14.5.10

MAIS SOBRE O COMIDA DI BUTECO

Ligou-me ontem, às 17h15min em ponto, uma das responsáveis pelo festival COMIDA DI BUTECO que em pouco menos de duas semanas começa aqui no Rio de Janeiro (eu disse "Rio de Janeiro" e não "Trio de Janeiro", a empresa autorizada a captar, entre 20 de abril e 30 de setembro de 2010, a quantia de R$ 278.762,00 para tocar o projeto que "trata da elaboração e confecção de um CD, com 20 músicas especialmente selecionadas, de Moacyr Luz com diferentes parceiros, com gravações inéditas, com a participação de nomes da nova geração da musica brasileira, como demonstração da importância desses novos talentos para manutenção do espírito carioca" [vejam aqui a página 30 do Diário Oficial da União, Seção 1, do dia 20 de abril de 2010]). Vamos em frente.

Foi simpática e incisiva durante o telefonema. Disse-me, entre outras coisas, que eu havia sido injusto quando escrevi o que escrevi ontem, aqui; que eu, como jornalista (foi o que ela disse, depois corrigi o equívoco), deveria apurar tudo sobre o festival para depois escrever sobre ele; que é uma luta colocar o "festival na rua"; que as críticas que fiz, noutras oportunidades, deveriam ser relevadas, eis que as indicações dos bares participantes das últimas edições, aqui no Rio, haviam sido feitas por "especialistas no assunto", como Guilherme Studart e Moacyr Luz (por isso lembrei-me do tal projeto, citado no início); que minha crítica à inclusão de bares com redes de franquia ou com filiais não era de todo correta, pois no ano passado apenas duas casas (ACADEMIA DA CACHAÇA e SIRI) se enquadravam nessa condição. E convidou-me para uma conversa na semana que vem; e, por fim (houve mais, mas estou aqui fazendo apertada síntese), que eu desonrava minha participação no júri do ano passado esculhambando o festival.

Eu, humílimo e cordial, topei na hora mas fiz a ressalva:

- Com uma condição.

- Qual?

- Eu escolho o local do encontro. Vamos a um legítimo pé-sujo na Tijuca, inexplicavelmente jamais incluído nas edições do festival.

Se autorizado por ela, conto, depois, sobre a conversa que teremos. Antes, porém, marco minha posição com relação ao tema:

* sou entusiasta da idéia. Afinal, antes um festival de comida de buteco do que, por exemplo, festas literárias que nada têm de literatura, mas de comício (como o caso da FLIST, que acontece amanhã em Santa Teresa) ou de desfile de poses (como o caso da FLIP);

* os critérios para a escolha dos butecos (afinal é a butecos que faz referência o nome do festival) é lamentável. Ano passado entraram bares que nada têm de botequim e restaurantes;

* os patrocinadores, indispensáveis para que o festival aconteça, não podem condicionar sua participação a determinadas exigências, como por exemplo faz a HELLMANN´S, esse ano (desconheço, é verdade, quais as exigências da marca, mas creio que saberei depois da conversa a que me referi);

* não cuspo no prato que comi, para valer-me dessa imagem com relação à minha participação do júri no ano passado, muito pelo contrário. Quando da reunião entre os organizadores e os jurados, em um hotel no Leblon, fui, do princípio ao fim, corretíssimo. Disse a uma das juradas que fez queixa quando sorteados os bares a ela destinados para avaliação - "será que eu poderia não ter que atravessar o túnel Rebouças?", e riu - que os organizadores deveriam imediatamente limá-la do júri por questões óbvias. Recusei ser jurado de dois bares que me foram sorteados, o ACONCHEGO CARIOCA e o PETIT PAULETE, já que sou amigo da Katia, da Rosa e do Paulinho. Recusei, com veemência, a cortesia que me foi oferecida pelo dono de um dos bares que visitei na condição de jurado, mesmo estando acompanhado por diversos amigos, restando fracassada minha intenção de pagar a conta. Disse ao cara, entretanto, que minhas notas já estavam lançadas na cédula (o que era rigorosamente verdade), que a cortesia, portanto, não influenciaria em nada minha avaliação e que eu comunicaria tal fato à organização do concurso, o que fiz; aceitei, eu que havia recebido a incumbência de visitar três bares, o encargo de fazê-lo em mais um, em Laranjeiras (e fui, vejam vocês, com Tiago Prata). Acho pouco provável, mesmo!, que algum jurado tenha levado o troço tão a sério como eu, razão pela qual repilo com veemência a acusação que recebi;

* acho que o festival prestaria um grande serviço à cidade se, de fato, escolhesse como participantes os "botequins mais vagabundos", os mesmos aos quais o compositor não resistia e que são, eles sim, a verdadeira identidade carioca na matéria. O que eu não sei dizer - e por isso não me aprofundo, por ora, no troço - é se isso serviria para a "carnavalização" desses mesmos butecos (sobre o fenômeno da "carnavalização", leiam profético texto de Fernando Szegeri, aqui). Penso, entretanto, que seria positivo, que seria mais bacana e que seria mais louvável. Penso, mais, que esses mesmos butecos deveriam participar sem qualquer incentivo à papagaiada que cria pratos inimigináveis num buteco de verdade, como pratos temáticos com, por exemplo, espetos no papel de bandeirolas capazes de cegar o sujeito que se aventura a comer tais criações ou cestas (cestas...) de sei-lá-o-quê-comestível. Cada buteco deveria servir seus próprios clássicos, e a cidade é farta nesse ponto.

Enfim, meus poucos mas fiéis leitores, era o que eu tinha a lhes dizer. Se me for permitido, como já lhes disse, conto sobre a conversa que terei com uma das organizadoras do festival do qual sou - repito - entusiasta com as restrições e as reservas que tenho. Tenho, digo que tenho e assino o que escrevo quando digo o que digo.

Até.

7 comentários:

Vania disse...

Edu, esse comida di buteco já nasce morto...
Tivéssemos um corpo de jurados com a sua competência empírica de décadas no assunto, seria um sucesso!
Com maionese e jurada fazendo gracinhas com o além túnel... não dá!

Eduardo Goldenberg disse...

Vania: por favor, querida, não me ponha em patamar que não alcanço. O problema, antes de estar apenas na escolha dos jurados, está nos critérios para a escolha dos participantes e na filosofia do projeto que, na minha humílima opinião, não privilegia, de verdade, os butecos que honram esse nome. Beijo.

Juliano disse...

Edu,
venho acompanhando a saga do Comida Di Buteco por aqui. Acho que não há mais a dizer, por enquanto há que lamentar e torcer para que o festival mude de rumo.
Abraço.
Juliano

Daniel Banho disse...

"Ligou-me ontem, às 17h15min em ponto". Eu me divirto com a sua precisão "do início ao fim".

Coincidentemente ao seu texto, li hoje uma declaração curiosa da Roberta Sudbrack, afirmando “Eu tenho um botequim!”:
http://robertasudbrack.com.br/blog/2010/04/eu-nunca-quis-ter-um-restaurante/

Se bobear ela entra no concurso.

Abraços

caíque disse...

Edu, concordo em gênero número e grau com a sua posição quanto à escolha dos participantes e aos critérios dos jurados. É isso aí. Se o assunto é "comida de buteco", pois que seja! Valeu!
Um abraço de Niquíti.
Caíque.

Claudio Renato disse...

Traz ela aqui no Souza...Dá uma moral pro pé imundo da Praça Sete!

NADJA GROSSO disse...

Com certeza você consegue mudar o jogo e os bons butecos participarão. Na verdade se é "comida de buteco" que se honre o titulo e tenham preferências os butecos realmente.