18.9.09

CARTA ABERTA AO PREFEITO EDUARDO PAES

Recebi, no começo do mês de setembro, convite do jornal O ESTADO DE SÃO PAULO. Uma repórter do caderno ALIÁS, responsável pela seção CARTA ABERTA, pediu-me (e pela terceira vez, eu já escrevera outras duas cartas noutras ocasiões) uma carta endereçada a quem eu quisesse (e eu quis me dirigir ao prefeito do Rio, Eduardo Paes) sobre o recente (e polêmico) recadastramento dos ambulantes das praias cariocas, promovido pela Prefeitura. Pelos termos do edital publicado regulamentando o recadastramento, a prática da cozinha à beira-mar passou a ser proibida. O que significa dizer que espetinhos, queijo coalho e camarão não poderão ser mais vendidos nas praias cariocas. O tal "choque de ordem" na orla carioca.

Topei na hora.

E escrevi a carta em menos de uma hora.

Não foi publicada (como eu, confesso, imaginava).

O argumento da repórter foi o seguinte, em apertada síntese: protestos na favela Heliópolis foram o assunto forte daquela semana em SP, o que obrigou o jornal a alterar a pauta da seção. Além disso - disse-me ela - sairia publicada, no mesmo dia, uma grande matéria sobre o funk, que retrata, de uma certa forma, o Rio de Janeiro (tudo dito pela repórter).

Fechou assim seu e-mail:

"Agora já sei que se o assunto é Rio, você é o carioca de plantão para consultar. Nos falamos em breve. Muito obrigada pelo texto."

Tá bom...

Eis a carta não publicada pelo jornal. A razão pela qual não saiu, franca e sinceramente, é o que menos interessa. Pela minha pouquíssima experiência, tenho todos os motivos para acreditar que a razão foi outra. Foi a veemência, a objetividade (e a ausência de rodeios), a indignação sem disfarce (tão utilizado pelos covardes), presentes - me perdoem o que pode parecer falta de modéstia - em tudo o que escrevo e falo (por que, então, me pedem esses troços?). Vamos à carta:

"Prefeito Eduardo Paes: estudei contigo (permita-me a intimidade, sou carioca da gema) e de certa forma gosto de saber que há um contemporâneo meu na prefeitura da cidade que amo. Dirijo-me a ti para pedir, para implorar (conjugue o verbo que mais te sensibiliza), um troço bem simples. Já dobraste teu joelho à FIFA, impondo restrições absurdas ao torcedor que frequenta o Maracanã enquanto os poderosos enchem a cara nos camarotes, por exemplo. Já dobraste teu joelho à LIESA, lançando uma licitação cuja vencedora todos sabemos qual será (a própria LIESA, por óbvio, que tu não serás bobo de contrariar os interesses dos capitães de lá). Soube há pouco, estarrecido, que dobrarás agora teu joelho (a quem, meu Deus, a quem?) estuprando uma das mais bacanas formas de viver o Rio de Janeiro: na praia, lata de cerveja na mão (ainda se pode beber na praia...), mar à frente, mas sem o queijo coalho de todo final de semana, sem o camarão no espeto, tudo isso em nome de uma higiene e de uma uniformização que nos desumaniza a todos. Teu choque de ordem, colega, é abjeto – permita-me te dizer. Os soldados da prefeitura partem, covardes, pra cima dos mais fracos, como sempre – tu te lembras de discussões nossas no Pilotis da PUC sobre isso? –, nossos mais caros e comezinhos hábitos ficam proibidos e a bandalheira que nos revolta a todos, em todas as esferas e em todas as direções, continua sendo feita por aqueles que não sofrem sequer espectro de choque eis que desconhecem qualquer ordem que deles não parta. Até mesmo porque, não é, Prefeito, quem vai ter coragem de enfrentá-los? O PSOL no Buraco do Lume? Não me faça rir. É preciso agir em prol do interesse coletivo. E refiro-me à coletividade que te elegeu, não à coletividade que, ao menos aparentemente, te dá ordens. Fraternalmente."

Até.

4 comentários:

Diego Moreira disse...

Pau na canalha! Não passarão!

Andrea disse...

Mesmo quando não estou com fome eu como queijo coalho na praia. E bebo cerveja de latinha. Praia para mim sem isso não é praia. Por outro lado fazem alguns meses (vixi, quase 1 ano e daí para frente a conta fica mais simples né? 1 e 2 e 3 ... anos). A última vez em que fui a praia esse ano me deram, junto com a latinha, um guardanapo. Eu compro cigarro na banca de jornal e aproveito para levar uma coca. Quer um canudinho? Eu sempre tomei direto. Mas agora tomo coca de canudinho para ficar longe dos germes.

Desculpe Edu, fugi totalmente do seu assunto. Mas fiz o comentário a partir do meu ponto de vista ignorante. Nem sempre alcanço. Mas voto pela continuidade do queijo coalho, da cerveja e você esqueceu do cigarro. Abraços.

Bruno Ribeiro disse...

Querido, chega a ser comovente a paciência que você tem com os jornalistas que te procuram... Beijo!

CRAQUE DA GEMA!!! disse...

Será que não vão publicar em ocasião futura?

R.Pian