18.3.10

O ENGENHEIRO

No BAR DO MARRECO, portentosa e comovente espelunca situada na esquina da Haddock Lobo com a Caruso, na Tijuca, conheci, dia desses, um sujeito jamais visto na área. Isso faz - o quê?! - uns quinze dias. Quando pintei no pedaço, depois de saltar do 239 na esquina da Matoso e andar a pé em direção ao buteco, perguntei, de cara, pro Danilo, o treinadíssimo garçom:

- Quem é?

Ele, estendendo-me uma garrafa de Brahma mofada e pousando o copo americano à minha frente, fez beicinho e disse:

- Sei não.

Cumprimentei seu Brasil, Marreco, a rapaziada que bebia diante do balcão e apontei meu narigão em direção ao cara que bebia sozinho uma dose de catuaba em uma mesa do lado de fora, como quem pergunta o mesmo "quem é?". Seu Brasil, elegante como sempre:

- Trata-se de um desagradável.

Estava eu terminando de servir meu próprio copo e o cara levantou-se, segurando no portal da entrada - ligeiramente trôpego -, veio em minha direção e fez com o indicador da mão direita o sinal de aparte:

- Posso fazer uma crítica construtiva?

Houve um muxoxo coletivo vindo da assistência.

Seu Brasil, discreto como sempre:

- Lá vem mais uma...

E o sujeito:

- Prazer. Eduardo, seu criado.

Fui, num momento de rara inspiração, simpático. Disse, estendendo a mão que não segurava o copo:

- Meu xará. Diga lá.

Ele apoiou-se no balcão, pediu mais uma dose ao Danilo e olhando nos meus olhos, mandou:

- Posso fazer uma crítica construtiva?

A assistência explodiu de rir. O cara estava tão borracho que levou coisa de 1 minuto pra virar a cabeça em busca dos que riam. Voltou-se, mais 1 minuto, e continuou:

- Por que você não pede ao magnífico garçom uma camisinha para evitar que sua cerveja esquente?

Fui ao banheiro sem dar qualquer atenção à sugestão não requerida. Durante o pequeno trajeto rumo ao banheiro, onde uma rodela de limão fica em média duas semanas no mictório, para horror do compositor, ouvi seu Brasil, dócil como sempre:

- Saia daqui. Chato!

Voltei do banheiro e a assistência dividia uma porção de provolone com molho inglês. Seu Brasil foi quase cruel:

- Tu não podia ter sequer estendido a mão pra essa besta, Edu! Chato pacas. Tá fazendo crítica construtiva desde que chegou aqui!

E não se passaram nem cinco minutos... Eduardo tornou a se levantar. O mesmo dedo indicador da mão trêmula pedia licença. Seu Brasil, já no limite, foi agressivo:

- O que foi agora, ô, engenheiro?!

Ele, completamente embriagado, não pescou a sacanagem:

- Eu?! Engenheiro?! Sou despachante...

- Não parece.

- Não?!

- Parece engenheiro.

Depois de um soluço e de um escarro tão vigoroso quanto nojento no chão, perguntou:

- Por quê?

- Tu tá construindo desde que chegou aqui, cara! O que foi agora?

Ele, que pareceu ter gostado do apelido, ajeitou a gravata imaginária e disse:

- Então... Posso fazer uma crítica construtiva? Por que é que vocês não salpicam orégano sobre as fatias de queijo? Fica gostoso...

Seu Brasil foi certeiro. De lá pra cá, Eduardo tem aparecido todos os dias no bar (e sempre com críticas construtivas no bolso do paletó puído que carrega). Cada dia com uma mulher diferente, um dragão mais feio que o outro. Mas faz questão, sempre que chega, de apresentar a dama a seu Brasil. Este, por sua vez, atendendo a um pedido (soube depois) do pobre-diabo, sempre saúda a chegada do Eduardo, em altíssimo tom, para profundo impressionamento de suas acompanhantes:

- Como vai, engenheiro?!

Os dragões - há testemunhas - ficam de quatro pelo sujeito.

Até.

4 comentários:

Rodrigo disse...

Edu, sem dúvida, com orégano fica muito melhor...

caique disse...

Cena carioca Edu, né não? Aliás ótima. Não conheço o bar (ainda) mas fiz o filme todo lendo o que você escreveu. Valeu!
Abração de Niquíti.
Caíque.

brunoapx disse...

Muito bom.....Tijuca em estado bruto!!!

Agora, Eduardo, posso fazer uma crítica construtiva ?

Essas verdadeiras crônicas do cotidiano merecem um livro.

Valeu.......

ricardo disse...

Posso fazer uma critica construtiva....kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk.