27.5.09

MAIS SOBRE SANTA

Preciso confessar a vocês, de pé diante do balcão imaginário, que me empolguei com a repercussão de meu humílimo texto no qual discorro, brevemente, sobre o comportamento de grande parte das pessoas que sobem para o aprazível bairro de Santa Teresa, que elas chamam de Santa, com uma intimidade tão falsa quanto o comportamento a que me referi (e ao qual novamente me referirei hoje, leiam aqui). Luiz Antonio Simas fez menção ao texto em seu HISTÓRIAS DO BRASIL (aqui) e Carlos Andreazza, agora também n´outros balcões aqui à direita, em seu TRIBUNEIROS (aqui). Recebi alguns e-mails elogiando o que escrevi, e um comentário - apenas um - que não publiquei por ser anônimo ( enquanto lia as agressões do descolado a telinha do computador exalava um repugnante cheiro de maconha e de pele mal lavada).

E do que me acusava o ser humano que enviou tal comentário sob o manto do anonimato?

Sentem-se, meus poucos mas fiéis leitores, que a acusação do bicho-grilo é gravíssima.

Pausa: tomei um pito de mamãe, dia desses. Disse-me ela, por e-mail (recebo e-mails de mamãe com freqüência), que este chavão - meus poucos mas fiéis leitores - é "às vezes cansativo para quem lê sempre". Em frente.

Acusou-me de ser bairrista.

Eu?

Ora, pobre do homem que não é bairrista. Pobre do homem que não nutre, pelo chão no qual nasceu, cresceu e no qual vive, um amor fanático, cego, retumbante e patriótico. Vejam vocês o caso de Arthur Tirone, o Favela. O caboclo escreveu dia desses: "Sou, e quem me conhece sabe, um sujeito fincado neste brejo.". Referia-se, é claro, à Barra Funda, e esse amor do Favela por seu chão nos torna ainda mais próximos, jungidos pelo amor sagrado que nos une à nossa terra. Vejam vocês o caso de Luiz Antonio Simas, que tem pregado por onde anda sua decisão, inamovível, de não deixar os limites da Tijuca para nada que não seja estritamente indispensável. Leiam o Felipinho Cereal, aqui, e me digam se esse troço de amor pelo bairro não é bonito pacas. Ora, meus poucos mas fiéis leitores (desculpe, mamãe), percebam que o piolhento que me agrediu através do comentário não publicado foi infeliz, como deve ser infeliz, ele próprio, morando no Leblon, onde disse viver desde que nasceu. Escreveu, à certa altura, o fedorento: "Nasci e até hoje vivo no Leblon. Mas não dispenso a feijuca do Bar do Mineiro nos finais de semana. Não dispenso a carne-de-sol do Bar do Arnaudo. Não dispenso o clima do Sobrenatural com suas cervas geladaças. Não dispenso o cineminha no Cine Santa. E tenho dinheiro para tudo isso, o que não deve ser seu caso.".

Vejam os clichês pipocando no texto. A "feijuca" (eles são íntimos de tudo) do BAR DO MINEIRO (que é apenas razoável). A carne-de-sol do BAR DO ARNAUDO (que não faz nem cócegas na que é servida no BAR DO CHICO pela metade do preço). A "cerva geladaça" do SOBRENATURAL, o "cineminha no Cine Santa".

Encaixa-se, com perfeição de puzzle, na descrição que fiz do jovem que sai da zona sul em direção ao Largo da Carioca em busca do bondinho que o levará para Santa Teresa.

Posso apostar minhas fichas como o cheio-de-lêndeas estuda na PUC (onde estudei Direito e onde vivi à margem dos descolados que me rejeitavam como um pestilento). Permitam-me lhes contar um troço, rápido. Primeiro dia de aula, ano de 1987. Fui para o campus de chinelo de dedo (o que me garantiu o apelido de "pedreiro" nos primeiros meses), bermuda, camisa de malha, uma mochila, um caderno, caneta, lapiseira e borracha. Os homens de minha turma, todos, de terno.

Já trabalhando?, eu me perguntei.

Não. Era pose. Pose, pose e apenas pose.

Pois então. O cheio-de-lêndeas estuda na PUC, planeja suas incursões à Santa Teresa (que ele chama de Santa, como sói acontecer) apertando um na vilinha dos Diretórios Acadêmicos da Universidade, vai aos lugares-clichês que fazem a festa da VEJA RIO, é eleitor empedernido do PSOL (que é, como bem disse o Simas, Santa Teresa em forma de partido político) e tem a pachorra de perder seu tempo para me chamar de bairrista, como se isso fosse uma forma de agressão.

