12.11.09

A TIJUCA DO SIMAS É A MINHA TIJUCA!!!!!

Quando eu digo a vocês que o Simas é professor as 24 horas do dia, é por isso. O cabra acaba de me fazer (de novo!) marejar os olhos, e faço questão absoluta de publicar aqui, na íntegra, mais um de seus definitivos textos publicado em seu HISTÓRIAS BRASILEIRAS - e sem pedir permissão, que na Tijuca não tem dessas frescuras. Dirigido a quem ama a Tijuca, dirigido a quem odeia a Tijuca (alô, grupelho de fascistas!), é, do início ao fim, sem tirar nem pôr, também a minha declaração de princípios. Eu que, graças a mecanismos que não são do conhecimento de principiantes, também sou neto de Luiz Grosso - homem de palavra -, digo de público ao Simas, comovidíssimo que ainda estou, que se os deuses o levarem antes de mim (e há de ser daqui a muito tempo...) - fique tranquilo, cabra - serei eu o homem que irá pousar o barco de madeira com as cinzas do encantado que ele é nas águas turvas do Maracanã, meu rio:

"Meu avô viveu quarenta anos no Rio de Janeiro e nunca saiu do Recife. O velho sabia, lá do seu jeito, que o homem é sua aldeia. O resto é balela.

Poucos dias antes de morrer - e morreu em casa, perto de mim, graças aos deuses - o Luiz Grosso deu uma de garoto de calças curtas e pediu para esse seu neto: Eu quero ouvir o hino do Sport Clube do Recife.

Ouviu e deu um último sorriso. Morreu bem, pois preparou a grande despedida - e vive, num frevo que delirei, com Frei Caneca, Gregório Bezerra, Capiba e Maurício de Nassau.

O meu Recife é a Tijuca - e o rio Maracanã é o Capibaribe iluminado do meu vô.

Amo a minha aldeia - onde não nasci mas me reconheci. Aprendi a Tijuca, e ela é uma entidade, alma que vaga generosa, afável, aberta, solar, cafona, mesquinha, moralista, com cheiro de lírio e merda; bairro de putas generosas e cabaços mais inexpugnáveis que a linha Maginot.

A minha aldeia, camaradas, não é cenário de novela. Cheira e fede, a Tijuca - terra de futum, bafio, aroma, cecê, flor de laranjeira, pés mimosos de moças de família, coturnos de generais, sapatos de couro e sandálias esculhambadas que ornamentam dedos sujos de bebuns valentes em seus bares vagabundos - e moças sonhosas do amor que não virá mas deveria.

E como têm viúvas na Tijuca, já que homem que se preza não faz a desfeita de morrer depois da mulher.

É a Tijuca de Anescar, Noel Rosa de Oliveira, Marinho da Muda, Aldir Blanc, Geraldo Babão, Bala, Calça Larga, Almirante, Pindonga, Djalma Sabiá, Gargalhada, Zuzuca, Antônio Brasileiro, Salgueiros, Boréis, Formigas, Trapicheiros, normalistas, cadetes, beatas, trapaceiros, bandidos, homens de bem, vagabundos, batedores de carteiras e trabalhadores abençoados por São Francisco Xavier, São Sebastião dos Capuchinhos, Santo Afonso e, de quebra, pela Senhora de Nazaré - já que aqui temos o Círio - pois paraense tijucano é o que não falta.

Tijuca que anoitece nas praças e nos meus olhos, nas arruaças dos seus bêbados desamados e no canto de fé de suas igrejas reveladas e macumbas escondidas: E como tem macumbeiro e centro espírita de mesa na Tijuca. [Aproveitando a ocasião, fica a prece: Saravá, Cordeiro de Deus, tira o pecado do mundo, mas deixa um pouco de pecado na Tijuca, que faz bem e a gente precisa.]

Berço de índios, violenta e serena, camarada e arisca, caricata e sincera, essa minha aldeia é madeira de dar em doido e amenizar corações sofridos - e nos comove, como ao poeta, feito o diabo.

E tem barulho de tiro, trova, gozo e grito de gol na Tijuca. Além das sanfonas e guitarras lusas tocando o vira, é claro, pois há quem defenda que a Tijuca é só um delírio carioca - na verdade estamos numa aldeia no norte de Portugal, cheia de barbearias de responsabilidade e senhoras de bigodes e varizes que mais parecem o relevo da terrinha.

Ou a Tijuca é a África, ja que aqui a Casa Branca é mais importante que morada de presidente preto: É quilombo mesmo.

Não sei, me falta cacife pra afirmar, mas desconfio que o Eduardo Goldenberg saiba.

A função do filho é honrar o pai - como a função do pai é honrar o avô.

Eu pedirei um dia, perto hora de sumir na noite grande, que me cantem um samba qualquer sobre a aldeia que escolhi para amar a cidade, a mulher e os amigos. A Tijuca.

E já que cemitério aqui não há - que falha grave, Tijuca ! - que me torrem em um forno do Caju e joguem o que sobrar num canto da Praça Afonso Pena, ou num barco de madeira de quinta categoria, para que eu finalmente navegue meu rio Maracanã.

E como muito lirismo de cu é rola, eu quero é virar, depois de ir oló, um egum dos brabos, encosto pesado, para grudar nos ouvidos de uns tijucanos de merda, metidos a limpar cocô de galinha com colher de prata e cantar, feito assombração, um grito de guerra:

- Um, dois, três, quatro, cinco, mil, se não gosta da Tijuca vai pra putaqueospariu...

Ou atravesse o Alto da Boa Vista, que dá no mesmo."


Para ouvirem o sambaço que Luiz Antonio Simas transforma em trilha sonora de sua declaração de amor, cliquem aqui.

Até.

6 comentários:

Olga disse...

Edu, depois da aldeia do poeta maior, esta belíssima descrição da Tijuca é a mais linda declaração de amor a um lugar que já li.

Paulo Rogerio disse...

Caro Edu,

Desculpe o palavreado.. mas o texto é "Fodástico" caraca, muito tempo que não vejo algo tão tijucano !!!

Abraços,
Paulo

Carlos Andreazza disse...

Bonicto!

Rodrigo disse...

Bonito de ler e ver.

abraço, Edu!'

José disse...

Edu, finalmente entendi tudo. Você, na verdade, é um ficcionista. Ninguém, com a ênfase de um de seus personagens, tem amigos, companheiros, etc, tão maravilhosos, íntegros, gente boa.Abraços.

Cazé disse...

De um tijucano de coração, fígado e cérebro - exilado em Volta Redonda, essa Tijuca do interior! - perfeito!