26.1.10

O IMBRÓGLIO MARTINHO DA VILA

Vocês que me lêem sabem que o couro comeu, que a cuíca roncou, que o pau quebrou quando publiquei, em 22 de janeiro, o texo SALVE MARTINHO DA VILA, aqui. Até o momento foram 54 comentários, tiro pra tudo o que é lado, copos e talheres feito pipa voando, muita gasolina na fogueira, gente disparando extintores de pó químico sobre o balcão, um furdunço sem precedentes no BUTECO e que obrigou a exercer, como nunda dantes, o papel de gerente-pacificador do estabelecimento. Ocorre que ontem à noite, no balcão do SAMBAS, BOEMIA E VAGABUNDOS, do Eduardo Carvalho, o Claudio Renato, com autoridade pra falar sobre o assunto que deu início à confusão (o caboclo é velha-guarda, cascudo em Vila Isabel e amigo pessoal do Martinho) - o samba de 2010 da VILA ISABEL -, provou, em dez itens, que o buraco é mais fundo que a camada do pré-sal. Peço, com respeito a dois de meus poucos mas fiéis leitores, Carlos Andreazza e Marcelo Moutinho, implacáveis com o autor do samba vencedor da escola em 2010, que leiam com atenção o que diz o Claudio Renato a fim de que entendam, definitivamente, de que lado está Martinho José Ferreira. Vamos ao que nos disse, em síntese, o Claudio Renato:

01) Martinho da Vila tem (sempre teve) asco do Moisés, presidente da escola, por considerar que este transformou a UNIDOS DE VILA ISABEL em um feudo. A ponto de não mais pisar espontaneamente na quadra. Martinho perdeu, em disputas, diversas vezes, para sambas horrorosos feitos por oito, dez compositores do mesmo grupo do Moisés. Jamais entendeu isso. Martinho não acredita em samba feito por mais de três compositores;

02) um belo dia, no começo de 2009, Martinho recebe, em sua casa, um telefonema do Moisés, informando que pretendia fazer dele, Martinho da Vila, o enredo. Uma armadilha, no centenário de Noel Rosa, que Martinho demorou algumas horas para detectar. Já se sabia que ele viria com um samba muito forte, se o enredo fosse Noel Rosa. No mundo do samba, as informações correm numa velocidade espantosa;

03) registre-se que um samba vencedor pode render aos autores até R$ 300.000,00 (trezentos mil reais). Ninguém queria perder a boquinha, nem o presidente. E Martinho seria pule de dez caso o enredo fosse Noel Rosa;

04) em seguida, Martinho disse a Moisés que se sentia lisonjeado, mas que achava que a VILA ISABEL não poderia cometer o mesmo equívoco da Mangueira, que, no ano do centenário de Cartola rendera homenagens aos 100 anos... do frevo!!! Martinho encontrou-se, então, com o jornalista João Máximo, co-autor da biografia de Noel Rosa, e o levou para a escola;

05) a princípio ficou combinado, numa espécie de pré-acordo, que o enredo seria mesmo Noel Rosa e que o Martinho responderia exclusivamente pelo enredo, sem compor samba para a disputa. Ao contrário do que se pensa, tudo o que o presidente queria era que Martinho ficasse fora de tudo (enredo, samba-enredo etc) para que, mais uma vez, o mesmíssimo grupo, que vinha, há anos, abocanhando o samba da escola, fosse responsável pelo hino da VILA ISABEL em 2010;

06) Martinho, entretanto, não assinou nada, não comprometeu-se com nada, nem sim, nem não - sabem como? E apresentou sua obra-prima pouco depois. E de cara, como de praxe, empolgou;

07) na sinopse de seu samba, Martinho diz que o samba-enredo se basearia em outro samba, composto por ele e por Gracia do Salgueiro. Ele mudou partes importantes da letra e fez uma melodia completamente diferente. Só com muita má vontade não se reconhece isso. E isso causou profundo mal estar no establishment da escola;

08) os demais compositores, muitos deles componentes do chamado "escritório" (quem é do ramo sabe do que estou falando), dizem que não se inscreveram para não disputar com Martinho da Vila. Segundo consta, eles na verdade puseram nome de laranjas - mas disputaram. E se uniriam, todos, na grande final, no dia da escolha do samba-enredo, contra Martinho da Vila, que teve que cancelar uma viagem, ir à quadra e (ele mesmo) defender o samba para garantir a vitória. Quem estava na quadra garante: foi um delírio só;

09) Martinho pretende fazer uma homenagem a Gracia, reconhece o parceiro do samba que deu origem ao samba-enredo mas, na verdade, o samba de 2010 é dele (embora o nome do compositor de Gracia do Salgueiro esteja citado na sinopse). Sobre parcerias em samba-enredo, sugiro a leitura do livro que será lançado no dia 03 de fevereiro, de Alberto Mussa e Luiz Antonio Simas;

10) o ódio ao Martinho, por determinados setores minoritários mas poderosos da escola, é tão grande, tão grande, que uma pessoa muitíssimo chegada a ele chegou a dizer: "Você só não é assassinado porque é o Martinho, um homem de projeção internacional.".

