4.11.09

DO PORTO AO BOTEQUIM - UM CHAMADO AO BOM COMBATE

Meu mano Luiz Antonio Simas, que mantém o blog mais bacana do Brasil, o HISTÓRIAS BRASILEIRAS, me fez chorar, agora pela manhã, de uma emoção que só compreende aquele que ama a terra em que vive, o povo com o qual convive, as ruas por onde anda, os butecos nos quais se embriaga dessa paixão que é incompreensível para aquele que, em aguda oposição a isso, tem nojo da terra, do povo, da rua e do buteco. Com o texto DO PORTO AO BOTEQUIM - UM CHAMADO AO BOM COMBATE (que pode ser lido na íntegra aqui), o bardo morador da Tijuca (mais precisamente do Maracanã), visivelmente comovido (posso apostar que ele molhou o teclado enquanto escrevia), disse algumas verdades que faço questão de reproduzir:

"Ando cabreiro com algumas coisas que estão acontecendo nas ruas cariocas. Aqui perto de casa, por exemplo, as notícias não são das melhores. Um botequim que costumo frequentar, o Bar do Chico, inventou uma reforma meio mandrake, que incluiu pizza no cardápio, visual moderninho, garçom de gravata e, é claro, aumento dos preços dos produtos. Botequim, já não é mais. Periga virar um playground de bêbados com rodízio de pizza depois das seis da tarde. (...). A Lapa, por sua vez, agoniza. Virou valhacouto de adultescentes, simulacro de berço do samba, com bares que vendem bebidas por preços proibitivos e que visualmente lembram a lanchonete da entrada do Memorial do Carmo, no cemitério vertical do Caju - um lugar mais digno para se beber, diga-se. O Nova Capela [cada vez mais Nova e menos Capela] hoje é atração turística para uns basbaques que encaram uma ida ao velho bar como uma espécie de safari no Quênia e saem dizendo que foi uma experiência inesquecível. O Bar Brasil resiste com bravura, mas até quando? (...). Como estou encafifado com esses troços, reli dia desses um arrazoado que escrevi faz tempo sobre a agonia dos nossos botequins de fé e a necessidade quase quixotesca de se lutar pela preservação de um certo modo de vivenciar a cidade e o bar. São aquelas reflexões que, em boa parte, retomo nesse texto. Faço isso porque esse combate me parece mais urgente do que nunca. (...). Vivemos, e isso não é novidade alguma, tempos de uniformização dos costumes, fruto deste tal de mundo globalizado. Em cada canto desse mundaréu, ligado por redes transnacionais de telecomunicações, as pessoas assistem aos mesmos filmes, utilizam as mesmas roupas, ouvem as mesmas músicas, falam o mesmo idioma, cultuam os mesmos ídolos e se comunicam em cento e quarenta toques virtuais. Nessa espécie de culto profano, em que a vida cotidiana é regida pelos rituais em louvor ao mercado que não é o de Madureira, o bicho pega e as ideias morrem, como outro dia morreu de morte matada o acento em ideia, sem choro nem vela e sem a dignidade de um samba do Noel. (...). Ocorre que essa valorização extremada do tempo presente é acompanhada pela morte das utopias coletivas de projeção do futuro. Não há mais futuro a ser planejado. Somos guiados pelos ritos do mercado e abandonamos o mundo do pensamento, onde se projetam perspectivas e são moldadas as diferenças. Restam hoje, talvez, duas tristes utopias individuais, em meio ao fracasso dos sonhos coletivos - a de que seremos capazes de consumir o produto tal, cheio de salamaleques, e a de que poderemos ter o corpo perfeito. Transformam-se , nesse tempos depressivos, os shoppings centers e as acadêmias de ginástica nos espaços de exercício dessas utopias tortas, onde podemos comprar produtos e moldar o corpo aos padrões da cultura contemporânea - o corpo-máquina dos atletas ou o corpo-esquálido das modelos. É a procura da felicidade que não tem, como na esquecida e sábia canção natalina. E tome de caixinhas de Prozac no sapatinho na janela. É aí, e eu queria falar disso desde o início, que localizo na minha cidade de São Sebastião o espaço de resistência a esses padrões uniformes do mundo global - o botequim. Ele, o velho buteco, o pé-sujo, é a ágora carioca. O botequim é o país onde não há grifes, não há o corpo-máquina, o corpo-em-si-mesmo, a vitrine, o mercado pairando como um deus a exigir que se cumpram seus rituais. O buteco é a casa do mau gosto, do disforme, do arroto, da barriga indecente, da grosseria, do afeto, da gentileza, da proximidade, do debate, da exposição das fraquezas, da dor de corno, da festa do novo amor, da comemoração do gol, do exercício, enfim, de uma forma de cidadania muito peculiar. É a República de fato dos homens comuns - cenário não habitado pelos personagens de novelas do Manoel Carlos. É nessa perspectiva que vejo a luta pela preservação da cultura do buteco como algo com uma dimensão muito mais ampla que o simples exercício de combate aos bares de grife que , como praga, pululam pela cidade e se espalham como metástase urbana. A luta pelo buteco é a possibilidade de manter viva a crença na praça popular, espaço de geração de ideias e utopias - sem viadagens intelectuais, mas fundadas na sabedoria dos que têm pouco e precisam inventar a vida - que possam nos regenerar da falência de uma (des)humanidade que limita-se a sonhar com o tênis novo e o corpo moldado, não como conquista da saúde, mas como simples egolatria incrementada com bombas e anabolizantes cavalares. O botequim é, portanto, e não abro mão do hífen, o anti-shopping center, a anti-globalização, a recusa mais veemente ao corpo-máquina dos atletas olímpicos ou ao corpo pau-de-virar tripa das anoréxicas - corpos que se confundem na doença comum desse mundo desencantado: Metáforas da morte. Ali, no velho buteco, entre garrafas vazias, chinelos de dedo, copos americanos, pratos feitos e petiscos gordurosos, no mar de barrigas indecentes, onde São Jorge é o protetor e mercado é só a feira da esquina, a vida resiste aos desmandos da uniformização e o Homem é restituído ao que há de mais valente e humano na sua trajetória - a capacidade de sonhar seus delírios, festejar e afogar suas dores nas ampolas geladas feito cu de foca. É onde a alma da cidade grita a resistência : Laroiê ! Esse combate, amigos, é muito mais significativo do que imaginam os arautos modernosos e seus programadores visuais. Botequim tem alma, é entidade, feito os trapiches e sobrados do cais do porto em noite de lua cheia."

