1.7.10

DIPLOMACIA AO EXTREMO

Já lhes disse um sem número de vezes que na Tijuca tudo se sabe. Um segredo contado na Tijuca nada mais é do que o prenúncio inevitável de manchetes imaginárias espalhadas pelos outdoors do bairro. Mantendo a tradição tijucana vou lhes contar uma muito boa que veio à tona na segunda-feira à noite quando eu chegava das compras, depois da vitória do Brasil sobre o Chile naquela manhã. Mal entrei no prédio e dei de cara com a dona Semíramis que, com esse nome - creiam - é judia. Estava esbaforida num dos bancos dos jardins do edifício, mais portentoso que os da Babilônia. Vamos a um breve histórico familiar.

Semíramis é casada com o seu Ninrode, mais conhecido no pedaço como Nino. Ele, por sua vez, é amicíssimo do seu Brasil e freqüentador assíduo do BAR DO MARRECO. Têm um único filho, Tamuz, mais mimado que filho-emo de mãe compreensiva e tolerante. Tamuz é, entretanto, espada. Já perdi a conta do número de moças que atravessaram os portais do edifício de mãos dadas com Tamuz. De uns bons anos pra cá, entretanto, vejo que Tamuz - como me disse sua mãe, há tempos - "sossegou o facho". Seu Nino é louco pelo filho e conseqüentemente pela nora, está sempre tecendo e rasgando elogios à moça no balcão do buteco na esquina da Caruso com a Haddock Lobo. "Nada mais importante do que a harmonina em família", é seu chavão predileto. Aproximei-me, dei o boa-noite de praxe e perguntei diante da imagem daquela mulher em prantos:

- Tudo bem, dona Semíramis?

- Imagina! O Nino enlouqueceu!

Vamos aos fatos.

Deu-se que na segunda-feira, após o jogo, seu Nino foi pra rua festejar a passagem do Brasil para as quartas-de-final. Chegou em casa no final da tarde e encontrou as mesmas pessoas na sala, diante da TV. Estava passando a novela das seis. Pôs a chave na porta e pediu à mulher que desligasse a televisão. Ele tinha um importante comunicado a fazer. Semíramis, ligeiramente preocupada com o tom de voz do marido (pastosa também), desligou a TV. Diante da mãe, da sogra, de duas irmãs e quatro primas (a mesma escalação desde a Copa de 1970, tirante os falecidos) teve uma certeza que deixou escapar:

- Passando mal, bem?!

É que pela manhã, logo após o primeiro gol do Brasil, seu Nino chorou durante uns 15 minutos, levando a mão ao peito diversas vezes, anunciando, trágico:

- Vou morrer! Vou morrer!

Não era nada disso. Ele sentou-se à mesa. Pediu silêncio. As mulheres - dezoito olhos - se entreolharam. Antes, puxou um cigarro do bolso, acendeu com calma e pediu uma dose de conhaque à mulher. Lá foi ela servi-lo, bufando:

- Quanto mistério, meu Deus!

Voltou. Entregou o copo ao marido, sentou-se no sofá, ajeitou a saia, o lenço na cabeça, e houve uma atenção de nove silêncios:

- Bem... - pigarreou. Fez uma pousa longa esticando o pescoço pro corredor.

- O que foi, homem?!

- Tamuz não está, está?

- Não.

- Ótimo!

E prosseguiu:

- Vocês sabem que há uma possibilidade de... (bateu na madeira)... enfrentarmos a Argentina na final, não sabem?

Nove cabeças fizeram que sim.

- E sabem, claro que sabem, que o Tamuz está namorando uma argentina, não sabem?

O mesmo balé dos nove crânios.

- Pois bem. Em nome da diplomacia, em nome do Tamuz, a quem não quero magoar em nenhuma hipótesa, em nome da Eva (os olhos se encheram d´água), temos de ser rigorosamente isentos no dia 11 de julho. Isentos!

Pra quê? Deu-se a bulha.

Semíramis mal deixou o marido terminar:

- Peralá, Nino! Filho é filho, nora é nora, Copa é Copa! Euzinha? Isenta? Nunca!

As demais mulheres insinuaram um protesto:

- Exagero, Nino!

- Nem o Tamuz vai ser isento!

- Devagar com o andor, Nino!

- É! O santo é de barro!

Semíramis sapateava sobre os tacos da sala e dizia impropérios ao marido. Tentou ser didática a fim de demonstrar o absurdo da proposta:

- Vem cá, meu filho... E esse homão que chorou hoje no primeiro gol... Vai ser isento se a gente sacudir a rede dos hermanos?!