Leiam o belíssimo texto do Eduardo Carvalho em homenagem a Martinho da Vila, aqui.

Até.

28 comentários:

Mauro Rebelo disse...

Edu, querido, texto E-X-C-E-L-E-N-T-E! Um beijo

Luiz Antonio Simas disse...

Conceito de autoria no samba de enredo é uma foda. É um vatapá dos diabos e os critérios para definir quem são os autores de um samba são muito diferentes. Acho, porém, que há um detalhe nessa história toda que muda um pouco o rumo da prosa: O Presença de Noel já existia e não foi composto como samba de enredo. Foi adaptado e gerou o novo samba.
Que me desculpe o Martinho, Edu, mas melodia completamente diferente na primeira parte só pode ser piada.É, evidentemente, uma piada. Não vi outra melodia na primeira parte, não. Vi uma variação relativamente simples da melodia que já existia.
O ótimo samba de enredo da Unidos de Vila Isabel em 2010 é do monumental Martinho da Vila e de Gracia do Salgueiro, já que é fruto de outra obra assinada pelos dois - e isso modifica um pouco essa questão difusa da autoria dos sambas.
Sobre o furdunço Martinho-Comandante Moises, prefiro não meter meu pitaco, até porque os detalhes que você apresenta são muito coerentes com o modo de agir do poderoso chefão da Vila, lugar tenente do capitão Guimarães.
Viva sempre o necessário Martinho, viva Gracia e viva o samba.
É isso.
obs: Não vou entrar em polêmica virtual com ninguém, até porque entrei na fase siminhas paz e amor, agressividade zero, sombra e água fresca, devagar, devagarinho, gentileza gera gentileza e é melhor perder a oportunidade de escrever um texto do que se colocar em risco as camaradagens.
Beijo

Eduardo Goldenberg disse...

Obrigado, Mauro. Pensei que você tinha morrido. Um beijo.

Simão: acho que a melodia é completamente diferente, rigorosamente diferente - é como ouço. Mas proponho uma solução. Só uma pessoa pode dirimir essa dúvida: Caetano Veloso. Beijo.

Luiz Antonio Simas disse...

Meu velho, Martinho fez variações em torno da mesma melodia, não tenho qualquer dúvida. A gente fica, de qualquer forma, nessa lenga-lenga e esquece mesmo do mais simples - é Caetano o sujeito indicado para acabar com essa punheta virtual.
Proponho, pois , que o samba tenha três autores: Martinho da Vila, Gracia do Salgueiro e Caetano Veloso. Vou até escrever sobre isso.

Bruno Ribeiro disse...

Simas: a idéia é genial. Ou não.

Marcelo Moutinho disse...

Concordo com o Simas e com o óbvio=: a melodia da primeira parte não é nova, não.

E insisto: não sou "implacável" com Martinho. Reconheço seu imenso talento, só acho que ele cometeu um erro (grave, sim) nessa questão. Está difícil fazer entender que existe um lugar entre a crítica absoluta e o elogio acrítico.

Claudio Renato disse...

Edu,

A bem da verdade, eu não sou amigo do Martinho, mas o conheço, já o entrevistei várias vezes, conheço o pessoal dele e o povo da escola que se concentra no mesmo pé-sujo que frequento. Ninguém disse ao Martinho que ele poderia ser assassinado. Uma pessoa muito ligada a ele disse a mim que ele só não sofreu um atentado, porque é internacionalmente conhecido.

Quero dizer que concordo com o Marcelo Moutinho: deve haver um equilibrio entre as diatribes raivosas e a apologia acrítica. Só acho que se a gente perde a dimensão da brincadeira, do lúdico, do comovente, o carnaval também deixa de ter sentido.

Quem sabe como Beto Sem Braço resolvia a disputa de sambas no Imopério Serrano, sabe que não existem santos. E nada diminui em um milímetro a importância do Império, onde meu pai tocava um pandeiro tão pesado que a gente, criança, não conseguia sequer segurar...

Luiz Antonio Simas disse...

BRUNO, claro que a ideia pode até ser boa. Acho, inclusive, um ótimo samba. A questão é outra. Só acho, sem maiores polêmicas [estou novo demais pra morrer mas velho pra cruzar a Sapucaí no pique], que o Gracia tinha que estar citado como autor do samba, já que o Presença de Noel foi feito antes. É simples e não fere ninguém...

