31.8.09

FASCISTAS NA TIJUCA - PARTE II

Eis que depois de ter escrito FASCISTAS NA TIJUCA na noite de sexta-feira, leiam aqui, criticando veementemente um grupelho que se debate odiosamente contra uma mais-que-louvável iniciativa da Secretaria Municipal de Habitação, a de transferir 400 famílias de uma favela na Tijuca para um conjunto habitacional a ser construído numa área abandonada pelo supermercador Carrefour, na rua Conde de Bonfim, na Usina, o Pian, por mim convocado informalmente, manifestou-se. O Pian, de quem guardo aguda distância, digamos, ideológica (o que não impede que travemos debates os mais diversos dentro da maior urbanidade), tem se mostrado um sujeito capaz de vestir, com denodo, a armadura do homem público. E digo "armadura do homem público" pois o homem público é, mais que todos, alvo permanente de tiros, bordunadas, pancadas oriundas de todas as direções, razão pela qual é desejável o uso da armadura. Vamos ao que disse o Pian:

"Se essa discussão fosse na zona sul, a histeria seria bem maior, podem ter certeza. As pessoas querem soluções para os problemas sociais que assolam a cidade e, ao mesmo tempo, não conseguem enxergá-las (principalmente) quando estão diante delas. Um dos desafios mais difíceis de qualquer gestão pública de habitação é a realocação (decente!) de pessoas que perdem suas casas em comunidades por conta de intervenções do poder público. E que se faça um registro rápido: por mais cruéis e desumanos que esses desalojamentos em favelas possam parecer, é importante conter o crescimento de construções irregulares em áreas de proteção ambiental (APA). Importante para o município e para a própria família que ali se instala, já que está mais do que sujeita a deslizes, desabamentos e outros incidentes naturais. Volto. A possibilidade de se conseguir um terreno para a construção de um complexo habitacional é louvável. Deixe que reclamem, deixe que falem. A Tijuca jamais deixará de ser nobre por conta de uma construção desta natureza. Muito pelo contrário. Vou tentar voltar com novidades."

Anseio, pois, pelas novidades que há de nos trazer o Pian, administrador regional da 4a. Região Administrativa e leitor ferrenho do BUTECO. A coisa, meus pouco mas fiéis leitores, é grave e é gravíssima.

Comandado por um cidadão que bradou "quem estão chocados somos nós" (vejam aqui, numa demonstração de equívoco muito além do simples equívoco de concordância verbal) esse grupelho destila ódio contra uma proposta séria e saudável (salubérrima, eu diria) do Secretário Municipal de Habitação, Jorge Bittar.

Peço ao Pian que faça chegar ao Subprefeito da Grande Tijuca, Luiz Gustavo Martins Trotta, e mesmo ao Secretário Municipal de Habitação, Jorge Bittar, o que vem ocorrendo com relação a esse caso.

Com bandeiras-chavões as mais repugnantes (tomem nota!) como "(...) moro exatamente em frente ao Carrefour, da janela da minha sala vejo o interior do mercado e da janela do meu quarto vejo o Morro do Borel (de camarote). Então as duas vistas mais usadas por mim dentro da minha residência vão ter vista pra favela?? Isso é errado, isso não é normal.", "Tá com pena? Leve para morar com você!!", essa gente não há de ter êxito.

Falam mal do bairro (como falam mal do bairro...) simplesmente porque só têm olhos para o próprio umbigo. A Tijuca, suas esquinas e seus bares (tão perseguidos pelo mesmo grupelho), seus bares e sua gente, sua gente mais simples, é infinitamente maior que esse pernicioso conjunto de pessoas que se vale do título GRUPO GRANDE TIJUCA.

Deram agora de mentir a meu respeito dizendo que eu ataquei "pessoalmente membros do grupo de forma grotesca, sem educação, sem respeito". Muitas mentiras, aliás, numa única frase: não conheço nenhum deles pessoalmente (razão pela qual o ataque é fruto da fantasia persecutória típica de fascistas); não agi, conseqüentemente, nem de forma grotesca nem sem educação (não saio de casa sem ela). Agora, respeito, francamente... não tenho NENHUM (com a ênfase szegeriana) respeito por gente dessa laia.

Não passarão!

Até.

ps: todo e qualquer comentário anônimo será ignorado e evidentemente não publicado.

15 comentários:

Zumbi da Saúde disse...

