9.12.09

O GORDO É, ANTES DE TUDO, UM INVEJOSO

Nelson Rodrigues, profundo conhecedor da alma brasileira - é simplesmente impossível entender o Brasil e sua gente sem que se leia, diuturnamente, o onipresente Nelson - dizia que os gordos davam a ele "uma idéia de bondade, e, mesmo, de santidade." (vejam aqui). Eu, que não sou besta de discordar do bruxo da Aldeia Campista, faço apenas o adendo: o gordo é, antes de tudo (ou além de tudo, já que sou sempre rodrigueano em meus delírios e respeito o mestre com devoção cívica), um invejoso. E onde é que a inveja do gordo, do Chico-Bóia (apud N.R.), mais se revela? No restaurante, nas pensões, nas lanchonetes - e explico.

Dia desses estava eu, um balofo em pânico com a superação do terceiro dígito da balança, almoçando no CASARÃO, na rua do Rosário, com a elite jurídica do Brasil: à minha frente, André Perecmanis e Paulo Klein. Para que vocês, meus poucos mas fiéis leitores, compreendam o peso dos nomes que acabei de digitar, bastou escrevê-los para que meus códigos, meu vade-mécum e minha coleção doutrinária passassem a farfalhar as páginas em aplausos imaginários em homenagem aos advogados de escol a que me referi, fazendo tremer as estantes e a minha sala. Dito isso, em frente.

Sentamo-nos e veio à mesa o garçom com o cardápio. Eu, sempre humílimo em qualquer restaurante, assisti ao debate entre os bardos como se eu fosse um estagiário diante de Ministros do STF. Após intensos debates, argumentos, sustentações orais de fazer corar qualquer homem simples como eu, pedimos um filé especialíssimo da casa, composto de picanha, alcatra e maminha, um corte personalizado e que já me fazia ganir diante do prato vazio.

Coisa de dez minutos depois, passa o mesmo garçom levando algo na bandeja para a mesa vizinha.

Entrei em transe, como se fora um médium sem controle em terreiro de umbanda. Chamei o garçom sentindo pender dos lábios uma baba que fez poça no prato:

- O que é aquilo, o que é aquilo?! - apontando para a mesa vizinha.

- Linguiça, senhor.

- Traga, traga, traga! Pelo amor de Deus, traga!

O sujeito da mesa em tela (estou jurídico, hoje) virou-se com nojo e tampou, com o corpo, a visão que eu tinha das gorduchas em brasa.

Vai o garçom à cozinha.

Volta em menos de dois minutos:

- Senhor?

Eu, já chorando diante dos dois causídicos com evidenciada vergonha:

- Pois não.

- As lingüiças podem chegar junto com o prato principal?

A resposta - considerada genial pela dupla de juristas, que explodiram de rir - veio de voleio:

- Querido, gordo come lingüiça até de sobremesa!

E é ou não é verdade? - eis o que pergunto.

O gordo não come por fome, o gordo come porque se sente, intuitiva e instintivamente, elemento indispensável do espetáculo do fomento da banha humana, essa coisa que dá a ele a tal aura de santidade de que nos falava o Nelson. O gordo come em busca do aplauso do acompanhante, em busca do olhar de incredulidade do magro ao lado.

E encerro minha digressão estética de hoje citando meu dileto amigo Marcelo Vidal, que dia desses, durante uma cervejada, fez a confissão.

O Vidal, o maior e melhor dentista do mundo (consultório na Tijuca, é óbvio), atende na Praça Saens Peña, mais precisamente no SHOPPING 45, um ícone do bairro. E no referido shopping há, salvo engano meu no primeiro piso, uma loja LECADÔ, ela também um ícone tijucano. Pra quem não sabe, a LECADÔ é uma loja de doces e salgados que faz tremendo sucesso. E um dos destaques da loja, uma das responsáveis pela fama da LECADÔ é a coxinha de galinha, que tem o tamanho de uma bola de futebol americano e vem recheada com catupiry (vejam o bicho aqui, com o carimbo CAMPEÃ DE VENDA).

Pois o Vidal, que tem entre sua clientela (quem não tem?!) suas balofas e seus balofos cariados, contou-me o seguinte.

Não há NENHUM (com a ênfase szegeriana) cliente Chico-Bóia que não chegue lá falando, com os olhos cheios d´água, da coxinha de galinha da LECADÔ. Os mais afoitos (e mais porcos) comem antes de subir ao décimo-terceiro andar e sentam-se na cadeirinha com os dentes lotados de fiapos do peito de frango e com o céu da boca com uma placa de catupiry amassada (gordos recheiam o próprio céu da boca com o catupiry para terem o que lamber por mais tempo). Os mais higiênicos anseiam pelo fim da consulta:

- Ai, doutor Marcelo... tô louca pra comer uma coxinha na Lecadô!

Pedem, arfando (gordos respiram mal, por óbvio), batendo os pés no chão, para que a próxima consulta seja marcada para brevíssimo. E há os que choram - choram! - quando o tratamento encerra. Humilhados diante dos olhos verdes de meu irmão, suplicam:

- Não dá pra marcar uma limpeza pra semana que vem?!

E quando ele diz, honestíssimo:

- Não precisa...

Gemem:

- Marca! Marca! Marca!

É, e é isso o que eu queria lhes contar, a fome, a sede, a fúria pela coxinha de galinha.

Até.

13 comentários:

Andre disse...

