13.10.08

A TIJUCA EM ESTADO BRUTO - XIII

Dia desses, conversando com mamãe - nunca será demais dizer, de público, que mamãe é um dos melhores papos, é sempre uma grande conversa! -, fui provocado:

- Tanta história tijucaníssima de seus avós paternos, tanta...

É verdade. Eu que, durante as dozes histórias até então contadas sob a grife TIJUCA EM ESTADO BRUTO, falei à beça da perna materna da família, vou lhes contar, hoje - atendendo à sugestão de mamãe -, uma história envolvendo Oizer e Elisa, pais de papai (conheçam vovô, aqui).

Quando vim ao mundo, eles moravam na rua Santa Alexandrina, no Rio Comprido. Lembro-me com perfeição do edifício em que moravam. Amarelo, pintado em escamas (parecia um peixe), sem elevador. Anos depois, creio que em meados da década de 70, meus avós tomaram a mais sábia decisão de suas vidas: deixaram o Rio Comprido e atracaram, para sempre, na Tijuca. E atracaram na rua Haddock Lobo. Justo no apartamento em que, hoje, moro com minha menina. Vejam que boniteza. Vamos às tijucanices.

Vovô, que era um velho bonitão, tinha olhos azuis e cabelos brancos esvoaçantes, como Einstein. Adorava passear a pé, andava com as mãos cruzadas para trás (isso, até precisar da bengala para caminhar), vivia flanando pela praça Afonso Pena, pela Haddock Lobo, pela Aristides Lobo, pela Campos da Paz, era um andarilho. Tinha passarinhos em casa, tratava deles com intenso carinho, adorava exibir os bichos pra nós, seus netos. E vovô ria muito. Minha avó, por sua vez, era uma mulher sisuda, tinha um olhar triste, vivia muito em casa, cozinhava, ria pouquíssimo. E os dois - era um número, era um número! - implicavam um com o outro de maneira hilariante, mas isso não vem, ao menos por agora, ao caso. Quero lhes contar sobre os lanches na casa de meus avós.

Na minha caixa de registros, esses lanches aconteciam uma vez por semana. Mamãe diz que não. Mas, para todos os efeitos, uma vez por semana íamos lanchar na casa de meus avós paternos. A sala (que é hoje a minha sala, com tudo mudado, é evidente!) era atravancadíssima! Eles tinham uma mesa enorme, retangular, de oito lugares, e essa mesa estava sempre, rigorosamente sempre!, lotada de comida para os tais lanches. Antes, pequena pausa.

Herdei de vovô Oizer um costume. Vovô dizia, durantes os lanches, sempre a mesma coisa:

- Comprei esses pães aqui ao lado, na melhor padaria do mundo!

Ou:

- Está bom o presunto, Isaac? É da mesma padaria e é o melhor presunto do mundo.

Ainda:

- Venham ver a televisão nova que comprei. É a melhor TV do mundo!!

Um homem feliz, como vocês podem imaginar.

Vamos à mesa. Digamos que estamos eu, papai, mamãe, Fernando, Cristiano, vô Oizer e vó Elisa. Oito pessoas. E sobre a mesa estão quarenta sanduíches de brioche com queijo prato, quarenta sanduíches de brioche com presunto, quarenta sanduíches de brioche misto, uma quantidade formidável de bolinho feito de aipim, um bolo de chocolate, um bolo de nozes, um bolo de laranja, refrigerantes de diversas marcas, uma quantidade inacreditável de comida. E a mesma cena, semanalmente:

Vovô Oizer pro Cristiano:

- Come mais, menino!

- Tô satisfeito, vô...

- Nada! Toma, toma! - e punha dois brioches, um em cada mão de meu irmão.

E dava a ordem:

- Come! Come!

Papai:

- Pai, ele não quer...

- Quer, sim! E come mais você também!

Quando papai ia dizer alguma coisa, recusando, mamãe o chutava por baixo da mesa e dizia:

- Mais um, Isaac...

E papai comia.

Os olhos azuis de meu avô brilhavam vendo netos, filho e nora enfarados. Era uma coisa, de fato, impressionante. Anos depois - eu acho - atribuí essa necessidade a um possível trauma causado pelas dificuldades passadas pelo homem que veio de Odessa para o Brasil, trabalhou muito, e honestamente, casou, teve dois filhos e os criou como homens de bem. Mas não era nada disso. Era a Tijuca cravada dentro de meu avô, pô!

Se vovô tinha essa mania de achar que tudo aquilo que ele podia ter era o que havia de melhor no mundo, vovó tinha outra. Era uma mulher, vocês verão, sem nenhuma habilidade (ou disposição, vá saber!) para o diálogo. Eu dizia, durante o lanche:

- Acho que esse presunto foi cortado grosso demais.

E ela, em tom autoritário:

- Também acho.

O Fefê, retrucando:

- Você achou, Edu? Nossa! - e mostrava uma fatia do presunto - Pra mim, está finíssimo!

E ela:

- Também acho!

E se o assunto tomasse rumos meteorológicos? Meu avô dizia, olhando pela janela:

- Vai chover...

- Também acho.

Meu pai replicava:

- Vai não, pai. Li no jornal hoje que só chove na quinta-feira. Não vai chover!

E minha avó:

- Também acho.

O bonito é que, invariavelmente, na hora da despedida, o pau estancava entre meus avós, com um carinho que só muitos anos de casamento permite.

- Levem mais brioches! - bradava vovô.

- Cala a boca, Oizer! Eles estão botando brioche pelas narinas!

E ele, de voleio:

- Cala a boca você, Elisa! Prepare o farnel pros meninos!

Nós, já no corredor.

- Não vê que eles não querem, Oizer?! Cala a boca!

E ficavam, ali (nós ouvíamos o doce diálogo com a porta já fechada, o prédio tem um eco impressionante!), batendo boca sem nenhuma intenção de agressão.

Era o hábito, apenas.

Volto a eles, dia desses.

Até.

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