14.7.10

EXTRA TIJUCA NULLA SALUS

Fora da Tijuca não há salvação. A frase, que encerra uma verdade insofismável, reiteradas vezes dita (e escrita) por Danilo Medeiros*, exilado em São Paulo (mais precisamente no Brooklin Velho), é, na minha humílima e tijucaníssima opinião, de fato incontestável. Vejam vocês.

Meu queridíssimo Felipe Quintans, o espanhol Felipinho Cereal, está, desde o sábado passado, passeando pela Europa, um sonho que o tijucano acalenta desde o berço. Foi passar as férias por lá na companhia de mais de duas dezenas de Quintans, aos quais se refere, carinhosamente, como "galegada". Serão exatos 30 dias de férias, de merecidas férias. O roteiro inclui a França, a Holanda, a Bélgica, Portugal e a Espanha.

Eis que tenho recebido, com inesperada freqüência (afinal imagina-se que alguém, flanando noutro continente, tenha pouco tempo para essa prática), mensagens pelo celular, por e-mail e mesmo pelo twitter denunciando um sofrimento agudo por parte do Felipinho. Agradecendo o envio que fiz de fotografias da parcela da família Quintans que ficou no Rio no dia da final da Copa, ele disse: "Belas imagens com minha família, obrigado. Que saudades da Tijuca. Paris não chega nem aos pés.". E sempre por aí.

É o que eu queria lhes dizer. O cara está em Paris, diante da Torre Eiffel e tem saudade da escultura dos cachorros da praça Afonso Pena. O sujeito entra no Louvre e gane de saudade do museu da Quinta da Boavista. Pisa em Amsterdam, atravessa um dique qualquer e tem a visão do rio Trapicheiros. Visita o bairro da luz vermelha e chora lembrando da Vila Mimosa. Na Bélgica, com uma trapista nas mãos, lembra da casco-escuro do BAR DO MARRECO. Em Portugal, lamenta a distância da CASA DA VILA DA FEIRA E TERRAS DE SANTA MARIA. E na Espanha, mesmo entre os parentes nativos, tem alucinações pensando na casa de pedra da Almirante Gavião, verdadeira embaixada da Espanha na Tijuca.

É na Tijuca, meus poucos mas fiéis leitores, que reside o que há de mais bacana e bonito no Rio de Janeiro. Há o subúrbio, é claro, que também me comove. Mas a Tijuca é mais: a Tijuca concentra a informalidade da beira da praia sem a inconveniência da maresia que corrói os eletrodomésticos, a suprema elegância da solidariedade que reina no mais recôndito subúrbio, a fofoca lancinante que rasga biografias, a fé brasileira que une católicos, espíritas, macumbeiros, judeus ortodoxos, protestantes e evangélicos numa única rua (e mais de uma, e mais de uma!), a sobriedade dos melhores restaurantes, a simplicidade dos botequins mais vagabundos, e as moças - as moças... - mais bonitas do Brasil.

Sobre isso, sobre as moças, um testemunho.

Bebia eu, em meados de 1999 - eu havia acabado de me separar - na companhia de meu velho pai, de Aldir Blanc e do mestre do traço, Lan, num buteco pé-sujo na Conde de Bonfim, próximo à rua Garibaldi. Cerveja pra lá, conhaque pra cá, traçado pra lá, limão da casa pra cá, disse o Lan, vendo passar uma normalista, com seu sotaque inconfundível:

- Aldir, as pernas mais bonitas do Brasil estão na Tijuca.

Deu mais um gole. E fez a emenda:

- As pernas, só, não. As moças, Aldir, as moças...

Até.

* a frase reiteradas vezes dita por Danilo Medeiros é, em nome da verdade, "a Tijuca é a única saída".

2 comentários:

Danilo disse...

Brilhante texto, caríssimo. Obrigado pela honrosa menção. Uma breve correção - a frase, na verdade, é "A Tijuca é a única saída". Por mais tola que esta retificação possa parecer para mim faz uma grande diferença.

Grande abraço!

Eduardo Goldenberg disse...

Correção feita, Danilo. A Tijuca o aguarda de braços abertos.