19.12.09

UM CASAL ESPETACULAR

Sou amigo de um casal que, quero lhes dizer, é, lato sensu, espetacular. Manterei, por absoluta discrição, o nome dos dois. Não por pudor ou mesmo para simplesmente não expô-los. Mantenho seus nomes em segredo por absoluta convicção de que, expondo-os aqui, acenderei a lâmpada da falta de senso de uma porção de gente que, atrás das benesses econômicas advindas do convívio com ambos, passará a forçar uma intimidade que será uma janela aberta para o infinito e para o desagradável. Dito isso, feito o brevíssimo intróito, vamos ao que quero lhes contar sobre os dois.

Ele é um fraterníssimo amigo, e recente amigo. Se eu fosse fazer uma equação (que seria estúpida já que sentimento não se sistematiza matematicamente), diria mesmo que nossa relação é absurda. Somos tão próximos, e tão íntimos, tão umbilicalmente ligados, que quando penso no tempo de convívio que temos sou obrigado a falar em vidas passadas e outros bichos do gênero. Ela, conseqüentemente, também me é recentíssima.

Ele bebe como um cossaco. De segunda a segunda, e sempre com promessas de nunca mais beber descumpridas logo após o despertar, ele está ali, na mesa de um bar, encostado num balcão qualquer, bebendo cerveja como quem respira e sem perder - eis a ressalva necessária - o prumo. Trabalha como um remador de Ben-Hur. Ama o que faz - o que faz dele um homem feliz - e é um homem que não transige, em NENHUMA (com a ênfase szegeriana) hipótese, com a hipocrisia, com a falsidade, com a mentira, com a sordidez que pulula por aí. Dotado de baixa estatura, é um gigante quando fala. Emociona-se com extrema facilidade e semana passada mesmo - foi quando decidi que lhes contaria esta história - deu de chorar (o que faz com freqüência) quando me contava sobre um recente episódio de sua vida, sentindo-se traído por alguém a quem considerava como um irmão. Nada teme, a não ser a própria mulher. E vocês entenderão a razão do permanente pânico de meu amigo, ele que convive com a mulher como o japonês que convive com o Japão, sempre com a ansiedade pânica diante da iminência de um terremoto.

Ela é um doce. Fala mansa, extremamente ciosa de seu papel de companheira, extremamente ciosa de que quem brilha ali, no palco do dia-a-dia do casamento, é ele, condescendente, terna, dulcíssima (perdoe-me a repetição inevitável), ela tem extrema paciência com o marido, dessas que só as enfermeiras têm, com as obsessões do marido, a quem compreende sempre com uma festinha na cabeça, um sorriso terno, quase maternal, e vão levando, assim, a vidinha deles.

Ocorre que - eis o quero lhes contar - vira-e-mexe (bimestralmente eu diria, pelo que venho observando há anos) ela é possuída (e não há termo mais adequado para o que se passa) por uma espécie de entidade que faz com que ela modifique, agudamente, o comportamento diante do olhar espantado da assistência do momento. O troço é quase um transe. E dá-se, sempre, à mesa de um bar qualquer.

Ele está lá, falando engrolado (quis dizer engrolado mesmo), rigorosamente de porre depois de uma intensa maratona com os amigos, e diante do olhar macio e tênue da companheira. Ela também bebericando, mas numa proporção evidentemente desigual. Vai que ele diz:

- Vamos, querida?

Meus poucos mas fiéis leitores... eis que dá-se a coisa.

Ela fecha os olhos, meneia a cabeça, sapateia discretamente, vira a cerveja do copo num sem-pulo e, como se fosse um Flávio Cavalcante erguendo o braço para "nossos comerciais, por favor!" (quem não se lembra disso?), grita para o garçom:

- Mais uma, por favor!

Ele geme:

- Amorzinho... não aguento mais... Vamos?

Segue a possessão:

- Vamos?! Vamos?! Você só pode estar brincando... Eu te suporto bebendo todos os dias e nunca pio, nunca digo um "a". Hoje quem vai beber sou eu.

O mais bacana - e o mais engraçado - é que SEMPRE (com a ênfase szegeriana de novo) depois desse anúncio vem a seguinte frase:

- E eu vou pagar tudo!