Ass: Siminhas Paz e Amor, fã do Martinho, do Gracia e do Edu.

Eduardo Goldenberg disse...

Leitores do BUTECO: percebam a falta que faz (e que fez) Luiz Antonio Simas no balcão.

Bruno Ribeiro disse...

Simas:

Quem lhe respondeu anteriormente foi Caetano Veloso. Ou não.

Diego Moreira disse...

Caríssimos, humildemente e assumindo antes de qualquer coisa que entendo muito menos de carnaval do que qualquer um aqui, acho que todo o barulho que cerca o samba do Martinho vem de uma ponta de decepção dos muitos que esperavam dele um samba 100% original.

Não tenho competência alguma pra dizer que o samba novo é muito parecido ou muito diferente do samba velho, feito em parceria com o Gracia. Mas está claro que ele não é 100% original.

Guardo uma certeza comigo - e posso estar equivocado nela - de que se a escolha de um samba não valesse tanto dinheiro - 300 mil é dinheiro pra caralho - o barulho seria muito menor.

Nasci em 82. Já sou do tempo do samba em LP e CD. Antes desse tempo, nos casos que conheço, a vitória de um samba valia algumas ampolas ou outro prêmio de dignidade similar para os compositores. O dinheiro, o mercado - esses deuses de hoje - figuram entre os responsáveis por essa evolução negativa do samba-enredo.

Não posso dizer que o Martinho é ganancioso. Seria leviano da minha parte. Ele pode achar que o samba é original o suficiente para ser só dele. E os outros podem discordar, é claro. Não digo que ele é ganancioso até porque não sei se, caso o nome do Gracia entrasse no samba, ele teria que dividir o prêmio. Não sei nem se o Gracia já morreu, se alguém ganharia por ele etc.

O que me parece estar em jogo é a dignidade de um sambista. Acho, mesmo, que o Martinho sabe que o samba não é 100% original mas crê que ele é original o suficiente para ser só dele. Se ele pensa assim, creio que sua dignidade está intacta.

E acho que deve-se considerar, e muito, nessa discussão que trata-se do Martinho, um gênio da raça. O cara não chegou ontem no samba nem em Vila Isabel.

Tudo bem, isso não lhe daria o direito de jogar a criatividade e a dignidade pela janela, em troca de uns merréis. Mas eu não acho que foi isso o que ele fez.

Carlos Andreazza disse...

A história é muito bonita, romântica - e serve, perfeitamente, à mistificação. Não acredito nela, porém, e reforço o que escrevi. Ou Martinho vem a público e diz o que houve, banca esta história que contou ao Claudio Renato, ou nada terá mudado.

Por que, afinal, eis o meu ponto, Martinho não esclarece esse caso? Por quê?

(Beto Sem-Braço, melhor compositor de samba-enredo que Martinho, de uma escola maior e mais importante que a Vila Isabel, era metido a valente e andava com a bandidagem, não raro se misturando com ela - e foi preso, algumas vezes, por isso; continuará a ser sempre um grande compositor, mas isso não o redime dos tiros disparados e da truculência habitualc).

Eduardo Goldenberg disse...

Andreazza: não posso lhe sugerir, outra coisa, que não isso - procure o Martinho da Vila, um sujeito extremamente acessível, e vá em busca da verdade, então, pô!

Sua ameaça, meu caro, (ou algo parecido com isso) - "ou Martinho vem a público e diz o que houve, banca esta história que contou ao Claudio Renato, ou nada terá mudado" - soa infantil. Vá a ele! O público, o público que vi, sob chuva, lotando a 28 de Setembro no domingo passado, o público responsável pela energia da nossa VILA ISABEL, tem o caso como encerrado, e há tempos. Posso, também, se você quiser, levá-lo ao Morro dos Macacos, onde sou sempre muito bem recebido, já que uma de minhas afilhadas (lembre-se de que tenho mais afilhadas que a finada Zilda Arns) mora lá, onde fiz grandes parceiros de samba e de bar. É um ponto interessante pra se conhecer mais sobre a escola.

"Martinho não esclarece esse caso" por falta de quem pergunte - faça isso! Posso lhe dar, na encolha, seu e-mail.

Quanto às comparações, vou me eximir de entrar no mérito.

Abraço.

Marcelo Moutinho disse...

Edu, a "energia da nossa Vila Isabel" é por conta da Eletrobras, que em virtude do patrocínio ganhou esse verso!

(Calma, advogados do Martinho, eu estou brincando...)

Marcelo Moutinho disse...

