4.7.09

O CORINTHIANS DA LEONOR

Há muitos anos li um texto sobre o Maradona, de autoria do escritor argentino Hernán Casciari, autor também de um excelente blog, o MÁS RESPETO QUE SOY TU MADRE (aqui), encarnando o sentimento de uma mãe argentina pelo craque Diego Armando Maradona. É lindo, e o reproduzo abaixo, devidamente traduzido para o português (tirei o texto traduzido daqui):

"Ao Zacarias, o vi chorar três na vida. Quando lhe disseram que Nacho era menino, quando você meteu o segundo nos ingleses e quando te expulsaram da Copa de 94. Assim que, dê-se conta: graças a você descobri que o meu marido tinha sangue nas veias. Por isso, se ele reza, eu rezo. E não me importa se outra vez há de rezar por você. Nesta casa, quando meu marido diz que há que acender duas velas, acendem-se duas velas.

Você não é o santo de minha devoção, já te disse mil vezes; e sempre te achei uma boa bosta porque você é um fanfarrão, um boca suja. O Zacarias me diz que se eu gostasse de futebol seria outra coisa, que você em campo era algo inominável, de outro mundo, eras capaz de enlouquecer as leis da física e bla bla blá. Mas, por esse lado, ninguém me convence. Sou uma senhora, não entendo e nem quero entender de pelotas. Por outro lado, há outras coisas que, sim, entendo. E por essas coisas rezo as noites. Mas atenção: não é por você. Sabe por que rezo? Porque houve momentos em que não tivemos nada sobre a mesa – e você dava alegria a minha família.

Alfonsín estava fazendo estragos e, graças a Deus, justamente nos caiu do céu uma Copa do Mundo, que ganhaste de ponta a ponta. Para mim foi um inverno horrível, porque somente podia servir caldinho de acelga no almoço e no jantar. Mas se hoje pergunto ao Nacho ou Zacarias do que se recordam daquele inverno, eles falam no seu nome, enchem a boca para falar de você, sorriem... Não se recordam de outra coisa, não têm a menor idéia de que passaram fome.

Do lado de fora, na porta da clínica onde respiras por um tubinho, está cheio de jornalistas estrangeiros tirando fotos de um mundo de gente que acende velas e passa a madrugada recitando o rosário. Às vezes me dá um pouco de vergonha que o resto do mundo creia que somos tão simplórios, tão cabeludos. Mas depois me dá vontade de explicar ao mundo que ninguém reza pelo boca-suja, nem mesmo pelo fanfarrão. Tenho vontade de explicar ao mundo que, das poucas alegrias que tivemos nos últimos anos, quase todas vieram com a sua assinatura.

Como nos custa entrar em acordo em alguma coisa, rirmos ou chorarmos pelas mesmas coisas. Como nos custar cantar “Argentina, Argentina” e, ao mesmo tempo, sentir que nosso peito se estufa. E fazer força pelo mesmo, e querer ser os melhores, e se estrebuchar de raiva.

No dia efedrina sai para a rua e, te juro pelos meus três filhos, pela primeira vez na vida vi todo mundo chorando. As pessoas andavam em silêncio e com o muco escorrendo do nariz. Todo um país murcho e mudo. Que esquisitos somos! – pensei. Mas me senti orgulhosa desse sangue que era meu, porque também chorava e não sabia desde quando.

Se até o Caio, que nunca te viu erguer uma Copa do Mundo, tem um pôster seu no quarto dele – e fala de você como se te houvesse vivido. Se até o Nonno te perdoou por ter mandado à puta que o pariu toda a Itália, ao vivo e a cores. Se, inclusive, o Nacho, que odeia futebol, sabe que você é mais que isso, e te defende... Como não vou rezar para que você se restabeleça?

Dentro de muitos anos, os filhos dos filhos da Sofia viverão em um país muito melhor do que o que temos agora. E ninguém se recordará de que era um fanfarrão e um boca-suja. Os livros escolares dirão de você somente o importante: que aqui uma vez nasceu um mestiço que jogava bola como ninguém, e que era capaz de reerguer um povo triste e deixá-lo louco de alegria, de fazê-lo feliz – inclusive nas épocas mais negras. Para que não morra esse sujeito, rezo."


