23.9.10

VEJA CONTRA BRIZOLA EM 1982

Prossigo hoje exibindo as barbaridades perpetradas, desde sua fundação, pela revista VEJA. Pra quem ainda não viu, aqui, aqui e aqui eu já dei bem uma mostra do que a revista da ABRIL faz com o jornalismo que diz representar. São matérias rigorosamente parciais, prognósticos quase sempre desastrosos e um desserviço ao Brasil. Hoje, na quarta série, exponho diversas capas, reportagens, editoriais e fotografias das edições de 1982, quando tivemos as primeiras eleições diretas para governadores de Estado depois dos anos de chumbo. No Rio de Janeiro, a seqüência é implacável na demonstração disso, Leonel Brizola, o velho caudilho, guerreiro sempre ao lado do povo, deu uma lição na revista - e na TV GLOBO, que fez o que pôde para usurpar a vontade do povo do Rio de Janeiro que, por duas vezes, o consagrou nas urnas.

Nesta primeira capa, de abril de 1982, vê-se Sandra Cavalcanti, a mais-querida da revista, tratada como um fenômeno. 


Querem saber como a VEJA tratava o futuro governador do Rio de Janeiro? Com deboche, como a imagem da matéria deixa claro, a revista VEJA, já aí demontrando seu talento para prognósticos, diz que Leonel Brizola é um "candidato sem chances do PDT ao Palácio Guanabara". Vamos acompanhando o correr dos meses, e das edições, para ver como corria (e como ainda corre!) o barco apriliano.

Devo dizer que a simples menção ao nome de Leonel Brizola era raríssima, mesmo com o crescimento de sua candidatura. E quando era mencionado, era com deboche, com baixeza, com evidente espírito de ódio. 


Só fui encontrar mais sobre Brizola na edição de 22 de setembro de 1982, quando estávamos a dois meses das eleições. Abaixo, a imagem da capa da referida edição, com matéria no interior da revista (nunca na manchete) indicando - com a pecha do ridículo - o crescimento de sua candidatura. Vejam lá.


Tratado com desdém, Leonel Brizola é, para a revista, "a moda carioca da próxima temporada". Seu nome, segundo a VEJA, "emergia da água rasa das pesquisas eleitorais com 12%". Seu nome, para eles, tomava conta do "berço das manias da cidade" - a zona sul. Como se Brizola não tivesse, também, forte - fortíssimo! - reduto eleitoral na Baixada Fluminense, entre o povo mais simples e mais humilde, no interior - em Volta Redonda, conta-se, mais de 80% dos votos foram para ele.  


Uma semana depois, na edição de 29 de setembro de 1982, a revista VEJA publicava a sétima pesquisa VEJA-GALLUP sobre a eleição.


Já com um discurso transformado - e já jogando na lata do lixo a previsão feita em abril - a revista noticia, na matéria "Um quarteto com chances" que Miro Teixeira, Sandra Cavalcanti, Wellington Moreira Franco e Brizola "dividem o eleitorado fluminense e todos podem vencer". Mas ainda assim a revista não perdeu a oportunidade de mais uma bola fora. Notem bem: "O crescimento de Brizola é consistente, contínuo, mas ele ainda esbarra nas diminutas dimensões do PDT (...)".


Mais uma semana e estamos em 06 de outubro de 1982. É publicada mais uma pesquisa e, dessa vez, o gráfico das pesquisas aparece na capa da revista. É importante notar que, em 1982, as pesquisas não registravam, com a velocidade captada hoje, a migração de votos de um candidato para outro. Mas é curioso perceber que uma semana depois, aquele candidato que estava 12 pontos percentuais atrás da primeira colocada figurava já na liderança, com 24% do eleitorado contra 21% do segundo, 15% da terceira e 12% do quarto. Uma eleição quente, como se vê, disputada voto a voto. Mas o mais curioso - e mais repugnante - está por vir. Acompanhem.


