade, capitaneada pela maior dentre todas as espíritas, minha avó, balança a cabeça negativamente e diz, de olhos fechados e mãos espalmadas para cima:

- Ele jamais faria isso. Um santo homem!

Até.

10.10.08

RUA DO MATOSO - CONSIDERAÇÕES FINAIS

Chegamos ao fim, hoje, com a publicação de sua décima e última parte, da série RUA DO MATOSO. E quero, diante do balcão imaginário do BUTECO, erguer meu copo americano cheio de Brahma com espessa espuma, para brindar com cada um de vocês, meus poucos mas fiéis leitores, que dedicaram alguns minutos de seus dias à leitura daquilo que construímos com tanto carinho. Mais que à leitura, também, ao exercício de um pitaco, de um comentário, de um palpite, ao registro de uma impressão. Os comentários feitos nas dez partes da série, são todos fabulosos. Por isso escrevi "construímos com tanto carinho", valendo-me da primeira pessoa do plural. Escrevemos todos.

E se foram também fabulosos os três passeios que fizemos à rua do Matoso (eu, papai, Felipinho Cereal e Luiz Antonio Simas), foi igualmente fabuloso conhecer melhor o comércio e a vocação da rua, cada personagem, cada figura, cada vizinho, cada história impregnada em cada pedaço daquele chão que somos incapazes de perceber na correria do dia-a-dia. Foi fabuloso contar com a participação da Olga, por exemplo, moradora da rua (e a quem não conheço pessoalmente), e que foi precisa em cada comentário, consertando equívocos cometidos por mim, nos textos, e inserindo dados que nos escaparam no decorrer do prazeroso trabalho, como por exemplo o fato de que o Zico, ele mesmo!, morou na rua do Matoso assim que se casou (a partir de hoje ele deixa de ser, pra mim, o Galinho de Quintino e passa a ser o Galinho da Matoso!). O Tartaglia, morador da área também, também foi craque nesse quesito!

E foi a Olga - leiam seu email aqui - a responsável pela maior dimensão que ganhou a humílima série que publicamos aqui, ao longo de dez dias. Vou explicar.

Ela deu-se ao trabalho de imprimir algumas vezes a série, de atravessar a rua e de entregá-la a alguns de seus mais queridos comerciantes do pedaço - o seu , da QUITANDA ABRONHENSE, e o Tunico e a Rosa, da TINTURARIA MASCOTE.

No email a que me refiro, a Olga conta da emoção que viu nos olhos de cada um no instante em que se perceberem personagens retratados de uma história ligada à rua. E da emoção que ela própria sentiu quando foi arremessada ao passado conversando sobre a rua e sobre a história pessoal deles enquanto liam, juntos, os textos.

E eis o que eu queria lhes dizer desde o início.

Eu poderia não ter tido uma única visita à série dedicada à Matoso, eu poderia não ter recebido um único comentário elogioso ao BUTECO e à iniciativa, e ainda assim teria me bastado saber que algumas pessoas (a Olga, o seu José, a dona Conceição, o Tunico, a Rosa, o seu Antônio...) experimentaram, durante alguns minutos (que seguramente se perpetuarão na alma de todos eles), uma profunda emoção - como a que fez a Olga ir chorando pro trabalho, nesse dia... - capaz de levar beleza, leveza, graça, cor e sentido à vida de todos eles.

Disse a Olga, em seu atencioso email, que será sempre grata a mim por eu ter provocado o re(encontro) dela com essas pessoas e conseqüentemente a conversa que brotou dali.

Ora, meus poucos mas fiéis leitores... Eu - e digo isso de pé diante do balcão! - ao mergulhar na história da rua do Matoso (e poderia ter sido na história de qualquer outra rua daqui do bairro...), nada mais fiz do que prestar um bocadinho de atenção ao que está à minha volta. É bacana, sim, a sensação de que fazemos alguma diferença na vida dos outros. E é mais bacana ainda perceber como é simples fazer essa diferença. Mas o mais bacana, mesmo, é perceber uma série de pequenas coisas que emergem desse movimento voltado à atenção pelo que nos cerca.

A Olga foi apenas levar os textos da série para os comerciantes e amigos da rua. Daí houve as conversas, daí houve a emoção, daí houve o chôro a caminho do trabalho, daí houve esse derramamento de beleza na vida de todos os envolvidos ali, naquele processo (ela disse que na TINTURARIA MASCOTE a emoção foi tremenda!!!!!), naqueles diálogos, naquele momento, naquele ambiente, impregnando não apenas a eles, mas a loja, a rua, o bairro, a cidade, dessa beleza.

