17.10.09

HÁ TRÊS ANOS, NO BUTECO...

Meus poucos mas fiéis leitores hão de saber que falo a verdade. Mantive-me, durante toda a campanha eleitoral, em rigoroso silêncio sobre o assunto. A ducha de água fria que a sucessão de decepções provocou ao longo dos quatro anos de governo Lula esfriou, de fato, o desejo de vestir, por aí, camisas de qualquer cor, bandeiras de qualquer partido, e foi em silêncio, comovidíssimo, que votei no dia primeiro de outubro de 2006 em João Sampaio para Deputado Estadual, em Miro Teixeira para Deputado Federal, em Milton Temer para Governador, em Jandira Feghali para o Senado Federal e em Lula para Presidente da República.

Estamos, agora, a pouco menos de quinze dias da eleição para o segundo turno. Concorrem Lula e Geraldo Alckmin, que vai sem o negrito, que ele não merece. Por mais que alguns insatisfeitos defendam o voto nulo ou o voto em branco - lamentável caso da Senadora Heloísa Helena - é fato que o Senhor Nulo e o Doutor Branco jamais ocuparão o cargo de Chefe do Poder Executivo. O segundo turno tem inúmeras vantagens - e mesmo tendo votado em Lula, confesso que achei ideal essa segunda etapa da eleição presidencial, que veio como a materialização de um gesto simbólico de não entregar carta branca ao atual Presidente da República - e dentre elas a que eu julgo a principal: pôr, frente a frente, como as duas únicas opções, os preferidos do eleitorado.

E são eles o Lula e o Alckmin, esse último um fantoche nas mãos podres de FHC (também sem o negrito). Lula e seu projeto para o Brasil, Alckmin e seu projeto para o Brasil. E eles são - os projetos - tão diferentes, tão díspares, que eu considero, particularmente, uma covardia mais-que-reprovável essa confortável postura que põe, os dois, na mesma caçamba. Mas não vou tomar-lhes mais tempo, até mesmo porque eu não me sinto capaz de racionalizar meu voto e, conseqüentemente, convencer "a" ou "b" de que a minha escolha é que é a certa. Como em tudo na vida, decido meu voto por paixão, se bem que devo lhes dizer que tenho, sim, sempre, minhas razões para tomar essa ou aquela direção. O que quero hoje, mesmo, é dar espaço - ainda que modestíssimo, e desde já peço aos amigos que espalhem esse link na medida do possível - a um episódio que aconteceu na madrugada de segunda-feira no Jobi, no Leblon. Aliás, não poderia ser em outro lugar. Quando eu bato - e não bato pouco - no Jobi, no Leblon, se não estou querendo com isso generalizar, afinal tenho amigos queridos morando por lá, estou querendo dizer que são, o Jobi e o Leblon, ninhos de pernósticos da pior espécie, fascistas asquerosos que merecem meu mais profundo desprezo.

Estranhamente - ou nem tão estranhamente assim, afinal nossa imprensa é vendida, salvo raríssimas exceções - ninguém deu a notícia. Uma modesta e mínima nota consta da coluna de Ancelmo Gois, n´O GLOBO de hoje, com o título "Canibalismo", dando conta da barbaridade que cresce, de forma assustadora, Brasil afora.

Leiam aqui, no Vermelho Online, site que eu já recomendo há anos, a íntegra da matéria cujos trechos transcrevo:

"Dois episódios de violência urbana motivada por razões políticas acrescentaram um ingrediente novo e preocupante à disputa eleitoral de 2006.

Um dos episódios ocorreu na madrugada desta segunda-feira, no bairro do Leblon, Rio de Janeiro, onde quatro militantes petistas foram espancados por uma turma de cerca de dez pessoas que se identificaram como apoiadores do candidato à presidência, Geraldo Alckmin.

A fúria foi tanta que uma das agressoras - não conseguindo acertar os olhos da publicitária Danielle Correia Tristão - arrancou-lhe um dedo à base de dentadas. ''Segundo um médico do Hospital São Lucas, a mordida foi muito violenta e decepou até o osso'', relatou o marido de Danielle, Juarez Brito de Vasconcellos, ao site do PT. ''O médico disse que só em casos de mordida de pittbull tinha visto coisa parecida.''

Principal vítima do ataque, Danielle teve de amputar parcialmente o dedo anular da mão esquerda. Ela e o marido fizeram boletim de ocorrência, acionaram um advogado e programaram exame de corpo de delito. Dois amigos do casal o acompanhavam, sendo também alvos de hostilidades e agressões.

(...)

