Como lhes contei aqui, no texto BRIZOLA EM 1989, muito por alto, Fernando José Szegeri, esse mito, o homem da barba amazônica, esse homem que já nasceu barbado e já funcionário público, esse pai de três filhos, arrimo de família, meu irmão siamês, esse homem incapaz de rejeitar, a qualquer tempo, a condição de siamês que nos torna capazes de momentos que beiram o inacreditável (e os exemplos são muitos, as testemunhas também), em 1989, com - o quê? - 17, 18 anos de idade, estava certo de que seu primeiro voto para Presidente da República seria em Mário Covas. Foi assistir ao último debate entre os então candidatos ao cargo, ouvir o emocionado pronunciamento final de Leonel Brizola e mudou o voto. Foi o que lhes contei, quase secamente.
Ontem pela manhã, aturdido com a possibilidade do engano, do equívoco, do deslize biográfico, chamei-o pelo rádio a caminho do trabalho.
Não sei se já lhes contei... Já. Seguramente já. Compramos, eu e o Szegeri, ao mesmíssimo tempo, aparelhos NEXTEL com o intuito de reduzir, drasticamente, nossas despesas com telefonemas diários e intermináveis. Hoje, graças à tecnologia NEXTEL, levamos no bolso a mesinha do bar, o balcão, a cerveja e os copos, e um aperto do botãozinho nos permite diálogos sem o peso do interurbano.
Pois eu o chamei hoje cedo.
Contei-lhe sobre o texto. E sobre a versão que tornei pública.
Ele, empolgado, com a voz embargada lembrando do discurso do velho caudilho, foi enfático:
- Edu... Edu... preciso do início ao fim! Preciso!
Eu, aliviado:
- Verdade?
- Juro.
Fernando Szegeri, um homem que poderia dispensar qualquer jura, eis que não mente, rebaixou-se à condição de um homem qualquer e eu pude ouvir o estalinho dos beijos dados nos indicadores junto à boca durante a confissão:
- Juro, querido! Foi isso mesmo. Mas foi mais dramático...
- Foi? Conta, conta, conta!
- Eu trabalhei, como um mouro, por mais de seis meses, na campanha do Mário Covas. Assisti, como quem assiste a uma final de Copa do Mundo, ao debate final. Quando o Brizola terminou esse discurso, Edu...
Ouvi o homem da barba amazônica fungando. E sem tirar o dedo do botãozinho, não permitindo qualquer intervenção minha.
O motorista do táxi que me levava, sem entender a razão pela qual eu também chorava ouvindo o relato szegeriano, a tudo acompanhava, visivelmente interessado.
Ele continuou:
- ... eu estava sozinho no sofá da sala, e lembro-me bem que estava bebendo um Ovomaltine quente preparado pela minha mãe, àquela altura no banheiro, tomando banho...
Ele não soltava o botãozinho, e eu podia ouvir seus soluços.
- ... quando o Brizola terminou de falar eu chorava violentamente e fui até a porta do banheiro de minha mãe... bati vigorosamente na porta e ela gritou assustada perguntando o que havia acontecido... e eu só consegui dizer, grunhindo... mãe... eu vou votar no Brizola! E votei, querido. Votei no Brizola. Você foi preciso!
Tenho certeza, meus poucos mas fiéis leitores, de que ainda mais preciso depois desse relato.
Até.
Ontem pela manhã, aturdido com a possibilidade do engano, do equívoco, do deslize biográfico, chamei-o pelo rádio a caminho do trabalho.
Não sei se já lhes contei... Já. Seguramente já. Compramos, eu e o Szegeri, ao mesmíssimo tempo, aparelhos NEXTEL com o intuito de reduzir, drasticamente, nossas despesas com telefonemas diários e intermináveis. Hoje, graças à tecnologia NEXTEL, levamos no bolso a mesinha do bar, o balcão, a cerveja e os copos, e um aperto do botãozinho nos permite diálogos sem o peso do interurbano.
Pois eu o chamei hoje cedo.
Contei-lhe sobre o texto. E sobre a versão que tornei pública.
Ele, empolgado, com a voz embargada lembrando do discurso do velho caudilho, foi enfático:
- Edu... Edu... preciso do início ao fim! Preciso!
Eu, aliviado:
- Verdade?
- Juro.
Fernando Szegeri, um homem que poderia dispensar qualquer jura, eis que não mente, rebaixou-se à condição de um homem qualquer e eu pude ouvir o estalinho dos beijos dados nos indicadores junto à boca durante a confissão:
- Juro, querido! Foi isso mesmo. Mas foi mais dramático...
- Foi? Conta, conta, conta!
- Eu trabalhei, como um mouro, por mais de seis meses, na campanha do Mário Covas. Assisti, como quem assiste a uma final de Copa do Mundo, ao debate final. Quando o Brizola terminou esse discurso, Edu...
Ouvi o homem da barba amazônica fungando. E sem tirar o dedo do botãozinho, não permitindo qualquer intervenção minha.
O motorista do táxi que me levava, sem entender a razão pela qual eu também chorava ouvindo o relato szegeriano, a tudo acompanhava, visivelmente interessado.
Ele continuou:
- ... eu estava sozinho no sofá da sala, e lembro-me bem que estava bebendo um Ovomaltine quente preparado pela minha mãe, àquela altura no banheiro, tomando banho...
Ele não soltava o botãozinho, e eu podia ouvir seus soluços.
- ... quando o Brizola terminou de falar eu chorava violentamente e fui até a porta do banheiro de minha mãe... bati vigorosamente na porta e ela gritou assustada perguntando o que havia acontecido... e eu só consegui dizer, grunhindo... mãe... eu vou votar no Brizola! E votei, querido. Votei no Brizola. Você foi preciso!
Tenho certeza, meus poucos mas fiéis leitores, de que ainda mais preciso depois desse relato.
Até.
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