3.3.10

DIGRESSÕES À MESA

Eu já lhes disse, certa vez, aqui, que o gordo é, acima de tudo, um invejoso. Disse-lhes, mais, que "o gordo não come por fome, o gordo come porque se sente, intuitiva e instintivamente, elemento indispensável do espetáculo do fomento da banha humana, essa coisa que dá a ele a tal aura de santidade de que nos falava o Nelson. O gordo come em busca do aplauso do acompanhante, em busca do olhar de incredulidade do magro ao lado.". É, meus poucos mas fiéis leitores, a mais pura verdade. E é preciso que vocês tenham certa parcimônia com o gordo, usado aqui apenas como figura plástica para dar mais graça ao que quero lhes contar hoje. Eu, por exemplo, sou um gordo, um bom. Estou no auge da curva que mede minha banha particular. Sinto-me um Chico-Bóia, apud Nelson Rodrigues. Amarrar os sapatos, abaixar para pegar uma moeda, tem sido para mim um desafio olímpico. Mas à mesa - eis o que queria lhes dizer - me comporto como um esquálido, um famélico. E meu comportamento à mesa, mesclado a meu olhar de gordo sempre em busca da polêmica, me dá autoridade para lhes contar sobre coisas que me dão engulhos ardentes. Usei a palavra polêmica e peço um instantinho da atenção de vocês.

Se eu escrevo aqui no BUTECO um texto, digamos, polêmico, agressivo, se eu faço cantar o vento brandindo meu ogó imaginário, pululam os comentários: 30, 40, 50, 60 leitores dão as caras no balcão. Se eu sou um pacato, um jeca, há toda uma aridez de rostos na janelinha dos comentários. Ou seja: neguinho quer mesmo é ver sangue. Voltemos ao tema de hoje.

Muito raramente vou a restaurantes a quilo, geralmente (eu diria que em mais de 95% dos casos) um verdadeiro circo de horrores. É, nessas raras vezes em que compareço a um, quando me deparo com o supremo mau gosto da escumalha, aqui representada pelo gordo (lembrem-se da necessidade da presença do balofo para que tenha graça o que vou lhes dizer). O sujeito apanha o prato e parte em direção àquela banheira fumegante onde a comida bóia em botes individuais de inox. Já vi, nos pratos alheios, - e tenho certeza de que muitos de vocês já viram - verdadeiras esculturas (ou instalações) de causar ânsia de vômito com um simples olhar. Primeiro a poça de feijão. Depois o arroz, que o gordo assenta como se manuseasse uma pá, batendo laje. Começa a arrumação dos adornos: num canto do prato, um bife. Noutro, um filé de frango. Unindo as duas carnes, batata, cenoura, beterraba. No meio, o tufo de folhas, que o gordo tem sempre a ilusão de que aquele mato verde lhe dará a sensação da leveza. Sobre o tufo de folhas, ele não resiste e equilibra um quibe, uma coxinha, algumas peças de sushi e sashimi. Por fim, asco absoluto, uma saladinha de frutas, que o gordo adora essas combinações, como rúcula e manga, abóbora com abacate e outros bichos. Daí ele vai à balança equilibrando o prato como uma foca à bolinha, orgulha-se dos mais de dois quilos de comida no prato e senta-se à mesa para protagonizar o triste espetáculo da sua refeição.

Falei em mistura e me lembrei de outra coisa que me dá nos nervos. O gordo aficcionado por azeite. Ele pode estar diante de uma pizza, de uma posta de bacalhau, de uma pasta qualquer, de um risotto, e ele vai fazer questão de ensopar o prato de azeite. Olhará pro rótulo do azeite e guinchará, como um porco faminto, quando verificar o grau de acidez do óleo:

- Só gosto de azeite com teor de acidez abaixo de 0,5%! - e derramará o quanto puder no prato de comida.

E o tal azeite trufado, outro horror dos horrores elevado à categoria de fina iguaria? Capaz de destruir - eu disse destruir - qualquer massa, qualquer posta de peixe, qualquer sopa, o azeite com trufas é objeto da cobiça do gordo pernóstico.