Deus permita que eu me mantenha assim, tijucano até o último de meus dias, e por várias encarnações.

Até.

14 pitacos:

Rodrigo disse...

Edu, belo texto! E continue assim, um eterno amante da Tijuca.Aqui em São Paulo, é o contrário. O pessoal faz da Vila Madalena - A vila hippie. Riquinhos que compram roupa na Praça Benedito Calixto, para parecerem largado, um monte de patricinhas querendo parecer descolada e tal.

Gabriel Andrade disse...

Prezado Edu,

Há tempos acompanho o seu blog, porém acredito que poucas vezes comentei. Fui aluno do Simas no Colégio Ph, que é reconhecidamente de classe média, e estudo Direito na PUC. Moro em Copacabana e posso lhe dizer que amo meu bairro. Não há nada que me faça ir a praia em ipanema, tomar um chopp no baixo gávea, dentre outras atividades tipicas da Zona Sul.
Com 15 anos comecei a aprender a tocar cavaquinho, antes disso já arranhava uma percursão, e aprendi a grandiosidade do Samba.
Tocamos algumas vezes na PUC mas nunca conseguimos agradar plenamente, afinal, que samba era aquele que a gente tocava? Não tinha Chico Buarque, João Donato, pouco Cartola e Nelson Cavaquinho.
Ora, tocavamos Candeia, Aniceto, Campolino, Marçal, Bide, Almir Guineto, Luiz Carlos da Vila, Noel Rosa de Oliveira. E para isso, o pessoal de Santa e da PUC não estava preparado, não era moda.
Apelidavamo-lhes de "Cheira Bostas". E assim, até hoje, existem diversos conhecedores de samba e do Rio de Janeiro que não conhecem NADA de nossa cultura e nossa Cidade.
Salve a mnha Copacabana do PAvão Azul (o de antigamente, menos cheio) e do Bip Bip. Salve a sua Tijuca, coração da alma carioca. Salve o Rio de Janeiro em sua plenitude de geografias e culturas que aqueles que conhecem de verdade acabam sendo obrigados a amar.

Grande Abraço

Gabriel Goyanes

Vanessa Dantas disse...

Edu, seu chato de galochas! Adoooro!

Morri de rir com o texto! E assim como você, sou bairrista com todo o orgulho do mundo! Tanto que escolhi o bairro onde nasci e me criei como tema do mestrado "Vila Madalena: imagens e representações de um bairro paulistano". O duro foi conseguir o distanciamento necessário enquanto pesquisadora para conseguir escrever. Mas deu certo! Muito diferente da Tijuca, e possivelmente mais próximo do que acontece com "Santa", a "Vila" já não é mais a mesma - até pela presença dos "forasteiros" - o que não me impede de amá-la, criticá-la duramente, e escolher os lugares ainda possíveis de serem frequentados.

Hoje, moro em Perdizes (perto do templo sagrado Palestra Itália), bairro bem próximo à Vila - raio máximo de distância que me permito - mas como diria meu ex-chefe, sou Madalena, onde quer que eu vá, a Vila estará para sempre impregnada em mim! Graças!

Beijo.

Carlos Andreazza disse...

Edu, também a mim estão perseguindo-infernizando os de Santa... E sempre anônimos, por motivo de coerência, os covardes. Chega a engraçado; e quase me convencem de que eu jamais compreenderei a alma carioca inteira que está por lá... Não sei se a capto - se um dia estarei próximo desta alma do nosso Rio de Janeiro -, mas estou certo de que ela passa longe de Santa Teresa e da Lapa, essas farsas para consumo alienado.

Forte abraço!

Eduardo Goldenberg disse...

Rodrigo: em cheio! É isso mesmo. A feirinha a que você se refere, em SP, é um N-O-J-O. Abraço.

Gabriel: aluno do Simas? Sorte a sua! Não entendi bem se você quis, com seu comentário, denegrir a obra do Chico Buarque, do Cartola, do Nelson Cavaquinho, ou se quis dizer que quem conhece a obra do Candeia e do Aniceto é mais e melhor do que quem não conhece, mas isso - como diria o Stanislaw - deixa para lá. Copacabana pode ser ótimo, meu caro, mas palmeira do mangue não vive por lá. Um forte abraço.

Vanessa: eis aí uma expressão do povo de Santa... "chato de galochas". Pena que você ri. O troço é pra chorar.

