Sou amigo de um casal que, quero lhes dizer, é, lato sensu, espetacular. Manterei, por absoluta discrição, o nome dos dois. Não por pudor ou mesmo para simplesmente não expô-los. Mantenho seus nomes em segredo por absoluta convicção de que, expondo-os aqui, acenderei a lâmpada da falta de senso de uma porção de gente que, atrás das benesses econômicas advindas do convívio com ambos, passará a forçar uma intimidade que será uma janela aberta para o infinito e para o desagradável. Dito isso, feito o brevíssimo intróito, vamos ao que quero lhes contar sobre os dois.
Ele é um fraterníssimo amigo, e recente amigo. Se eu fosse fazer uma equação (que seria estúpida já que sentimento não se sistematiza matematicamente), diria mesmo que nossa relação é absurda. Somos tão próximos, e tão íntimos, tão umbilicalmente ligados, que quando penso no tempo de convívio que temos sou obrigado a falar em vidas passadas e outros bichos do gênero. Ela, conseqüentemente, também me é recentíssima.
Ele bebe como um cossaco. De segunda a segunda, e sempre com promessas de nunca mais beber descumpridas logo após o despertar, ele está ali, na mesa de um bar, encostado num balcão qualquer, bebendo cerveja como quem respira e sem perder - eis a ressalva necessária - o prumo. Trabalha como um remador de Ben-Hur. Ama o que faz - o que faz dele um homem feliz - e é um homem que não transige, em NENHUMA (com a ênfase szegeriana) hipótese, com a hipocrisia, com a falsidade, com a mentira, com a sordidez que pulula por aí. Dotado de baixa estatura, é um gigante quando fala. Emociona-se com extrema facilidade e semana passada mesmo - foi quando decidi que lhes contaria esta história - deu de chorar (o que faz com freqüência) quando me contava sobre um recente episódio de sua vida, sentindo-se traído por alguém a quem considerava como um irmão. Nada teme, a não ser a própria mulher. E vocês entenderão a razão do permanente pânico de meu amigo, ele que convive com a mulher como o japonês que convive com o Japão, sempre com a ansiedade pânica diante da iminência de um terremoto.
Ela é um doce. Fala mansa, extremamente ciosa de seu papel de companheira, extremamente ciosa de que quem brilha ali, no palco do dia-a-dia do casamento, é ele, condescendente, terna, dulcíssima (perdoe-me a repetição inevitável), ela tem extrema paciência com o marido, dessas que só as enfermeiras têm, com as obsessões do marido, a quem compreende sempre com uma festinha na cabeça, um sorriso terno, quase maternal, e vão levando, assim, a vidinha deles.
Ocorre que - eis o quero lhes contar - vira-e-mexe (bimestralmente eu diria, pelo que venho observando há anos) ela é possuída (e não há termo mais adequado para o que se passa) por uma espécie de entidade que faz com que ela modifique, agudamente, o comportamento diante do olhar espantado da assistência do momento. O troço é quase um transe. E dá-se, sempre, à mesa de um bar qualquer.
Ele está lá, falando engrolado (quis dizer engrolado mesmo), rigorosamente de porre depois de uma intensa maratona com os amigos, e diante do olhar macio e tênue da companheira. Ela também bebericando, mas numa proporção evidentemente desigual. Vai que ele diz:
- Vamos, querida?
Meus poucos mas fiéis leitores... eis que dá-se a coisa.
Ela fecha os olhos, meneia a cabeça, sapateia discretamente, vira a cerveja do copo num sem-pulo e, como se fosse um Flávio Cavalcante erguendo o braço para "nossos comerciais, por favor!" (quem não se lembra disso?), grita para o garçom:
- Mais uma, por favor!
Ele geme:
- Amorzinho... não aguento mais... Vamos?
Segue a possessão:
- Vamos?! Vamos?! Você só pode estar brincando... Eu te suporto bebendo todos os dias e nunca pio, nunca digo um "a". Hoje quem vai beber sou eu.
O mais bacana - e o mais engraçado - é que SEMPRE (com a ênfase szegeriana de novo) depois desse anúncio vem a seguinte frase:
- E eu vou pagar tudo!
Os componentes da mesa se excitam e ela vai em frente:
- Tudo! Tudo! Peçam bebida! Peçam comida! É tudo por minha conta!
E ri uma gargalhada de cigana que, franca e sinceramente, trata-se da gargalhada impossível. Inimaginável que aquela mulher tão miúda, tão amena, seja capaz de gargalhar trovejando - mas ela gargalha.
Dá-se sempre a mesma seqüência. Ele, falando pastoso e alisando a própria cabeça, gane:
- Você tem noção de a quanto vai essa despesa?
Ecoa o trovão da gargalhada aguda de minha amiga. Sacando do cartão de crédito, exibe furiosamente o VISA para a assistência e ameaça:
- Não há limite! Dinheiro há! Eu pago tudo! Tudo, ouviu?
