19.3.10

BESTEIRAS OLÍMPICAS

Li, ontem, no TWITTER do Geneton Moraes Neto - o BUTECO está no TWITTER, vejam aqui -, a seguinte frase:

"Dúvida boba que me assalta há décadas: quem inventou que escritores devem botar a mão no queixo nas fotos das orelhas dos livros? Quem? Quem?"

Foi ele mesmo quem disse, por isso sinto-me à vontade para repetir: dúvida boba, mesmo. Mas além de engraçadíssima, suscitadora de outras tantas, envolvendo escritores, que quero dividir com vocês. E digo desde já: dúvidas que eu tenho, eu que não me considero, nem de longe, um escritor, no máximo um escrivinhadeiro de histórias e de besteiras que exponho aqui, há anos. São, portanto, na essência, dúvidas de um leitor. Vamos ao que tenho a lhes dizer.

Antes, porém, gostaria de sugerir a leitura de três textos que publiquei respectivamente em 23 de março de 2007 - "AMORES EXPRESSOS": NOJO ANUNCIADO", aqui -, 15 de agosto de 2007 - AMORES EXPRESSOS: E ELES SÃO GENIAIS, aqui - e em 28 de novembro de 2007 - PROJETOS, PROJETOS, PROJETOS..., aqui. E de um outro, este de autoria de Aldir Blanc, publicado em 08 de dezembro de 2007, em seu blog, chamado PAU NO LOMBO (leiam aqui, e se divirtam com os sensacionais comentários de Luiz Carlos Fraga) e que justamente faz referência à polêmica que rendeu o texto PROJETOS, PROJETOS, PROJETOS.... Lidos? Ou não lidos? Vamos em frente.

Os tais textos, todos eles, fazem referência a essa praga que atende pelo nome de "projetos". E que sustentam, eis a verdade que dói, muita gente. Nestes textos, por exemplo, faço referência explícita ao projeto AMORES EXPRESSOS, que previa a "edição e publicação de livro, no qual vários autores brasileiros contarão uma história de amor, que se passe em várias cidades do nosso planeta. Os autores viverão a experiência de explorar as cidades que vão servir de cenário para a sua história de amor e criatividade, dentre elas, Paris (Carlos Sussekind), Praga ( Sérgio Sant'Anna) e São Petersburgo (Bernardo Carvalho). Tiragem 56.000 exemplares / Distribuição 11.250 / Patrocinador 5.600 gratuita (bibliotecas estaduais implantadas pelo MinC) / 39.150 venda normal de R$ 35,00 / Total da venda R$ 1.370.250,00.". Registrado no PRONAC sob o número 071563, pretendia captar R$ 1.070.810,00.

Confesso minha ignorância (e peço a ajuda de quem puder me ajudar...): pelas informações que constam do portal do Ministério da Cultura, o tal projeto pretendia captar essa baba (quase um milhão e meio de reais), foi autorizado a fazê-lo mas não houve um único centavo captado. Mas a rapaziada escolhida pelo coordenador editorial do troço, João Paulo Cuenca, viajou. E parece que alguns livros (e não livro, conforme constava do projeto inicial) já saíram (vejam aqui). Consta, neste site, o seguinte:

"Em seu mergulho no estrangeiro, os autores só terão a preocupação de produzir literatura, procurando ouvir e reproduzir a voz do outro que se encontra em cada um, suas alteridades particulares que o isolamento da jornada fará aflorar."

Quem afinal - eis uma de minhas dúvidas - pagou o mergulho dos autores que viajaram mundo afora para "produzir literatura"? E o que seria, eis outra dúvida, "produzir literatura"? Desde quando - meu Deus... - escritor precisa do "isolamento da jornada" para escrever?

Breve digressão: Aldir Blanc, um de meus ídolos, há anos viaja do quarto para o escritório, do escritório para o banheiro, do banheiro para a cozinha, da cozinha para o escritório e do escritório para o quarto e escreve pra burro. Nelson Rodrigues viajava da Aldeia Campista para o Centro, depois de Copacabana para o Maracanã, do Maracanã para Copacabana, e escrevia pra burro. Alberto Mussa (até onde me consta), produz suas obras-primas (é, de longe, na minha humílima opinião, um dos mais geniais e originais escritores brasileiros da atualidade) fazendo o trajeto casa-botequim-botequim-casa. Voltemos ao tema.