Lembrei-me disso quando li o texto da Leonor Macedo, AS FIGAS DE PAPAI E O TRICAMPEÃO DA COPA DO BRASIL, em seu blog, o ENEAOTIL, abaixo reproduzido (leia-o, in loco, aqui):

"Nunca fui daquelas de acreditar em simpatias. Passei a vida desafiando a minha mãe que morria de medo de caminhar embaixo de escadas, não faço a menor idéia do que quer dizer o fato de eu ser do signo de Libra e se tivesse um gato certamente ele seria preto, por se tratar da minha cor preferida. Não tenho religião definida, quase nunca rezo pedindo ou agradecendo por alguma coisa e superstição para mim é só uma palavra difícil de dizer.

Acontece que quando se trata do Corinthians, a história muda um pouco de figura. É vela para São Jorge, é sinal da cruz na hora do apito inicial do árbitro. É camisa da sorte, é assistir sempre no mesmo lugar da arquibancada. Mas a minha mandinga preferida, aquela que vence o jogo e que aprendi desde pequenina, são as figas do papai.

Desde pititica vi meu pai, na frente da TV ou no estádio, prendendo os dedões entre os dedos indicadores e médios, e secando cada jogada de ataque dos adversários corinthianos. Bastava um sufoco e lá estava ele, apertando os dedões a ponto de deixá-los roxos. Corinthiano roxo.

Quando me tornei adolescente, rechacei a prática de papai o quanto pude. Dizia que era besteira, que não era possível, que era muita ingenuidade acreditar que aqueles dedões pudessem salvar uma partida, ganhar um campeonato, fazer a gente voltar feliz para casa. Ria dele, me envergonhava toda vez que ele levantava suas mãos para reclamar do árbitro e via seus dedos espremidos, calejados e machucados por conta, na maior parte do tempo, de um futebol mal jogado.

Até que um dia resolvi experimentar, no meio de um sufoco também, na completa falta do que me apegar. Enchi meu coração de fé, apertei meus dedos e ZAZ! Não foi gol do adversário. Nem lembro qual era o adversário, aliás, muito menos a jogada: se foi pênalti agarrado, chute indefensável defendido, se foi um gol evitado com a unha do dedinho do zagueiro, se foi um escorregão do atacante do lado de lá antes do gol de placa. Sei que funcionou.

No começo, fazia minhas figas escondidas para o papai não ver porque ainda era adolescente e não queria dar o braço a torcer. Depois elas se fizeram tantas vezes presente (porque corinthiano sofre, e como sofre!) que escancarei de vez. Hoje elas me atrapalham na hora de bater palmas e cantar junto com a torcida, mas tenho absoluta certeza que elas salvam o Timão.

Não que ontem eu tenha tido muito trabalho em fazê-las lá no Beira-Rio, pelo contrário. Acho que nunca cantei tanto dentro de um estádio e peço desculpas pelo relaxo que renderam os dois gols do Inter. Juro que foram momentos da mais completa distração e descontração, então me esqueci das figas de papai. Mas em outros momentos, como naquela espalmada de Felipe, elas estavam lá no Sul. E estavam em São Paulo também, nas mãos do mestre desta mandinga milenar, que também me ensinou tantas outras coisas nesta vida.

Tenho pensado em me tornar mais supersticiosa. Começar a apertar os dedos todo começo de mês, no dia do pagamento; ou toda vez que a minha chefe me chamar para conversar. A cada pessoa nova que eu conhecer e a cada notícia lida nos jornais. Se faz a gente tão feliz no futebol, se faz a gente derramar tantas lágrimas emocionadas como aquelas nas escadas frias e duras do Beira-Rio, se faz o filho da gente gritar de alegria no telefone depois de ser campeão, se faz um monte de torcedor desafinado se tornar o maior e mais bonito coral do mundo (mesmo estando em esmagadora minoria), então deve funcionar com outras coisas menores também. Por via das dúvidas, eu vou rezar hoje. Para agradecer."


Bonito pra burro, de doer.

Dois textos que misturam a fé e a paixão, ingredientes indissolúveis do esporte bretão.

Até.

2 pitacos:

Olga disse...

Edu, dois textos de doer e de chorar. Uma maravilha!

CRAQUE DA GEMA!!! disse...

O texto do Maradona é realmente muito bonito.