Depois de participarem de uma caminhada da campanha Lula pela manhã e de irem à tarde para a praia, Jurez e Danielle encontraram os amigos e se dirigiram ao bar Jobi. O casal vestia uma camiseta com a inscrição ''Lula, Sim!'' - o que fez cerca de dez apoiadores de Alckmin começarem a xingar e destilar ódio, tentando impedi-los de permanecer no estabelecimento.

Quando se sentaram, os petistas sofreram mais ameaças e provocações. ''Eles atiravam bolinhas de papel e nos chamavam de ladrões, de corruptos, de bandidos, de filhos da puta. Impressionante o ódio que saía dos olhos daquelas pessoas'', comenta Juarez. Sentindo o clima anunciado de terror, eles decidiram antecipar a conta e deixar o bar à 1 hora da madrugada. ''Tinha um senhor de uns 60 anos que ameaçava jogar um prato em cima da gente. Eles iam linchar a gente.''

Próxima à porta, porém, uma das agressoras pegou um adesivo de Alckmin e o esfregou no rosto de Danielle. Outra mulher atirou para longe o chapéu de palha usado pela petista. O grupo tentou correr até o carro, mas as agressões se multiplicaram, como relata Juarez: ''De repente, alguém me jogou no chão. Vieram outras pessoas. Foi uma grande confusão. Quando consegui me desvencilhar, já tinha sangue para todo lado''.

(...)

Outro episódio, igualmente chocante, ocorreu no domingo em João Pessoa, na Paraíba. Desta vez o jornal local, Correio da Paraíba, registrou o episódio.

Segundo o jornal, o técnico em eletrônica Tibério Modesto, de 21 anos, militante do PMDB, foi agredido a socos e pontapés, teve o aparelho celular roubado e o parabrisa do carro quebrado durante carreata do PSDB realizada na tarde de domingo (15), no bairro de Mangabeira. A esposa do Tibério, Fânela Peres, e sua filha, de apenas nove meses de idade, também foram agredidos. O bebê ficou com hematomas em um dos braços que, segundo ele, foram causados pelos participantes da carreata.

(...)

A causa do vandalismo, de acordo com Tibério, foram adesivos do candidato José Maranhão e do presidente Lula que estavam afixados em seu carro. O militante peemedebista contou que vinha da praia com a família e pretendia visitar um primo que mora em Mangabeira."

Isso é que eu acho, sinceramente, comovente, se pensarmos grande.

De um lado - e não me acusem de valer-me de discurso ultrapassado, porque isso nunca vai acabar - a elite rancorosa, a direita raivosa, a escumalha, detrito de séculos de poder concentrado nas mãos dos que não admitem o novo, os preconceituosos que, babando de um ódio incomensurável, lançam em direção ao Presidente da República e candidato à reeleição que não tarda, os mais putrefatos dedos acusando-o de não ter estudado, de não ter berço, de não ter um dedo, o que seria - disse-me uma porca um dia desses - fruto de sua desatenção na fábrica em que trabalhava: eles são os eleitores de Geraldo Alckmin.

Lula em campanha em 2006

De outro lado, diz bem o slogan da campanha de Lula, o povo.

Por isso anseio pela chegada do dia da eleição.

Para que, de novo, e dessa vez com mais orgulho, com forte convicção, eu possa cravar o 13 na urna eletrônica, chorando mais uma vez, provavelmente, gritando por dentro: "Lula de novo, com a força do povo".

É isso, definitivamente é isso, o que eu quero.

Porque eu não tenho a menor dúvida - a mais pálida - de que é o melhor para o Brasil.

Lula em campanha em 2006

Até.

PS: ah, sim. A título de curiosidade, vasculhem depois alguns blogs, de uns fanáticos anti-Lula (não conheço um único cidadão que goste do Alckmin), e vejam se eles fazem mínima menção ao lamentável episódio tipicamente fascista, perigosíssimo, parte, apenas, de um movimento ainda mais perigoso e negro que pretende tornar a reeleição de Lula ilegítima, apenas e tão-somente porque essa gentalha que arquiteta esse movimento não tolera o que vem do povo. Não custa vasculhar. Assim, vamos sabendo, nitidamente - eis a beleza de um segundo turno - quem é quem.

7 comentários:

Claudio Renato disse...

MUITÍSSIMO BEM, EDU!

É LULA DE NOVO!!!!!

José disse...

Edu, e eles vão ter de aturar o terceiro mandato (com Dilma) e depois mais DOIS com o retorno do Lula. Por isso essas próximas eleições serão cruciais para o prosseguimento do novo rumo que o Brasil está tomando. Mas CUIDADO, a imprensa canalha jogará pesadíssimo, tentando evitar mais DOZE anos de LULISMO. Saudações tijucanas e flamenguistas (acho que amanhã jantaremos pernil). Abraços.

