17.4.10

PEPINO PSOL, A RECEITA

Andei estudando, por esses dias, um fenômeno (uma viadagem, na verdade, mas isso deixa para lá) que os descolados e as descoladas vêm chamando de food experience. E o que é - perguntarão vocês - a food experience? Ora, ora. A food experience é uma tendência que busca enxergar a simples e milenar experiência de cozinhar e comer sob um ângulo diferente. Não entenderam nada, né? Vou tentar ser mais didático. O conceito (descolados adoram essa palavra) de food experience vai muito, muito, muito, mas muito além da simples e pacata panela, da humílima lista de ingredientes, dos pratos de porcelana, de barro ou de louça. O conceito food experience aborda (eis aí um verbo em alta para essa turma) todo o conjunto do ambiente (cozinha e sala), todo o clima, todas as sensações que acompanham o simples cozinhar e comer. Para que vocês tenham uma idéia do inusitado do troço, há um curso que está para ser iniciado sobre o palpitante assunto. E eis aí o que anunciam os promotores do evento: "Por isso, esse não é um curso de gastronomia tradicional. Não vai falar de receitas. Nem do passo-a-passo na cozinha." Não é genial?! Durante o curso, os inscritos debatarão e abordarão fatores considerados decisivos pelos criadores do conceito para a satisfação no final de uma refeição.

Imagino a cena. Um incauto vê um anúncio do troço, não presta muita atenção aos detalhes, e se inscreve; afinal, ele é dos que gostam de cozinhar e comer. No dia do curso, 15, 20, 25 minutos depois do início da aula, diante da turma embevecida, levanta o dedo e arrisca a pergunta:

- Chefe... com licença... falaremos de comida ainda hoje?

E vem a vaia unânime, olímpica, os olhares de desprezo, de nojo, e o pobre-diabo sai, enxotado, da sala da casa do saber.

Quero lhes fazer uma confissão: quando li sobre food experience uma coisa me veio à cabeça.

É o PSOL de avental.

E em meio a esse delírio, a todo a essa reflexão que gera o aprofundamento mínimo nos conceitos de food experience, foi que criei um prato novo.

Ah, meus poucos mas fiéis leitores, confesso que fiquei orgulhoso. Em transe, sentei-me diante de um quadro na parede de minha sala. Estabelecemos ali, durantes aqueles minutos em que me mantive em posição de lótus, eu e o quadro, um debate, uma mesa, e num sem-pulo tomei a direção da cozinha. Com vocês, a receita que batizei PEPINO PSOL NO BURACO DO LUME.

Você vai precisar de um pepininho, Hemmer de preferência. Seque-o com papel-toalha com bastante cuidado para não ferir as estrias e para não apagar as manchas escuras da casca do pepino. Eu disse UM pepininho. Coloque-o, cuidadosamente, dentro de uma panela.

Respire fundo. Concentre-se no momento mágico e perceba os eflúvios da food experience invadindo sua cozinha.

Deixe o pepininho lá, sozinho, esperando chegar mais algum ingrediente. Os adeptos do conceito food experience crêem, piamente, que os alimentos estão sempre nessa expectativa do público, da assistência, da companhia, de uma gota de azeite que seja. E por favor, não ligue o gás, em nenhuma hipótese. Nem, é óbvio, o fogo. A food experience dispensa esses materialismos.

Espere cerca de uma hora. Sem sair da cozinha, é claro. Deixe-se envolver pelo ambiente, pelo clima, pelas sensações. Passados sessenta minutos, à nova etapa da receita.

Diante da evidência de que o pepininho ficará lá, no fundo da panela, na mais absoluta solidão, retire-o com cuidado para não machucá-lo ou magoá-lo.

Deite-o, com muito cuidado (sempre muito cuidado!), no centro de um prato quadrado.

Está aí, caríssimos, o PEPINO PSOL NO BURACO DO LUME. E nada de vinho, nada de espumante, nada de cervejas artesanais para acompanhar a finíssima iguaria. Vá de água. Água importada. Spring water, de preferência.

Até.

4 comentários:

Alfredo disse...

O tal "conceito" me fez lembrar a participação do Aureliano Chaves num dos debates da campanha presidencial de 1989. Disse o saudoso político ao ser citado pela mediadora Marília Gabriela: é para perguntar ou para responder?

Alan disse...

"O PSOL de avental" é uma citação antológica!

caique disse...

Edu, bem interessante o seu "approach" à food experience.

Mara disse...

Esse pessoal tá precisando encarar uma rabada com agrião para parar de frescura.