Total falta de sensibilidade. O pior de tudo é que esse tipo de postura encontra eco na sociedade!
"....eles são muitos mas não podem voar...." Não Passarão!

Vanessa Dantas disse...

Triste. Lamentável. Repugnante. Não passarão meu caro, não passarão! Beijo.

Anônimo disse...

Edu,

Esse tipo de elitismo cretino tem que ser duramente criticado, como você faz aqui.

Qualquer pessoa com o mínimo de bom senso sabe que imóveis vazios ou sub-utilizados em áreas bem urbanizadas, com tanta gente precisando de moradia digna, é inconcebível.

Nada mais justo do que instalar as pessoas nessas áreas bem urbanizadas, onde é mais fácil arrumar emprego, onde tem escolas e hospitais públicos perto e transporte coletivo. Esse iniciativa tem que ser, inclusive, multiplicada.

E a observação do Pian também é correta, espero que reflita a disposição do Governo.

Apenas uma pequena observação: É preciso fazer, mas é preciso fazer direito, de forma decente.

Já cansamos de ver Governos chamarem de "conjunto habitacional" locais com péssimas condições de habitabilidade, apenas para criar novos currais eleitorais. Aí fica pior a emenda do que o soneto.

Aqui parece não ser o caso, e se esse não for o caso, quanto mais iniciativas como essa, melhor para todos, inclusive a classe média, pois talvez a convivência com pessoas mais humildes faça com que vivam um pouco menos na redoma que vivem e um pouco mais próximos da realidade.

Marcão

Carlos Andreazza disse...

Edu, acho que alguns comentários anônimos, pela barbaridade que trazem, merecem ser publicados, sim; pois que, mostrando que quem os escreve se envergonha, expõem o que certas mentes não têm coragem de assinar...

Monica Araujo disse...

Eles disseram que não existe segregação (urbana)?! Qual nome se dá quando você se recusa a receber novos moradores na sua vizinhança , por motivos como:

Vista panorâmica e valorização imobiliária ? Ou seja , "Favelados podem se fuder , desde que seja longe de mim, longe dos meus olhos."

Ai de mim aqui de dentro de São Gonçalo, tô ferrada na mão dessa gente!

alexandre disse...

..." Aqui nesta casa ninguem que a sua boa educação, o dia que temos comida, comemos comida com a mão".....Marisa Monte.

Bolada disse...

Meu caríssimo Edu

Infelizmente, esse tipo de atitude, dessa escumalha, não me surpreende.

Esses indíviduos são aqueles que defendem a atuação do BOPE na favela e ficam horrorizados quando este aparato policial chega perto da Avenida Vieira Souto.

São as mesmíssimas pessoas que telefonam para o "criança esperança" e acham que já fizeram sua parte, mas quando a miséria bate a sua porta, ficam horrorizados e indignados.

Chega de hipocrisia!!!! Chega de canhalhas de "bom coração".

Precisamos enfrentar os problemas da desigualdade social, e cobrar das autoridades, atitudes como essa, onde o poder público promova a inclusão, com moradia, educação e saúde para todos, independentemente da classe a que pertence.

Não passarão!!!!!

Fraterno abraço

Bolada (Paulo Klein)

Daniel disse...

Passando os olhos no blog do abaixo assinado a gente fica impressionado com o uso de certas expressões, repetidas como um mantra, que rapidamente identificam um fascista disfarçado: "nós, pessoas de bem" (essa é a que mais me irrita); "se tem pena leva pra casa"; nós, que pagamos nossos impostos"; "bandidagem"; "vagabundos"; "ordem" etc.
Essa gente se incomoda mais, por exemplo, em ver um mendigo transitando e pedindo esmola no seu bairro do que saber que existem pessoas tão miseráveis. Ficam indignadas por serem obrigadas a passar por alguém que mora na rua, enfeiando seu cotidiano, ao invés de se revoltarem por saber que essa pessoa não tem um teto onde morar. Eles sentem pena de longe, asco de perto.
Por isso, sou a favor da segregação: que se contruam ilhas artificiais, impecáveis, sem lixo, sem "desordem", sem bêbados, sem vagabundos, sem som alto depois da 10 da noite, só pra esse povo morar. Deixem a bagunça pra gente.

Márcia Fernandes disse...

