21.4.10

ESTUDANDO A FOOD EXPERIENCE

Não sei se vocês leram minha receita PEPINO PSOL NO BURACO DO LUME, que publiquei aqui. Trata-se de minha primeira incursão no inacreditável terreno da food experience que é, em apertada síntese, um conceito novo e revolucionário no mundo da gastronomia. O conceito food experience aborda todo o conjunto do ambiente, todo o clima, todas as sensações que acompanham o simples ato de cozinhar e comer. A comida é - eis o que me instiga - o menos importante. E eu seria mais ousado: a comida é rigorosamente dispensável! Foi pensando nisso, depois de ler diversos textos de renomados estudiosos sobre o assunto, que criei a tal receita minimalista: não há ingredientes, há ingrediente. Assim mesmo, no singular. Com apenas um pepininho em conserva e bastante concentração você será capaz de produzir uma obra prima capaz de levar qualquer um ao nirvana. Por conta de tudo isso, cheguei ainda a outra conclusão: a food experience é o PSOL de avental, por isso o nome que dei ao rebuscado prato. Pois estive ontem, na hora do almoço, em um restaurante cujo nome prefiro, por ora, omitir, e que vem sendo destacado por dedicar-se, exclusivamente, à food experience.

Fui recebido na porta por uma moça, uma mulata longilínea, cujos cabelos me lembraram os de Tony Tornado no auge. A moça, postada diante da porta de entrada, estava cercada por dois seguranças de terno e óculos escuros com cara de poucos amigos. Foi ríspida:

- Tem reserva?

- Tenho.

- Seu nome?

Eu disse.

Um dos seguranças não conseguiu prender o riso. O outro manteve-se em posição de estátua. A mulatona consultou seu iPhone, correu a varetinha pela tela do aparelho e disse:

- Por favor, por aqui...

Abriu a porta e pude entrar.

Senti-me num cenário de ficção. Não mais do que 10 mesas, 9 delas ocupadas. Contei 16 pessoas, 37 aparelhos de celular e 12 notebooks. Todas gargalhavam olhando para suas próprias geringonças tecnológicas. Às vezes, muito raramente, as que estavam numa mesma mesa trocavam cutucões e guinchos de gargalhada. No fundo, no final do pequeno salão, uma parede de blindex exibia os cozinheiros. Eram 4 homens e uma mulher, todos com aquele chapelão mestre-cuca. Eram, portanto, 10 mãos. Não vi, nas mãos dos cozinheiros, uma colher-de-pau, uma concha, uma espátula, uma panelinha. Tinham, todos, aparelhos de telefone celular de última geração nas mãos e um gigantesco monitor diante da bancada da pia, em reluzente inox. Enquanto me sentava no local indicado por um funcionário atencioso, ouvi as vozes dos presentes:

- Ela te respondeu? A mim, já! - guinchos.

- Não, ainda não... - tom de lamento.

- Olha! Olha! A chefe escreveu "risos" pra mim! - um orgulhoso grito.

A cada uma dessas frases, uma espécie de reprimenda por parte do homem que me pareceu ser o gerente.

Sentei-me. Disse ao garçom:

- O senhor pode me trazer o cardápio?

Fui fuzilado por todos os olhos de espanto que me cravaram em questão de segundos. Um dos presentes, que tinha o símbolo da balança na lapela do paletó, foi irônico:

- Sua primeira vez aqui?

Fiz que sim com a cabeça.

- Não há cardápio. Aqui comemos o que a chefe quer! - e deu-se a gargalhada coletiva.

Ajeitei-me na cadeira e perguntei ao advogado (só podia ser advogado com aquele broche):

- E como saberemos o que ela preparará?

Não houve resposta. O garçom, simpático, disse-me:

- Senhor, o senhor tem direito a dizer, de viva-voz, apenas duas frases. A partir de agora, só pelo twitter.

- Mas eu não troux...

Ele pôs o indicador sobre os lábios.

Decidi esperar, afinal eu estava em missão de pesquisa.

Passados 40 minutos o garçom trouxe meu prato.

A louça lindíssima, os talheres lindíssimos, nada no prato.

Espantei-me e antes que dissesse qualquer coisa o garçom adiantou-se:

- A chefe disse que é importante para o senhor adequar-se à nossa filosofia. Pediu que o senhor se concentrasse, percebesse a energia que emana da cozinha, sentisse o clima que brota das mesas dos demais comensais. O senhor tem cinco minutos, já, já trago a sobremesa.

Passados os cinco minutos, volta o garçom. Retira meu prato e pergunta:

- Que tal, senhor? Gostou?

Fiz com os olhos uma expressão de "posso?". Ele sorriu e disse:

- Como é sua primeira vez, senhor, o senhor pode, sim, falar. O senhor gostou?

- Amei. - foi minha tentativa de ganhar a simpatia do magrelo. E emendei:

- E a sobremesa?

- Alguma preferência, senhor?

Senti que errei quando respondi:

- Tem sorvete?

Pra quê?!