Ele passa a ser, então, o resignado.
Há coisa de uns meses, mesa de vinte, veio a conta: seiscentos reais.
Dentre os vinte, um novato no pedaço. Constrangidíssimo, vendo o olhar de desespero do sujeito diante da determinação perdulária da mulher, estendeu uma nota de cinqüenta reais em direção a ela e disse, tímido:
- Olha... É minha primeira vez com vocês... Não temos intimidade alguma, não fica bem que vo...
Ela arrancou a nota da mão do incauto e a arremessou, amassada, em seu rosto:
- Sorte a sua! Eu pago tudo! Tudo! Tu-do!
Olha, com olhar de desdém, pro próprio marido, e debocha:
- Não pago? Diz pra ele! Pago ou não pago?
Como um vira-latas, cabisbaixo, responde:
- Paga.
E anteontem - o tal mote que me inspirou - deu-se o mesmo (a coisa dá-se a cada - o quê?! - dois meses, com ligeiro agravamento no último bimestre do ano). Dez amigos bebiam desde cedo até que ele disse, alisando o joelho de sua menina:
- E aí? Vamos?
Isso foi por volta das oito e meia da noite.
O furdunço foi terminar por volta da meia-noite.
Ela - é impossível acostumar-se à transformação - virou vento diante da súplica do marido de porre. Mandou servir as mais finas iguarias (presunto de Parma, salaminho, queijos de todas as procedências) e anteontem foi internacional. Quando pediu ao garçom mais cerveja, e o pobre-diabo trouxe Brahma, foi taxativa:
- Quero as belgas! As belgas!
Ele ajoelhou-se:
- Aqui não, meu amor... aqui, não! Sabe quanto custa uma garrafinha dessas?
O dono, que já babava no balcão fazendo as contas do pendura do malandro, ria.
- Quanto? - ela disse de pé, rodando a saia e sorrindo um sorriso-padilha.
- Vinte e cinco, trinta...
Ela estacou. Virou-se pro dono e disse:
- Quanto é a mais cara da casa?
- Setenta paus.
Como uma toureira, ergueu a saia, sapateou, foi ao balcão, colou o nariz no nariz do dono e, num monumental gesto, num átimo, virou-se pro marido e gritou, de soslaio pro dono do estabelecimento:
- Quantos ml?
- Um litro.
- Cinco! Cinco garrafas! Pago! Pago! Pago!
Impressionante.
Até.
Ele é um fraterníssimo amigo, e recente amigo. Se eu fosse fazer uma equação (que seria estúpida já que sentimento não se sistematiza matematicamente), diria mesmo que nossa relação é absurda. Somos tão próximos, e tão íntimos, tão umbilicalmente ligados, que quando penso no tempo de convívio que temos sou obrigado a falar em vidas passadas e outros bichos do gênero. Ela, conseqüentemente, também me é recentíssima.
Ele bebe como um cossaco. De segunda a segunda, e sempre com promessas de nunca mais beber descumpridas logo após o despertar, ele está ali, na mesa de um bar, encostado num balcão qualquer, bebendo cerveja como quem respira e sem perder - eis a ressalva necessária - o prumo. Trabalha como um remador de Ben-Hur. Ama o que faz - o que faz dele um homem feliz - e é um homem que não transige, em NENHUMA (com a ênfase szegeriana) hipótese, com a hipocrisia, com a falsidade, com a mentira, com a sordidez que pulula por aí. Dotado de baixa estatura, é um gigante quando fala. Emociona-se com extrema facilidade e semana passada mesmo - foi quando decidi que lhes contaria esta história - deu de chorar (o que faz com freqüência) quando me contava sobre um recente episódio de sua vida, sentindo-se traído por alguém a quem considerava como um irmão. Nada teme, a não ser a própria mulher. E vocês entenderão a razão do permanente pânico de meu amigo, ele que convive com a mulher como o japonês que convive com o Japão, sempre com a ansiedade pânica diante da iminência de um terremoto.
Ela é um doce. Fala mansa, extremamente ciosa de seu papel de companheira, extremamente ciosa de que quem brilha ali, no palco do dia-a-dia do casamento, é ele, condescendente, terna, dulcíssima (perdoe-me a repetição inevitável), ela tem extrema paciência com o marido, dessas que só as enfermeiras têm, com as obsessões do marido, a quem compreende sempre com uma festinha na cabeça, um sorriso terno, quase maternal, e vão levando, assim, a vidinha deles.
Ocorre que - eis o quero lhes contar - vira-e-mexe (bimestralmente eu diria, pelo que venho observando há anos) ela é possuída (e não há termo mais adequado para o que se passa) por uma espécie de entidade que faz com que ela modifique, agudamente, o comportamento diante do olhar espantado da assistência do momento. O troço é quase um transe. E dá-se, sempre, à mesa de um bar qualquer.
