28.9.09

PRECONCEITO EM ESTADO BRUTO

Eu mostrei (e provei - vício saudável da profissão que exerço) há semanas e durante semanas que o preconceito mais rasteiro e odioso era o que movia (e é o que move) o movimento (a repetição é de propósito) contrário à iniciativa da Secretaria Municipal de Habitação de construir, na Conde de Bonfim, um conjunto habitacional para 400 famílias. A idéia nobilíssima foi (e ainda é) repudiada pela mais classe média da Tijuca, relembrem lendo isso aqui, isso aqui, isso aqui, isso aqui, isso aqui, isso aqui, isso aqui, isso aqui e isso aqui.

Li, no domingo pela manhã, o texto (mal escrito, diga-se) intitulado VIOLÊNCIA INSTAURADA publicado no blog CITY TOUR DA DESORDEM URBANA mantido pelo grupelho GRUPO GRANDE TIJUCA.

O texto é um horror e um ignóbil manifesto preconceituoso. Não darei ao grupelho o prazer da promoção de sua iniciativa, e não indicarei, aqui, o link do mesmo, assinado por Leonardo, assim mesmo, sem sobrenome. No instante em que terminei de ler, postei lá um comentário pedindo o sobrenome do autor do texto, dizendo que escreveria sobre o que lera, preferindo fazê-lo sabendo a quem me referiria.

Não apenas o comentário foi excluído do texto como o nome "Leonardo" foi suprimido do final do texto. Qualquer semelhança com covardia não é, definitivamente, coincidência. Fiquem com apenas um trecho - um dentre tantos trechos nodoados pelo preconceito mais odioso - do manifesto:

"A preocupação do governo é pintar, colocar teleférico e WIFI para as favelas, mas esquecem que se temos hoje 1.000 favelas, temos pelo menos 5 mil bandidos."

Que tal?

Até.

PS: a notícia me chega de Campinas, enviada por esse grande brasileiro que é o Bruno Ribeiro, e a notícia me chega dando conta de um grande gesto que parte justamente da família de Ana Cristina Garrido, feita refém, na semana passada, por Sérgio Ferreira Pinto, um rapaz que acabou sendo morto pela polícia depois de uma bem sucedida ação que terminou por salvaguardar a vida da vítima do assaltante. O professor José Garrido, marido de Ana, em entrevista ao jornal EXTRA - link da matéria aqui - deu uma declaração que, seguramente, envergonhará o grupelho a que me refiro acima. Vamos a ela:

- A minha esposa foi vítima, dentro da nossa concepção. Mas aquele rapaz também foi vítima, ele foi levado à deliquência por conta do nosso modelo de sociedade. Acho que este rapaz é o resultado do desamor, de uma sociedade deturpada, equivocada, com políticos corruptos. O sustentáculo daquele garoto era a avó. Depois da morte dela a família se rompeu - disse ele, agradecendo o fato da mulher ainda estar viva.

Daqui, do balcão virtual do BUTECO, minha mais comovida homenagem a ele.

5 comentários:

Diego Moreira disse...

Nojo do grupelho e orgulho do professor.

Abraços!

Olga disse...

Edu, a Ana Cristina Garrido, se não me engano, em entrevista ao Jornal Nacional, falou que a falta de um projeto sério para a Educação, seria uma das causas para tamanha violência. Que lucidez! Enquanto muitos esperavam aquele ramerrame costumeiro e desumano, ela surpreende com um tremendo senso de justiça e de desprendimento. Bonita família!

CRAQUE DA GEMA!!! disse...

Família é tudo. E o Sr. Garrido foi muito feliz.

Bruno Ribeiro disse...

Aposto que Ana Cristina e seu marido não serão capa da Veja.

Marcelo Peixoto disse...

LUCIDEZ ADMIRÁVEL da Ana Cristina e seu marido. Infelizmente, ainda são minoria.
A canalha é poderosa. A luta é grande!
Abraços.