13.5.09

A FEIRA DA VICENTE LICÍNIO

A feira da Vicente Licínio, meus poucos mas fiéis leitores, simpaticíssima rua que fica entre a Campos Sales e a Gonçalves Crespo (numa geometria que somente o tijucano entenderá), e que acontece aos domingos, é - confesso - e é há anos, minha cachaça. Aqui onde moro, no coração da Tijuca, a poucos metros da IGREJA DOS CAPUCHINHOS, onde fui batizado, a poucos metros do INSTITUTO LA-FAYETE, onde estudou papai, a oferta de feiras é farta. Há quatro, pelo menos. Uma na rua Aguiar, uma na Barão de Sertório, uma na Zamenhof e a da Vicente Licínio. A todas vou a pé, com exceção da de domingo, já que é quando compro a maior quantidade e as duas bolsas de palha, dessas que não existem mais, voltam cheias.

A feira da Vicente Licínio é um caso sério.

Como é séria a rotina cumprida de domingo a domingo.

Estaciono o carro diante do CENTRO CULTURAL DA CHINA e o deixo aos cuidados do velho malandro, preto retinto, muitas vezes caneado, que está sempre com o sorriso a postos para receber quem chega.

Aprendi com papai a fazer a feira. Corro o mercado de rua - e gosto a cada dia mais do mercado de rua - de ponta a ponta de olho nos preços, comprando tudo na volta. Na Campos Sales, é certo um pastel e um caldo de cana recheado com o sensacional molho à campanha que eles preparam. Em frente, o florista. Raras são as vezes que saio da feira sem uma flores, que a casa precisa ter sempre flores pra ficar à altura da flor que me embeleza os dias.

Em frente ao florista, compro as bananas.

Tomando a direção oposta, de onde parti, à esquerda fica meu peixeiro de fé, que aceita encomendas feitas na sexta-feira, pelo telefone (o troço é sério, como eu lhes disse). Um pouco antes do peixeiro, uma barraca-de-tudo. Foi onde achei as bolsas de palha que ele, o rapaz que a comanda, raramente leva pra vender.

O alho e o louro, compra obrigatória, são escolhidos num dos vendedores que expõem suas mercadorias em caixotes de madeira ao longo da feira. Não tenho o meu preferido, escolho pela qualidade do alho, e geralmente é o caboclo de bigodão quem tem a melhor mercadoria.

Logo depois do peixeiro, do lado direito, o fruteiro que tem de tudo: caquis imensos, mangas de tudo quanto é tipo, ameixas em mel, frutas dificílimas de encontrar, caro - é verdade - mas tudo vale a pena.

Um pouco mais à frente, à direita, os garotos que trabalham com a mãe e que vendem água de côco, geladíssima, na fruta ou nas garrafinhas. Geralmente bato dois côcos, que o depois-da-feira é que são elas...

Cebola eu compro na kombi à direita, um verdadeiro armazém de quatro rodas. Batatas também.

Adiante, também à direita, os ovos tamanho jumbo na kombi que vende um frango de granja de respeito. Um casal comanda a quitanda e o cabra é craque nos cortes feitos da maneira que você pedir, como é craque sua mulher na arte de embalar, numa velocidade impressionate, a dúzia de ovos de todos os domingos.

Ao lado, outra kombi. Vale a parada.

Em frente, à esquerda, os aipins mais macios do planeta vendidos por um coroa que vende apenas os aipins. E que assim seja para todo o sempre. São os melhores!

Logo depois, a gigantesca barraca de verduras onde deixo sempre um bom dinheiro: é a alface, a couve, o brócolis, a salsinha, os vidros de palmito CAPELISTA, os aspargos, os cogumelos frescos, e o Homero, homem que comanda com o coração o melhor japonês da cidade, o MITSUBA, não me deixa mentir.

Bem em frente, a barraca de uma tia que gentilmente, vez por outra, pica na hora a couve-manteiga pra alguma receita que me vem à mente (no dia da feijoada de meus 40 anos ela picou nada mais nada menos do que 60 molhos de couve!).

Um tanto mais adiante compro a melancia, sempre com uma generosa prova durante a escolha.

Tomo a direção do carro e do carro ao BAR DO CHICO.

O Chicão guarda os peixes na geladeira enquanto vejo o dia passar na gloriosa esquina da Pardal Malet com Afonso Pena.

A vida, meus caros, a vida vale muito a pena.

São - como diria o homem da barba amazônica - os domingos na Tijuca.

Não disse o nome de nenhum dos personagens dessa feira que é a melhor do bairro.

Descubram vocês mesmos, ao vivo, a cores, num desses domingos em que acordarem dispostos a conhecer, mais de perto, os segredos, os fascínios, os tesouros do bairro onde nasci e fui criado.

Pra que vocês tenham uma idéia do que é esse fascínio a que me refiro, ouçam bem o que disse dia desses Luiz Antonio Simas mexendo com o indicador o gelo de sua capivodka de maracujá preparada pelo Chicão:

- Decidi um troço!

Depois do gole dado de olhos fechados, a sentença:

- Não saio mais da Tijuca nos finais de semana. Pra nada! Pra nada!

Até.

2 pitacos:

oespinafre disse...

Depois de ler esse texto, eu e a Camila já começamos a fazer as malas. Pode ser que elas demorem um pouco a ficar prontas, mas um dia a gente ainda chega na Tijuca.

Vanessa Dantas disse...

Adoro fazer feira, Edu! Mas há tempos não faço mais. As flores eram sempre obrigatórias, mesmo nos dias em que não sobrava dinheiro, o moço da banca não me deixava voltar para casa de mãos vazias - uma rosa, uma gérbera ou um vasinho de violeta estavam sempre a me esperar! Você está certo "a vida vale muito a pena".