19.11.09

RESSIGNIFICANDO O OLHAR: A FAVELA EM BUSCA DE SEU LUGAR

Recomendo a todos - inclusive e principalmente aos fascistas responsáveis por um dos mais abjetos blogs a que tive acesso - a leitura do trabalho "RESSIGNIFICANDO O OLHAR: A FAVELA EM BUSCA DE SEU LUGAR", de Vitor Monteiro de Castro, apresentado no XXXII Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação, em Curitiba, realizado entre os dias 4 e 7 de setembro de 2009. Dá-me uma tremenda esperança em meio a tanto lixo que emerge de nossa imprensa cada vez mais podre (o que sempre me pareceu impossível, quando eu era, digamos, mais inocente).

"As ideologias arbitrárias, para Gramsci, “não criam mais do que ‘movimentos’ individuais, polêmicas, etc.”, que podem ser representados hoje pelos dispositivos tecnológicos da mídia hegemônica, que influenciam de forma decisiva as dinâmicas e relações de poder do atual mundo globalizado. As instâncias modernas de mediações sócio-culturais, onde se dava a formação do sujeito (a escola, a igreja, a família, os partidos, os sindicatos), dividem cada vez mais esse espaço com os meios de comunicação. As mídias têm hoje um papel efetivo na educação, no jeito de cada um pensar e sentir a sociedade, de se perceber em sociedade. Porém, essa atuação dos meios de comunicação hegemônicos tende a se voltar para a manutenção da estrutura socioeconômica."

"No Brasil, contudo, e no caso específico da cidade do Rio de Janeiro, o saldo da atuação das mídias de ampla abrangência é danoso para as favelas e zonas de periferia, já que esses espaços são retratados pelo que não têm, pelos discursos da carência e da ausência, por um olhar de fora que, sem cerimônia, constrói uma representação estereotipada e simplificada, com ênfase quase total na violência e na criminalidade. Não há praticamente compromissos com a valorização do patrimônio cultural ou com fortalecimento de instâncias de identidade locais."

"Uma contraposição a essa visão de mundo empregada pelas mídias hegemônicas se coloca como fundamental para a difusão de idéias inovadoras que tenham condições de alterar o atual quadro de desigualdade social. Meios de comunicação que se identifiquem com o que Gramsci chamou de aparelhos privados de hegemonia, atuando na esfera da sociedade civil, com autonomia em relação ao Estado, são meios capazes de criar esses espaços de contraposição à lógica do capital, procurando ampliar sua ação de influência para toda a sociedade, mesmo sem serem dominantes. Vale ressaltar que esses novos meios devem se colocar claramente ao lado dos interesses das classes sociais subalternas."

"Os sistemas de informação atuais não foram organizados pensando na participação da sociedade em sua construção, mas voltados para o individualismo. O problema não está presente na falta de informações, mas justamente no oposto, na excessiva quantidade de informações jogadas diariamente sobre a violência nas grandes cidades. As soluções apresentadas se colocam sempre com a extinção do problema, encontrado por completo nas favelas e periferias, sem uma reflexão mais aprofundada do problema, que envolveria outras esferas e locais da cidade."

"Com um viés claramente voltado para a defesa dos interesses das classes e grupos de poder dominantes, a mídia influencia para que essa reinterpretação seja feita de acordo com os interesses dos grupos de poder. Essa ressignificação dos fatos pela mídia faz parte também de uma estratégia de coesão social. Um exemplo é a noção de periculosidade em relação às favelas do Rio de Janeiro. Na grande maioria das reportagens e matérias sobre as favelas, as chamadas sempre fazem questão de nomeá-las como “uma das favelas mais violentas do Rio”. Em uma pesquisa aleatória na ferramenta de buscas na internet Google, com a frase “uma das favelas mais perigosas do Rio”, encontramos 138 resultados. Para a frase de mesmo significado, “uma das favelas mais violentas do Rio”, foram encontrados 112 resultados. Essa introdução às notícias não significa necessariamente que a matéria ou reportagem que está sendo veiculada tenha o foco na violência. Mesmo quando a notícia é sobre algo positivo nas favelas, a noção de perigo – e de surpresa de algo positivo dentro de uma das favelas mais perigosas do Rio – é comum nas notícias. Essa delimitação geográfica do medo acarreta uma visão estereotipada dos espaços populares."

Lembrei-me muito de meu querido amigo e saudoso Fausto Wolff lendo a íntegra do trabalho, o que você pode fazer aqui.

Até.

5 comentários:

Vitor Castro disse...

Ô, causar lembranças ao Fausto é um baita elogio!

abs

Paulo Rogerio disse...

Caro Edu,

Será que existe alguma demonstração de quanto já foi roubado da nação pelos "perigosos" moradores das favelas, e quanto já foi roubado pelos "pagadores de impostos de bem"????

Pq. creio que se juntarmos uma meia dúzia de sonegadores de impostos, e outra dúzia de "pobres usuários de drogas" moradores da zona sul, bateremos algumas favelas do Rio de Janeiro...

Casé disse...

Paulo,

Será uma surra.

Abraços,

jackson disse...

“Essa enxurrada de informações e notícias acabam por desorientar o sujeito, impedindo ações de cidadania, pois faz com que as pessoas se tornem passivas em suas ações. Essa confusão resulta desse excesso porque a formação útil, quando afogada num mar de informações que não nos interessam num momento determinado, simplesmente não pode ser utilizada. A informação tem que ser relevante para o que fazemos (...). Podemos viver com muito menos informação do que o dilúvio a que somos diariamente submetidos. Mas temos de ter a informação que efetivamente nos interessa”.
É a melhor parte, para dizer que o que parece novidade está escrito em milhões de páginas e em todo canto. Mas, de fato o trabalho é ótimo.

Andrea disse...

Eu tenho viajado tão pouco que linha vermelha é quase uma reminiscência pra mim. Mas realmente ele se superou... eu amo essas desculpas. Uma vez escrevi sobre a mulher dele, quando ele se elegeu. Ninguem me deu bola. "Eu gosto mais é dessas coisas de mulher, ele que sabe trocar a lâmpada." Não lembro mais as palavras exatas delas, mas eu horrorizei.