É desse movimento, meus poucos mas fiéis leitores, que carece a cidade - e rejeito com veemência a pecha de piegas.

É desse redescobrir de tanta beleza em tamanha simplicidade que irá renascer a esperança no coração dos homens.

A violência, a brutalidade e a rudeza crescem na exata medida em que minguam as manifestações mais simples de cordialidade, de delicadeza, de gentileza e de carinho.

Escrever sobre a rua do Matoso foi um gesto de carinho nosso, com nosso bairro e nosso pedaço - uma manifestação evidente de nossa gratidão por tudo que somos, por tudo que temos e por tudo que vivemos. Notem que a gratidão foi a força-motriz do troço.

Daí a Olga fala (também) em gratidão, e esse movimento segue num crescendo que é bonito demais.

Quando ontem à noitinha aportei na QUITANDA ABRONHENSE com o Felipinho Cereal para não mais do que duas garrafas de Brahma (a quitanda fecha às oito!), eis o que quero lhes dizer... o seu era um homem em estado de graça por trás do balcão.

E a dona Conceição, e o Chico, e os fregueses que lá estavam, todos já sabendo de tudo...

A todos, sem exceção, minha gratidão. E falo - combinamos isso ontem! - também pelo Felipinho Cereal.

Salve a Tijuca!

Até.

RUA DO MATOSO - A SÉRIE - PARTE X

Quando saímos da CASA ELIZABETH (de 1958, o mais antigo comércio da rua do Matoso, não é demais repetir) sabíamos que faltava apenas um objetivo, já traçado. Seguimos, por conta disso, pela calçada da direita mesmo, atravessamos a Haddock Lobo e chegamos ao último quarteirão da rua.

Atravessamos a Matoso e andamos um bocadinho de nada até o número 219.

Chegamos, então, ao ARMAZÉM MATOSO.

Na porta, sentado, recebeu-nos o seu Manoel. No balcão, dona Alzira desejou-nos bom dia.

Vocês vejam se o seu Manoel não é bom de papo! Percebam a expressão de papai ouvindo as histórias contadas por ele!

Isaac Goldenberg, ARMAZÉM MATOSO, rua do Matoso, na Tijuca, foto de Eduardo Goldenberg
Seu Manoel, ARMAZÉM MATOSO, rua do Matoso, na Tijuca, foto de Eduardo Goldenberg

Seu Manoel e dona Alzira estão há 32 anos no mesmo endereço - eles moram no sobrado em cima do armazém, que foi inaugurado em outubro de 1976. Ambos são portugueses, de Trás-os-Montes.

Seu Manoel chegou ao Brasil em 1947 e, três anos depois, em 50, foi a vez da dona Alzira. Estão casados há 53 e dona Alzira disse com orgulho:

- Só tivemos três endereços no Brasil. Moramos na Barão de Mesquita, mudamos para o Catumbi e depois viemos pra cá, pra melhor rua da cidade!

ARMAZÉM MATOSO, rua do Matoso, na Tijuca, foto de Eduardo Goldenberg
Dona Alzira, ARMAZÉM MATOSO, na rua do Matoso, na Tijuca, foto de Eduardo Goldenberg
detalhe do piso do ARMAZÉM MATOSO, na rua do Matoso, na Tijuca, foto de Eduardo Goldenberg

Bebemos cerveja em lata, a R$ 2,00 cada uma. Dona Alzira contou-nos que na véspera um grupo grande esteve lá, fazendo um churrasco, e acabou com toda a cerveja em garrafa da casa.

Conhecemos, durante nossa visita, um grande sujeito chamado seu Vavá. Ele nos foi apresentado por um eufórico seu Manoel:

- Eis aí um grande homem! Sabe tudo sobre a Matoso!

Seu Vavá nasceu no morro do Turano, em 05 de abril de 1933. Trabalha na rua do Matoso há 53 anos, desde o dia - foi comovente vê-lo dizer isso - 20 de junho de 1955. Já está aposentado, mas não quer parar de trabalhar. Hoje, mora em Nilópolis, trabalha numa loja de móveis na Haddock Lobo, e mesmo durante os finais se semana vai à rua do Matoso para beber com os amigos que fez ao longo de mais de meio século.

Perguntou-me, o seu Vavá, com um copo de cachaça na mão:

- Onde você mora, menino?

Eu disse.

- Eu vi construir o seu prédio!

- Viu?

- Vi! E pensei que fosse cair! - morrendo de rir.

Disse, mais, que viu muita coisa acontecer na região...

Fizemos, com o seu Vavá, um pequeno filme, que fecha, com chave de ouro negro, a série RUA DO MATOSO.

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Até!