26.4.10

DO DOSADOR

* Passei um final de semana, que começou na sexta-feira pela manhã por conta do feriado de São Jorge, de intensas emoções que quero dividir com vocês, meus poucos mas fiéis leitores. Fui a São Paulo para o casamento de uma moça, vejam vocês, que é daquelas que se encaixa na categoria "das que vi nascer". O simples fato de pensar isso - "vou ao casamento dela, eu a vi nascer" - já transforma você numa espécie de múmia. Eu, às vésperar de completar 41 anos (faço anos amanhã), parti, de carro, rumo à cidade de São Paulo, para ver casar uma menina que veio ao mundo quando eu já tinha 9 anos (em certas ocasiões, dar nomes não interessa). A conheci na cidade de Caxambu, sul de Minas, onde passávamos as férias, e lembro-me dela criança. Os delírios que acometem um homem de 40 anos de idade deu-me a certeza, entretanto, de que eu a vi nascer (o que não é, em absoluto, real). Daí a emoção que me acompanhou durante o trajeto. Emoção que - conto para ser preciso do início ao fim - já havia me assaltado quando recebi, em meados de 2009, por e-mail, a notícia de que ela ficara noiva e marcara o casamento para 24 de abril;

* esqueçam Brunet, Bruni, Bündchen, Piovani. A noiva, lindíssima - sou fã confesso de sua beleza lato sensu -, eu só fui ver na igreja. No hotel em que nos hospedamos, entretanto, revi muita gente presente na minha infância. Fui arremessado ao passado diversas vezes e tive febres terçãs a cada encontro. Mal consegui disfarçar meu assombro com os golpes nostálgicos. Uma me perguntou: "Por que o Dudu se transformou nesse homem tão sério, hein?!". Não consegui responder, a não ser com os olhos, permanentemente marejados;

* estávamos todos, em torno de 60 pessoas, todas do Rio de Janeiro, hospedados no mesmo hotel, aguda gentileza da noiva. Eu entrava no elevador, rumo ao vigésimo andar, e dava de cara com uma, com outra, e meu elevador de sentimentos rumava para a década de 80, fazendo com que eu sofresse impactos capazes de me fazer um homem atônito, sem fôlego, incapaz de administrar - eis um de meus dramas íntimos - minhas emoções e sentimentos;

* na sexta-feira, depois de almoçar no ORA POIS, simpático português na Vila Madalena, fui à casa de Fernando Szegeri. Pela primeira vez, em muitos anos - conheço o homem da barba amazônica há mais de 10 anos -, lá estivemos reunidos, os Szegeri e os Goldenberg. E tome pancada no combalido coração;

* no sábado pela manhã fomos ao Mercado Municipal da Cantareira, um troço pra deixar carioca com inveja da pujança paulista. Depois, uma visita à Praça Benedito Calixto e almoço num japonês, o SUSHI YÁ, incapaz de fazer cosquinhas no tijucano MITSUBA, mas muito bom. Descemos a pé para o Ó DO BOROGODÓ. Vimos o começo da roda de samba tocada pelos Inimigos do Batente, o melhor programa das tardes de sábado de São Paulo, e saímos logo, logo. Ali, no Ó DO BOROGODÓ, em dezembro de 2005, havia sido meu último encontro com a noiva, vejam aqui. Fui, da hora em que entrei a hora em que saí, um homem ansioso;

* às sete e meia da noite eu estava, ansiosíssimo (ainda, e sempre), à espera do carro que nos levaria à igreja, outro mimo da gentilíssima noiva. A cerimônia foi belíssima, e tenham em conta que cerimônias de casamento são, em geral, enfadonhas. Não aquela. Pelos bancos da igreja, os personagens de grande parte de minha infância. Uma delas, cega por conta da diabetes (soube no dia). Um bebê que eu eu carregara no colo entrou desfilando na igreja, sob o tapete vermelho, como padrinho da prima. Com 20 anos de idade. E eu sofrendo solavancos por dentro, segurando o choro. Entra a mãe da noiva e quero lhes fazer mais uma confissão: foi, do início da cerimônia ao final da festa, a mais radiante mãe-de-noiva que eu jamais vi. E veio a noiva, de braços dados com o pai, que me viu em tenra idade. Lindíssima, ela também radiante. Na minha cabeça, carequíssima, rodavam os filmes que me faziam sofrer a mais cálida das febres. E fomos à festa;

* foi, ainda estou fazendo confissões, a mais perfeita festa a que já fui. Como diria um de meus ídolos, Nelson Rodrigues, o champanhe jorrava das bicas de ouro espalhadas pelo salão. O uísque era servido como água da bica nos mais simples botequins da cidade. Havia, eu tive essa impressão à certa altura, mais garçons e garçonetes do que convidados. A comida, a anti-food-experience, perfeita como tudo. A música, adequadíssima (dancei diversas vezes, eu que sou o anti-pé-de-velsa). E três momentos (para ser conciso e não cansar vocês, foram mais de três...) tornaram a noite rigorosamente inesquecível. O primeiro quando veio á mesa a mãe da noiva. Impossível não se emocionar com aquele sorriso do qual brotava luz e felicidade, contagiante. O segundo quando fui cutucado por trás. Olhei. Era um dos padrinhos da noiva, o que peguei, literalmente, no colo quando era um bebê. Com um copo de cerveja na mão, me disse: "Oi, Dudu. Sou Flamengo por sua causa, cara...". Quase morri. Acho que não consegui disfarçar a emoção quando o abracei e durante o tempo em que conversamos. O terceiro, é claro, quando falei com a noiva, a segunda mulher mais linda do salão (minha menina é imbatível). Eu, orgulhosíssimo, como um tio que baba diante da felicidade da sobrinha, fui até ela acompanhado por meu irmão do meio. E ela, a noiva, com os olhos cheios d´água, disse-nos coisas tão bonitas que, franca e sinceramente, não cabem aqui;

* no domingo pela manhã, ainda comovidíssimo, voltamos à Lapa para um churrasco na casa de Fernando Szegeri. Atravessei os 450km que separam o Rio de São Paulo impactado com tanta coisa bonita.

Até.

Um comentário:

AOS QUARENTA A MIL disse...

Sem duvida foi o casamento mais lindamente descrito por alguém.

A cerimônia em si nunca é enfadonha quando os noivos nos são queridos.

Beijos e parabéns pelo seu aniversário !