Como vocês podem notar, reproduzi quase na íntegra mais essa lição do mestre.

Como eu não tenho a verve do professor (sou, assumidamente, um aplicado aluno do Simas), quero me ater apenas à grave denúncia que ele fez no primeiro parágrafo de seu arrazoado.

Para isso, ilustro o texto de hoje com o maracujá que é servido no BAR DO CHICO, portentoso buteco tijucano na esquina da Pardal Mallet com Afonso Pena (a "barriga indecente" ao fundo é minha!).

maracujá do BAR DO CHICO, 06 de setembro de 2009, foto de autoria de Leonardo Boechat

Sobre o BAR DO CHICO, escreveu o Simas:

"Um botequim que costumo frequentar, o Bar do Chico, inventou uma reforma meio mandrake, que incluiu pizza no cardápio, visual moderninho, garçom de gravata e, é claro, aumento dos preços dos produtos. Botequim, já não é mais. Periga virar um playground de bêbados com rodízio de pizza depois das seis da tarde."

Triste verdade.

Guiado pelos "tempos de uniformização dos costumes, fruto deste tal de mundo globalizado", nosso bom Chico - que é um tremendo boa-praça, grosso pra burro quando quer defender seus pontos de vista, ingrediente fundamental que faz dele um grande personagem, e ao mesmo tempo um amigo dos amigos - pisou na bola.

Com o fruto de seu trabalho, foi comprando, aos poucos, os imóveis contíguos a seu buteco. Uma locadora, um salão de beleza, e eis que de repente começou uma obra que, desde o primeiro tijolo quebrado, deixou sua clientela de alerta ligado (situação idêntica, por exemplo, a que viveu o Joaquim, do outrora glorioso RIO-BRASÍLIA - relembrem o imbróglio completo lendo, de baixo para cima, isso aqui).

Na segunda-feira, como lhes contei ontem, fomos ao BAR DO CHICO.

Não mais encontramos o doutor Lauro, um garçom de alta estirpe (pediu as contas, sabe-se lá se desolado com a nova situação do bar).

Senti-me numa floresta, tamanha a quantidade de borboletas nos pescoços dos garçons novos que bailavam pela calçada.

O BAR DO CHICO, o autêntico, o fascinante, ainda está lá, na mesmíssima esquina, com os mesmos azeulejos amarelos e brancos, com o mesmo Antônio e o mesmo Chicão no comando do balcão. Mas ao lado... mas ao lado...

Um elefante branco em forma de restaurante que contaminou, temo que irreversivelmente, o velho e bom buteco da esquina.

A cerveja passou dos honestos R$ 3,50 para R$ 5,00 (já baixados para ainda altíssimos R$ 4,00, o esparadrapo no cardápio não esconde o crime).