As outras riram. Nino ficou nervoso, estrilou:

- Tão rindo do quê?! Velhas! Caquéticas!

A mãe e a sogra iam reagir quando ele socou a mesa com força fazendo quicar o cinzeiro e o copo:

- Desculpa, desculpa... Perdi a cabeça...

Pôs as duas mãos no rosto, desceu as mãos em direção ao queixo e disse:

- Exagerei, vá lá. Sejamos então, pelo menos, comedidos!

Tudo de novo.

A mulher estacou diante de dele com as mãos na cintura:

- E o bebê-chorão vai conter as lágrimas? Seu comedimento será capaz disso, Nino?! Ora, vá lamber sabão!

Nino ergueu-se e foi até a porta. Perguntou:

- Tamuz assistiu o jogo aonde?

- Na casa da Eva, Nino. Você está cansado de saber disso!

- Pois eu vou convidar a Eva pra vir ver a final aqui conosco. E quero ver qual de vocês será capaz de um gesto de deselegância!

- Aqui, não, Nino! Aqui, não!

- A casa é minha, Mirinha. Mando eu!

Antes de sair batendo a porta, fez a ameaça:

- Vou sair. Não volto hoje. E atenção, bruacas! No dia da final, juízo!

Estava lá, na portaria, desolada, dona Semíramis.

Achei melhor atender ao pedido do seu Nino, com quem havia encontrado, minutos antes, na saída do supermercado, na QUITANDA ABRONHENSE. Lá estava o velho Nino, judeu ortodoxo de araque, combinando com a macumbeira mais famosa da rua do Matoso um trabalho pesado pra que a Alemanha detone, de vez, a Argentina da Copa do Mundo.

Até.

9 comentários:

caique disse...

hahahahahahaha
hilário, edu! cheguei até a imaginar os tacos do apartamento, o lenço na cabeça da dona mirinha e o copo de conhaque... imaginei seu nino de calça cinza, camiseta sem mangas branca e por cima uma camisa quadriculada de azul claro e branco, aberta.
hahahahaha genial!
Caique

ricardo disse...

kkkkkkkkk....to me acabando de tanto rir!!!
Não sei de onde vc tira essas historias, ou se são verdadeiras de fato!!!!

Essa, do judeu ortodoxo de araque, combinando com a macumbeira mais famosa da rua do Matoso...foi genial!!!

Myriam disse...

Mas, Eduardo, nada mais tijucano do que isso!

Você pode, como eu, ser neta de árabe e namorar um judeu. Tudo isso na Tijuca, onde uma sinagoga ortodoxa na Conde de Bonfim fica ao lado de um centro espírita (ou asilo mantido pelo centro) e, do lado oposto, quase em frente à igreja maronita Nossa Senhora do Líbano. E viva nosso amado Brasil, onde diferentes culturas vivem e interagem harmoniosamente.

Aliás, meu pai frequentava Umbanda e eu sou Kardecista. Insh'allah!!! Salaam/Shalom e muita PAZ a todos.

Capilo disse...

seu nino estará tranquilo agora que o brasil de dunga e felipe melo foi desclassificado. torcerá pela argentina? na expectativa de um segundo capítulo...

Eugenia disse...

Essa crônica tá ótima. Eva deve estar rindo à toa...

Eugenia disse...

Hey! Edu, diz qto vc ganhou no bolão...risos

ricardo disse...

Edu, a Myriam deu uma boa idéia sobre um assunto que eu acho que te interessa: Fale sobre os Templos religiosos da Tijuca e seus frequentadores, em especial os proximos a Rua do Matoso.

Myriam disse...

Ah, isso é verdade: tantos templos, macumbeiros, igrejas, etc... A Tijuca é o que há de melhor no quesito religiosidade e no quesito imigração/diversidade cultural.

Quando há jogo no Maracanã, eu que sou botafoguense, nunca sei quem fez o gol, porque os fogos pipocam mesmo dos times adversários!

Tijuca é um caso a parte, isso é fato. E é isso que faz com que amemos esse pedaço de terra encravado no nosso querido RJ, tão massacrado pelos políticos inescrupulosos mas que resiste bravamente por causa de sua gente.

AOS QUARENTA A MIL disse...

Macumbeira boa da peste!

Dificil pra mim , é achar as palavras de "tom correto" que com quase dois anos de Buteco não aprendi usar.
Texto bom do c@#!*&¨% !
Você é um escritor do c@@!$%$#@

Arriba Uruguai!