2.6.10

A SAUDADE DE UM FILHO

Há exatos oito anos, em 02 de junho de 2002, morria, cruelmente assassinado, o jornalista Tim Lopes. Há pouco mais de um mês, mais precisamente em 18 de abril de 2010, como lhes contei aqui, tive o prazer de conhecer Bruno Quintella, seu filho, graças à generosidade desse grande parceiro que é o Eduardo Carvalho, que o levou à mesa do BAR DO CHICO na manhã domingueira que, vez por outra, armamos por lá. Curioso é que, somente uns dias depois, alertado por Luiz Antonio Simas, fiquei sabendo que aquele malandro de olhos claros, fala mansa e um tremendo boa-praça é filho de Tim Lopes. Hoje, numa homenagem a ele, Bruno, publico texto de sua autoria, publicado em seu blog, o FACA AMOLADA, no dia 02 de junho de 2009, chamado SETE ANOS (aqui). Bonito pacas, o texto me fez chorar a partir do instante em que li:

"Hoje quero falar do meu pai. Não do jornalista Tim Lopes. Mas do pai Tim Lopes. Alguém mais sente essa falta? Não. Ninguém. A saudade é imensa e, há sete anos, todo mês de junho é assim."

Meu fraterno abraço pro Bruno, que é quem passa a lhes falar agora:

"Hoje eu poderia escrever mais uma vez sobre violência. Sobre tráfico de drogas e de armas. Também poderia discorrer ideias ou pensamentos criticando a política de segurança do estado - ou a falta dela. Muros da discórdia. Ou falar de assassinatos e torturas. Crimes e mortes. Falar sobre impunidade, redução de pena, progressão de regime, guerra de tribunais e tribunais de guerra. Legitimação do estado democrático de direito ou sua proclamação, ainda que tardia. Censura à imprensa por parte do governo. Censura à imprensa por parte do tráfico - ou da milícia. Relembar casos do jornalista Tim Lopes, da equipe de reportagem do jornal "O Dia" e do bravo fotógrafo André Az, por exemplo. Ou do crescente número de mulheres grávidas vítimas da violência. Filhos que morrem dentro das mães: mães que morrem dentro dos filhos. Também não seria novidade levantar outras questões, como o inferno que viveram agora - ou vivem - moradores de Copacabana e do Leme. Isso era coisa do subúrbio e zona norte, claro, fora Rocinha. Poderia reverenciar os últimos feitos em comunidades como o Batan, Cidade de Deus, Santa Marta, Chapéu-Mangueira. Vila Cruzeiro? Não, não vou tocar nesse assunto. Nem deveria, porque estamos cansados da violência, vivemos em eterno estado de ressaca moral, ou melhor, ressaca social. São comerciantes, empresários, policiais, taxistas, jornaleiros, jornalistas, fotógrafos: trabalhadores. São chefes de família. Nem todos são pais, mas todos são filhos. A violência não escolhe profissão nem cartáter. A violência, sim, é indiscutivelmente democrática.

Mas não. Hoje quero falar do meu pai. Não do jornalista Tim Lopes. Mas do pai Tim Lopes. Alguém mais sente essa falta? Não. Ninguém. A saudade é imensa e, há sete anos, todo mês de junho é assim. A temperatura é mais amena, mas o frio é sempre maior. O silêncio do outono fala mais alto. Lembro da minha infância, correndo pela redação do Jornal do Brasil, de O Dia. Dos almoços de domingo, dos jogos do Vasco no Maracanã, ainda quando começavam às cinco da tarde. "Olha, vai de calça, senão não dá pra entrar na tribuna de honra do Maraca" ou " aquele ali é Touguinhó, puta jornalista" ou ainda "Ih, o Aydano tá ali... Foge, foge, porque ele é flamenguista". O convite "Quer entrar em campo? Niltinho (fotógrafo) vai te colocar na boa, cola com ele, vai, vai" e a ideia sugestiva: "Vamos de ônibus, porque se formos de táxi, não vai rolar grana pro lanche no intervalo do jogo". E íamos, pai e filho, em direção ao Maracanã, eu de boné e calça num calor de fevereiro: "Se você vai de boné, mermão, não pode sentar na janela. Vai dar mole? Nego do lado de fora leva logo na mão grande. Fica esperto" - advertia ele, temendo pela minha falta de malandragem, coisa de quem foi criado nesse feudo social chamado Zona Sul.

Lembro dos almoços em botequins, cafés da manhã em padarias, da praia no Posto 8, da festa junina da Mangueira, do sítio de Saracuruna, do pôr do sol no Arpoador, dos passeios pelo calçadão, das viagens, da mesada, das matérias que vi nascer em mesas de bar - e depois estampadas na primeira página dos jornais. Outras que abriam o Jornal Nacional, ou ainda, as reportagens "do boa noite do JN. Vê lá, filhote, creditozinho do teu pai." E eu via, porque não sabia ainda que vaidade e orgulho eram coisas diferentes. O jornalista Tim Lopes era o meu pai? Não. O meu pai era o jornalista Tim Lopes. Como filho e também jornalista, não é fácil separar uma coisa da outra. Não que devamos desvencilhá-las, mas acho que sinto mais falta de um do que de outro. Não convivi com o jornalista Tim Lopes nas redações. Ouço as histórias, imagino os detalhes, como teria sido, como ele teria reagido em determinada situação, como conseguiu aquela entrevista. É como se percorresse um caminho de volta ao passado, sem nunca tê-lo vivido, mas que é trilhado pela saudade dos amigos e pela memória das matérias. Ler reportagens antigas, ou ainda ouvir "você é filho do Tim? Ô rapaz, teu pai certa vez...", me fazem ficar mais perto dele, do jornalista. Nunca vou saber como seria, mas posso ter uma ideia de como foi. Mas não em relação ao pai. Essa é a saudade que dilacera o homem. Todo dia o meu pai morre, porque acordo com ele vivo. Ouço suas palavras, me divirto com suas gargalhadas, me assusto com suas broncas em voz baixa, suas risadas desordenadas, seu olhar de criança. Mas no final do dia, acabo lembrando que ele não está mais aqui. Que não volta mais. Que nunca mais meu pai vai me dar um pito ou um abraço apertado, ou vai dizer: "meu filho, que orgulho! você agora é jornalista".

