4.12.09

ORAÇÃO DE UM BRASILEIRO

Salve, São Sebastião do Rio de Janeiro, Oxóssi para o povo carioca, de cujo peito arrancamos, dia após dia, nós cariocas que amamos a terra em que nascemos, as flechas que te ferem e te fazem sangrar e sofrer. É que meu peito, padroeiro, anda apertado demais e bem sabes as razões. Tenho tentado manter o humor em alta, fazendo graça das coisas mais sérias, como bem me disse, dia desses, meu irmão Fernando Szegeri, filho de Xangô, sincretizado também como São Judas Tadeu, padroeiro do meu Flamengo, numa tentativa - vá lá - desesperada de enfrentar os revezes que me tem chegado e de me sentir um vencedor. É que domingo, padroeiro, o Flamengo disputa a chance de sagrar-se Campeão Brasileiro de 2009, o que não acontece desde 1992, quando eu tinha - e como passa, o tempo... - 23 anos de idade. Campeão cinco vezes, o Flamengo conquistou seu primeiro Campeonato Brasileiro em 1980, eu tinha 11 anos de idade, e eu estava lá, menino de calças curtas, no gigante de concreto, vendo o artilheiro das decisões, o Nunes, estufar as redes do adversário a poucos minutos do final da partida. Quando eu lembro de mim mesmo, aos 11 anos de idade, lembro-me do Henrique, hoje com 17 anos, meu sobrinho, meu afilhado, que nunca viu o Flamengo conquistar um Campeonato Brasileiro e que estará, domingo, ao meu lado, no mesmíssimo estádio, 29 anos depois daquele Flamengo e Atlético Mineiro. Penso também na Helena, com pouco mais de um ano de idade, filha do meu compadre Leo Boechat, no Daniel, filho recém-nascido de Diego Moreira, ele filho de Zambi e de Oxalá, afilhado de Pedra Preta da Guia e Jurema, cambono de Maria Fagundes, protegido e guiado por Caboclo Arruda e amigo de seu Zé Pilintra, e penso também no Felipe, filho de minha amada amiga Betinha e de meu do-peito, Flavinho, que completará um mês de vida na segunda-feira, dia 07 de dezembro, um dia depois da decisão de domingo. Eu não sei quem foi disse, viu, meu padroeiro?, que o futebol não é uma questão de vida ou morte, é muito mais importante que isso. É evidente que isso é só mais um desses exageros que temperam a vida, é só mais uma dessas verdades inexplicáveis que só ao coração e à alma interessam, mas o fato é que esse carioca que te fala em tom de prece (e todas as preces são pagãs e necessariamente pagãs quando envolvem o futebol, que a gente tem dores maiores carecendo de oração e fé) está assim, como direi?, profundamente emocionado com a iminência do sexto título do Flamengo, o primeiro das três crianças a que me referi. No dia 27 de setembro desse 2009 que está quase acabando eu preparei, depois da idéia do meu mano Luiz Antônio Simas, filho da Ogum, como eu, um caruru pras crianças, pros erês, e Daniel e Felipe ainda estavam na barriga de suas mães, da Lucimar e da Betinha. E eu queria, padroeiro, ter braços enormes para tê-los no colo no domingo, sentado nas arquibancadas de concreto do Maracanã para que eles pudessem ver, com seus olhinhos curiosos e assustados, o Flamengo disputar o título - e conquistá-lo. Para que eles pudessem, depois, anos depois, já sozinhos e com as próprias pernas, subindo a rampa do maior do mundo (será sempre o maior do mundo!), bater no peito e dizer "eu estava aqui em 2009" - ah, esses orgulhos que o torcedor tem... Amanhã eu vou levar o Henrique à igreja de São Judas Tadeu, no Cosme Velho. Amanhã, posso apostar, o padre rezará a missa com a camisa do Flamengo sob a batina e diante do escudo do rubro-negro, encravado na parede da catedral, atrás da pia de batismo. Eu acho que eu queria, também, batizar amanhã o Daniel e o Felipe naquela igreja. Eu não sou católico, sabes disso também. Mas amanhã eu quero ir lá. Eu sou mesmo é brasileiro, e minha religião é o Brasil. Quem não compreende o Brasil não entende a religião Brasil - e o Brasil, também não lembro quem disse isso, não é para principiantes. E o Brasil, padroeiro, sei que também sabes disso, há de amanhecer infinitamente mais feliz se o Flamengo sagrar-se campeão no domingo. Se o domingo for do Mengo, de norte a sul do Brasil, nas coberturas triplex e nos barracos das favelas, nos gabinetes dos Ministérios e nos presídios, nos hospitais, nos manicômios, na cidade e no campo, no litoral e na serra, nos mais longínquos rincões dessa terra, o povo há de ser mais feliz, ainda que por alguns dias - as mágicas do futebol. E eu, padroeiro, estou precisando demais viver isso, sabe? Rogai por nós, rubro-negros, agora e na hora em que devemos ser fortes.

Até.

