4.6.10

A BOA E VELHA RABADA

Uma de minhas obsessões, quem me lê sabe, é a revista RIOSHOW, de O GLOBO, encartada no jornalão às sextas-feiras, mesmo dia em que se dá o debate político do PSOL no Buraco do Lume e a Santa Ceia, almoço festivo que reúne parte da pinacoteca psoliana na rua do Rosário. Pois estava eu, dia desses, a almoçar na rua do Rosário quando aproximou-se de mim um de meus poucos mas fiéis leitores. Disse-me o dito cujo:

- Posso lançar gasolina sobre você?

Eu estava mastigando. Engoli, estendi a mão e disse, já excitadíssimo:

- Pode!

- Sabe quem começou com as papagaiadas hoje repetidas à mancheia por, por exemplo, Roberta Sudbrack?

- Não.

- Luciana Fróes.

E retirou-se, o leitor-bombeiro.

E não é que hoje a revista RIOSHOW de hoje traz matéria de capa assinada por ela?

capa da revista RIOSHOW de O GLOBO de 04 de junho de 2010

A matéria é lastimável e vou lhes dizer o por quê. O foco é a rabada, prato vendido nos butecos da cidade, quase que diariamente, como no BAR DO MARRECO, por exemplo, aqui, por coisa de sete, oito, nove reais no máximo. E o que faz Luciana Fróes ao apresentar a rabada? Sentados? Vamos lá.

Logo no início da matéria, esculhamba o nome do prato (ela diz, "ô, nominho!") e diz que a rabada "ganhou um banho de loja e hoje pode ser vista em nove entre dez cardápios bacaninhas da cidade" e "de shape novo, visual caprichado e em boas e novas companhias". A quantidade de clichês, usados à larga pela massa cheirosa, já dá o tom da matéria-jabaculê.

E quais são os "cardápios bacaninhas da cidade"? Luciana Fróes indica dez endereços (todos na zona sul, evidentemente, basicamente Leblon e Ipanema). Dentre eles - e lembrem-se do que eu já disse sobre a casa... - o ASTOR, recentemente inaugurado em Ipanema, importado de São Paulo, equivocadamente adulado como a "verdadeira esquina carioca" por quem não entende nada do riscado. E como é servida a rabada do ASTOR? Em duas versões, nos conta a matéria: a versão completa (rabada desfiada, polenta e agrião) a R$ 37,00 e a que é "servida em simpáticas cocottes, as panelinhas de ferro francesas" - ou seja, um miserê - a R$ 19,00.

Luciana Fróes, que acha que "queue de boeuf" - rabada em francês - "soa mais bonito", exalta, ainda, um bolinho (eu disse UM BOLINHO) - servido no GARCIA & RODRIGUES, no Leblon, que "nem de longe lembra rabada" e que custa R$ 47,70.

A massa cheirosa só pode estar de sacanagem.

Eis aí, meus poucos mas fiéis leitores, mais um caso evidente de usurpação de um hábito do povo, de sua cultura (a que sempre causou asco e repúdia por parte da massa cheirosa), por parte da elite que tem vergonha e nojo do Brasil. Em apertada síntese: pegam a rabada, transformam a rabada em objeto de fetiche, jogam o preço nas alturas e por aí vai...

Quero ver essa gente encarar a boa e velha rabada num dos botequins mais vagabundos aos quais eu não resisto. Com cara de rabada. Gosto de rabada. E com preço de rabada.

Até.

7 comentários:

Caio Vinícius disse...

Edu,

Dentre os bares, por acaso, figura o Brazinha de Ipanema?

Ele fica bem no início da Visconde de Pirajá e serve a rabada clássica com agrião, batatas cozidas e arroz, em uma porção honestíssima, 2 comem fácil, à modicos 18 reais.

Não vou nem entrar no mérito do sabor por que quem conhece o Brazinha sabe como tudo lá é delicioso.

Abço,

Caio

Rodrigo disse...

A massa "perfumada" prefere a famosa En-rabada...

Tupacamaru disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Nelson Fiod disse...

Edu,
agora falando de comida de verdade...
ficou faltando no cardápio do Buteco o Rali de Porco colocado por você dia desses.
Inclusive vou fazer o pernil pra comer vendo o jogo Uruguai x França dia 11.
Abraç

Wander Costa disse...

Edu, em alguns meses a reportagem de capa será sobre "Testicule de boeuf".

Acho que o O Globo está redefinindo a palavra babaca.

Estão indo longe demais...

Sugiro que você reúna, aqui neste honesto buteco, todas as suas obsessões e transforme-as em frases.

Faça, com as frases, camisas nos moldes do bloco do prof. Simas.

Venda-as e recomende seu uso nos nossos butecos.

Só não deixe customizar a camisa!

caíque disse...

Edu, convenhamos: "queue de boeuf" é a tonga da mironga do kabuletê, cacilda!
prá mim parece coisa de viado.
eu gosto mesmo é da rabada com agrião aqui da marquês de caxias, em niterói, às quintas feiras. mas tem que reservar, por que os taxistas vão de cambulhada. eles sabem o que é bom!
saudações rubronegras!
caíque.

heymercedes disse...

É difícil mesmo, Brasil, engolir essa babaquice que o globo escreve semana após semana... uma palhaçada esse circuitinho pseudo-culto da zona sul....