Voltemos ao tema e vamos ao que quero lhes dizer desde o início.

Leio Rubem Fonseca desde que me entendo por leitor. E considero que hoje, aos 83 anos, e já há algum tempo - o que é plenamente justificável - o grande escritor vem perdendo o punch. E o juízo, pombas! Li, estarrecido, anteontem, que Rubem Fonseca, de 83 anos (repita-se), fez, na terça-feira passada, uma de suas raríssimas aparições públicas. Saiu do Rio e foi à São Paulo para, segundo o jornal O GLOBO, "cumprir uma obrigação de "mestre": alimentar sua discípula literária, a escritora carioca Paula Parisot.".

Até aí, tirante o verbo "alimentar" - que poderia causar estranheza à primeira vista - nada demais, certo? Errado.

A "escritora carioca Paula Parisot", desde 11 de março, e até ontem, 18 de março - por uma semana, portanto - ficou confinada em uma caixa de acrílico de apenas 12 metros quadrados no interior da LIVRARIA DA VILA, em Pinheiros, SP, uma livraria - segundo me garantem os que me lêem - muito da fresca.

Daí, em rapidíssima entrevista ao jornal, disse Rubem Fonseca:

"- Acredito que seja a primeira vez que um escritor faz uma performance, pelo menos no Brasil - disse Rubem a outras pessoas que observavam Paula. - É um trabalho sério. Sei que muita gente julga como simples jogada de marketing, mas não é nada disso - completou, enquanto explicava detalhes da performance da escritora. "

Porra, peralá! Devagar com o andor que o santo é de barro e o papo é pra enganar otário.

Às vésperas do lançamento de seu primeiro romance, GONZOS E PARAFUSOS (o lançamento foi ontem!), a "escritora carioca Paula Parisot" decidiu, assim, do nada (pura performance!) - segundo a matéria do jornal carioca - "inspirada por artistas como Joseph Beuys e Marina Abramovic, (...) vivenciar a experiência da protagonista de seu romance, Isabela, uma psicanalista que decide se internar em um sanatório após delirar com borboletas, uma gata que fala, o retrato feito por Gustav Klint da Baronesa Elisabeth Bachefen-Echt e "A menina de cabelo negro nua em pé", pintura de Schiele.".

Diz a matéria, ainda, que Rubem Fonseca "mostrou-se preocupado ao vê-la mais magra e quis saber se ela estava se alimentando e dormindo bem. Paula, por sua vez, mostrou grande alegria ao ver seu mestre. Uma das regras da performance de Paula é não falar, mas a escritora interage com quem a observa e na presença de Rubem dançou, saltitou, e, nos momentos de maior assédio ao escritor, chorou, irritou-se com os fotógrafos que ameaçavam espantar Rubem do local e gritou.".

Ainda sobre a babaquice, o jornal conta que a porra da caixa de acrílico reproduzia "o quarto no qual Isabela, protagonista de "Gonzos e parafusos", fica internada no romance. A escritora tem sido alimentada a cada dia por uma pessoa importante em sua vida. Os primeiros a levar as refeições à artista foram os sogros. No segundo dia, foi a vez do editor, Pascoal Soto. No terceiro dia, ela recebeu alimentos de suas duas melhores amigas. No domingo, seu marido, o roteirista Richard. Segunda-feira, sua mãe, Ana Seabra. E Rubem Fonseca, o mestre, foi o "convidado" desta terça-feira.".

A íntegra da matéria está aqui.

Dúvida (a última): se era apenas pra vivenciar a experiência da protagonista de seu romance por que a "escritora carioca Paula Parisot" não construiu a porra da caixa de acrílico dentro de sua casa sem fazer alarde, sem chamar a imprensa?

Dirão alguns de vocês que estou acendo muita vela pra pouco defunto e fazendo, talvez, o que a "escritora carioca Paula Parisot" queira: publicidade de seu livro. Mas digo que não. Não acho que Rubem Fonseca seja "pouco defunto", não acho que o assunto seja irrevelante e acho que é bastante importante expôr, sempre, com veemência, a nojeira em que está se transformando, a passos largos, o mundo de hoje, no qual vale tudo em nome da exposição.