13 comentários:

caique disse...

edu, eu comecei a ler a oração sentado aqui na prancheta. no meio do texto, já estava com os olhos cheios d'água. terminei a leitura de joelhos. amém, irmão. axé babá! domingo vamos estar todos unidos com um enorme pensamento positivo, e se são judas tadeu assim o quiser - e ele quer, nós sabemos disso - a segunda feira vai ser a mais feliz dos últimos tempos.
um abraço, irmão.
caíque

Eduardo Carvalho disse...

Amém, Edu!

Olhos repletos, pingando em pleno batente nesta sexta-feira em que, acabo de decidir, sairei daqui e irei à Igreja de São Judas.

Um grande abraço!

Diego Moreira disse...

Meu velho,

Eu, Lucimar e Mamãe - que está aqui conosco desde que Daniel nasceu - não temos palavras para expressar o que sentimos ao receber a sua prece. Daniel - que ouviu com atenção minha leitura - também não teria.

Obrigado. Beijo.

Carlos Andreazza disse...

Uma beleza!

Bruno Ribeiro disse...

Querido irmão: eis mais um texto definitivo. Certamente o mais comovente lido este ano. Tenha certeza de que enviarei, no domingo, todo o meu axé para o Mengo. Nessas horas - e diante do que estão fazendo com o futebol brasileiro, do que estão fazendo contra o Brasil e suas tradições mais caras - e só nessas horas, o Flamengo somos nós, o povo. Independente dos nossos clubes do coração, nesse domingo seremos, o povo, todos Flamengo. Que Elegbara, o dono das cores encarnadas da camisa rubro-negra, esteja presente no Maracanã e detone uma grande festa em cada encruzilhada do Brasil. Laroiê!

Qual delas? disse...

Edu,

O Maracanã, Vera Fischer e eu somos de 1950.
De lá pra cá, assisti a quase todas. Hoje, morando em Curitiba, tenho ido a vários jogos do nosso time no Maracanã. Quando o jogo é a noite, saio daqui, de carro, às 6 da manhã e quando dá 18h estou chegando na porta do "maraca". Estive presente no último Flamengo X Santos que o Bruno só faltou fazer chover. Não estarei no estádio na final, mas meu filho que nasceu em 1992 e que é mais Flamengo que nós dois juntos, está saindo daqui agora, com o ingresso na mão, como quem vai para uma guerra. Só que uma guerra diferente, como diferente é o Flamengo.

Olga disse...

Uma beleza de oração, Edu.

Agorinha, perto do Saara, vi um troço inusitado. Um rapaz com a camisa do Flamengo e um outro, com a do Glorioso, se cumprimentaram e se desejaram boa sorte. Acho que o amor ao Rio, faz dessas coisas.

NADJA GROSSO disse...

Ai Edu chorei muito lendo sua oração, muito comovida lembrei-me de meu velho pai Luiz Grosso que idolatrava, amava o Flamengo, ele conseguiu fazer uma familia inteira de Flamenguistas de verdade(com exceção do Simas), com certeza estaremos rogando e agradecendo a São Judas Tadeu pela vitória do Flamengo.

Mafuá do HPA disse...

caro Edu
Como sabes, sou paulista, caipira do interior, de Bauru, terra no Noroeste e onde Pelé começou a jogar bola (muitos outros sairam daqui). Trabalhei muito tempo no Rio (volto umas seis a sete vezes por ano) e gosto do bom futebol e de todos os times do Rio. Nas idas ao Rio passo sempre no Folha Seca, do amigo Rodrigo que conheço desde aquele show dos 50 anos do Aldir lá no Canecão. Aqui, além de noroestino sou corintiano e estou muito contente com o Flamengo. Torci para que ele chegasse onde chegou, pois isso ajudará muito o futebol carioca. Bela oração, uma ode a algo tão em falta hoje em dia. Estarei do lado de cá, reunido com amigos (alguns acriocas) torcendo e muito para que o Fla conquiste a taça, que o Flu e o Bota não caiam e que o Vasco volte com tudo. Abracitos bauruenses do Henrique Perazzi de Aquino (www.mafuadohpa.blogspot.com)

Marcelo Peixoto disse...

Edú,
BELEZA de texto! Nós, rubro-negros, estamos num estado de nervos desde domingo, quando assumimos a liderança. Que essa tensão toda seja extravasada aos ecos de É Campeão!
Tô pensando em ir na Gávea amanhã sentir o clima do clube.
Vc foi preciso: Flamengo campeão, o Brasil é mais feliz.
Abração!

Betinha disse...

Tomara que o Felipe tenha a grande sorte de ver o Mengo campeão com menos de 1 mês de idade. Eu tive que esperar anos por isso. Qualquer possibilidade de título me deixaria ansiosa (aliás, todo e qualquer jogo do Flamengo me deixa ansiosa, não importa o esporte em questão, você sabe). Este então... Imagine poder, daqui a alguns anos, contar ao Felipe que o Flamengo foi campeão logo depois do seu nascimento e que ele participou da comemoração do título! Ai, socorro... Não sei como vou conseguir assistir este jogo.
Beijos!
Betinha

Cazé disse...

Belíssima oração, Edu!
Domingo estarei torcendo para o meu Botafogo não cair e pelo Flamengo.
Viva Xangô, meu pai, rei das demandas!
Abraços.

Victor disse...

Amém, Eduzão!

Abraço,

Victor Taiar