SObre o Beto, no ano do "Mãe baiana mãe" ele deu tiro dentro da quadra. Meu pai chegou em casa branco!

Eduardo Goldenberg disse...

Moutinho: isso naquele ano, né? Tem mais, tem mais... Abração!

Marcelo Moutinho disse...

Sim, ele não era fácil! Embora excelente compositor.

Claudio Renato disse...

Beto sem Braço está para Martinho como Cafuringa está para Garrincha.

Carlos Andreazza disse...

Martinho sabe que está questão está no ar. Já foi questionado a respeito, e se saiu com aquela rara elegância para com o Gracia. Não fala mais por que não quer - ou não pode. Eu não ameaço, Edu. Meu recado é claro... Apenas disse - e digo - que, se acreditasse no que relatou o porta-voz extra-oficial Claudio Renato, faria uma retratação pública a propósito de meu texto. Como não acredito, como leio tudo, generosamente, por ficção pura, reforço o que escrevi.

E aceito, claro, o convite para ir à 28 de setembro e, sobretudo, ao morro dos Macacos. Pode ser bacana, agradável etc., a companhia da comunidade pode [deve] ser agradável, mas em nada mudará a minha opinião sobre o concurso de sambas da Vila Isabel e a obra escolhida para 2010.

Tudo vergonhoso e mesquinho.

Abraço!

Renata Werneck disse...

"Ou o Martinho vem a público... ou..." kkkkkkkkkkkk

Fala sério! Só pode ser piada, aliás, piadas brotam atualmente na balcões vituais, não é?

Acho que se o Martinho (músico amado e reconhecido por milhões de brasileiros, responsável por parte significativa do que há de belo e revolucionário na história do samba) ler isso, nem vai dormir à noite, de tamanha preocupação.

Sinceramente, falta muito espelho nesse mundo.

Edu, grande abraço.

Szegeri disse...

O comentário acima assinado pelo Carlos Andreazza (sobre o Beto-sem-braço) é uma das coisas mais divertidas que eu já li neste blogue nesses, o quê, seis, sete anos... Manja muuuuito!

Luiz Antonio Simas disse...

Vocês estão discutindo isso porque não foram parceiros de Renato Sorriso, melhor que Beto Sem Braço e Martinho da Vila juntos. Eu fui e posso garantir - Sorriso é maior, em letra e melodia.
E o melhor samba do ano, deixemos de babaquice, é o do Porto da Pedra, sobre o mundo da moda. E acho também que a exaltação da Portela aos proctologistas, com o belo tema sobre a inclusão digital, é excelente - melhor que Lendas e Mistérios da Amazônia e Macunaíma.
E entre Cafuringa e Garrincha eu sou mais o Cremilson. Como acho que o Darinta jogou mais que o Domingos da Guia.
Acho tudo isso, mas se alguém achar diferente eu concordo, já que estou na fase Siminhas Paz e Amor.
Abraços.

Eduardo Goldenberg disse...

Discordo num ponto, Luiz Antonio: e isso, sei, você não confesserá nem ao médium de mesa branca, depois de morto. O pior samba da safra 2010 é, de longe, o modorrento samba da Serrinha. Beijo.

Claudio Renato disse...

Cáspite, Edu! O sujeito já vem me chamar de "porta voz extra-oficial"!Uauauauauauauaua!! Ridículo!

E você e a Renata me pediram muito para falar o que sabia. Eu disse o que sabia. Na boa, na camaradagem, na consideração, convida pra vim aqui não...

A Vila Isabel é suja, é horrorosa, é nojenta, é violenta...Deixa esse povo lá!

Renata, o Martinho tá se tremendo. Só dorme à base de Lexotan!

Luiz Antonio Simas disse...

EDU, você leu muito mal o meu comentário. Eu falei sobre os melhores sambas - Portela e Porto da Pedra - e você se confundiu. Em nenhum momento falei de piores sambas do ano. Releia meu comentário - só mencionei os melhores sambas do ano, insisto.
Não sei da onde você tirou isso. Como é que você pode discordar de uma opinião que eu não emiti?
Polêmica tem limites.
Eu só me interesso por coisas Positivas e queria ser ginecologista quando garoto, daí meu apreço pelo sambaço da águia altaneira.
Beijo

Eduardo Goldenberg disse...

Desculpa. Nesse caso - faço a retificação - sambaço, mesmo, é o da Serrinha! Beijo.

Carlos Andreazza disse...

Martinho da Vila não fala a verdade por quê, seja ela qual for, ficará feio - mais ainda - para ele. (Apesar do bom trabalho da patrulha)...

Marcelo Moutinho disse...

Edu, o samba do Império 2010 tem vários defeitos, menos o de ser modorrento.