Bruno Ribeiro disse...

Recordar estes episódios me embrulha o estômago e me faz ter convicção em uma coisa: é Dilma em 2010 e Lula de novo em 2014.

André disse...

É isso aí, Edu! Minha mãe mora no Leblon e, quando vou ao Rio, é lá que bebo meu chope (se bem que, seguindo seus conselhos, fui almoçar com meu filho que estuda direito na UERJ no Salete e, realmente, é ótimo!). O convívio com esse pessoal que acha que está acima dos "cidadãos de segunda classe" é realmente insuportável. E quanto ao Alckmin, o que você escreveu está corretíssimo: ninguém é nem nunca foi Alckmin, terceirão para prefeito de SP!! Na minha última ida ao Rio, sábado após a escolha da cidade como sede olímpica, fui caminhando até Copacabana pela praia. Ao passar por duas mulheres não pude deixar de ouvir (infelizmente) o sábio comentário:"Isso já estava marcado! Onde já se viu escolher o Rio, esse horror, no lugar de Madri, uma cidade de primeiro mundo (expressão muito querida por esse tipo de classe média babaca)". Como você vê, esse pessoal procura mudar os fatos quando esses vão contra a sua opinião!
Um abraço e desculpas pelo comentário um pouco mais longo (sabe como são os debates políticos nos butecos...).

Cazé disse...

Essa gente tinha que ter a dignidade do velho caudilho, quando disse, pelo bem da democracia, que ia engolir o "sapo barbudo".
Você disse tudo, sobre o Jobi e a escumalha...
Abraços.

Daniel Banho disse...

Isso me lembra a época que eu estagiava num grande escritório de advocacia aqui no Rio.
Nesse período de eleição não tinha um dia que os alunos da PUC (tento não generalizar mas é difícil) - todos moradores da Zona Sul - que lá estagiavam, não circulavam emails contra o Lula.
Sempre os mesmos argumentos, que foram muito bem resumidos por você como falta de berço.
É impressionante o inconformismo dessa gente com o fato de um brasileiro (com cara de brasileiro, com jeito de brasileiro) estar na Presidência da República; o pavor que eles têm de ver o povo representado no poder.
Nossa classe média, realmente, é triste.
Abraços!

Andrea disse...

Edu, eu tenho empregada. Desculpe ai, mas secretária eu ainda não acostumei a falar. Parece coisa meio arrogante, não faço por mal, faço por bem. Na verdade eu, quando tenho que me referir a ela, fala "a menina que fica lá em casa". Acho super estranho falar secretária.

E ela é muito humildes mesmo. Eu fico puta pra ser sincera. Eu pago tudo e mais um pouco. Isso não é mentira, nem historia pra boi dormir. Mas fico puta Edu. Eu paguei as férias. Dai, um dia chegou aqui, voltando das ferias e e perguntou "luiza, eu tô pra te falar ai ai.. então sabe, então... você vai me pagar?". "Como assim?. Eu te paguei tudo certo.".

Dai tu pensa. Não tem o que comer e etc e tal. Tem. Tem um monte de filhos etc e tal. Não. Tem uma filha que volta e meia vem pra cá e faz cara de zangada porque não conseguiu comprar melissa. Isso mesmo. MELISSA. Ah, me desculpe, mas coloquei em maiusculo mesmo. De 70 reais pra cima.

Dai, eu fico puta mesmo quando ela vira pra mim e eu penso "caralho, faltou educação".". Porque resumindo, eu trabalho ali direto com "vai pra cá, ali tem vaga e corre que eles estão precisando e dai que eu gosto mesmo de ajudar e tudo bem.". E eu queria mesmo, desde quando comecei, ficar ali na "boca do caixa.".

Mas dai, esse dia, quando ela chegou e vi que não era maldade, era falta de conhecimento mesmo. Fiquei tão puta, não com ela, mas comigo e tudo o mais. Meti na cabeça que eu tenho que ao menos fazer ela entender algumas coisas. Como por exemplo, saber o que é tirar férias. Não porque a gente ten que descansar e ferias a gente tem que ficar de pernas pro ar e etc e tal. Fazer entender que tem direitos e deveres e que o dinheiro é dela. E que não adianta ficar me pedindo porque eu tô de saco cheio e não nasci pra se papai noel. Estudar. Eu acho que ela precisa estudar. E daqui pra frente eu quero cobrar isso dos meus governantes.