Há, também, o gordo que é cafona à mesa (quase todos). Você serve a ele um pernil de cordeiro, por exemplo, como o que eu preparei no sábado passado, temperado à base de azeite, vinho tinto, alecrim fresco e alho. O gordo estará satisfeito? Nunca. Vai farfalhar como uma floresta inteira para depois gemer:

- Cordeiro? Só com geléia de menta.

Meus poucos mas fiéis leitores... são pouco mais de nove da manhã. A lembrança de tudo isso, que já verifiquei centenas de vezes com meus próprios olhos, trazida para cá a fim de dividir com vocês essas experiências tétricas em termos de comida, está me dando enjôo.

Razão pela qual interrompo a narrativa para, talvez, retomar o tema amanhã.

Até.

9 comentários:

leo boechat disse...

Fala sério! Até parece que um gordo faminto vai exigir geleia de menta pra encarar um cordeiro.

Quanto às esculturas de gosto duvidoso, em restaurante "aquilo", já me chocaram. Também evito esse tipo de estabelecimento.

Abraço

Eduardo Goldenberg disse...

Não, meu compadre... o gordo não resiste a roer o pernil de cordeiro pelo osso. Mas ele geme, lamenta, quase-chora, gane como um vira-latas de rua, sem sua geléia de menta. Um abraço!

CRAQUE DA GEMA!!! disse...

Enjôo?

Pô, o texto me deu a maior fome, isso sim.

E concordo com a sua opinião do azeite trufado. Iguaria de merda que realmente pode acabar com um bom prato.

Agora, um bom azeite de oliva (extra-virgem mesmo, para entrar na moda) em abundância engrandece qualquer refeição.

Abs,

R.Pian

Jose disse...

Eu como um bom Gordo, adorei este texto logo pela Manhã. Me fez rir e refletir.

Diego Moreira disse...

Com raríssimas exceções (como a geleia de menta e o prato todo misturado - eu faço vários, um com cada coisa) esse texto podia ter um P.S: Dedicado a Diego Moreira. Você não sabe, mas escreveu sobre mim.

Beijo, mano.

Vanessa Dantas disse...

Salve-me dos restaurantes a quilo e das praças de alimentação dos shoppings. Odeio ambos, com força.

Beijo.

Eduardo Goldenberg disse...

Diego: ainda que intempestivamente, então, está dedicado: este texto é pra você. Beijo.

Vanessa: pode haver coisa mais doente, mais representantiva da falência da civilização ocidental, do que esse zoológico chamado "praça de alimentação"? Um cheiro insuportável de comida de tudo o quanto é tipo misturado, o ar-condicionado fraudando a temperatura do mundo, o piso de mármore forjando um tempo de mentira... um nojo, um nojo! Beijo.

Blog do Ernestão disse...

Caro Edu.

Do alto dos meus 1,81m e 127 kg, posso falar com alguma propriedade.

Odeio praças de alimentação, detesto self service, rogo pragas em fast food e por aí afora. Agora, não tem nada pior do você estar em um ródízio e ver de repente aquele pançudo, fazendo seu prato: Arroz, feijão, macarrão, batata cozida, linguiça, frango, coração, farofa, peixe e ainda por cima, todos os espetos que o garçom passa ele pega um. Depois de sobremesa pede um Sundae. Putz, é o fim.... eles acabam com a nossa reputação de bons degustadores e apreciadores da boa comida.

Saudações !

Ernesto

Bezerra disse...

Só vou a restaurantes a quilo quando não há nenhuma outra alternativa, se me faço entender.

Mas agora, enquanto comento, me vem à mente a primeira vez em que fui a um desses restaurantes. Devia ter eu, se não me falha a memória, uns nove ou dez anos. Um pirralho.

Do que comi, honestamente, até hoje não me lembro. Só me lembro mesmo da perplexidade de mamãe, diante do meu prato (pouco mais de um quilo e trezentos gramas).