17.6.10

ARREMESSO AO PASSADO NO FUTEBOL

Copa do Mundo é mesmo assim. Tirando os pseudo-intelectuais que acham o máximo torcer contra o Brasil - como nos mostra a desinteressada Cora Rónai em sua coluna de hoje n´ O GLOBO - e os descolados que ilustram a coluneta de Joaquim Ferreira dos Santos também de hoje, gente que acha que "a Copa é desculpa para a gente se produzir" e que "futebol tem que ter humor, alegria" - nojo absoluto! - envolvemo-nos todos com a aura que circunda os dramas do esporte bretão. Não por outra razão, como lhes contei aqui, pulei da cama às 4 da matina na terça-feira passada, dia da estréia do Brasil no campeonato mundial. Na manhã da quarta-feira, ainda ressaqueado com a atuação pífia do escrete brasileiro, tomei conhecimento de que no Leblon e em Ipanema o pau quebrou - filme de sempre! - entre playboys mimados, pitboys problemáticos, lutadores de jiu-jitsu e afins. Fui tomado por uma febre causada por um arremesso agudo ao passado que me remeteu ao tempo da inocência. Estava eu em 1978 de mãos dadas com meu velho pai, meu irmão do meio agarrado na outra mão. Eu, de Flamengo. Meu irmão, de Vasco. Papai tentava, naquele dia, me fazer ver o que ele considerava "uma burrice". Eu, que nascera vascaíno graças à sua ótica diante do nascimento do primogênito, me rendera ao amor pelo rubro-negro graças ao Zico e pelas próprias mãos do Zico, como lhes contei aqui. Aquela final entre Flamengo e Vasco era, então, o que meu pai considerava a chance da redenção. O empate favoreceria o Vasco e papai não podia imaginar que o gol de Rondinelli, no final do jogo, poria seus planos por terra. Mas não é isso o que quero lhes contar.

Meu arremesso me levou à rampa do Maracanã. Éramos proibidos, eu e meus irmãos, de falar palavrão em casa. "Respeitem a sua mãe!" era um mantra no apartamento da São Francisco Xavier, 90. Mas bastava passarmos na roleta do estádio, vinha o aviso:

- Aqui pode! Aqui pode!

E nestes tempos de gritos de guerra sanguinários e cabeludíssimos, deliciei-me com a música que ecoava em meus ouvidos durante o transe causado pelo arremesso ao passado. Gritava a torcida rubro-negra:

- Ô, ô, ô, o Zico é craque é o Roberto é um cocô!

A torcida do Vasco, que dividia a rampa com a torcida adversária (troço impensável nos dias de hoje), devolvia:

- Ô, ô, ô, o Zico é craque, o Roberto é que ensinou!

Havia os gritos mais ousados:

- Um, dois, três, quatro, cinco mil! Eu quero que o Vasco vá pra puta que o pariu!

Papai dizia:

- Aqui pode! Aqui pode!

- Zum-zum-zum! Passou um avião! E nele estava escrito que o Vasco é campeão!

É desse ano, 1978, que vem meu primeiro registro de memória de uma Copa do Mundo. Eu, nascido em 1969, não trago nada dentro de mim com relação às Copas de 1970 (evidentemente, eu com um ano...) e de 1974. Foi em 1978, na casa de uns amigos de meus pais, na ainda nativa e inexplorada Barra da Tijuca, que assistimos a Brasil e Suécia, 1 x 1, com um gol irregularmente anulado, de Zico, aos 45 minutos do segundo tempo - vejam o lance aqui.

Ali cravou-se em mim a paixão pela seleção brasileira, ali eu entendi que o futebol é a antítese do humor e da alegria. Usina permanente da inocência que nos faz suportar, mais firmes, a dureza do dia-a-dia.

Até.

2 comentários:

Marcelo disse...

A-ha, U-hu
O Mazaropi eu vou comer seu cú

Essa poesia nunca vai sair da minha cabeça!

Miguel disse...

Em cima do que você falou, que saudades de escutar um jogo com o Grito da Torcida.

Essa corneta maldita, vulgo vuvuzela, é um saco. Você não escuta a torcida, o grito de gol, nada. Só aquele barulho infernal. Pêêêêêêêêêêêêêêêêêê!!!!