Em editorial desta mesma edição, de 06 de outubro, Elio Gaspari - são dele as iniciais E.G. que assinam o texto -, então editor da revista, faz uma análise das eleições que ele considera "a mais apaixonada do país". Até aí, nada. Mas tirem as crianças da sala para acompanharem o que diz o editor na "Carta ao Leitor".

"No caso de Brizola, por exemplo, votar nele não significa apenas apoiar suas críticas aos governos federal e estadual. Significa, também, anistiar suas aventuras anistiadas, como sua conexão cubana, e sua demagogia do presente (...)."

Que tal?


Abaixo, uma fotografia de Leonel Brizola em carreata pelas ruas de Niterói, reduto político seu até seus últimos dias. E ainda hoje. Vá a Niterói, ouça o povo de Niterói e você verá que o velho caudilho vive, ainda, no imaginário do povo. 


Três semanas depois, estamos em 17 de outubro de 1982. A VEJA publica, nesta edição, a nona rodada de pesquisas, anunciando, em matéria sobre as eleições, um "novo salto de Brizola".


A revista começa a se render às evidências e anuncia que "o candidato do PDT se isola na liderança". Lê-se, na matéria, uma fala de Brizola que seria uma de suas marcas. Falando sobre seus adversários diretos, disse o saudoso líder:

- Vamos engoli-los como se toma um prato de mingau: pelas bordas.


Na primeira edição de novembro, as eleições ganham, novamente, a capa. "QUEM AVANÇA NA RETA FINAL" é a chamada. Entre os que avançam está lá, o segundo da esquerda para a direita, Leonel de Moura Brizola.


Abaixo, ao lado de Saturnino Braga, e cercado por eleitores, Leonel Brizola.


E finalmente, na edição do dia 24 de novembro de 1982, Leonel Brizola já consagrado nas urnas, aparece na capa ao lado de Franco Montoro, eleito governador de São Paulo. No interior da revista, como de se esperar, nenhuma espécie de retratação, nenhum pedido de desculpas pelo fracasso retumbante diante da vitória maiúscula do "candidato sem chances"


Recomendo vivamente que vocês cliquem na imagem abaixo e leiam a matéria "A vitória em ritmo de samba-enredo". A leitura lhes dará exata dimensão da grandeza de Leonel Brizola, a possibilidade de viver seus sentimentos entre a votação e a apuração dos votos, sua certeza de vitória a despeito do golpe e do escândalo Proconsult engendrado pela mais poderosa rede de comunicação do Brasil, a GLOBO, e a certeza de que não é de hoje que a VEJA se presta aos mais abjetos objetivos. 


Até.

7 comentários:

leo boechat disse...

Ótimo levantamento, Edu. Suas pesquisas no acervo da Veja estão rendendo excelentes postagens. Daqui a pouco já é um livro.

Abraço.

FVale disse...

se encontrar uma "reportagem" que dizia que o assassinato de PC Farias tinha sido crime passional...foi quando parei de levar essa revista a sério.

parabéns

Fernào

Eduardo Carvalho disse...

Edu, mais um golaço contra esse câncer brasileiro que é a direita e boa parte da imprensa, que não raro me envergonha por ser jornalista.

Abração e continua porque tá demais!

aracy disse...

Até o Miro Teixeira se bandeou pro Brizola.

ione disse...

Edu,
Muito boa asua análise histórica!
Não sei se lembra de uma tal 'Proconsult', empresa que, salvo engano, fazia a totalização dos votos das eleições de 1982. Eu era pirralha tanto quanto você, mas é claro na minha cabeça que essa tal empresa tentou burlar o resultado das urnas, atribuindo os votos em branco e nulos ao Moreira Franco, que era o número 1. Mas foram pegos com as calças na mão! E a TV e os jornais deram todo o serviço depois.

Eugenia disse...

quem tem mais de 30 e morava no Rio talvez se lembre que a queridinha da Veja, Sandra Cavalcanti, foi acusada - e todos diziam que era mesmo verdade - de comandar o extermínio de mendigos na cidade.

Gabriel - Valdiran disse...

A veja sempre imparcial !