Andreazza: incrível como esse povo só tem coragem de mostrar a cara com um bagulho entre os dedos, de preferência em círculo, passando o papel babado de boca em boca. A alma carioca só esteve em Santa Teresa, nos últimos tempos, durante a Marcha da Maconha - quero repetir... quando não havia um encarnado ou mesmo desencarnado dessa laia sapateando sobre os trilhos de lá. Forte abraço!

Gabriel Andrade disse...

Edu, em nenhum momento quis denegrir a obra desses artistas, são ótimos, e merecem todos os aplausos.
Quis apenas fazer uma critica àqueles que se encaixam em sua descrição de frequentadores de Santa Teresa e que vez por outra adotam culturas como suas. já foi a vez do forró, do samba, do reggue, etc. Essas pessoas aderem a modismos sem procurar conhecer e entender as origens de tudo. Conhecem o Noel mas não conhecem o Vadico, falam do Nelson Cavaquinho mas esquecem do Guilherme de Brito, e por assim vai.
Depois mudam de "tribo" sem deixar nada de positivo, sem acrescentar nada, e sem levar consigo qualquer contribuição.

Vanessa Dantas disse...

A risada não é do fato, mas da forma como você se expressa! O "cheio-de-lêndeas" é tão bom quanto o "N-O-J-O" da feirinha!

Eduardo Goldenberg disse...

Agora sim, Gabriel, vê-se a marca de um aluno do Simas. Saudações.

Rodrigo disse...

Aproveitando também Edu, aqui em São Paulo, o pessoal que freqüenta à Vila Olimpia, diga de passagem um nojo, um horror, lançou a moda do bigode, parceiro! Os malandros chegavam na balada com uma camisetinha coladinha, um cabelinho espetado, e bigode. O que me faz pensar que os bambas que viajaram antes do combinado, revirarem no túmulo. Uma merda, este pessoal que não tem identidade.

Diego Moreira disse...

Edu, já ouviu os cantos dos alunos da Puc nos Jogos Jurídicos? É nos jogos (a reunião da escumalha) que aparece o que há de pior. Os caras escancaram nos versos o quanto são reacionários, classistas e nojentos. Exemplo:

"O meu pai me deu um Audi.
O seu sonho é ter um Clio.
Puc-Rio!
Puc-Rio!"

Os cotistas da UERJ são chamados de "macacos" nas musiquinhas.

São esses merdas, esses covardes que se escondem sob o anonimato, reacionários, classistas e racistas, vivendo em busca de glamour, que fizeram da Lapa e de Santa Teresa a mentira que esses bairros são hoje.

Abraço!

Felipe disse...

Edu, Ótimo o texto!
Eu (ainda) estudo direito na PUC. Confesso que gosto da universidades, seu bosque e aprazível brisa.
Mas a naturalidade forçada com que enorme parte dos seus frequentadores procuram seguir as modinhas ditadas no vai-vem da publicidade me causa repulsa.
As meninas - em sua maioria lindas -vestidas como hippie que nunca foram e nem conseguiriam ser.
Os falsos boêmios, clientes assíduos do "Seu Pires" na Marquês de São Vicente nos finais das noites dos dias úteis e da nojenta Baronetti nos finais de semana.
E o pior, não satisfeitos com suas vidas de faz-de-conta nos lugares em que moram , ainda acabam por colaborar com a destruição de lugares que outrora mantinham sua tradição e boa vizinhança.
É esse um dos meus maiores lamentos sobre a Lapa, que em outra oportunidade comentei com você.
Abraços.

Diego Moreira disse...

Fossem hipies de verdade, as patricinhas ostentariam cabeleiras imensas debaixo do braço e xotas amazônicas. Mas as moças preferem o estilo mata atlântica, deixando apenas 8% da "vegetação" original. E olhe lá...

julian_casab disse...

Ainda bem, Diego. Afinal nao e' qualquer um que consegue sobreviver na Floresta Amazonica.

Monica Araujo disse...

Mas você não falou mal de Santa Teresa Geograficamente , falou do comportamento humano e pelo visto os anônimos se identificaram, dado a reação. Esses caras são babaquinhas mesmo mas quero ver tirar essa onda pegando um ônibus da Fagundes as sextas - feiras pela ponte engarrafada em direção ao Raul Veiga , isso ninguém quer.... coisa feia tirar onda que tem dinheiro , tipinho de gente que pelo jeito vai fomentar o tráfico em Santa Teresa e não deve nem perceber a beleza do bairro , enaltece grife como se frequentar o tal do Arnaudo fosse mérito e que grande bosta que é , bando de alienado. Feijuca , hum que coisa de viadinho...