Uma histérica, visivelmente fora de controle, avançou sobre minha mesa. Pôs as duas mãos na borda ovalada e disse:

- Repete! Repete!

- Perguntei se tem sorvete... - eu estava com medo, confesso. A mulher tinha um cinturão com pelo menos 5 celulares e parecia disposta a me agredir.

- Aqui, imbecil... - olhou pra trás e todos riam.

Ela virou-se de novo pra mim:

- Aqui só comemos sorbet... - e fez carinha de nojo para dizer "sorbet".

O garçom a afastou e foi cortês comigo:

- O senhor nos perdoe, por favor. Ela é das mais fanáticas freqüentadoras, almoça aqui todos os dias... Sorbet é sorvete sem leite, senhor, o senhor aceita?

Dei uma desculpa qualquer, disse que estava com pressa e que voltaria em breve, munido de um aparelho de última geração para poder interagir com a chefe e com a assistência. Pedi a conta. Paguei R$ 220,00 e fui convidado a voltar o quanto antes para não perder o que o gerente chamou de desenvolvimento sensorial dos praticantes da food experience.

É, como eu digo, de fooder a paciência.

Até.

18 comentários:

Bezerra disse...

'Fooda' mesmo foi o valor da conta...

José Sergio Rocha disse...

Isso existe mesmo? Tu fala sério? Se for verdade mesmo, e se emplacar em certas patotas, vai acabar virando novo gênero para aquele guia cujo nome esqueci.

Eduardo Goldenberg disse...

Zé Sergio: vá ao GOOGLE. Procure por "food experience". Pesquise. Causa estranheza sua pergunta. Eu sou - e você sabe disso - preciso do início ao fim.

Phermarcia disse...

Seguí o conselho e fui pesquisar no Google. Encontrei um blog chamado: "Rapousas louras e felpudas" e algo sobre "perestroyka". Quer dizer, pra mim chega. Quero que morram todos de fome e inanição.

Xandão disse...

Eduardo, desculpe-me mas eu não acredito. R$ 220,00 por um prato vazio? Não era o caso de registrar queixa em delegacia policial?

Eduardo Goldenberg disse...

Phemarcia: quer que morram?! Meu Deus... Que troço lamentável.

Xandão: eu quis conhecer a fundo. Foi preciso me submeter às regras para que a pesquisa não restasse infrutífera. Voltarei lá. Um abraço.

Patricia disse...

Com esse valor eu como TODO final de semana no Pavao e ainda sobra pra sobremesa ! Ra ! Fala serio...

Cristovão disse...

R$ 220,00 por um prato vazio, mais cheio de "food experience".
HAHAHAHAHAHAHAHA!!!
Perdão leitores me excedi.
Voltemos ao comentário,
pedir sorvete, que gafe imperdoável,
De castigo tem que retornar ao ambiente sensorial mais dez vezes, até aprender a pedir "sórbêt".

caique disse...

220 paus e não comeu nada????? eu, hein edu... prefiro o caneco gelado do mário aqui em niquíti...

Israel disse...

Pagar 220, e não poder arrotar.

Eduardo Goldenberg disse...

Engano seu, Israel. Vários dos presentes arrotavam durante as refeições, mas eles não usavam a palavra arroto. Diziam, guinchando de rir:

- I burped!

Eles consideram o burp uma espécie de sound experience que ajuda a compôr o clima da coisa.

Blog do Ernestão disse...

PQP Edu !!!!!

Não acredito..., você só pode estar de brincadeira! 220 paus?
200,00/3,00 (preço médio de uma Brahma aqui em Campinas)dá 66 ampolas !!!! Pelo menos dá pra encher os dois rins várias vezes.
E ainda ver o limão no mijador um monte de vezes.(ahahaha!)

Abração

Ernesto

Israel disse...

Até para arrotar os "cheirosos"são diferentes. Devem ter aprendido com FHC. Gente fina é outra coisa.

Eduardo Goldenberg disse...

Ernesto: eu sabia que corria esse risco, mas fiz questão de passar pela experiência. E vou repetir. Enquanto eu não fizer uma refeição (como a conhecemos) no templo da "food experience" eu não sossego. Um abraço.

José Sergio Rocha disse...

Isso lembra a parábola da sopa de pedra. É incomensurável a quantidade de otários neste planeta

Lalla disse...

Isso é de fooder o bolso!

Será que pode repetir?

Alan disse...

Seus textos sobre o 'food experience' dão início, sem dúvidas, ao maior movimento cívico dos últimos anos.

É a reedição das velhas batalhas entre Tirandentes e Silvérios.

Abraço,

Cazé disse...

Sinto muito, mas a coisa é tão bizarra que - a exemplo de alguns outros - tendo a pensar que isso é ficção!
Sei que você é "preciso do início ao fim", mas custo a crer que isso seja real.
Vai ver que as pessoas fumaram ou aspiraram alguma coisa que você, simples mortal, não consumiu antes dessa"experience"!
Falando da nossa praia: da próxima vez, faça um circuito pela Matoso e já chegue lá "calibrado"...quem sabe?