Como dizia uma amiga, S. Paulo é o "epicentro da porrada". Tive a oportunidade de acompanhar, ao vivo, a "reintegração de posse" do Parque do Povo, localizado ao lado da tão famosa Daslu,no Itaim Bibi. Bairro nojento, racista, fascista, neo-liberal onde pululam loiras e pudles.O Parque do Povo, hoje, é o banheiro dos cachorrinhos,o lazer dos ciclistas equipados com tudo o que existe de grife. Que povo, katsu! Recentemente a Folha de S.Paulo, um jornal tão canalha quanto O Globo, publicou as fotos de outra ação desse tipo no Capão Redondo, bairro não "tão nobre" quanto o Itaim.As legendas diziam que os moradores reagiram com violência e atearam fogo na favela. As fotos mostravam o contrário: a polícia espancando e atirando. Se escrevo aqui sobre S.Paulo, apesar do seu blog propor a crônica do Rio,é porque não vejo entre os meus patrícios da classe média nenhuma reação e comentário sobre essa violência. Parece que se acostumaram ou se esconderam no fundo de sua impotência.Normalizou, uns se fodem, outros se dão bem, e assim os paulistanos vestem e dispersam sua dignidade de cinza, bem ao gosto e sabor da paisagem.Tomara que o Rio mantenha suas côres.

Eduardo Goldenberg disse...

Zumbi e Vanessa: é isso, não passarão! Ainda que o projeto não saia do papel, essa gente não terá êxito. Abraço e beijo, pela ordem.

Marcão: você, advogado maiúsculo que advoga em prol dos que mais precisam, está coberto de razão. Obrigado por seu apoio, que sei ser incondicional. Forte abraço.

Andreazza: pensarei seriamente em publicar o comentário anônimo e abjeto que recebi do covarde, que você já teve o desprazer de ler. Não passarão! Abraço.

Monica: são todos, querida, uns pobres coitados na mais ampla acepção da palavra. Beijo.

Bolada: seja bem chegado, meu chapa! Você, que também advoga maiusculamente, é fundamental para fazer cair a máscara suja da canalha. Puta abraço.

Daniel: a canalha repete, há 500 anos, as mesmas frases, os mesmos mantras, são o que há de pior - você bem sabe. E é isso... deixem a bagunça pra nós! Abraço.

Márcia Fernandes: tomara mesmo que o Rio mantenha suas cores. Estamos aqui pra isso. Beijo.

Vanessa disse...

“... moro exatamente em frente ao Carrefour, da janela da minha sala vejo o interior do mercado e da janela do meu quarto vejo o Morro do Borel (de camarote). Então as duas vistas mais usadas por mim dentro da minha residência vão ter vista pra favela?? Isso é errado, isso não é normal.”
Isso é um trecho do q escrevi no abaixo assinado, e estão usando isso de uma forma absolutamente errada, pq quando escrevi não quis de forma alguma ofender nem agredir ninguém, muito menos ser preconceituosa. Refiro-me ao medo q tenho de BALA PERDIDA... Ao medo de q o lugar onde nasci e q tanto amo se torne um lugar onde ninguém queira passar.
Fico realmente amedrontada de ter mais um lugar na minha casa além do meu quarto q possa ser atingido por uma bala de fuzil. Já basta o meu quarto.
Vou repetir: ONDE VCS MORAM??
Acho q não estamos falando do mesmo lugar, ou então vcs não moram aqui e não sabem o q realmente ocorre aqui na rua...
Genteee acorda... Meu vizinho, um senhor aposentado levou um tiro de fuzil no peito dentro de casa!!!
Vou citar só o mais recente perrengue q passei aqui, e isso, não pensem vcs q é de vez em quando não, é mais comum do q vcs possam imaginar.
Esses dias fui à padaria q fica exatamente na favela Indiana e tinha um grupo de pessoas fica o ponto final das van, a polícia passou de carro e eles atiraram contra a polícia e a polícia por si revidou (ñ era nem 9 da noite), fiquei presa na padaria, não só eu como diversas pessoas (moradores e transeuntes), foi um pânico geral, os carros de desciam a Conde de Bonfim sentido Pça Saens Peña voltavam na contra mão, as pessoas todas correndo para tentar se abrigar em qualquer lugar q saísse da linha de fogo e sabe pq? Pq era TIRO... Tiro de verdade, tiro q mata e fere pessoas inocentes, tiros de fuzil e de pistola. Então aproveitei quando os polícias desceram a Indiana para atravessar correndo a rua e voltar casa, e graças a Deus pelo menos dessa vez sã e salva.
Como já disse no outro tópico, quem vai me garantir q se esse Conjunto realmente existir isso não vai piorar??
Não sou contra a melhoria na vida dessas pessoas, até pq tenho uma centena de amigos e conhecidos e q são pessoas do bem e q moram tanto na Indiana como no Borel. Só acho q o nosso Secretário de Habitação Jorge Botar deveria pensar melhor nesse assunto, talvez desenvolver um melhor estudo da situação, e principalmente tentar acabar com esse cenário de guerra q vivemos aqui.
Espero do fundo do coração q vcs consigam entender a minha posição.