Edu, absolutamente genial, como de costume, o seu texto. Evidentemente, não me refiro à menção sempre gentil e igualmente inverídica a mim. Refiro-me a pérolas como: “O gordo não come por fome, o gordo come porque se sente, intuitiva e instintivamente, elemento indispensável do espetáculo do fomento da banha humana”. Genial, Genial, Genial.

Luiz Souza disse...

Nós, os gordos, somos a evolução. Comer, e bem, é questão de honra. Sem banha não há felicidade. Imagine meu orgulho quando o garçom do Ponto Chic - a ex-embaixada, a ex-Meca dos fãs da Antarctica pré-AmBev em São Paulo - me disse: "Esse X-Tudo com fritas no prato acompanhado de duas ampolas de Original não será suficiente para você. Peça mais um Bauru porque sei que você é 'nervoso'."

Lembro-me de devorar feito gente grande, junto ao meu velho, imensas costelas de porco assadas, isso lá pelos meus quatro, cinco anos de idade. Acho que foi aí que o animal proibido tornou-se imperioso em minha vida.

E, por falar em inveja, tive a infeliz idéia de entrar na página do Lecadô... Pensando bem, o Tietê tá pertinho daqui, acho que fatalmente pegarei um ônibus e matarei a vontade.

Parabéns pelo Hexa.

Wander Costa disse...

Edu, sábado retrasado joguei uma pelada no Engenhão, para perder um pouco de peso e me condicionar melhor fisicamente. Levei a patroa e os dois filhos. Estes, ao fim do jogo, disseram que estavam com fome. Fomos ao Beluga, na Rua do Rio. Pedi duas canecas zero grau para espantar a sede. Para acompanhar uma batata rosti com picanha. Porém, quando vi uma costelinha de porco transbordar a travessa da mesa ao lado, levantei os braços como um náufrago para alterar o pedido. Parecia canibalismo. O suíno comendo porco. Quando estávamos indo embora, uma surpresa. O garçom disse que após às 15h a cada chope pedido o cliente ganharia outro, o que significava, para mim, mais quatro canecas zero grau.
Pelas minhas contas, perdi 2 kg no futebol e ganhei 3kg no almoço.
Conclusão: futebol não emagrece.

Claudio Renato disse...

Genial!

paulo disse...

Caríssimo Edu

Certamente seus elogios são fruto da grande amizade que você nutre por nós.

Simplesmente genial o texto, qualquer coisa a mais que se diga é mera verborragia.

Um forte abraço e um brinde pelo Hexa do mais querido do Brasil

Antonio disse...

Texto sensacional Edu! Morri de rir com ele.
"Para que vocês, meus poucos mas fiéis leitores, compreendam o peso dos nomes que acabei de digitar, bastou escrevê-los para que meus códigos, meu vade-mécum e minha coleção doutrinária passassem a farfalhar as páginas em aplausos imaginários em homenagem aos advogados de escol a que me referi, fazendo tremer as estantes e a minha sala. Dito isso, em frente."
"placa de catupiry amassada (gordos recheiam o próprio céu da boca com o catupiry para terem o que lamber por mais tempo)"

SENSACIONAL!

Abraço!

Bezerra disse...

Edu, não posso negar que, às vezes, sinto saudade (e inveja, quem sabe) dos meus tempos de gordo.

No mais: grande texto!

Eduardo Goldenberg disse...

Andre e Paulo: a modéstia de vocês é comovente. Um forte e fraterno abraço.

Luiz Souza: sempre que vou ao Ponto Chic saio de lá com uma baba de queijo pendurada no queixo. Excelente! E venha conhecer a LECADÔ, aproveite pra fazer uma revisão com o Vidal. Um abraço.

Wander Costa: em tempos de FIFA, meu caro, futebol até que emagrece. Abraço.

Claudio Renato: tô marcando a cervejada com o Edu, hein! Atenção e abraço.

Antonio: se reconheceu, né? Você também faz placa tipo corega com o catupiry? Um abraço.

Bezerra: volte a ser gordo! Volte! Abraço.

Blog do Ernestão disse...

Edu

Passo os mesmos sentimentos que você. Nós que, adoramos cozinhar e por sinal cozinhamos bem, adoramos comer e por sinal comemos bem, adoramos beber, que por sinal idem, temos elocubrações quanto aos pratos dos outros, sempre achando que o do vizinho é mais gostoso, não necessariamente, portanto, não acho que seja Inveja, mas aquele sentimento de querer provar tudo o que nos apetece. Primeiro se come com os olhos, depois com o cheiro e depois comemos com os olhos, cheiro, com tudo que vier. São sentimentos que só os que conhecem sabem sentir, nem que seja aquele arroz com feijão e o ovo frito. Mas note bem, tem que ser aquele arroz..., aquele feijão... e aquele ovo frito !
Me orgulho de ser gordo, pançudo e principalmente de ser boa mesa!

Saudações adiposas !

Ernestão

Daniel disse...

Duca, Edu.

Estou passando mal, não devia ter lido antes da janta. Mas a Camila já está chamando para comer um patê de linguiça blumenau. Coisa finíssima. Pra beber, uma Bud gelada.

Abraço!

Pedro Toledo disse...

Estava precisando de um texto desses hoje, Eduardo.

Obrigado :)

Diego Moreira disse...

Eu colo catupiry no céu da boca pra ficar com ele por mais tempo.

Szegeri disse...

O Marcão Gramegna, gordo como eu e você, Galo, também é um advogado de escol. De escol, de brama, de antártica, itaipava...