No tal cardápio, monstruosidades. Uma salada (salada, meu Deus?!) de alface, tomate e palmito a proibitivos R$ 12,50. Uma porção de frango a passarinho a R$ 15,00! Pratos de bacalhau que, segundo Luiz Carlos Fraga, custam mais caro que os que são servidos no ANTIQUARIUS, no Leblon. Os 10%, jamais cobrados, estão lá, na conta que nos chega pelas mãos dos gravata-borboleta. E pizza, meus poucos mas fiéis leitores, pizza!

A pizza é como dinamite para um buteco. Pintou a pizza na área, pronto: implode-se o buteco. Aquilo virou, e digo isso com profunda dor, eis que bebíamos ali domingo após domingo, o anti-buteco.

Torço, e isso é a mais pura verdade, para o absoluto sucesso do Chico, que ele merece. Mas eu vou ficar, enquanto conseguir suportar os efeitos devastadores da mudança, como ficaram TODOS os fiéis fregueses do bar no dia do feriado: sentado na esquina, na calçada da Afonso Pena, longe da visão do restaurante, tétrico, fora de propósito, e completamente às moscas enquanto lá fiquei.

Mas não há de ser nada.

Haveremos de encontrar outro pouso, outro porto, outro buteco vagabundo, outro que não ceda às tentações do mercado e à onda da uniformização de costumes.

A Tijuca é farta na matéria.

Até.

20 comentários:

Beatriz Fontes disse...

Fiquei triste... Perto de casa, gosto do Bar do Momo e do Bar do Pavão, na Xavier de Brito. No primeiro, tomo cerveja; no segundo, chope. Quando não quero comer nada, paro no Gratidão mesmo... No Bar da Maria não paro mais, acho caro e metido à besta. Enfim, a Tijuca é realmente farta em matéria de botequins, mas essa sensação de que eles estão sendo dizimados é horrível. Outro dia, li que a Devassa vai abrir filial ali na Mariz e Barros. Pelo que entendi, onde era a Psicose. Não odeio a Devassa, acho que tem seu público e seu espaço. E acho até que pode ter seu valor, ser bom para o bairro... É sempre um investimento. Mas acontece que essa pasteurização dos bares cariocas tem me incomodado um pouco. Enfim... Bom dia!

Bezerra disse...

O texto do Simas tá emocionante demais!

Eduardo Goldenberg disse...

É, Bia: se incomoda um pouco a você, saiba que a mim incomoda DEMAIS - com a ênfase szegeriana.

O BAR DO PAVÃO é um grande bar, um grande bar! Ele, o Pavão, juntamente com a dona , estão lá há 22 anos e cada vez melhores. A feijoada aos sábados e o cozido aos domingos são obrigatórios e nem os chatos de plantão que os denunciam permanentemente à Prefeitura conseguem tirar o brilho do bar e da esquina. Quem tem dona Olívia como vizinha está protegido do mau-olhado!

Quanto a esse outro bar que você cita, lamento. Jamais porei meus pés ali.

Um abraço.

Paulo Rogerio disse...

Deveria existir um movimento pró-tombamento dos butecos cariocas! Mas os butecos anonimos ainda resistem, como o valente "bar do pará" perto da minha residência...

Arthur Tirone disse...

Na época em que bebíamos mais no Rio-Brasília eu já achava o Chico o maior bar de todos.

Fiquei triste com essa nova, querido. É um pouco - muito, aliás! - da Tijuca que se esvai...

Claudio Renato disse...

Acontece com os botequins a mesma coisa com as rodas de samba: uma invasão bárbara dos "civilizados".

leo boechat disse...

Presenciei com o Simas as pizzas voadoras e os borboletinhas, quando voltamos do Maracanã. A carne de sol também não estava a mesma. Se eu fosse o Tartaglia, ia lá vistoriar a iguaria que leva seu nome.
Tenho que avaliar se o maracujá continua especial!

Wander Costa disse...

O texto me fez lembrar de um termo que a minha tia falava para mim, quando não queria comer o montão de comida que ela colocava no prato:
"Vais virar um 'pau de vira tripa'!"

E viva o Bode Cheiroso!

sds, Wander.

Eduardo Goldenberg disse...

Ô, Paulo Rogério, diz aí onde fica o BAR DO PARÁ... Se quiser sigilo, butecodoedu@gmail.com

Favela: eu sabia que você ia ficar triste com essa péssima nova. Mas não há de ser nada. Na sua próxima visita haveremos de te apresentar a outro grande buteco! Esteja certo disso. Beijo.