O que dá coragem de seguir em frente, é que todo dia meu pai, depois de morrer nasce mais forte, dentro de mim. E começo a entender: nunca me deixou. Sinto sua presença mesmo sem saber quando nem onde. Não saber, mas sentir. O amor de pai e filho não cabe em palavras nem lágrimas. Elas são apenas afluentes da saudade. O amor de filho aumenta a cada dia. E todo mês de junho, entre o dia de morte de meu pai e o dia do meu nascimento, separados por dez dias, me sinto mais próximo dele. Não porque vou ficando mais velho, mas porque vou me tornando mais homem, açoitado pela crueldade da morte, mas fortalecido pelo sofrimento da vida.

A primeira vez que andei sozinho na rua devia ter uns sete anos. Desci do antigo apartamento de meu pai, na Rua Jangadeiros, e fui à lanchonete da esquina comprar caldo de cana e pastel de queijo. Tudo era aventura: até apertar o botão do elevador. Atravessei a rua, estiquei a mão com o dinheiro e fiz o pedido. Lembro que comi em pé, só, olhando do balcão para a janela onde meu pai me fitava cuidadoso, mas desviava o olhar de quando em quando, para que eu tivesse a ligeira sensação de que estava sozinho no mundo. Aí, quando o flagrava me olhando de volta, ele acenava discretamente, esticando o polegar da mão direita e arriscava um assovio malandro, que só eu reconheceria. Ele sorria, sei porque enxergava seus dentes de longe. Talvez porque estivesse sorrindo com o coração. Estávamos felizes. E depois de limpar a boca com as costas da mão, me dirigi de volta pra casa, cheio de pose, aos sete anos, pensando: a rua é um palco onde tudo pode acontecer. Mal sabia eu que já era jornalista naquele tempo. Hoje sinto que estou andando pela primeira vez não na rua, mas na vida. E meu pai me olha de outro lugar e não da janela do apartamento. Ainda ouço o assovio malandro, lembrando feliz daquele tempo. Esse Tim Lopes não morreu.

E toda vez que volto pra casa, fecho os olhos, e consigo vê-lo esticando o polegar, sorriso malandro e penso: o coração é um palco onde tudo pode acontecer."


Até.

11 comentários:

Bruno Quintella disse...

Ô Edu... Obrigado pelo carinho. Dia difícil, frio, e ainda mais às vésperas da Copa do Mundo. Isso mexe muito. Mas me senti abraçado e confortado por suas palavras. O resto podemos arrematar numa mesa de bar aí da Tijuca, de preferência numa bela manhã de outono, rodeada de amigos.

Valeu pela força.

Forte abraço, companheiro.

Mariane disse...

Lindo! E que eles sigam em frente, em paz!

leo boechat disse...

Lindo texto.

Claudio Renato disse...

Minha total solidariedade a esse grande amigo que é o Bruno e também à mãe dele, a poetisa Sandra Quintella. Bruno é meu amigo e parceiro constante nas alegrias e nas tristeza. E não há uma só vez em que nos encontramos - e nos encontramos todos os dias - que o Bruno não fale com carinho e uma tremenda referência do pai, esse grande amigo também, o Arcanjo Tim Lopes. Obrigado por essa homenagem, Edu, porque a grande imprensa sofre de amnésia ou tem uma cruel memória seletiva.

CRAQUE DA GEMA!!! disse...

Chorei.

ricardo disse...

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caique disse...

Edu eu sou filho de um grande sujeito, que não está mais fisicamente conosco e sou pai de um moleque genial, que em breve vai ser teu colega de profissão.
Nó na garganta.
Total solidariedade e um abraço bem forte de um flamenguista pro Bruno.
Valeu.

Eduardo Goldenberg disse...

Bruno: não há o quê agradecer, camarada. "(...) me senti abraçado e confortado por suas palavras. O resto podemos arrematar numa mesa de bar aí da Tijuca, de preferência numa bela manhã de outono, rodeada de amigos." Dou-me por satisfeito por conta disso. E vou cobrar nosso encontro, hein! Abração, fique bem!

Claudio Renato: quero você conosco quando nos encontrarmos, hã?! Abração!

ricardo disse...

Edu, veja o que o Bruno escreveu no Blog 'Casos de Policia' do jornal Extra: http://extra.globo.com/geral/casodepolicia/default.asp?a=481

Eduardo Carvalho disse...

Edu,
como você - sei - imediatamente percebeu, o Bruno é um grande sujeito. Digo isso independentemente do fato de ele ser um irmãozaço que me foi dado pela vida.
E aqui você faz uma bela homenagem a ele e ao Tim. Choro agora como chorei ao ler o texto, há um ano, e quando perdi o convívio profissional (que apenas começava) com o Tim, quando nem imaginava que o Bruno apareceria pra nós - né não, Cláudio?
Um beijo, xará.

Bruno: como te disse ontem (a despeito dessa "mídia" de merda que temos por estas bandas): fica bem, meu amigo! E vamos ao copo. Beijo.

AOS QUARENTA A MIL disse...

Meninos jornalistas ! Tenho orgulho de vocês !!! Bruno um beijo no seu coração, Eduardo também !!!
Ai que dor ler isso .