Até.

7 comentários:

Daniel Banho disse...

Sobre esse negócio de viajar ou se isolar pra "produzir literatura", lembrei de João Nogueira e PC Pinheiro:

"Não, ninguém faz samba só porque prefere
Força nenhuma no mundo interfere
Sobre o poder da criação
Não, não precisa se estar nem feliz nem aflito
Nem se refugiar em lugar mais bonito
Em busca da inspiração
Não, ela é uma luz que chega de repente
Com a rapidez de uma estrela cadente
Que acende a mente e o coração"

Mestres.

Abraço.

alberto disse...

Grande Edu! Primeiro, obrigado pela generosidade, fico sem ter o que dizer...
Bem, ao assunto: Machado, o maior escritor do século 19, saiu do Rio uma única vez para ir a Friburgo, segundo seus biógrafos.
Morri de rir aqui, lendo seu texto, e assustei alguns vizinhos. Como só leio futebol, não sabia do caso. Fiquei preocupado, porque não tenho muitas habilidades.Não sei como fazer um experimento real para fundamentar meu próximo livro, que se passa em 1913.
A propósito, presumindo que a escritora confinada fez suas necessidades no âmbito da caixa acrílica, que belo romance não deverá surgir no futuro! Talvez PENICOS E COMADRES, relato pungente e verossímil sobre a experiência de excretar em público. É a nova literatura.
Preciso urgentemente ganhar um samba de enredo para mudar de ofício. Tá pegando mal ser escritor.
forte abraço do irmão,
mussa

Eduardo Goldenberg disse...

Daniel: diz muito esse trecho dessa obra-prima, não? E a gente tem que engolir a imprensa babando o ovo desses péla-saco justificando a necessidade dessas viagens, desses mergulhos, desses movimentos introspectivos... é muuuuuita babaquice pro meu gosto. Abraço.

Grande Mussa: não fui generoso, meu caro. Fui sincero e - quero crer - preciso do início ao fim. Você não precisa dizer nada: escreva, escreva, escreva - basta! Quem riu, agora, fui eu. Imagine o que dirão os escritores-de-araque lendo essa sua declaração de que você só lê futebol! E mais: fico torcendo daqui pra que você não ganhe, então, samba algum. Escrevendo, meu velho, prosseguindo na trilha magnífica da sua obra - que é orginal e genial, repito - você honra o escritor de verdade. Às favas essa nova literatura! Abração.

Renata Werneck disse...

Edu querido. Li a matéria no Globo e, para mim, o auge foi “... na presença de Rubem dançou, saltitou, e, nos momentos de maior assédio ao escritor, chorou, irritou-se com os fotógrafos...”. Não! Fala sério! É falta duma bela coça nessa imbecil! Pra mim, quem precisa desse tipo de artifício pra vender livros não escreve é nada! E isso eu não vou poder comprovar porque a chance de eu perder meu tempo lendo o “romance” da “escritora” é NULA. Agora, além de enojada com a picareta candidata ao BBB 11, fiquei triste de saber que o Rubem Fonseca que se diz um recluso, prestou-se ao papel de ir chancelar a palhaçada. Sou fã do cara, mas acho que ele podia ter continuado recluso e dormido sem pagar esse mico. Bj.

Eduardo Goldenberg disse...

Dá-lhe, querida! Com a licença do Edu, de novo, faço questão de repetir: você é a pitbull de plantão nesse buteco! Beijo.

Bruno Ribeiro disse...

Enquanto isso, o Vagner Love não pode nem curtir seu baile funk em paz...

Elaine disse...

Bom, dá pra conferir o "talento" da moça sem gastar um centavo: é só ler este conto, que o blog do Prosa e Verso publicou há um ano. Além de lugar-comum toda vida, a mocinha ainda nos brinda com erros crassos de português, como vírgulas separando sujeito do verbo e um "acento de ônibus" (nada a ver com o circunflexo!). Não sei se vocês terão saco para ler tudo, mas fica a dica.