Os componentes da mesa se excitam e ela vai em frente:

- Tudo! Tudo! Peçam bebida! Peçam comida! É tudo por minha conta!

E ri uma gargalhada de cigana que, franca e sinceramente, trata-se da gargalhada impossível. Inimaginável que aquela mulher tão miúda, tão amena, seja capaz de gargalhar trovejando - mas ela gargalha.

Dá-se sempre a mesma seqüência. Ele, falando pastoso e alisando a própria cabeça, gane:

- Você tem noção de a quanto vai essa despesa?

Ecoa o trovão da gargalhada aguda de minha amiga. Sacando do cartão de crédito, exibe furiosamente o VISA para a assistência e ameaça:

- Não há limite! Dinheiro há! Eu pago tudo! Tudo, ouviu?

Ele passa a ser, então, o resignado.

Há coisa de uns meses, mesa de vinte, veio a conta: seiscentos reais.

Dentre os vinte, um novato no pedaço. Constrangidíssimo, vendo o olhar de desespero do sujeito diante da determinação perdulária da mulher, estendeu uma nota de cinqüenta reais em direção a ela e disse, tímido:

- Olha... É minha primeira vez com vocês... Não temos intimidade alguma, não fica bem que vo...

Ela arrancou a nota da mão do incauto e a arremessou, amassada, em seu rosto:

- Sorte a sua! Eu pago tudo! Tudo! Tu-do!

Olha, com olhar de desdém, pro próprio marido, e debocha:

- Não pago? Diz pra ele! Pago ou não pago?

Como um vira-latas, cabisbaixo, responde:

- Paga.

E anteontem - o tal mote que me inspirou - deu-se o mesmo (a coisa dá-se a cada - o quê?! - dois meses, com ligeiro agravamento no último bimestre do ano). Dez amigos bebiam desde cedo até que ele disse, alisando o joelho de sua menina:

- E aí? Vamos?

Isso foi por volta das oito e meia da noite.

O furdunço foi terminar por volta da meia-noite.

Ela - é impossível acostumar-se à transformação - virou vento diante da súplica do marido de porre. Mandou servir as mais finas iguarias (presunto de Parma, salaminho, queijos de todas as procedências) e anteontem foi internacional. Quando pediu ao garçom mais cerveja, e o pobre-diabo trouxe Brahma, foi taxativa:

- Quero as belgas! As belgas!

Ele ajoelhou-se:

- Aqui não, meu amor... aqui, não! Sabe quanto custa uma garrafinha dessas?

O dono, que já babava no balcão fazendo as contas do pendura do malandro, ria.

- Quanto? - ela disse de pé, rodando a saia e sorrindo um sorriso-padilha.

- Vinte e cinco, trinta...

Ela estacou. Virou-se pro dono e disse:

- Quanto é a mais cara da casa?

- Setenta paus.

Como uma toureira, ergueu a saia, sapateou, foi ao balcão, colou o nariz no nariz do dono e, num monumental gesto, num átimo, virou-se pro marido e gritou, de soslaio pro dono do estabelecimento:

- Quantos ml?

- Um litro.

- Cinco! Cinco garrafas! Pago! Pago! Pago!

Impressionante.

Até.

7 comentários:

Felipinho disse...

são amigos muito queridos. Beijo para os dois. Grande texto, Edu.

leo boechat disse...

Esse casal é poderoso mesmo.

Claudio Renato disse...

E a curiosidade, como vira-lata raivoso, fica no nosso calcanhar, mordendo e latindo...Quem são? Quem são?

Parabéns pelo texto, Edu!

Carlos Andreazza disse...

Sensacional! Sensacional! Sensacional!

Diego Moreira disse...

Dois queridos! E o texto ficou sensacional.

Beijo, meu velho.

Andrea disse...

È vero isso? A cachaça é mote para as melhores e piores lembranças. Eu também fico generosa quando bebo. Vixi! Abraços.

Mônica Machado disse...

Acho que sei quem são, mas juro, por todos os meus santinhos, nunca imaginei uma coisa dessas, fiquei candidamente feliz. É a redenção. Beijos muitos.