18.5.09

CAFÉ E BAR ESTUDANTIL

Vivemos, no sábado, eu e Luiz Antonio Simas, no finalzinho da tarde, momentos que renderam a idéia que me empurra pra frente do monitor nesse começo de segunda-feira. Eu poderia dar ao texto o nome CENAS TIJUCANAS, o que se tornou rotina aqui no BUTECO. Mas preferi o registro do nome do buteco que foi palco de tais momentos, os quais passo a expôr, com tijucaníssimo orgulho, a todos vocês.

Eu havia acabado de chegar do RAMPINHA (leiam aqui sobre o portentoso restaurante da Praça da Bandeira) e fui convocado pelo Simas para assistirmos juntos à partida entre o Flamengo e o Avaí.

Escolhemos, juntos, o ESTUDANTIL.

O ESTUDANTIL é um tremendo pé-sujo (já escrevi sobre ele aqui, contando sobre uma visita do Felipinho Cereal e do Favela ao buteco) que fica na Haddock Lobo, entre a Alberto de Sequeira e a Almirante Gavião. Mínimo, sem mesas dentro, recebe sua clientela fidélissima no balcão e nas mesas que se espalham pela calçada em frente, sob a copa de frondosas árvores que embelezam a Tijuca.

Um detalhe curiosíssimo é o seguinte: o ESTUDANTIL funciona com a trilha sonora que sai de um rádio National da década de 70, um dos orgulhos do dono, sempre sintonizada na AM. E tem uma TV de 21 polegadas, velhíssima, ligada apenas para o futebol, com uma imagem tão nítida quanto a voz dos bebuns do lugar depois de um dia de intensos trabalhos.

Pensando em ampliar o negócio e atingir outro nicho do mercado (é o que conta a piada que corre por ali), o dono adquiriu a loja ao lado, onde funcionava uma farmácia. Manteve o piso, as paredes, a iluminação feérica, espalhou mesas de madeira pelo salão, pôs porta-guardanapos elegantes sobre as mesas, cadeiras também de madeira fazendo composé, e comprou uma TV de LCD gigantesca para o mesmíssimo futebol que escorre pela tela da TV velha do buteco original.

Resultado: uma horda de homens se espreme no balcão minúsculo do velho ESTUDANTIL e ninguém - nem uma alma, sequer - pisa no novo salão ao lado.

O cara já tentou de tudo: oferece cerveja a preço menor, amendoins de tira-gosto como cortesia da casa, e nada. Um médium vidente daria a sentença: legiões de espíritos lotam o velho buteco e uma aridez impressionante transforma a ex-farmácia numa aléia vazia, triste, silenciosa e sem-ninguém.

Pois bem, vamos à tarde de sábado.

Corria o jogo quando entra um casal à caráter: ele de smoking e ela de longo azul-marinho. O sujeito pede um limãozinho da casa e ela compra três maços de cigarro que estufam a bolsinha de mão que ela carrega sem muito jeito. Pagam e seguem à nossa esquerda, que estávamos de frente para a comovente espelunca. O Simas deu certeza:

- Casamento no Capuchinhos!

Mais quinze minutos e uma senhora gordíssima, com um vestido verde-brilhante mais assemelhado a uma dessas cortinas antigas de casa-de-vó, entra tropeçando no buteco e pede uma batida de mel. Arrota e atravessa a rua gritando pro marido, na esquina:

- Bora, homem! Vamos logo pra mim pegar uma mesa perto da cozinha!

Entraram na AABB, do outro lado da rua.

O Simas:

- A recepção será na AABB... imagine o bufê, imagine o bufê!

Pode soar como sacanagem, mas menos de cinco minutos depois chega ao balcão um casal de anões. Ele embrulhado num fraque e ela com um vestido branco com bolinhas vermelhas, de mãos dadas. Diz o cara, sem conseguir alcançar o balcão, pra um habituè que assistia ao jogo de pé:

- Ô, chefia, pede uma dose de Cynar pra mim, fazendo o favor!

O anãozinho ainda virava o copo num único golpe quando chega um outro casal: ele de terno bege e ela...

O Simas, dando socos na mesa de tanto que ria:

- Edu! Edu! Um travesti! Assim é demais! Liga pro Felipinho que ele não vai acreditar se nós contarmos!

A assistência assobiava diante da presença daquele mulato, 1m80, com uma peruca feíssima, mal-equilibrado no salto-plataforma das sandálias de prata que reluziam na calçada da Haddock Lobo.

Entra um crioulo de calça jeans e paletó branco. Pede uma costelinha que dormia no balcão desde cedo. Comenta, durante o intervalo do jogo:

- Tá feia a coisa no bufê... só tem canapé, pô!

Aos 30 do segundo tempo, o inusitado: chegam os noivos, o cara sem conseguir andar, apoiando-se no véu da companheira. Grita:

- Uma rodada de Brahma pra todo mundo!

A assistência vai á loucura.

Descobrimos, em coisa de cinco minutos, que o negrão de calça jeans é o sogro do cara. Descobrimos, mais, que os anões foram o pajem e a dama-de-honra do casamento, ela a manicure da mãe da noiva há mais de 40 anos, que o travesti é cunhado do noivo e que a lua de mel seria passada em Niterói, depois da noite de núpcias na suíte real do BARILOCHE (excepcional site aqui).

Fim de jogo e o ESTUDANTIL em festa recebendo os convidados do casamento decepcionadíssimos com a recepção na AABB.

Coisas, meus poucos mas fiéis leitores, que só na Tijuca.

Até.

9 pitacos:

Dani disse...

Sensacional, rindo mt aqui. Coisas da Tijuca.

Olga disse...

Sensacional! Preciso do início ao fim. De vez em quando rola até uma vitrola na calçada, acompanhada, claro, do velho e bom churrasquinho...

Agora, anões como pajem e dama-de-honra é genial!!

Edu, tô às gargalhadas!

Bezerra disse...

Uma história dignamente antológica.

Luiz Antonio Simas disse...

Relato perfeito. Eu confesso que da maluquice toda [e eu nunca vi algo tão impressionante acontecer num boteco ] causou-me absoluto espanto o casal de anões. Quando o traveco entrou, eu já estava numa fase de acreditar em tudo e não me surpreendi.

Noite memorável.

Vanessa Dantas disse...

É tanta bizarrice junto que nem Almodóvar seria capaz de reproduzir algo semelhante. Posso dizer que do lado de cá, ri um bocado imaginando as cenas... Memorável mesmo!

Felipe disse...

Edu, você conseguiu arrancar de mim gargalhadas mesmo tarde da noite, após uma segunda exaustiva!

Diego Moreira disse...

Fiquei emocionado com as escolhas do casal. Capuchinhos, AABB, Anões, Traveco, Bariloche, Niterói e Rodada de Brahma no Estudantil.

Um casamento Perfeito!

Monica Araujo disse...

Meu Deus !! Rolei de rir, e sei bem que entrar no buteco com roupa de casamento para esperar a noiva chegar é muito bom!!!!!

Show de bola Edu.

Augusto Veríssimo disse...

Sensacional ! Ah, que saudade do sol escaldante das 2 da tarde da zona norte...