Obrigado,

Vanessa Silva.

Eduardo Goldenberg disse...

Vanessa Silva: por partes, se a senhora me permite.

“Então as duas vistas mais usadas por mim dentro da minha residência vão ter vista pra favela?? Isso é errado, isso não é normal.” - foi o que a senhora escreveu.

Primeiro: não se pretende que o eventual conjunto habitacional na rua Conde de Bonfim seja (ou se transforme em) o que a senhora chama de favela ("conjunto de habitações populares que utilizam materiais improvisados em sua construção tosca", apud Houaiss).

Quanto ao seu medo, seja franca: o poder público não pode se preocupar com o seu medo.

Medo de bala perdida qualquer pessoa no mundo tem. E morre-se, no Rio de Janeiro - para ficarmos em casa - no centro da cidade, em Copacabana, na Tijuca, no Estácio...

O medo aprisiona.

Eu moro na Tijuca, senhora - e lhe respondo apenas para ser gentil, quero crer que a senhora não esteja querendo meu endereço completo. E moro (como todos os cariocas) cercado de morros e de favelas, fruto da geografia da cidade e do descaso das autoridades - que não convém, ao menos por ora, discutir. Isso não me incomoda, sinceramente.

Seu vizinho levou um tiro de fuzil no peito dentro de casa?

A senhora sabe quantas pessoas morrem por dia por disparos de arma de fogo? A senhora sabe quantas pessoas morrem por dia por conta da ladroagem dos homens públicos (que, pelo visto, não dão medo na senhora). A senhora sabe que isso foi uma fatalidade?

Para terminar... Não é papel do Secretário de Habitação, Jorge Bittar (se "Botar" foi uma ironia pensada, não captei!), "tentar acabar com esse cenário de guerra. O papel dele, ao menos no que diz respeito à presente proposta, está sendo cumprido.

Eu entendo, sim, sua posição. Lamento por seus medos, e volto a lhe dizer que o medo paralisa.

Um abraço.

Vanessa disse...

Muito obrigado Edu por estar sendo gentil comigo, e se me permite, não sou senhora e sim senhorita, rs.
E infelizmente pensei numa coisa e escrevi outra, não é a vista q me deixa com medo ou nada desse tipo e sim o pavor q tenho de tiro. E eu sei q ninguém pode se preocupar com o meu medo. Tbm não quero seu endereço né... rs...
E pensando por outro lado vc tem totalmente razão sobre o Bittar (e não foi ironia não, escrevi errado mesmo), pelo menos ele está tentando cumprir com o papel dele dentro da função q ele ocupa.
Como já disse num outro post, não quero agredir ninguém, muito menos ofender.
Estou tirando muito proveito de toda essa nossa discussão, e acho legal vc me deixar vir aqui e tentar expressar a minha opinião (embora ache q ainda falte muito para conseguir expressar tão bem o q penso como vc), mais enfim concordo em alguns aspectos com vc, mais ainda não estou convencida q essa será a melhor saída.

Abçs,

Vanessa.

Fábio disse...

O dia em que o povo perceber que a causa de sua miséria é exatamente o que mantém o padrão de vida fútil dessa escumalha, segura, hein. Vai ter reviravolta, a senzala vai com tudo pra dentro da casa grande, aí não vai ter como; mas armada com livros e cadernos, assaltando o espaço antes destinado aos filhos dos filhos dos filhos dos netos dos verdadeiros "invasores" (que é o termo que a nossa classe mérdia adora utilizar): os bandeirantes, os catequizadores,contratadores e afins...
E esse dia há de chegar.
Abração

Fábio (Campinas-SP)

Márcia Fernandes disse...

Continuo lendo e relendo: Raízes do Brasil.E esses galhos que não apodrecem, e esses frutos envenenados...