12.12.09

OS JORNALISTAS DE O GLOBO

Recebi ontem e-mail - sobre o qual não tecerei mais comentários - que me foi enviado por um jornalista de O GLOBO. Nele, à certa altura, o remetente escreve:

"Quero dizer que respeito seu trabalho e sou leitor há anos do seu blog, apesar de realmente não entender direito seu ódio pelos jornalistas que por acaso trabalham no Globo."

Vamos lá.

Não quero exatamente respondê-lo por aqui - o farei, depois, particularmente, sem alarde, sabe-se lá se pessoalmente até (penso em convidar o autor da missiva eletrônica para um cotovelo-no-balcão). Mas preciso dizer, até mesmo para que disso saibam meus poucos mas fiéis leitores, que não tenho ódio pelos jornalistas que por acaso trabalham n´O GLOBO.

Tenho amigos, colegas, conhecidos que trabalham no jornal, o que já põe por terra o ódio generalizado que me imputa o autor do e-mail.

Quanto aos demais - alvos de diversos textos meus nos quais exponho, sem dó nem piedade, a vilania dessa gente - não nutro ódio. Guardo, sim, desprezo profundo por eles. Eles, que são membros dessa casta que descarrega - ela, sim! - ódio por nosso povo, por nossa gente mais simples, pelo carioca zona-norte e suburbano, por todos aqueles que não se enquadram nessa categoria patética que é rotulada como "descolada" e que é responsável pelo que há de mais bacana, genuíno e autêntico na minha mui amada cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro.

Por tijucanos como eu, como Felipe Quintans, como Luiz Antonio Simas, criado e moldado em Nova Iguaçu, por cariocas do subúrbio como Diego Moreira, Marcelo Moutinho e José Sergio Rocha, por cariocas hoje exilados como Bruno Ribeiro, cariocas de alma como Arthur Tirone e Fernando Szegeri - e tantos outros que são permanentemente desprezados por essa suposta elite que trabalha, perniciosamente, contra o Rio de Janeiro.

Como João Ximenes Braga, que assina quinzenalmente uma coluna desprezível no igualmente desprezível caderno ELA, encartado aos sábados no jornal O GLOBO. Dia desses, referiu-se com nojo aos pobres (vejam aqui).

Hoje, sábado, manda o seguinte, comentando sobre uma briga que teria assistido no domingo passado, depois do jogo Flamengo e Grêmio, entre "dois galalaus" (o termo é dele), na praça São Salvador, em Laranjeiras:

Não tece uma linha sobre a barbárie coletiva que teve como palco a rua Ataulfo de Paiva, no Leblon, ou a praça Santos Dumont, na Gávea - e como protagonistas responsáveis os filhos mimados da riqueza, os inimputáveis e inatingíveis também mimados pela mídia (os figurantes, digamos assim, das novelas que têm o Leblon como cenário).

Pois ele, João Ximenes Braga, tem ódio - ele, sim! - e um ódio exposto às escâncaras e corroborado pelo jornal - que ele, jornal, também fomenta, ainda que subliminarmente, todos os dias em suas páginas - da zona norte, do subúrbio, do Rio de Janeiro que não se rende ao modus descolado de vida.

Até.

11 comentários:

Bruno Ribeiro disse...

Desnecessário acrescentar qualquer palavra ao comentário. Lavou a minh´alma suburbana. Beijo, querido!

Diego Moreira disse...

Edu, esse otário, esse mané, esse zé-roela, esse banana que atende por João Ximenes Braga, me dá enjoo.

Bambolê de otário, é, para mim, uma das melhores expressões que um solteiro pode usar para sacanear um amigo, um camarada que vai casar.

O que João Ximenes Braga diria do famoso "fulano vai pra forca" usado no mesmo contexto?

O rótulo pejorativo que ele usa: "desnecessário dizer que todos esses amigos foram criados na Zona Norte" - eu usaria com outra intenção.

Há genialidade na expressão "bambolê de otário", Edu. Genialidade. Ela é a sintese da sacanagem camarada, da farra pândega, da troça zombeteira, essa força vital que o Criador soprou na alma dos Cariocas da Gema.

Mas para João Ximenes Braga e outros arautos da Zona Sul, carioquice só existe no Leblon. Cabe a eles preservar essa máxima estúpida e, para isso, destilam seu preconceito, valendo-se da posição de formadores de opinião da elite, e vomitam sobre a Zona Norte.