Ele está lá, falando engrolado (quis dizer engrolado mesmo), rigorosamente de porre depois de uma intensa maratona com os amigos, e diante do olhar macio e tênue da companheira. Ela também bebericando, mas numa proporção evidentemente desigual. Vai que ele diz:
- Vamos, querida?
Meus poucos mas fiéis leitores... eis que dá-se a coisa.
Ela fecha os olhos, meneia a cabeça, sapateia discretamente, vira a cerveja do copo num sem-pulo e, como se fosse um Flávio Cavalcante erguendo o braço para "nossos comerciais, por favor!" (quem não se lembra disso?), grita para o garçom:
- Mais uma, por favor!
Ele geme:
- Amorzinho... não aguento mais... Vamos?
Segue a possessão:
- Vamos?! Vamos?! Você só pode estar brincando... Eu te suporto bebendo todos os dias e nunca pio, nunca digo um "a". Hoje quem vai beber sou eu.
O mais bacana - e o mais engraçado - é que SEMPRE (com a ênfase szegeriana de novo) depois desse anúncio vem a seguinte frase:
- E eu vou pagar tudo!
Os componentes da mesa se excitam e ela vai em frente:
- Tudo! Tudo! Peçam bebida! Peçam comida! É tudo por minha conta!
E ri uma gargalhada de cigana que, franca e sinceramente, trata-se da gargalhada impossível. Inimaginável que aquela mulher tão miúda, tão amena, seja capaz de gargalhar trovejando - mas ela gargalha.
Dá-se sempre a mesma seqüência. Ele, falando pastoso e alisando a própria cabeça, gane:
- Você tem noção de a quanto vai essa despesa?
Ecoa o trovão da gargalhada aguda de minha amiga. Sacando do cartão de crédito, exibe furiosamente o VISA para a assistência e ameaça:
- Não há limite! Dinheiro há! Eu pago tudo! Tudo, ouviu?
Ele passa a ser, então, o resignado.
Há coisa de uns meses, mesa de vinte, veio a conta: seiscentos reais.
Dentre os vinte, um novato no pedaço. Constrangidíssimo, vendo o olhar de desespero do sujeito diante da determinação perdulária da mulher, estendeu uma nota de cinqüenta reais em direção a ela e disse, tímido:
- Olha... É minha primeira vez com vocês... Não temos intimidade alguma, não fica bem que vo...
Ela arrancou a nota da mão do incauto e a arremessou, amassada, em seu rosto:
- Sorte a sua! Eu pago tudo! Tudo! Tu-do!
Olha, com olhar de desdém, pro próprio marido, e debocha:
- Não pago? Diz pra ele! Pago ou não pago?
Como um vira-latas, cabisbaixo, responde:
- Paga.
E anteontem - o tal mote que me inspirou - deu-se o mesmo (a coisa dá-se a cada - o quê?! - dois meses, com ligeiro agravamento no último bimestre do ano). Dez amigos bebiam desde cedo até que ele disse, alisando o joelho de sua menina:
- E aí? Vamos?
Isso foi por volta das oito e meia da noite.
O furdunço foi terminar por volta da meia-noite.
Ela - é impossível acostumar-se à transformação - virou vento diante da súplica do marido de porre. Mandou servir as mais finas iguarias (presunto de Parma, salaminho, queijos de todas as procedências) e anteontem foi internacional. Quando pediu ao garçom mais cerveja, e o pobre-diabo trouxe Brahma, foi taxativa:
- Quero as belgas! As belgas!
Ele ajoelhou-se:
- Aqui não, meu amor... aqui, não! Sabe quanto custa uma garrafinha dessas?
O dono, que já babava no balcão fazendo as contas do pendura do malandro, ria.
- Quanto? - ela disse de pé, rodando a saia e sorrindo um sorriso-padilha.
- Vinte e cinco, trinta...
Ela estacou. Virou-se pro dono e disse:
- Quanto é a mais cara da casa?
- Setenta paus.
Como uma toureira, ergueu a saia, sapateou, foi ao balcão, colou o nariz no nariz do dono e, num monumental gesto, num átimo, virou-se pro marido e gritou, de soslaio pro dono do estabelecimento:
- Quantos ml?
- Um litro.
- Cinco! Cinco garrafas! Pago! Pago! Pago!
Impressionante.
Até.
7 pitacos:
são amigos muito queridos. Beijo para os dois. Grande texto, Edu.
Esse casal é poderoso mesmo.
E a curiosidade, como vira-lata raivoso, fica no nosso calcanhar, mordendo e latindo...Quem são? Quem são?
Parabéns pelo texto, Edu!
Sensacional! Sensacional! Sensacional!
Dois queridos! E o texto ficou sensacional.
Beijo, meu velho.
È vero isso? A cachaça é mote para as melhores e piores lembranças. Eu também fico generosa quando bebo. Vixi! Abraços.
Acho que sei quem são, mas juro, por todos os meus santinhos, nunca imaginei uma coisa dessas, fiquei candidamente feliz. É a redenção. Beijos muitos.
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