Claudio Renato: e graças a eles, vamos assistindo, aos poucos, a derrocada da civilização... Forte abraço.

Boechat: o frentista do posto foi com você pro bar? Abraço!

Wander: viva o BODE! Abraço.

Carlos Andreazza disse...

Doutor Lauro não integra mais o escrete do Chico, Edu?

Mas isso é gravíssimo!

Eduardo Goldenberg disse...

Não, Andreazza, não mais. Segundo os gravata-borboleta, de quem exigi a presença do doutor Lauro, ele saiu de férias. Segundo o Xoxó, colega meu de colégio e frequentador diário e há anos do bar, ele pediu as contas assombrado com o novo modus operandi da casa. Uma lástima. Abraço.

Cesar disse...

Leo, a carne de sol não leva mais o meu nome. Acho que fui cassado do cardápio. Pelo menos, o nome não está lá. O prato subsiste in memorian. Cesar Tartaglia.

Bruno Ribeiro disse...

Se o Doutor Lauro realmente pediu as contas devido ao novo modus operandi da casa, isso merece uma entrevista exclusiva. Eis um grande homem de princípios. Coisa que anda em falta no mundo de hoje. Há salvação!

Daniel disse...

Pô, Edu! Mas logo o Bar do Chico?

André disse...

Edu,
Infelizmente não conheço o Bar do Chico nem os outros butecos da Tijuca que você descreve muito bem, mas escrevo para defender a pizza! Pô, a pizza de buteco é uma instituição! Assada no forno a gás com a massa grossa, quase uma cuca, fica pronta na vitrine com o queijo meio frio brilhando e é vendida em fatias ao longo do dia (ou da semana). Sei que essa, com certeza, não é a pizza do novo Bar do Chico, mas nem toda pizza é um sinal de decadência de um buteco!

Eduardo Goldenberg disse...

Olha, André... é bem verdade que ESSA pizza a que você se refere não é pizza, e há muitos butecos vendendo esse mata-fome (geralmente com um tomate murcho na decoração do troço), e sempre em fatias.

A pizza, pretensão tola do BAR DO CHICO, é pizza de verdade (ou ao menos pretende ser), vendida inteira e por preços também inacreditáveis.

Era a isso que eu me referia.

Um abraço.

Bruno Ribeiro disse...

Não tem jeito. Pizza é chamariz de chato. Nada contra a pizza, que fique bem claro. Eu mesmo, quase diariamente, voltando do trabalho para casa, paro na Padaria Sacramento para comer um pedaço solto, desses que o André descreveu muito bem, acompanhado de uma Caracu. Mas, até onde vai minha parca experiência, cardápio de pizza em boteco é chamariz de chato e acaba afastando a freguesia antiga. Não me surpreenderá se, depois de implantada o - Deus me livre - rodízio de pizza, o Bar do Chico começar a trabalhar também com aquelas medonhas torres de chope, que nada mais são do que coisas para principiantes, que não sabem beber e estão pouco se lixando para a qualidade da bebida. Chatos, chatos, chatos. Este é o destino de todos os bares que pretendem acompanhar as tendências da moda: ser um lugar chato, frequentado por gente chata.

Alfredo disse...

Visitei o blog do Simas. Lá encontrei a história do Fast aqui de Manaus. Velho freguês do meu Rio Negro, o eterno Galo que agora disputa a segunda divisão aqui do Amazonas.
Agora quanto aos botecos, meu caro, por aqui a coisa caminha de mãos dadas com o Rio. E tudo virou plástico...

Felipinho disse...

Isso tudo é preocupante, sinal de que devemos estar atentos e batalhando contra este tipo de mudança em nossos botecos.

Muito triste esta notícia do bar do Chico, muito mesmo. O bar era destino certo depois da feira dominical. Mas a notícia boa é que na Tijuca bares não faltam.

Andrea disse...

Edu, coloca a cabecinha aqui no meu ombro e chora. Isso está acontecendo direto. Culpa dessa juventude que só quer saber de rodizio de pizza. Pizza? Eu gosto. Daquelas de massa bem grossa e com muito recheio. Agora inventaram essa de massa fininha, no forno a lenha. Qual é a graça da pizza sem recheio e com massa fininha? Combina com cerveja? Não. É vero.

A gente vai acabar espremido debaixo de um toldo feito no meio da nossa sala, fingindo que está fazendo cabaninha igual a criança.

Aqui em casa, a mesa de cozinha é de bar. Pintei de verde para dar um ar caseiro. Coloquei uns potes em cima. Durante a semana os potes tem banana. Final de semana tem nada. Cerveja tá na geladeira né Edu?