Eles não aceitam que o Rio de Janeiro é muito mais que a Lagoa e o crucificado de pedra sobre a pedra monumental. Como eu escrevi há algum tempo, "Rio de Janeiro é também fiel às suas macumbas, aos caciques de seus arrebaldes e às suas sedutoras sereias".

Eles não aceitam que do lado de cá do túnel há uma "vida autônoma e autêntica, de tradições e hábitos diversos, de festas populares mestiças, entrudos, bruxedos, rezas fortes e procissões, de batuques e danças que embalam o espírito vivo da cidade imensa".

Preferem ver o Mercadão de Madureira como a "Disney da Umbanda" - fruto de uma miopia cultural que não lhes permite ver algo nosso sem comparar com o que há lá fora, ou de um reducionismo patético.

Daria outros milhares de exemplos mas acho desnecessário. Tento, mesmo, não esmorecer na luta contra a canalha mas a verdade é que me dá um desânimo imenso ao ler essas coisas.. Desculpe ter me alongado demais.

Um fraterno abraço!

Isaac disse...

Excelente texto !

Olga disse...

“O maior problema de conhecimento do Brasil não está no povo, na pouca qualidade do ensino. Está no pouco apreço que a elite tem pelo conhecimento.

O povo foi excluído do acesso ao conhecimento por séculos de opressão. A elite não valoriza o conhecimento porque não precisou dele para competir. Agora é que as coisas parecem mudar.” Por Sérgio Besserman Vianna

Edu, estes jornalistas, como o citado no post abaixo, o crítico de araque de cinema, que até, diga-se, tem todo o direito de não gostar do filme, só não tem o direito de dimensionar a importância de um bairro com um viés tão preconceituoso, fazem parte dessa elite.

O que me causa estranheza é perceber que algumas pessoas preconceituosas, inclusive conhecidos queridos, fazem parte de uma minoria também perseguida e alvo de fortes preconceitos, e agem da mesma maneira, com um ranço preconceituoso inaceitável.

Concordo absolutamente com tudo o que tá escrito. Como sempre contundente e necessário, Edu.

Saudações tijucanas!

Leogol disse...

Comentando os preconceitos do O GLOBO seria interessante ressaltar que esse jornal em edição anterior enumerando os "locais de boa culinária" ,pouco ou quase nada cita em locais "além túneis".
Para o jornal o Brasil se resume em Ipanema,Leblon,Gavea e Lagoa.
leogoldenberg@gmail.com

Eduardo Goldenberg disse...

Olga: o "crítico de araque de cinema" pode mesmo não ter gostado do filme (pelo gosto musical dele, eu compreendo). Mas o que ele disse sobre a Tijuca (bairro no qual tropeçou durante noites e mais noites) é inadmissível embora seja compreensível. Afinal, veio de uma boquinha da turma dos "descolados" e da turma "cult", sabe como é? Beijo grande, saudações tijucanas!

Mariane disse...

Falou e disse!

Luiz Antonio Simas disse...

O Buteco é a trincheira carioca !
E esse não sei o que Braga é um babaca de marca maior.

Luiz Antonio Simas disse...

Mais: O comentário do Diego é definitivo, dos melhores que li por aqui. Assino.

Vania disse...

Edu,
sábado pela manhã, ao ler esse absurdo no jornal, lembrei-me imediatamente de você. Tive vontade de escrever ao "cronista", mas pensei bem e concluí que ele não merece minhas palavras. Porém, tenho muito a agradecer ao tal Ximenes, pois ajudou-me a tomar uma decisão que já ensaiava: o cancelamento de minha assinatura do O GLOBO. Não vou contribuir com o salário de "profissionais" que somente merecem o meu desprezo e indiferença. Nascida e criada na Zona Norte (Vila Isabel e Tijuca), hoje continuo por aqui, no Grajaú, por convicção e opção de vida. Recuso-me a não ver a vida como é ou, mais grave, mostrá-la distorcida aos meus filhos.
Beijo, querido, e parabéns pelo "Dá-lhe, Zona Norte!".

Eduardo Goldenberg disse...

Simas: esse papo de "trincheira carioca" é mais um carinho e um exagero seus. Mas que aqui defendemos, com unhas, dentes, armas e o escambau, a nossa zona norte, lá isso é verdade! E você - se você insistir nisso - é general da força! Quanto ao comentário do Diego, é mesmo definitivo. Beijo.

Vaninha: escreva pra ele, querida. Ele não vai te responder. Mas vai saber de seu repúdio. E diga o mesmo quando perguntarem o por quê do cancelamento. A corja do jornal tem que saber disso! Beijo.